sábado, 11 de julho de 2026

20 anos de Suffocation do Suffocation!!!


O Suffocation nasceu em 1989, em Nova York, numa época em que o death metal americano já havia cravado seu nome na história como um dos mais insanos e influentes do planeta. Nem por isso a banda resolveu ser apenas mais uma cópia dos gigantes que já dominavam o estilo. Muito pelo contrário. O Suffocation carrega o estigma — e também o mérito — de ser um dos criadores do technical brutal death metal, subgênero que une a brutalidade de um som ignorante e doentio à complexidade de quebras de ritmo, baterias repletas de viradas intrincadas, guitarras dissonantes e um alto grau de virtuosismo.

Neste álbum autointitulado, o quinto da carreira, encontramos exatamente essa combinação explosiva. O que o diferencia de muitos outros trabalhos do estilo é seu andamento mais arrastado, como se o caminhão do sorveteiro do inferno estivesse subindo uma ladeira enquanto o sujeito lá dentro congela membros amputados e embalados a vácuo. A violência continua presente, mas é conduzida por um peso quase sufocante.

Há espaço até para melodias inesperadas, como na introdução de "Redemption", que logo desemboca em um longo solo de guitarra. Já "Translucent Patterns of Delirium" talvez seja o maior exemplo da proposta técnica do álbum, apresentando riffs que desafiam qualquer lógica estabelecida dentro do death metal.

E é curioso falar em padrões dentro do heavy metal, um estilo que nasceu justamente para defender a liberdade de expressão e de escolhas, mas que, no fim das contas, acaba se tornando refém de uma característica tipicamente humana: a necessidade de criar rótulos e regras.

Já que o assunto são guitarras, faça um favor a si mesmo e ouça o solo de "Creed of the Infidel". Está entre os melhores que o Suffocation já compôs.

Outro aspecto que merece destaque são os vocais de Frank Mullen. Não é por acaso que ele é apontado como uma das maiores influências para vocalistas do death metal moderno. Seu gutural gravíssimo, surpreendentemente inteligível em boa parte do álbum, ajudou a consolidar o death growl como referência dentro do estilo. Além disso, surgem alguns fraseados que lembram os pig squeals, aquele vocal que mais parece um porco enfurecido sendo esfaqueado.

A arte da capa, assinada por Jon Zig — conhecido por trabalhos com bandas como Exhumed e Averse Sefira —, retrata um cenário sombrio e desolado, povoado por esqueletos soterrados e demônios errantes. O logotipo da banda e seu símbolo ocupam posição de destaque na parte superior da composição, resultando em uma ilustração simples, mas extremamente eficiente.

E como presente temos uma regravação da música "Prelude To Repulsion", faixa do eterno clássico trabalho Breeding the Spawn de 1993, que novamente ficou arrasadora.

Completam a formação Terrance Hobbs e Guy Marchais nas guitarras, Derek Boyer no baixo e Mike Smith na bateria.

Material absolutamente não recomendável para ouvidos sensíveis.


 

sábado, 4 de julho de 2026

20 anos de Transcendental do Imago Mortis!!!


O terceiro trabalho dos cariocas do Imago Mortis é Transcendental. Liderada pelo vocalista Alex Voorhees, a banda contava com Dennis Pombo e Rafael Bianzeno nas guitarras — este último também responsável pelas passagens de violino. A formação se completava com Bruno Coe no baixo e André Delacroix na bateria. Já o tecladista Pedro Santos aparece como músico convidado, embora participe de metade das doze faixas do álbum.

A banda continua trilhando o caminho do doom metal, ainda que incorpore, em diversos momentos, influências de power metal e até de thrash metal, como acontece na agressiva "Kali Yuga". Curiosamente, a música traz um órgão Hammond em destaque, instrumento que vez ou outra aparece em algum trabalho de metal, mas com o qual confesso nunca consegui me acostumar.

Há espaço também para um quase death/thrash em "Sangue e Dor", a faixa mais agressiva do disco e a única cantada em português. Em contrapartida, a abertura formada por "Hall of Souls" e "Across the Desert" mergulha de cabeça no épico doom metal, agradando facilmente aos fãs de Candlemass e Solitude Aeternus.

A participação especial de Melissa Matos, creditada como Mel Bôa Morte e conhecida por sua passagem pela banda de gothic metal Trinnity, enriquece "Searching for a Touch of Divinity" com seus vocais femininos.

O trabalho das guitarras merece elogios à parte. Em alguns momentos, como na belíssima "Love Path", as melodias remetem ao My Dying Bride, especialmente à fase de Like Gods of the Sun.

Meu momento preferido, no entanto, é a épica "Undrying Tears". Talvez porque ela faça parte de uma de minhas coletâneas pessoais de muitos anos atrás, mas também porque reúne com enorme competência diferentes atmosferas e elementos musicais, conduzindo o ouvinte de um sentimento a outro com naturalidade, classe e desenvoltura. É impossível não reservar um lugar especial para uma composição como essa.

Como bônus, o álbum ainda traz "Bring Out Your Dead", clássico absoluto e provavelmente a música mais conhecida da banda, originalmente lançada no álbum de estreia, em 1998.

Transcendental é mais uma prova da enorme qualidade do vasto e poderoso cenário nacional, e chega aos vinte anos como um trabalho que merece ser redescoberto.


 

domingo, 28 de junho de 2026

20 anos de Triumph Or Agony do Rhapsody!!!


Confesso que, em 2006, o Rhapsody já não era mais um nome presente em meu radar metálico como havia sido nos primeiros anos. A banda parecia ocupar mais espaço nas discussões sobre os direitos de seu próprio nome do que em meu aparelho de som. Também era um fenômeno que conquistava rapidamente uma parcela mais jovem dos fãs de metal, aqueles que não suportavam o sangue e os zumbis de bandas como Cannibal Corpse e passavam as tardes de sábado jogando RPG como se os poderes das cartas emanassem de seus próprios corpos.

Ouvindo Triumph or Agony hoje, percebo uma banda que se aproximou muito mais de uma trilha sonora para jogos de fantasia do que propriamente de uma banda de metal. E isso não é necessariamente um defeito. O álbum é agradável, os corais são empolgantes e a voz de Fabio Lione continua cativando por sua beleza natural. O problema é que as guitarras de Luca Turilli passaram a exercer um papel quase figurativo dentro do conjunto da obra, enquanto vocais, corais e orquestrações assumiram definitivamente o protagonismo.

Alguns solos, como os de "The Myth of the Holy Sword", ainda preservam resquícios do heavy metal que consagrou a banda, mas quem realmente dita as regras aqui é a orquestra. A redução da duração das faixas foi uma decisão interessante, embora a épica "The Mystic Prophecy of the Demonknight" ultrapasse os dezesseis minutos. Felizmente, suas diversas mudanças de andamento justificam a extensão, principalmente quando a criatividade da banda explode na parte mais agressiva da música, por volta dos nove minutos e meio.

As baladas também marcam presença. Entre elas está "Il Canto del Vento", cantada em italiano, língua natal da banda. Ainda assim, em vez de apostar em uma abordagem mais folk, baseada apenas em voz e violão, o Rhapsody novamente entrega o protagonismo às orquestrações, que ocupam praticamente todos os espaços.

"Silent Dreams" é uma das raras ocasiões em que as guitarras recebem maior destaque. Mesmo sem fazer da velocidade uma prioridade, a faixa desperta uma nostalgia que remete aos primeiros trabalhos do grupo.

No fim das contas, Triumph or Agony não é um álbum indicado para quem pretende extravasar como faria ao ouvir um verdadeiro disco de heavy metal. Agora, se a ideia é colocá-lo para tocar enquanto você mergulha em um bom livro de fantasia, no melhor estilo O Senhor dos Anéis, aí sim, criatura noturna, você estará muito bem equipado — e melhor acompanhado.

 

20 anos de The Nether Hell do Scars!!!


Uma amiga de Barueri/SP me enviou de presente o EP The Nether Hell, da banda paulista Scars, em uma época em que a comunidade metal ainda trocava cartas e material pelo Brasil afora, sem que as pessoas sequer se conhecessem pessoalmente. Aquele presente abriu as portas para que eu conhecesse uma banda sensacional, que anos mais tarde estaria concedendo uma entrevista aos nossos canais.

A qualidade de The Nether Hell é um primor, seja na produção, na arte gráfica ou, principalmente, na música. O Scars entrega um thrash metal agressivo que agrada facilmente aos fãs de Exodus e Korzus, já que o timbre de voz de Régis lembra bastante o de Marcello Pompeu. Os riffs de Alex Zeraib e Eduardo Boccomino transbordam peso e distorção, deixando evidente um trabalho construído com dedicação e capricho.

O baixo de André Sterzza ganha destaque em "Hidden Roots of Evil", apresentando uma performance diferenciada. Aliás, a faixa que encerra o EP carrega fortes influências do death metal e uma agressividade fora do comum. A escolha de "Creatures That Come Alive in the Dark" para abrir o trabalho foi mais do que acertada, já que essa porrada não dá ao ouvinte sequer um instante para respirar. É um verdadeiro arrasa-quarteirão, apresentando a banda de maneira bombástica, enquanto a faixa-título, um pouco menos acelerada, cria o clima ideal para apreciar suas melodias raivosas.

Curiosamente, as músicas já estavam prontas quando a banda decidiu criar um conceito lírico para o EP. A inspiração veio de Inferno, de Dante Alighieri, obra que o guitarrista Alex havia lido algum tempo antes e que se encaixava perfeitamente na mensagem que pretendiam transmitir, estabelecendo um paralelo entre os pecados descritos por Dante e a corrupção humana. Para ilustrar a capa e todo o encarte, foram utilizadas obras de Gustave Doré, Sandro Botticelli e Amos Nattini, artistas que, ao longo dos anos, eternizaram visualmente o universo criado pelo escritor italiano. O resultado é um conjunto gráfico que amplia ainda mais a atmosfera sombria e o conceito do trabalho.

The Nether Hell é um EP com a força, a consistência e a missão de um álbum completo. Um lançamento que jamais deveria ser esquecido.



 

domingo, 14 de junho de 2026

20 anos de A Light In The Dark do Metal Church!!!

Parece que os americanos do Metal Church estavam tentando evocar a arte de seu primeiro e aclamado álbum autointitulado de 1984, com a clássica guitarra cruciforme tombada na capa. Ou talvez fosse apenas uma lembrança deliberada dos velhos tempos, já que este oitavo trabalho, A Light in the Dark, também remete ao segundo petardo da carreira, The Dark, no título.

Era o primeiro álbum sem o baterista original Kirk Arrington. As baquetas ficaram a cargo de Jeff Plate, ex-Savatage e integrante do Trans-Siberian Orchestra. E o que posso dizer é que Plate fez um trabalho excelente. Grande baterista, encaixou-se perfeitamente na proposta da banda.

Como de costume, o Metal Church seguia mesclando um heavy metal mais melódico com um thrash metal sem tanta agressividade, resultando em um power metal encorpado e distante da velocidade apresentada nos primeiros anos. Ainda assim, o álbum proporciona uma audição extremamente prazerosa, alternando momentos mais introspectivos, como em "The Believer", e passagens mais aceleradas. O mais próximo de um speed metal que você encontrará aqui é a ótima "Mirror of Lies".

Os vocais de Ronny Munroe transitam entre o melódico e o áspero. Isso já fica evidente na faixa-título que abre o álbum, onde sua interpretação combina muito bem com a atmosfera da fase clássica da banda.

A sexta faixa entrega aquele épico que sempre agrada aos fãs do estilo, com seus quase dez minutos de duração. "Temple of the Sea" começa de forma melódica, com destaque para o baixo de Steve Unger, e de repente mergulha em um terreno mais agressivo, acompanhado por uma letra de tom quase apocalíptico.

Jay Reynolds e Kurdt Vanderhoof caminham com segurança por todo o trabalho. Seja nos riffs, solos ou melodias, a dupla demonstra experiência suficiente para não se aventurar em terrenos de areia movediça.

Outras faixas em que Munroe apresenta um vocal mais agressivo são a poderosa "Pill for the Kill" e "Son of the Son". Nesses momentos, fãs de Accept e talvez até de Grave Digger certamente se sentirão em casa.

O lendário vocalista David Wayne, responsável pelos dois primeiros álbuns da banda e também pelo retorno em Masterpeace, de 1999, havia falecido em maio de 2005, pouco tempo após um grave acidente automobilístico. Em sua homenagem, a banda regravou a clássica "Watch the Children Pray", uma das grandes músicas de The Dark, lançado em 1986.

Curiosamente, aquele mesmo álbum havia sido dedicado a Cliff Burton, que faleceu poucos dias antes de seu lançamento. Como muitos já sabem, o Metallica costumava ensaiar e se reunir no apartamento dos integrantes do Metal Church antes de alcançar o sucesso mundial.

São coincidências e conexões que tornam a história da banda tão interessante quanto sua própria música.


 

sábado, 6 de junho de 2026

20 anos de Bleeding in the Shades of Baphomet do Evil War!!!


Dizem que banda de black metal sem polêmica não ganha notoriedade na cena. Em alguns casos, até concordo. Quando a banda é ruim mesmo, nada melhor do que queimar algumas igrejas e matar uns coleguinhas para ficar famosa. Mas não era o caso do Evil War, cujo som sempre foi muito bom ao longo de seus curtos nove anos de existência.

Quando éramos adolescentes de dezoito anos e acompanhávamos a cena de Curitiba, que se destacava no black metal nacional, vivíamos uma realidade bem diferente da atual. Em uma era sem internet, sobrevivíamos de rumores, escolhíamos lados, fazíamos alianças e até brigávamos sem ter certeza do que realmente acontecia no sul do país. Algumas histórias diziam que Murder Rape e Amen Corner eram bandas inimigas, algo que acabou sendo desmentido ao longo dos anos.

O que realmente ocorreu foi uma rixa interna no Murder Rape, culminando na saída de três integrantes e no nascimento da blasfema Evil War, em 1999. Com o passar do tempo, entre casos de suicídio e conversão ao cristianismo, a banda acabaria encerrando suas atividades. Antes disso, porém, lançou seu derradeiro opus em 2006, apenas dois anos antes do fim.

Mesmo tendo permanecido fiel à proposta black metal durante toda a carreira, Bleeding in the Shades of Baphomet é, sem dúvida, o trabalho mais black metal do Evil War. A banda mudou de logotipo pela terceira vez, trocou a parceria com a Somber Records pela Mutilation Records e passou por alterações importantes na formação. O vocalista original Sabatan deixou os vocais para que o guitarrista Halphas assumisse a função, enquanto Shaitan, que anos depois gravaria o clássico Chri$t World Corporation com o Amen Corner, entrou na vaga de Typhon Set. O baterista Ichthys Niger, um dos fundadores do Evil War, permanecia firme na formação.

O som ficou mais próximo daquilo que as bandas norueguesas faziam na época, e é justamente daí que vem minha afirmação de que este é o álbum mais black metal da carreira do grupo. Os riffs são excelentes, como os de "Deluge of Blood", claramente influenciados por nomes como Immortal. A bateria apresenta um timbre limpo e definido, alternando momentos de velocidade, passagens conduzidas por pedais duplos e batidas diretas, sem floreios técnicos, mas carregadas de força.

Os vocais de Halphas são predominantemente rasgados, contrastando com Sabatan, que recorria com frequência aos guturais. Gravado no Estúdio Clínica e produzido por Murilo da Rós em conjunto com a banda, o álbum apresenta uma sonoridade muito acima da média, talvez uma das melhores produções já alcançadas dentro do underground nacional de black metal.

E, para fechar a saga do escudo — citada nas resenhas que fizemos dos dois primeiros trabalhos —, ele aparece aqui revigorado, pronto para uma nova batalha que, infelizmente, jamais aconteceu.


 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

20 anos de The Beauty And The Beer do Tankard!!!


Confesso que, logo de cara, ao ouvir "Ice-Olation", pensei: "ok, o mesmo de sempre, nada demais". Começar uma resenha do décimo segundo álbum de estúdio de uma das maiores bandas de thrash metal dos anos 80 dessa forma talvez não fosse muito justo. Ainda bem que a sequência de músicas não segue esse padrão. Graças a Baco, não segue.

A cerveja, como sempre, é um dos temas preferidos do quarteto, ainda mais quando o petardo se chama The Beauty and the Beer. A bela retratada na capa também deve ter povoado o imaginário de muitos thrashers adolescentes, que certamente sonharam em ocupar o lugar da criatura alienígena.

A partir da segunda faixa, a excelente "We Still Drink the Old Ways", o álbum engrena de vez. As músicas parecem disputar entre si qual será a melhor. E isso inclui "Rockstars No. 1", talvez a faixa mais criticada do trabalho. Com breakdowns interessantes e um riff marcante, um tanto americanizado, ela acabou sendo rejeitada por alguns fãs. Eu, particularmente, gostei bastante.

Escolher uma música essencial aqui não é tarefa fácil. Há várias candidatas. A faixa-título, por exemplo, traz uma estrutura que remete ao thrash dos anos 90, quando o estilo parecia flertar cada vez mais com o power metal. Já "Metal to Metal" é simplesmente sensacional e está entre as melhores composições da carreira da banda. Sua introdução carrega uma melodia quase sinistra, algo que normalmente não associamos ao Tankard, mas que combinou perfeitamente com meus ouvidos.

Os solos de guitarra são outra atração à parte. Em alguns momentos, a banda nem perde tempo e já começa a música solando, como acontece na ótima "Forsaken World".

Confesso que senti falta daquela faixa mais pesada e arrastada que o Tankard costumava encaixar em seus discos. O mais próximo disso aparece no início de "Dirty Digger", que une crítica política e riffs empolgantes até o último segundo.

Com Gerre nos vocais, Frank Thorwarth no baixo, Andy Gutjahr na guitarra, Olaf Zissel na bateria e Andy Classen produzindo toda a bagaça, o Tankard forjou uma verdadeira obra-prima.

The Beauty and the Beer merece ser ouvido. Talvez com uma bela ao lado. Mas certamente com uma cerveja na mão.