domingo, 22 de março de 2026

20 anos de Ode To Death do Witchhammer!!!


Quem conhece a fundo o Witchhammer de Belo Horizonte, MG, sabe que a banda nunca procurou se repetir. Mesmo trilhando as mesmas pedras, seus álbuns sempre trouxeram novidades em sua música. Não foi diferente em 2006, quando pariram seu quarto full, Ode To Death, novamente pela Cogumelo Records, gravadora que os catapultou para a elite do metal nacional.

O maior problema deste álbum talvez seja ter surgido 14 longos anos após o irrepreensível Blood On the Rocks. A banda ficou estagnada por alguns anos após 1995 e acabou registrando seu quarto petardo em um cenário bem diferente daquela era de ouro em que cresceu, ao lado de nomes como Sextrash e Attomica. Talvez por isso Ode To Death tenha passado despercebido por muitos fãs que, ainda hoje, sequer conhecem a obra.

O thrash metal apresentado aqui carrega mais groove do que qualquer outro momento da carreira, enquanto elementos de hardcore e death metal aparecem pontualmente para reforçar o peso — que, diga-se, é constante e impressionante. Esse peso se intensifica em faixas como “Dartherium”, nova versão da pancadaria presente no debut da banda, e em riffs que por vezes remetem ao death metal europeu, como em “The Machine of War”.

Outra regravação importante é a fenomenal “Weekend in Auschwitz”, faixa marcante da clássica coletânea Warfare Noise II, responsável por apresentar o Witchhammer a boa parte do público brasileiro. Há também um cover de “Perseguição”, do Sagrado Inferno, uma das bandas pioneiras do metal mineiro que, para muitos, acabou ganhando ainda mais visibilidade justamente com esta releitura.

A Cogumelo vem relançando diversos trabalhos importantes nos últimos anos — como fez recentemente com toda a discografia do Overdose — mas ainda está devendo duas obras da bruxa: Blood On the Rocks e este Ode To Death, que já deveriam estar novamente disponíveis há muito tempo.

O álbum prova que os mineiros ainda respiravam metal com criatividade, energia e carisma. Nos palcos, a banda sempre demonstrou enorme respeito pelo público, reverenciando aqueles que mantêm o underground vivo. Talvez por isso ouvir uma música como “Witchery” seja uma experiência ainda mais gratificante: elementos de heavy metal tradicional aliados a um solo de guitarra primoroso e fora da curva capturam com precisão a essência do melhor do movimento MG Area.

Que esta obra receba o relançamento que merece e possa finalmente ser adquirida pela nação underground brasileira — com urgência!

 

sábado, 21 de março de 2026

20 anos de The Great Cold Distance do Katatonia!!!


Se você leu as resenhas dos três álbuns anteriores do Katatonia nesta página, certamente já não espera uma análise muito positiva para The Great Cold Distance, o sétimo trabalho dos suecos, lançado pela Peaceville Records em 2006. Vou tentar não ser tão negativo, já que, a essa altura, também não esperava nada particularmente emocionante no som destes senhores. Respeito a banda, mas apreciar essa fase clean e um tanto insossa não é exatamente uma tarefa fácil de encarar.

É verdade que alguns aspectos ajudam a evitar que o álbum seja tão fraco quanto seus antecessores. Há uma variação um pouco maior nas estruturas das músicas — nada radical, mas ao menos nem todas seguem aquela linha reta e previsível. A faixa “Soil’s Song”, por exemplo, chega a ser até simpática dentro da proposta.

O problema é que as guitarras, ainda que um pouco mais sujas, não empolgam nem mesmo nas passagens que deveriam soar mais pesadas, como em “Consternation”, enquanto os vocais carecem de emoção. Jonas Renkse canta como se estivesse lutando contra o sono depois de um longo dia aguardando um voo atrasado em um aeroporto — e o voo nunca decola, porque as músicas simplesmente não levam a lugar algum.

Independentemente disso, a banda segue com uma legião fiel de admiradores. Algumas passagens de bateria chegam a ser lamentáveis, como o trecho mais calmo de “Increase”, que tenta soar progressivo sem que a melodia realmente importe ou desperte algo além de um leve desânimo.

Gostaria de encontrar algo mais animador para não desmerecer tanto o trabalho, mas a verdade é que ouvir o álbum inteiro acaba sendo um esforço ao qual não me sinto muito inclinado. E antes que alguém venha questionar ao me ver vestindo uma camisa da banda, vale lembrar: trata-se de uma lembrança dos bons tempos. Uma fase que, ao que tudo indica, dificilmente voltará.




 

sábado, 14 de março de 2026

20 anos de Don't Fear The Reaper do Witchery!!!


Não é surpresa para ninguém que o Witchery sempre foi muito mais um projeto do que propriamente uma banda de primeira linha. E parece que, em seu quarto registro full, um dos integrantes tenha assumido uma espécie de liderança dentro do projeto — talvez porque, em sua banda principal, seu papel sempre tenha sido um pouco ofuscado por outros membros.

Estou falando de Sharlee D'Angelo, dono das quatro cordas no Witchery e também no gigante Arch Enemy. A explicação para essa impressão é simples: enquanto no Arch Enemy os olhares estavam concentrados no guitarrista Michael Amott e na vocalista Angela Gossow, no Witchery Sharlee, como membro original, parecia exercer um papel mais emblemático. Isso fica evidente quando percebemos que a banda ganhou bastante groove em Don't Fear the Reaper, deixando totalmente de lado a veia speed que marcava seu início no final dos anos 90.

Por isso, a audição deste play pode soar um tanto desapontadora para quem estava acostumado com Dead, Hot and Ready e Restless & Dead. Mesmo que em alguns momentos — como em “Plague Rider”, uma das melhores faixas do trabalho, acelerada e com solo de guitarra à la Dave Mustaine — a banda mostre sua antiga vitalidade, a maior parte do álbum se apoia em andamentos médios.

E, para acentuar a mudança, também não se sente mais aquela veia irônica, debochada e despojada dos primórdios. O Witchery parece ter envelhecido ranzinza e sério, como se rejeitasse o jovem aventureiro e vadio que um dia foi.

Os vocais de Toxine aparecem um pouco mais demoníacos, perdendo parte daquela essência blackened thrash que caracterizava sua abordagem. Este, aliás, foi seu último trabalho à frente da banda. O curioso é que seu substituto seria um dos nomes mais icônicos da cena sueca: Legion, que havia deixado o Marduk em 2003. E, se você acompanha as duas bandas, provavelmente percebeu que, a partir deste álbum e nos seguintes do Witchery, as artes de capa passaram a combinar bastante com a estética visual do Marduk.

Para reforçar a mudança de clima, basta ouvir “Immortal Death”, cover do Satanic Slaughter. Com seus um minuto e trinta de pancadaria retirada do álbum de estreia de 1995 da banda, a faixa serve quase como um lembrete de que o Witchery estava deixando de lado esqueletos excitados em necrotérios para abraçar uma veia mais ocultista.

A intenção até parecia boa, mas talvez tenha saído um pouco pela culatra — afinal, este álbum costuma ser citado como um dos mais fracos da discografia do Witchery. Ou talvez esses caras simplesmente não quisessem progredir, preferindo permanecer numa época em que beber vinho em cemitérios e contar histórias de terror parecia solução suficiente para os problemas da vida.


 

domingo, 8 de março de 2026

20 anos de The Bloody Path of God do Mystic Circle!!!


O sétimo álbum de estúdio dos alemães do Mystic Circle traz uma mudança sutil em relação aos dois trabalhos anteriores. Aqui, a banda tenta resgatar um elemento que havia se perdido desde o início da carreira: o teclado. Após um começo no symphonic black que chamou a atenção de muita gente, o grupo se transformou em um trio e migrou para um blackened death metal mais direto, calcado em riffs e em um vocal constantemente rasgado.

Em The Bloody Path of God, a banda mantém a mesma toada de Damien e Open the Gates of Hell, mas agora os teclados aparecem mais distribuídos, acompanhando os riffs — algo que eles ainda não haviam feito dessa forma. No início da carreira, inclusive, os teclados muitas vezes ganhavam mais destaque que as próprias guitarras. Talvez, a essa altura da jornada, a banda já estivesse considerando um retorno parcial à sonoridade de outrora.

Outro indício disso é a adição de um segundo guitarrista: o alemão Tobias Drabold, aqui creditado como Vike Ragnar, e que acabaria participando apenas deste álbum. Ao lado do guitarrista original Ezpharess, ele ajuda a reforçar os riffs, embora a dupla também abuse de breakdowns — um recurso mais associado ao thrash metal — o que faz algumas faixas soarem parecidas entre si. Ainda assim, melodias como a que abre “The Grim Reaper” são bastante interessantes.

Após a intro “Psalm of the End”, o álbum se inicia de fato com a faixa-título e “Doomsday Prophecy”, e algo nelas passa a impressão de que o disco é mais arrastado do que realmente é. A partir de “Nine Plagues of Egypt” a coisa ganha mais velocidade, embora ainda perca numa corrida direta com o antecessor, que era consideravelmente mais agressivo.

A arte da capa lembra um pouco coisas do Deicide e, mesmo usando cores pouco chamativas, apresenta um desenho bem trabalhado.

A faixa que mais puxa a sardinha para o vocalista e baixista Beelzebub (Marc Zimmer) é “Hellborn”, onde seus vocais aparecem sobre instrumentais mais vazios e o baixo ainda ganha um pequeno momento solo. Já o baterista Necrodemon (Alex Koch), em seu terceiro e último álbum com o Mystic Circle, utiliza pedais duplos muito bem colocados e soa mais complexo quando a música exige, como em “Church of Sacrifice”.

O álbum se encerra com um cover de Circle of the Tyrants, clássico do Celtic Frost — e que ficou bem executado.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

20 anos de Out For Blood do Sadus!!!


O Sadus é aquela banda clássica da Califórnia que raramente entra nas primeiras citações quando o assunto é Bay Area — muito porque resolveu temperar seu thrash com doses generosas de death metal. Em 2006, após nove anos sem material inédito, lançava seu quinto trabalho mantendo a mesma formação de Elements of Anger (1997): Darren Travis na guitarra e vocal, o monstro do baixo que dispensa apresentações Steve DiGiorgio e Jon Allen (Testament / Dragonlord) na bateria.

A faixa de abertura, “In The Name Of…”, já chega agressiva, carregando elementos de metal da morte que remetem ao Master de Paul Speckmann. Os vocais estão furiosos, o baixo soa paranormal como sempre, e os riffs — ainda que não sejam memoráveis — entregam energia suficiente para justificar o impacto inicial.

Na sequência vem “No More”, uma boa música sabotada por sintetizadores de extremo mau gosto. Quem teve aquela ideia deveria responder em tribunal. “Smackdown” não traz surpresas desagradáveis, enquanto a faixa-título surge carregada de peso, especialmente no final, reforçada pelos guturais de Juan Urteaga.

“Lost It All” mostra uma faceta diferente: andamento mais arrastado, vocais sussurrados e uma letra que aponta para alguém à beira da insanidade. Aqui, curiosamente, os sintetizadores funcionam, criando uma atmosfera mais enigmática.

“Sick” acelera agradando fãs de Destruction, enquanto “Down” poderia muito bem estar em um álbum do Pantera — não fossem os vocais, claro. O play segue com “Freedom”, faixa forte que alterna uma parte mais cadenciada e death metal com breakdowns eficientes, tornando-se um dos grandes momentos do disco. “Freak” aposta numa pegada mais moderna e agressiva, e então chegamos à mais longa, “Cursed”, com mais de oito minutos e aquele show alienígena de baixo que só DiGiorgio sabe entregar.

O gran finale vem com “Crazy”, que conta com a participação de Chuck Billy despejando sua voz potente e inconfundível.

Vi muitas pedradas direcionadas a esse álbum, lançado há vinte anos pelo Sadus. Tirando os ruídos lamentáveis em “No More”, o trabalho se sustenta muito bem.

No fim das contas, vale a pena.


 

20 anos de The Cult Is Alive do Dark Throne!!!


Em 2006, o Darkthrone chegava ao seu décimo segundo álbum de estúdio, provocando questionamentos daqueles que não aceitam tudo como simples curso natural das coisas. Seria mais proveitoso se a dupla norueguesa, formada por Nocturno Culto e Fenriz, planejasse melhor seus lançamentos, com menos títulos no catálogo e uma qualidade mais consistente?

Podemos seguir a linha de raciocínio de que a banda nunca se preocupou com estética ou polimento musical e apenas faz, com simplicidade quase teimosa, aquilo a que sempre se propôs. Ainda assim, alguns trabalhos conseguem enfurecer até os fãs mais fiéis do black metal ríspido. The Cult Is Alive é apenas mais do mesmo ou traz algum elemento novo — para o bem ou para o mal?

A veia doom ensaiada dois álbuns antes não se consolida aqui. Embora algumas faixas apresentem andamentos mais arrastados, como “Too Old Too Cold”, isso soa quase como uma ironia consciente: se “somos velhos demais, apenas malucos do rock ’n’ roll”, então podemos muito bem seguir mais devagar. A gravação é até limpa para o estilo, com instrumentos bem destacados, e os vocais aparecem roucos, porém sem aquela fúria que um dia causou arrepios.

A arte da capa, meio bizarra, também não ajuda na recepção do petardo. Fica a sensação de que a banda queria apenas manter a máquina girando, aumentar a fatura sem grandes sobressaltos — mostrar que ainda estava viva, nada além disso.

O desafio de analisar um álbum dessa estirpe vinte anos depois é perceber que aquela imagem de metalheads revoltados, isolados em florestas sombrias e caçando a própria comida com flechas, já não encontra muito espaço nesta era tecnológica e caótica. Talvez a magia estética tenha se dissipado, e o que restou foi transferir ao som uma carga de utopia enegrecida que já não encontra o mesmo eco.

A verdade é que o metal praticado pelo Darkthrone em The Cult Is Alive não assusta mais as criancinhas, não sacia a fome de old school do seu séquito e tampouco arranca sorrisos de quem busca novidades que agreguem valor à discografia. É apenas mais um álbum — e, convenhamos, nunca teve hits tocando nas rádios.

Se te faz feliz, vai fundo. 

 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

20 anos de The Black Waltz do Kalmah!!!


E o Kalmah, da Finlândia, chegava em poucos anos ao seu quarto lançamento, agora com The Black Waltz. O álbum traz uma mudança fundamental na formação em relação a Swampsong (2003): a saída do tecladista Pasi Hiltula e a entrada de Marco Sneck (Poisonblack). Fundamental porque Pasi exercia um papel crucial no som do Kalmah; ele não apenas acompanhava os instrumentais, mas criava melodias que completavam as seções rítmicas de guitarra com profundidade e criatividade superiores.

Não que Sneck não tente fazer isso em The Black Waltz, mas aqui a abordagem soa muito mais orquestral. Ainda assim, nada que freie o crescimento da banda — afinal, este álbum é sensacional. Outro grande diferencial está nos vocais de Pekka Kokko, que se mostram bem mais guturais desta vez. Parece que o camarada estava numa fase mais brutal death metal. Isso não acontece em todas as músicas, mas, se quiser um exemplo claro, ouça a faixa-título e não se assuste.

No geral, trata-se de um trabalho com músicas bastante diversificadas. A produção é excelente: o som soa límpido e poderoso, com a agressividade bem resguardada e as melodias sempre em evidência. Aqui já não se percebe aquela sensação de uma banda seguindo os caminhos de seus conterrâneos do Children of Bodom, mas sim de um grupo que encontrou definitivamente sua própria estrada, com maestria e uma precisão que ainda me fazem questionar por que o Kalmah não é mais lembrado pelos meios de comunicação metálicos ou pela maioria dos fãs.

Talvez isso se deva, além da pouca divulgação — afinal, passaram a maior parte da carreira sob as asas da Spikefarm, que não chega a ser uma gigante — ao fato de não se encaixarem perfeitamente no rótulo de melodic death metal. Há uma boa quantidade de influências no som do Kalmah: death, melodic, power, thrash e até black metal. Talvez por não caberem exatamente em um nicho específico, acabem sendo menos lembrados. Mas tudo bem, isso está longe de ser exclusividade deles.

Voltando ao petardo, “The Terminal Intensity” carrega algo de Amon Amarth, ainda que soe muito melhor do que muita coisa dos suecos. A capa não está entre as mais bonitas, mas o logo da banda passou por mudanças, ficando mais compreensível e ainda ganhou um floreio extra.

Ouça sem moderação