sábado, 14 de março de 2026

20 anos de Don't Fear The Reaper do Witchery!!!


Não é surpresa para ninguém que o Witchery sempre foi muito mais um projeto do que propriamente uma banda de primeira linha. E parece que, em seu quarto registro full, um dos integrantes tenha assumido uma espécie de liderança dentro do projeto — talvez porque, em sua banda principal, seu papel sempre tenha sido um pouco ofuscado por outros membros.

Estou falando de Sharlee D'Angelo, dono das quatro cordas no Witchery e também no gigante Arch Enemy. A explicação para essa impressão é simples: enquanto no Arch Enemy os olhares estavam concentrados no guitarrista Michael Amott e na vocalista Angela Gossow, no Witchery Sharlee, como membro original, parecia exercer um papel mais emblemático. Isso fica evidente quando percebemos que a banda ganhou bastante groove em Don't Fear the Reaper, deixando totalmente de lado a veia speed que marcava seu início no final dos anos 90.

Por isso, a audição deste play pode soar um tanto desapontadora para quem estava acostumado com Dead, Hot and Ready e Restless & Dead. Mesmo que em alguns momentos — como em “Plague Rider”, uma das melhores faixas do trabalho, acelerada e com solo de guitarra à la Dave Mustaine — a banda mostre sua antiga vitalidade, a maior parte do álbum se apoia em andamentos médios.

E, para acentuar a mudança, também não se sente mais aquela veia irônica, debochada e despojada dos primórdios. O Witchery parece ter envelhecido ranzinza e sério, como se rejeitasse o jovem aventureiro e vadio que um dia foi.

Os vocais de Toxine aparecem um pouco mais demoníacos, perdendo parte daquela essência blackened thrash que caracterizava sua abordagem. Este, aliás, foi seu último trabalho à frente da banda. O curioso é que seu substituto seria um dos nomes mais icônicos da cena sueca: Legion, que havia deixado o Marduk em 2003. E, se você acompanha as duas bandas, provavelmente percebeu que, a partir deste álbum e nos seguintes do Witchery, as artes de capa passaram a combinar bastante com a estética visual do Marduk.

Para reforçar a mudança de clima, basta ouvir “Immortal Death”, cover do Satanic Slaughter. Com seus um minuto e trinta de pancadaria retirada do álbum de estreia de 1995 da banda, a faixa serve quase como um lembrete de que o Witchery estava deixando de lado esqueletos excitados em necrotérios para abraçar uma veia mais ocultista.

A intenção até parecia boa, mas talvez tenha saído um pouco pela culatra — afinal, este álbum costuma ser citado como um dos mais fracos da discografia do Witchery. Ou talvez esses caras simplesmente não quisessem progredir, preferindo permanecer numa época em que beber vinho em cemitérios e contar histórias de terror parecia solução suficiente para os problemas da vida.


 

domingo, 8 de março de 2026

20 anos de The Bloody Path of God do Mystic Circle!!!


O sétimo álbum de estúdio dos alemães do Mystic Circle traz uma mudança sutil em relação aos dois trabalhos anteriores. Aqui, a banda tenta resgatar um elemento que havia se perdido desde o início da carreira: o teclado. Após um começo no symphonic black que chamou a atenção de muita gente, o grupo se transformou em um trio e migrou para um blackened death metal mais direto, calcado em riffs e em um vocal constantemente rasgado.

Em The Bloody Path of God, a banda mantém a mesma toada de Damien e Open the Gates of Hell, mas agora os teclados aparecem mais distribuídos, acompanhando os riffs — algo que eles ainda não haviam feito dessa forma. No início da carreira, inclusive, os teclados muitas vezes ganhavam mais destaque que as próprias guitarras. Talvez, a essa altura da jornada, a banda já estivesse considerando um retorno parcial à sonoridade de outrora.

Outro indício disso é a adição de um segundo guitarrista: o alemão Tobias Drabold, aqui creditado como Vike Ragnar, e que acabaria participando apenas deste álbum. Ao lado do guitarrista original Ezpharess, ele ajuda a reforçar os riffs, embora a dupla também abuse de breakdowns — um recurso mais associado ao thrash metal — o que faz algumas faixas soarem parecidas entre si. Ainda assim, melodias como a que abre “The Grim Reaper” são bastante interessantes.

Após a intro “Psalm of the End”, o álbum se inicia de fato com a faixa-título e “Doomsday Prophecy”, e algo nelas passa a impressão de que o disco é mais arrastado do que realmente é. A partir de “Nine Plagues of Egypt” a coisa ganha mais velocidade, embora ainda perca numa corrida direta com o antecessor, que era consideravelmente mais agressivo.

A arte da capa lembra um pouco coisas do Deicide e, mesmo usando cores pouco chamativas, apresenta um desenho bem trabalhado.

A faixa que mais puxa a sardinha para o vocalista e baixista Beelzebub (Marc Zimmer) é “Hellborn”, onde seus vocais aparecem sobre instrumentais mais vazios e o baixo ainda ganha um pequeno momento solo. Já o baterista Necrodemon (Alex Koch), em seu terceiro e último álbum com o Mystic Circle, utiliza pedais duplos muito bem colocados e soa mais complexo quando a música exige, como em “Church of Sacrifice”.

O álbum se encerra com um cover de Circle of the Tyrants, clássico do Celtic Frost — e que ficou bem executado.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

20 anos de Out For Blood do Sadus!!!


O Sadus é aquela banda clássica da Califórnia que raramente entra nas primeiras citações quando o assunto é Bay Area — muito porque resolveu temperar seu thrash com doses generosas de death metal. Em 2006, após nove anos sem material inédito, lançava seu quinto trabalho mantendo a mesma formação de Elements of Anger (1997): Darren Travis na guitarra e vocal, o monstro do baixo que dispensa apresentações Steve DiGiorgio e Jon Allen (Testament / Dragonlord) na bateria.

A faixa de abertura, “In The Name Of…”, já chega agressiva, carregando elementos de metal da morte que remetem ao Master de Paul Speckmann. Os vocais estão furiosos, o baixo soa paranormal como sempre, e os riffs — ainda que não sejam memoráveis — entregam energia suficiente para justificar o impacto inicial.

Na sequência vem “No More”, uma boa música sabotada por sintetizadores de extremo mau gosto. Quem teve aquela ideia deveria responder em tribunal. “Smackdown” não traz surpresas desagradáveis, enquanto a faixa-título surge carregada de peso, especialmente no final, reforçada pelos guturais de Juan Urteaga.

“Lost It All” mostra uma faceta diferente: andamento mais arrastado, vocais sussurrados e uma letra que aponta para alguém à beira da insanidade. Aqui, curiosamente, os sintetizadores funcionam, criando uma atmosfera mais enigmática.

“Sick” acelera agradando fãs de Destruction, enquanto “Down” poderia muito bem estar em um álbum do Pantera — não fossem os vocais, claro. O play segue com “Freedom”, faixa forte que alterna uma parte mais cadenciada e death metal com breakdowns eficientes, tornando-se um dos grandes momentos do disco. “Freak” aposta numa pegada mais moderna e agressiva, e então chegamos à mais longa, “Cursed”, com mais de oito minutos e aquele show alienígena de baixo que só DiGiorgio sabe entregar.

O gran finale vem com “Crazy”, que conta com a participação de Chuck Billy despejando sua voz potente e inconfundível.

Vi muitas pedradas direcionadas a esse álbum, lançado há vinte anos pelo Sadus. Tirando os ruídos lamentáveis em “No More”, o trabalho se sustenta muito bem.

No fim das contas, vale a pena.


 

20 anos de The Cult Is Alive do Dark Throne!!!


Em 2006, o Darkthrone chegava ao seu décimo segundo álbum de estúdio, provocando questionamentos daqueles que não aceitam tudo como simples curso natural das coisas. Seria mais proveitoso se a dupla norueguesa, formada por Nocturno Culto e Fenriz, planejasse melhor seus lançamentos, com menos títulos no catálogo e uma qualidade mais consistente?

Podemos seguir a linha de raciocínio de que a banda nunca se preocupou com estética ou polimento musical e apenas faz, com simplicidade quase teimosa, aquilo a que sempre se propôs. Ainda assim, alguns trabalhos conseguem enfurecer até os fãs mais fiéis do black metal ríspido. The Cult Is Alive é apenas mais do mesmo ou traz algum elemento novo — para o bem ou para o mal?

A veia doom ensaiada dois álbuns antes não se consolida aqui. Embora algumas faixas apresentem andamentos mais arrastados, como “Too Old Too Cold”, isso soa quase como uma ironia consciente: se “somos velhos demais, apenas malucos do rock ’n’ roll”, então podemos muito bem seguir mais devagar. A gravação é até limpa para o estilo, com instrumentos bem destacados, e os vocais aparecem roucos, porém sem aquela fúria que um dia causou arrepios.

A arte da capa, meio bizarra, também não ajuda na recepção do petardo. Fica a sensação de que a banda queria apenas manter a máquina girando, aumentar a fatura sem grandes sobressaltos — mostrar que ainda estava viva, nada além disso.

O desafio de analisar um álbum dessa estirpe vinte anos depois é perceber que aquela imagem de metalheads revoltados, isolados em florestas sombrias e caçando a própria comida com flechas, já não encontra muito espaço nesta era tecnológica e caótica. Talvez a magia estética tenha se dissipado, e o que restou foi transferir ao som uma carga de utopia enegrecida que já não encontra o mesmo eco.

A verdade é que o metal praticado pelo Darkthrone em The Cult Is Alive não assusta mais as criancinhas, não sacia a fome de old school do seu séquito e tampouco arranca sorrisos de quem busca novidades que agreguem valor à discografia. É apenas mais um álbum — e, convenhamos, nunca teve hits tocando nas rádios.

Se te faz feliz, vai fundo. 

 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

20 anos de The Black Waltz do Kalmah!!!


E o Kalmah, da Finlândia, chegava em poucos anos ao seu quarto lançamento, agora com The Black Waltz. O álbum traz uma mudança fundamental na formação em relação a Swampsong (2003): a saída do tecladista Pasi Hiltula e a entrada de Marco Sneck (Poisonblack). Fundamental porque Pasi exercia um papel crucial no som do Kalmah; ele não apenas acompanhava os instrumentais, mas criava melodias que completavam as seções rítmicas de guitarra com profundidade e criatividade superiores.

Não que Sneck não tente fazer isso em The Black Waltz, mas aqui a abordagem soa muito mais orquestral. Ainda assim, nada que freie o crescimento da banda — afinal, este álbum é sensacional. Outro grande diferencial está nos vocais de Pekka Kokko, que se mostram bem mais guturais desta vez. Parece que o camarada estava numa fase mais brutal death metal. Isso não acontece em todas as músicas, mas, se quiser um exemplo claro, ouça a faixa-título e não se assuste.

No geral, trata-se de um trabalho com músicas bastante diversificadas. A produção é excelente: o som soa límpido e poderoso, com a agressividade bem resguardada e as melodias sempre em evidência. Aqui já não se percebe aquela sensação de uma banda seguindo os caminhos de seus conterrâneos do Children of Bodom, mas sim de um grupo que encontrou definitivamente sua própria estrada, com maestria e uma precisão que ainda me fazem questionar por que o Kalmah não é mais lembrado pelos meios de comunicação metálicos ou pela maioria dos fãs.

Talvez isso se deva, além da pouca divulgação — afinal, passaram a maior parte da carreira sob as asas da Spikefarm, que não chega a ser uma gigante — ao fato de não se encaixarem perfeitamente no rótulo de melodic death metal. Há uma boa quantidade de influências no som do Kalmah: death, melodic, power, thrash e até black metal. Talvez por não caberem exatamente em um nicho específico, acabem sendo menos lembrados. Mas tudo bem, isso está longe de ser exclusividade deles.

Voltando ao petardo, “The Terminal Intensity” carrega algo de Amon Amarth, ainda que soe muito melhor do que muita coisa dos suecos. A capa não está entre as mais bonitas, mas o logo da banda passou por mudanças, ficando mais compreensível e ainda ganhou um floreio extra.

Ouça sem moderação 

 

20 anos de AssassiNation do Krisiun!!!


Eu me lembro muito bem de quando AssassiNation foi lançado. Ainda vivíamos aquela fase de conferir material em loja física, onde amigos e músicos se encontravam para discutir lançamentos, ouvir novidades e até tomar uma cerveja — geralmente nas tardes de sexta ou nas manhãs de sábado. Tudo isso numa época anterior à frieza do e-commerce. Pois bem, a impressão geral, à época, era de que o Krisiun havia tirado o pé do acelerador. Algo estranho de se dizer ouvindo o álbum hoje, mas perfeitamente compreensível. E há um culpado claro para essa sensação: o groove.

Sim, o sexto trabalho dos brasileiros pode tranquilamente ser classificado como um death groove, com afinações de guitarra um pouco estranhas ao padrão do Krisiun, deixando o som ainda mais pesado. Justamente por isso, surgem momentos que passam a impressão de “buracos” na estrutura, quando as seis cordas baixam a guarda para dar maior ênfase à bateria. A faixa de abertura (Bloodcraft) é o maior exemplo disso, trazendo melodias de guitarra que se aproximam muito mais dos dois últimos álbuns do Sepultura da era Max do que dos trabalhos anteriores do próprio Krisiun.

Não coloco isso como crítica, mas como uma justificativa para a falsa imagem de menor agressividade que tivemos há 20 anos. O brutal death metal sempre foi — e continua sendo — a proposta da banda. Ainda nessa primeira faixa, temos um ótimo solo de guitarra, sem a necessidade de soar absurdamente rápido como em músicas como H.O.G. (House of God).

“Vicious Wrath”, que ganhou um videoclipe bem barato — basicamente a banda tocando sob luzes estroboscópicas, com um Alex Camargo exibindo o lado esquerdo do rosto mutilado — é uma música típica da banda. Para quem aprecia riffs mais elaborados, “Father’s Perversion” é um dos grandes destaques do álbum, com uma estrutura que beira Morbid Angel.

Os vocais guturais continuam sendo um espetáculo à parte. Não há entrega ou enfraquecimento em momento algum, e aquele efeito de eco característico nos transporta diretamente para cavernas primitivas. No final do álbum, temos um cover do Motörhead: “Sweet Revenge”, terceira faixa do clássico Bomber (1979), que, assim como “Orgasmatron” em Arise, se tornou um momento icônico do play, guardadas as devidas proporções.

A bateria de Max Kolesne passa por cima de todos os esqueletos, como de costume — ouça “Suicidal Savagery” e se delicie com o caos sonoro. Outro destaque é “United in Decepcion”, que traz um início groove thrash épico. A arte da capa, assim como já comentado em Works of Carnage, não é exatamente do tipo que enche os olhos, mas era uma estética bastante comum na época e não se compara ao impacto de um desenho feito à mão.

AssassiNation é um álbum um tanto diferenciado dentro da discografia do Krisiun, mas não deve ser visto como algo fora da curva ou digno de apedrejamento. Pelo contrário: trata-se de uma mudança bem-vinda, justamente para evitar a saturação.


 

sábado, 31 de janeiro de 2026

20 anos de The God That Never Was do Dismember!!!


O sétimo trabalho de uma das bandas old school mais importantes da Suécia, The God That Never Was, saiu em março de 2006 e agora completa 20 anos. Rickard Cabeza, que havia gravado o baixo do petardo anterior, deixou a banda, abrindo espaço para a entrada de Martin Persson, que já excursionava com o grupo havia dois anos. Aqui, Persson assume baixo e guitarra, o mesmo ocorrendo com David Blomqvist, guitarrista original do Dismember, marcando o aguardado retorno ao formato de duas guitarras. Completam a formação o batera Fred Estby e o vocalista Matti Kärki.

The God That Never Was é um prato pesado e viciante para qualquer fã de death metal. Se em Where Ironcrosses Grow a banda voltou do hiato com o pé na porta, aqui ela se consolida (novamente) como uma das maiores forças do metal da morte do planeta. Faixas mais curtas, como a música-título que abre o disco e a fenomenal “Never Forget, Never Forgive” — com menos de dois minutos — levantam até aqueles que já se deitaram eternamente em covas profundas.

Aquela veia à la Autopsy da Califórnia ainda está presente, embora menos saltada no pescoço do que em seu antecessor, mas surge de forma cristalina na faixa “Autopsy”. Coincidência? Homenagem? Fica a provocação. Há também a lembrança do Iron Maiden, agora em forma instrumental com “Phantoms (of the Oath)”, que além do título quase gêmeo de uma pérola dos britânicos, remete diretamente à clássica “Transylvania”.

A única faixa que foge um pouco do legado do Dismember é a que encerra o álbum, “Where No Ghost Is Holy”, cujo instrumental flerta com o melodic death sueco à la In Flames, destoando da proposta old school da banda. Ainda assim, nada que comprometa o conjunto: o restante pode ser consumido sem receio, quantas vezes for necessário.

Em meio a tanta porrada maravilhosa, destaco minha favorita: “Trail of the Dead”. A música traz um breve interlúdio com sons de guerra que dialogam com a arte da capa, entra com riff pesado e bateria em mid-tempo, acelera com a chegada dos vocais guturais e cavernosos e termina com uma passagem feita sob medida para mosh e headbanging, acompanhada de um solo curto, virtuoso e espiritualmente próximo dos antigos solos de Chuck Schuldiner.

E já que falamos em capa, parece que pegaram aquele soldado com máscara de gás que estampa várias artes dos alemães do Sodom e simplesmente enfiaram uma espada em suas mãos para deixá-lo ainda mais carniceiro.

Perdeu o rumo nesses 20 anos ouvindo bandas genéricas ou se limitando apenas aos maiores clássicos de cada nome? Então corra atrás de The God That Never Was agora.