domingo, 14 de junho de 2026

20 anos de A Light In The Dark do Metal Church!!!

Parece que os americanos do Metal Church estavam tentando evocar a arte de seu primeiro e aclamado álbum autointitulado de 1984, com a clássica guitarra cruciforme tombada na capa. Ou talvez fosse apenas uma lembrança deliberada dos velhos tempos, já que este oitavo trabalho, A Light in the Dark, também remete ao segundo petardo da carreira, The Dark, no título.

Era o primeiro álbum sem o baterista original Kirk Arrington. As baquetas ficaram a cargo de Jeff Plate, ex-Savatage e integrante do Trans-Siberian Orchestra. E o que posso dizer é que Plate fez um trabalho excelente. Grande baterista, encaixou-se perfeitamente na proposta da banda.

Como de costume, o Metal Church seguia mesclando um heavy metal mais melódico com um thrash metal sem tanta agressividade, resultando em um power metal encorpado e distante da velocidade apresentada nos primeiros anos. Ainda assim, o álbum proporciona uma audição extremamente prazerosa, alternando momentos mais introspectivos, como em "The Believer", e passagens mais aceleradas. O mais próximo de um speed metal que você encontrará aqui é a ótima "Mirror of Lies".

Os vocais de Ronny Munroe transitam entre o melódico e o áspero. Isso já fica evidente na faixa-título que abre o álbum, onde sua interpretação combina muito bem com a atmosfera da fase clássica da banda.

A sexta faixa entrega aquele épico que sempre agrada aos fãs do estilo, com seus quase dez minutos de duração. "Temple of the Sea" começa de forma melódica, com destaque para o baixo de Steve Unger, e de repente mergulha em um terreno mais agressivo, acompanhado por uma letra de tom quase apocalíptico.

Jay Reynolds e Kurdt Vanderhoof caminham com segurança por todo o trabalho. Seja nos riffs, solos ou melodias, a dupla demonstra experiência suficiente para não se aventurar em terrenos de areia movediça.

Outras faixas em que Munroe apresenta um vocal mais agressivo são a poderosa "Pill for the Kill" e "Son of the Son". Nesses momentos, fãs de Accept e talvez até de Grave Digger certamente se sentirão em casa.

O lendário vocalista David Wayne, responsável pelos dois primeiros álbuns da banda e também pelo retorno em Masterpeace, de 1999, havia falecido em maio de 2005, pouco tempo após um grave acidente automobilístico. Em sua homenagem, a banda regravou a clássica "Watch the Children Pray", uma das grandes músicas de The Dark, lançado em 1986.

Curiosamente, aquele mesmo álbum havia sido dedicado a Cliff Burton, que faleceu poucos dias antes de seu lançamento. Como muitos já sabem, o Metallica costumava ensaiar e se reunir no apartamento dos integrantes do Metal Church antes de alcançar o sucesso mundial.

São coincidências e conexões que tornam a história da banda tão interessante quanto sua própria música.


 

sábado, 6 de junho de 2026

20 anos de Bleeding in the Shades of Baphomet do Evil War!!!


Dizem que banda de black metal sem polêmica não ganha notoriedade na cena. Em alguns casos, até concordo. Quando a banda é ruim mesmo, nada melhor do que queimar algumas igrejas e matar uns coleguinhas para ficar famosa. Mas não era o caso do Evil War, cujo som sempre foi muito bom ao longo de seus curtos nove anos de existência.

Quando éramos adolescentes de dezoito anos e acompanhávamos a cena de Curitiba, que se destacava no black metal nacional, vivíamos uma realidade bem diferente da atual. Em uma era sem internet, sobrevivíamos de rumores, escolhíamos lados, fazíamos alianças e até brigávamos sem ter certeza do que realmente acontecia no sul do país. Algumas histórias diziam que Murder Rape e Amen Corner eram bandas inimigas, algo que acabou sendo desmentido ao longo dos anos.

O que realmente ocorreu foi uma rixa interna no Murder Rape, culminando na saída de três integrantes e no nascimento da blasfema Evil War, em 1999. Com o passar do tempo, entre casos de suicídio e conversão ao cristianismo, a banda acabaria encerrando suas atividades. Antes disso, porém, lançou seu derradeiro opus em 2006, apenas dois anos antes do fim.

Mesmo tendo permanecido fiel à proposta black metal durante toda a carreira, Bleeding in the Shades of Baphomet é, sem dúvida, o trabalho mais black metal do Evil War. A banda mudou de logotipo pela terceira vez, trocou a parceria com a Somber Records pela Mutilation Records e passou por alterações importantes na formação. O vocalista original Sabatan deixou os vocais para que o guitarrista Halphas assumisse a função, enquanto Shaitan, que anos depois gravaria o clássico Chri$t World Corporation com o Amen Corner, entrou na vaga de Typhon Set. O baterista Ichthys Niger, um dos fundadores do Evil War, permanecia firme na formação.

O som ficou mais próximo daquilo que as bandas norueguesas faziam na época, e é justamente daí que vem minha afirmação de que este é o álbum mais black metal da carreira do grupo. Os riffs são excelentes, como os de "Deluge of Blood", claramente influenciados por nomes como Immortal. A bateria apresenta um timbre limpo e definido, alternando momentos de velocidade, passagens conduzidas por pedais duplos e batidas diretas, sem floreios técnicos, mas carregadas de força.

Os vocais de Halphas são predominantemente rasgados, contrastando com Sabatan, que recorria com frequência aos guturais. Gravado no Estúdio Clínica e produzido por Murilo da Rós em conjunto com a banda, o álbum apresenta uma sonoridade muito acima da média, talvez uma das melhores produções já alcançadas dentro do underground nacional de black metal.

E, para fechar a saga do escudo — citada nas resenhas que fizemos dos dois primeiros trabalhos —, ele aparece aqui revigorado, pronto para uma nova batalha que, infelizmente, jamais aconteceu.


 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

20 anos de The Beauty And The Beer do Tankard!!!


Confesso que, logo de cara, ao ouvir "Ice-Olation", pensei: "ok, o mesmo de sempre, nada demais". Começar uma resenha do décimo segundo álbum de estúdio de uma das maiores bandas de thrash metal dos anos 80 dessa forma talvez não fosse muito justo. Ainda bem que a sequência de músicas não segue esse padrão. Graças a Baco, não segue.

A cerveja, como sempre, é um dos temas preferidos do quarteto, ainda mais quando o petardo se chama The Beauty and the Beer. A bela retratada na capa também deve ter povoado o imaginário de muitos thrashers adolescentes, que certamente sonharam em ocupar o lugar da criatura alienígena.

A partir da segunda faixa, a excelente "We Still Drink the Old Ways", o álbum engrena de vez. As músicas parecem disputar entre si qual será a melhor. E isso inclui "Rockstars No. 1", talvez a faixa mais criticada do trabalho. Com breakdowns interessantes e um riff marcante, um tanto americanizado, ela acabou sendo rejeitada por alguns fãs. Eu, particularmente, gostei bastante.

Escolher uma música essencial aqui não é tarefa fácil. Há várias candidatas. A faixa-título, por exemplo, traz uma estrutura que remete ao thrash dos anos 90, quando o estilo parecia flertar cada vez mais com o power metal. Já "Metal to Metal" é simplesmente sensacional e está entre as melhores composições da carreira da banda. Sua introdução carrega uma melodia quase sinistra, algo que normalmente não associamos ao Tankard, mas que combinou perfeitamente com meus ouvidos.

Os solos de guitarra são outra atração à parte. Em alguns momentos, a banda nem perde tempo e já começa a música solando, como acontece na ótima "Forsaken World".

Confesso que senti falta daquela faixa mais pesada e arrastada que o Tankard costumava encaixar em seus discos. O mais próximo disso aparece no início de "Dirty Digger", que une crítica política e riffs empolgantes até o último segundo.

Com Gerre nos vocais, Frank Thorwarth no baixo, Andy Gutjahr na guitarra, Olaf Zissel na bateria e Andy Classen produzindo toda a bagaça, o Tankard forjou uma verdadeira obra-prima.

The Beauty and the Beer merece ser ouvido. Talvez com uma bela ao lado. Mas certamente com uma cerveja na mão.


 

sábado, 30 de maio de 2026

20 anos de Homem Inimigo do Homem do Ratos de Porão!!!


Considerando todos os álbuns lançados em português e suas respectivas versões em inglês, o Ratos de Porão chegava, em 2006, ao seu 15º trabalho de estúdio: Homem Inimigo do Homem.

Começando pela arte da capa, vemos dois homens adultos saindo na porrada enquanto a imprensa registra tudo — ou quase tudo, já que o cinegrafista à direita parece mais interessado em um desenho do Mickey. Ao redor, uma plateia formada por pessoas e macacos se diverte assistindo à violência. Nada que não tenha piorado nos últimos vinte anos.

A formação clássica, com João Gordo nos vocais, Jão na guitarra, Boka na bateria e Juninho no baixo, retornava quatro anos após o lançamento de Onisciente Coletivo com mais meia hora de pancadaria sonora e crítica social. E sobrou para todo mundo: da Igreja, em "Pedofilia Santa", à polícia, em "PMs de Satã", sem esquecer de um certo Luis em "Quem Te Viu..." (sim, escrito com S de propósito, mas todos sabemos que o motivo da música se escreve com Z).

Musicalmente, o som é aquele crossover violento que transformou o R.D.P. em uma das bandas mais respeitadas da América do Sul. A alternância dos vocais entre o urrado e um gritado menos grave é um dos diferenciais do álbum, e em "Quem Te Viu..." esse recurso produz um efeito sensacional.

Alguns solos de guitarra surgem em faixas como "Covardia de Plantão", deixando tudo ainda mais interessante. A produção também merece elogios: as linhas de baixo são claramente audíveis, enquanto a distorção soa como um soco na cara seguido de alguns pontapés.

Para entender todas as letras, porém, talvez você precise recorrer ao encarte, porque João Gordo despeja suas palavras em uma velocidade impressionante.

Vale a pena separar trinta minutos do seu dia para encarar essa porrada.


 

sábado, 23 de maio de 2026

20 anos de Ruun do Enslaved!!!


Não se chega a nove álbuns de estúdio fazendo música ruim. Partindo disso, e até como defesa diante das acusações direcionadas à música muitas vezes difícil de compreender da banda norueguesa Enslaved, podemos dizer que música ruim realmente existe — mas existe também música boa para certos ouvidos.

Você, fã de metal extremo, especialmente de black metal, que acredita que tudo o que o Darkthrone faz desde o nascimento é o único paradoxo aceito na comunidade, provavelmente arrepia só de ouvir o nome Enslaved. Mas talvez se surpreenda ao ouvir Ruun, lançado em 2006.

Em meio a toda a progressividade encontrada aqui, quase nada se compara às loucuras e experimentações registradas em Monumension, tornando a audição deste petardo muito mais coerente com o universo ao qual estamos acostumados a acordar todos os dias — ou noites.

Logo de início, em “Entroper”, temos a faixa mais metal do trabalho: rápida, carregada de riffs cheirando a enxofre e mostrando que parte da melancolia do álbum anterior, Isa, ficou pelo caminho. Conforme o álbum avança, fica evidente que a banda está mais raivosa desta vez.

Momentos como “Api-vat”, mesmo com teclados quebrando o instrumental gelado, mostram um Enslaved menos interessado em divagações e mais disposto ao confronto sangrento, voltando a caminhar por todos os invernos, como diz sua letra.

Em “Path to Vanir”, o ritmo desacelera um pouco, mas ainda assim temos uma das melhores músicas do álbum. Seu encerramento traz uma passagem extremamente calma, onde os vocais limpos aparecem. E é bom frisar: eles são usados com certa moderação aqui, já que Grutle Kjellson já abusou desse recurso em outros trabalhos da banda.

“Fusion of Sense and Earth” também merece destaque. Sua estrutura é um deleite para quem procura algo mais melódico, com camadas de teclado profundas e anestesiantes.

A maior viagem de Ruun fica para a faixa de encerramento, “Heir to the Cosmic Seed”. Ainda assim, mesmo com vozes limpas e guitarras estelares, ela talvez contenha as melodias mais belas do álbum, incluindo um solo que beira Pink Floyd sobre uma base completamente distorcida.

No fim das contas, Ruun me caiu melhor do que os três trabalhos anteriores do Enslaved. 

 

domingo, 17 de maio de 2026

20 anos de Veronika Decides To Die do Saturnus!!!


Já li várias obras do escritor brasileiro Paulo Coelho. O Diário de um Mago, O Demônio e a Srta. Prym, Onze Minutos, Brida, O Zahir e o melhor deles, O Alquimista. Ainda assim, nunca tive a oportunidade de ler Veronika Decide Morrer, justamente a obra que dá nome ao terceiro álbum da banda dinamarquesa Saturnus. Mesmo com o título retirado do livro, a banda afirma que as letras não refletem diretamente aquilo que encontramos em suas páginas.

A verdade é que o lirismo apresentado aqui nasce de um desespero legítimo, onde amor, dor, desolação e escuridão se misturam ao sabor salgado das lágrimas. Ouvir Veronika Decides to Die é mergulhar em uma jornada fria, doce e sensível, onde sentimentos que jamais ousamos revelar sob a luz brotam da alma em nossos momentos mais amargurados.

A produção é cristalina sem esconder o peso. Pelo contrário: reforça as melodias inquietantes, onde todos os instrumentos se unem para idealizar a tragédia da imperfeição humana. Os solos de guitarra, longos e belíssimos, conduzem o ouvinte a um estado de espírito quase inebriante. As passagens de bateria também não servem apenas como detalhe; foram cuidadosamente pensadas para enriquecer as linhas e reafirmar sua importância dentro do melodic death/doom, sem sequer fingir acelerações desnecessárias apenas para quebrar nuances. Este trabalho não precisa destruir nada além de nossas almas.

Tais Pedersen e Peter Poulsen eram os responsáveis pelas belas melodias nas seis cordas, com Lennart Jacobsen no baixo e Nikolaj Borg na bateria. Nos teclados, Anders Nielsen — presente na banda desde 1994 e realizando aqui seu último trabalho com o grupo — enquanto Thomas Jensen assumia os vocais, sendo hoje o único integrante daquela formação ainda presente na banda. Sua voz transita pelo gutural tradicional, pelo narrado e por um gutural mais aberto, como podemos ouvir em “Pretend”.

São oito hinos espalhados por praticamente uma hora de música, onde momentos mais introspectivos, compostos apenas por dedilhados, teclados e vozes limpas, fazem você mergulhar em um lago gelado, como acontece em “All Alone”. Os solos viajantes estão por toda parte, mas destacar “Descending” é indispensável.

Ainda assim, você não precisa se prender a uma faixa específica. Veronika Decides to Die foi feito para ser sofrido em sua totalidade.

Se você ainda não foi completamente corrompido pela modernidade — essa era em que música se tornou descartável e gravadoras pedem até mesmo a bandas gigantes que eliminem minutos acústicos de seus lançamentos — tire um momento da sua noite para ouvir este artefato com calma. Abra o coração e sinta o sangue correndo pelas veias, porque você está vivo. 

 

domingo, 10 de maio de 2026

20 anos de Kvass do Kampfar!!!


Se você está em busca de um álbum de black metal norueguês empolgante, recheado de riffs velozes e bateria destruindo tudo pela frente... melhor procurar outro disco para ouvir. O terceiro trabalho dos noruegueses do Kampfar não entrega exatamente esse tipo de brutalidade, ainda que alguns momentos justifiquem essa expectativa, como em “Ravenheart”. Terceira faixa de um álbum com apenas seis músicas, ela é a primeira a realmente flertar com a velocidade. Curiosamente, também é a única cantada em inglês, e a voz de Dolk soa muito bem na língua universal.

Foi um erro gigantesco não abrir o álbum com essa música, já que a escolhida para essa tarefa milenarmente importante foi “Lyktemenn”, uma daquelas faixas feitas sob medida para qualquer ouvinte menos resiliente desistir da audição. Em seus mais de oito minutos, ela é extremamente monótona. O riff apático praticamente não muda, assim como as batidas da bateria. O vocal, para piorar, soa quase como uma narração, entoado da mesma maneira do início ao fim.

É verdade que o Pagan Black Metal não precisa necessariamente apresentar elementos musicais óbvios que indiquem imediatamente sua ligação com o paganismo — como passagens folk ou viking, por exemplo — deixando muitas vezes essa responsabilidade para as letras. Mas o som do Kampfar, ao menos em Kvass — e sem dar spoiler, também em seu sucessor — carece de alguma característica mais marcante que demonstre uma identidade realmente firme em seus ideais, não ficando apenas nesse black metal insípido flertando com a natureza e seus poderes.

Por outro lado, se sua procura for por algo mais “viagem”, um som extremo para relaxar, mas sem cair totalmente no atmosférico, e que ainda possa trazer longas e até cansativas passagens de teclado, Kvass pode acabar sendo uma boa opção. “Hat Og Avind”, inclusive, traz uma ótima pegada black metal, com guitarras em trêmulo que remetem diretamente às bandas clássicas dos anos 90.

Já “Gaman Av Drommer” incorpora muito mais o espírito pagan folk, proporcionando um excelente encerramento para o álbum, com Ask entregando seu melhor trabalho na bateria e vocais muito mais empolgantes e agressivos.

No fim das contas, Kvass erra apenas em sua faixa de abertura. Passando por ela sem dormir, o restante do álbum oferece músicas bastante interessantes para quem realmente procura um som “viagem”, mas sem mergulhar completamente no black metal atmosférico.