Quando as bandas clássicas da cena mineira voltaram a lançar álbuns em meados dos anos 2000 — movimento encabeçado por Deadland (2003), do Chakal, e seguido por nomes como Holocausto, Witchhammer e Sextrash após mais de uma década sem registros — Rape From Hell, do Sextrash, foi o que mais curti. É verdade que o Chakal já havia soltado dois petardos nessa fase, incluindo o fenomenal Demon King, mas isso é outra história.
O Sextrash havia interrompido suas atividades em 1997, após a morte prematura de Oswald “Pussy Ripper” em um acidente automobilístico — uma perda que abalou profundamente a cena mineira, não só pela figura de frontman marcante, mas pela pessoa querida que era. Anos depois, o baixista Krueger reativou a banda e, ao lado do vocalista Cláudio Siqueira (Doom, ex-Brutal Distortion), do guitarrista Marck Monthebar — remanescente da formação que gravou o impecável Funeral Serenade — e do baterista Quake (ex-Obsessed), o grupo retornava com seu terceiro full-length, Rape From Hell, lançado pela Cogumelo Records.
A arte de capa, assinada por Fernando Lima, resgata o nu feminino e reforça, junto ao título, a fidelidade da banda à sua linha lírica sexual. Já na audição desatenta, o álbum pode soar homogêneo, como se priorizasse apenas a brutalidade sem maiores nuances. Mas basta parar e ouvir com cuidado para perceber que, em meio ao caos, há bastante coisa interessante acontecendo.
A começar pela produção, clara e bem definida. Ainda que a própria banda preferisse algo mais sujo, não há prejuízo aqui — pelo contrário. As palhetadas vêm um pouco abafadas, algo inerente ao death metal, enquanto os vocais de Doom seguem um gutural firme, pouco variado, mas bastante inteligível e próximo do death/thrash.
“Suck Me”, uma das melhores do disco, abre o trabalho com velocidade, descambando para um "provocamosh" logo após a segunda sequência de refrão, chegando até bem próximo do slow death na ponte para o solo estilo Cause of Death do Obituary (que coisa linda).
“Brutal Sex” começa com um efeito de guitarra um pouco estranho, mas rapidamente se ajusta quando os riffs entram em aceleração. É uma faixa mais cadenciada, que atinge um peso “bate-estaca” por volta dos dois minutos, remetendo aos tempos de D.D. Crazy. Vale destacar também a presença de dois solos distintos, mostrando que ainda havia muita lenha para queimar.
“Chemical Orgy” chega quebrando tudo, com vocais mais rasgados e diretos enfatizando o título. A música alterna bem entre velocidade e momentos mais cadenciados, com um riff que pede palco — fácil de imaginar funcionando ao vivo.
E aqui cabe um parêntese: tive a oportunidade de ver essa formação ao vivo em Belo Horizonte, durante a turnê de divulgação do álbum, abrindo para o Kreator — e me deleitei com a apresentação.
Na sequência vem minha favorita: “Fuck In All”. Pesada, com riff marcante, refrão melódico e uma parte mais rápida que se inicia com um solo bem característico da fase Funeral Serenade, além de vocais rasgados que remetem diretamente ao Campo de Extermínio do Holocausto.
“Possessed By Cruelty” abre com breakdowns que lembram “Ceremony of the Seventh Circle”, do álbum Let Us Pray, do Vital Remains. O disco segue com “Maze of the Damn Madness”, trazendo riffs malignos e vocais agressivos; a faixa-título, com pegada quase thrash e gritos femininos no momento mais diabólico das guitarras; “Lust, Money and Violence”, com bases cavalgadas e uma sonoplastia soturna bem encaixada; além de “Obscure Doors”, “Sweet Suffering” e “Tchambs”.
Um belo retorno do Sextrash ao cenário — ainda que, até aqui, tenha representado também seu último suspiro em estúdio. Fica a torcida para que não seja o final definitivo. Ainda mais sabendo que a banda voltou a ensaiar e já carrega algumas músicas novas no bolso.






