Não é surpresa para ninguém que o Witchery sempre foi muito mais um projeto do que propriamente uma banda de primeira linha. E parece que, em seu quarto registro full, um dos integrantes tenha assumido uma espécie de liderança dentro do projeto — talvez porque, em sua banda principal, seu papel sempre tenha sido um pouco ofuscado por outros membros.
Estou falando de Sharlee D'Angelo, dono das quatro cordas no Witchery e também no gigante Arch Enemy. A explicação para essa impressão é simples: enquanto no Arch Enemy os olhares estavam concentrados no guitarrista Michael Amott e na vocalista Angela Gossow, no Witchery Sharlee, como membro original, parecia exercer um papel mais emblemático. Isso fica evidente quando percebemos que a banda ganhou bastante groove em Don't Fear the Reaper, deixando totalmente de lado a veia speed que marcava seu início no final dos anos 90.
Por isso, a audição deste play pode soar um tanto desapontadora para quem estava acostumado com Dead, Hot and Ready e Restless & Dead. Mesmo que em alguns momentos — como em “Plague Rider”, uma das melhores faixas do trabalho, acelerada e com solo de guitarra à la Dave Mustaine — a banda mostre sua antiga vitalidade, a maior parte do álbum se apoia em andamentos médios.
E, para acentuar a mudança, também não se sente mais aquela veia irônica, debochada e despojada dos primórdios. O Witchery parece ter envelhecido ranzinza e sério, como se rejeitasse o jovem aventureiro e vadio que um dia foi.
Os vocais de Toxine aparecem um pouco mais demoníacos, perdendo parte daquela essência blackened thrash que caracterizava sua abordagem. Este, aliás, foi seu último trabalho à frente da banda. O curioso é que seu substituto seria um dos nomes mais icônicos da cena sueca: Legion, que havia deixado o Marduk em 2003. E, se você acompanha as duas bandas, provavelmente percebeu que, a partir deste álbum e nos seguintes do Witchery, as artes de capa passaram a combinar bastante com a estética visual do Marduk.
Para reforçar a mudança de clima, basta ouvir “Immortal Death”, cover do Satanic Slaughter. Com seus um minuto e trinta de pancadaria retirada do álbum de estreia de 1995 da banda, a faixa serve quase como um lembrete de que o Witchery estava deixando de lado esqueletos excitados em necrotérios para abraçar uma veia mais ocultista.
A intenção até parecia boa, mas talvez tenha saído um pouco pela culatra — afinal, este álbum costuma ser citado como um dos mais fracos da discografia do Witchery. Ou talvez esses caras simplesmente não quisessem progredir, preferindo permanecer numa época em que beber vinho em cemitérios e contar histórias de terror parecia solução suficiente para os problemas da vida.






