Dante XXI, obra do Sepultura baseada nos poemas de Dante Alighieri em A Divina Comédia, marca de forma bastante simbólica algumas fases importantes da trajetória da banda de Belo Horizonte. É o décimo álbum da carreira, já com dez anos de estrada sem o vocalista e guitarrista Max Cavalera, e também o último trabalho a contar com seu irmão Iggor Cavalera na bateria. Quer mais? Talvez não seja consenso geral, mas Dante XXI pode ser considerado o primeiro álbum da era Derrick Green que realmente merece uma atenção mais cuidadosa.
Nesta fase da banda, o disco funciona como uma espécie de virada de chave, momento em que parte dos fãs passou a olhar o Sepultura com menos desconfiança. Em minha opinião, “False” é a primeira música a realmente chamar atenção na sequência do play, com riffs pesados e carregados de groove — mas não aquele groove arrastado e previsível, e sim algo mais próximo da pegada thrash metal. O vocal de Derrick aparece mais gutural (oh glória). Antes dela, “Convicted in Life” já dava sinais dessa mudança positiva, enquanto “Fighting On” mantém peso e agressividade, com a guitarra de Andreas Kisser remetendo à fase de Chaos A.D. (oh glória II — e nada a ver com o nome da esposa de ninguém, é louvor mesmo!).
Interessante notar que as três intros do álbum marcam o início das músicas de acordo com as três partes do livro: “Lost” abre o caminho para o Inferno, “Limbo” introduz o Purgatório e “Eunoé” conduz ao Paraíso. A primeira faixa completa do “purgatório”, “Ostia”, quase funciona como uma purificação sonora, trazendo um belo solo de violino que acrescenta uma atmosfera diferenciada ao trabalho. Derrick também entrega uma interpretação bastante expressiva nessa música.
Outros destaques interessantes são “Nuclear Seven”, “Crown and Miter”, “City of Dis” e a enigmática “Still Flame”, que incorpora cellos e uma atmosfera quase oriental.
Para quem ama thrash metal, talvez não seja um álbum para ouvir do início ao fim esperando apenas velocidade e riffs cortantes, pois ainda há uma presença forte de elementos hardcore, perceptível já na abertura com “Dark Wood of Error”. Ainda assim, trata-se de uma obra que carrega uma mensagem bastante clássica: há, sim, uma luz no fim do túnel.

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