domingo, 26 de abril de 2026

20 anos de Rape From Hell do Sextrash!!!


Quando as bandas clássicas da cena mineira voltaram a lançar álbuns em meados dos anos 2000 — movimento encabeçado por Deadland (2003), do Chakal, e seguido por nomes como Holocausto, Witchhammer e Sextrash após mais de uma década sem registros — Rape From Hell, do Sextrash, foi o que mais curti. É verdade que o Chakal já havia soltado dois petardos nessa fase, incluindo o fenomenal Demon King, mas isso é outra história.

O Sextrash havia interrompido suas atividades em 1997, após a morte prematura de Oswald “Pussy Ripper” em um acidente automobilístico — uma perda que abalou profundamente a cena mineira, não só pela figura de frontman marcante, mas pela pessoa querida que era. Anos depois, o baixista Krueger reativou a banda e, ao lado do vocalista Cláudio Siqueira (Doom, ex-Brutal Distortion), do guitarrista Marck Monthebar — remanescente da formação que gravou o impecável Funeral Serenade — e do baterista Quake (ex-Obsessed), o grupo retornava com seu terceiro full-length, Rape From Hell, lançado pela Cogumelo Records.

A arte de capa, assinada por Fernando Lima, resgata o nu feminino e reforça, junto ao título, a fidelidade da banda à sua linha lírica sexual. Já na audição desatenta, o álbum pode soar homogêneo, como se priorizasse apenas a brutalidade sem maiores nuances. Mas basta parar e ouvir com cuidado para perceber que, em meio ao caos, há bastante coisa interessante acontecendo.

A começar pela produção, clara e bem definida. Ainda que a própria banda preferisse algo mais sujo, não há prejuízo aqui — pelo contrário. As palhetadas vêm um pouco abafadas, algo inerente ao death metal, enquanto os vocais de Doom seguem um gutural firme, pouco variado, mas bastante inteligível e próximo do death/thrash.

“Suck Me”, uma das melhores do disco, abre o trabalho com velocidade, descambando para um "provocamosh" logo após a segunda sequência de refrão, chegando até bem próximo do slow death na ponte para o solo estilo Cause of Death do Obituary (que coisa linda).

“Brutal Sex” começa com um efeito de guitarra um pouco estranho, mas rapidamente se ajusta quando os riffs entram em aceleração. É uma faixa mais cadenciada, que atinge um peso “bate-estaca” por volta dos dois minutos, remetendo aos tempos de D.D. Crazy. Vale destacar também a presença de dois solos distintos, mostrando que ainda havia muita lenha para queimar.

“Chemical Orgy” chega quebrando tudo, com vocais mais rasgados e diretos enfatizando o título. A música alterna bem entre velocidade e momentos mais cadenciados, com um riff que pede palco — fácil de imaginar funcionando ao vivo.

E aqui cabe um parêntese: tive a oportunidade de ver essa formação ao vivo em Belo Horizonte, durante a turnê de divulgação do álbum, abrindo para o Kreator — e me deleitei com a apresentação.

Na sequência vem minha favorita: “Fuck In All”. Pesada, com riff marcante, refrão melódico e uma parte mais rápida que se inicia com um solo bem característico da fase Funeral Serenade, além de vocais rasgados que remetem diretamente ao Campo de Extermínio do Holocausto.

“Possessed By Cruelty” abre com breakdowns que lembram “Ceremony of the Seventh Circle”, do álbum Let Us Pray, do Vital Remains. O disco segue com “Maze of the Damn Madness”, trazendo riffs malignos e vocais agressivos; a faixa-título, com pegada quase thrash e gritos femininos no momento mais diabólico das guitarras; “Lust, Money and Violence”, com bases cavalgadas e uma sonoplastia soturna bem encaixada; além de “Obscure Doors”, “Sweet Suffering” e “Tchambs”.

Um belo retorno do Sextrash ao cenário — ainda que, até aqui, tenha representado também seu último suspiro em estúdio. Fica a torcida para que não seja o final definitivo. Ainda mais sabendo que a banda voltou a ensaiar e já carrega algumas músicas novas no bolso.


 

20 anos de Memorial do Moonspell!!!



A maior banda de Portugal — e sem esforço também uma das maiores da Europa — o Moonspell vinha, pouco a pouco, deixando à mostra novamente seus dentes afiados no caminho de volta ao metal extremo. Subindo as escadas do Olimpo ou descendo os degraus do inferno, a banda já havia ensaiado esse retorno ao incorporar peso em Darkness and Hope e agressividade em The Antidote. Ainda assim, ambos permaneciam mergulhados até o pescoço no gothic metal.

Mas então veio Memorial (2006), lançado pela Steamhammer. Um novo degrau na carreira — e que degrau: em chamas. A capa, simples e belíssima, com árvores mortas sobre um fundo vermelho-sangue e a logo em branco, já antecipa o clima do álbum. Para o fã que acompanhou a banda até Irreligious, aqui soa como um retorno triunfal do filho pródigo, e um carneiro foi imolado para comemoração, ao som brutal da banda, como ela sabe fazer.

Das quatro faixas instrumentais, a abertura com “In Memoriam” foge do lugar-comum das intros descartáveis. Ela prepara o terreno, acende o pavio e provoca aquele arrepio há muito esquecido desde 96. E quando “Finisterra” entra, o impacto é imediato: guitarras densas, atmosfera sufocante e os vocais de Fernando Ribeiro em estado bruto — cavernosos, poderosos, viscerais como poucos conseguem entregar.

Ao longo do álbum, percebe-se — e até se sente falta — daquele vocal grave e gótico mais constante de outrora. Aqui, Ribeiro alterna momentos de fúria com passagens mais narrativas, reservando seu timbre mais profundo para ocasiões específicas, como em “Luna”. Essa faixa, aliás, é o respiro do disco: mais amena, sem perder identidade, e enriquecida pela participação da alemã Birgit Zacher, em sua quarta e última colaboração com a banda. Um dos pontos altos, sem dúvida, mostrando como o Moonspell expande seu próprio universo sem soar artificial.

Os teclados, divididos entre Ricardo Amorim e Pedro Paixão, são uma presença constante — muitas vezes assumindo protagonismo à frente das guitarras. Não comprometem o resultado, mas em certos momentos fica a sensação de que riffs mais evidentes poderiam elevar ainda mais o peso do conjunto.

Na bateria, Miguel Gaspar atua com precisão e discrição, sustentando a base com eficiência, mas também surpreendendo com momentos mais extremos, como os blast beats em “Finisterra”.

Os solos são econômicos, quase raros, e talvez por isso se destaquem tanto quando aparecem — como na excelente faixa bônus “Atlantic”, que facilmente poderia ocupar lugar no corpo principal do álbum, substituindo canções menos impactantes como “Upon the Blood of Men” ou “At the Image of Pain”. E aqui vale o ajuste: “menos impactantes” dentro de um disco que opera em nível alto — ainda superiores a muito do que a fase mais experimental da banda produziu.

Entre os grandes momentos, ainda se destacam “Memento Mori”, “Sanguine”, “Once It Was Ours!” e “Best Forgotten”.

Memorial não é um álbum de classificação simples. Para quem busca um rótulo, algo como death/black com fortes nuances góticas talvez se aproxime do ideal. Mas, no fim das contas, rótulos pouco importam diante de um trabalho que reafirma identidade, resgata agressividade e reposiciona a banda com autoridade.

Curiosamente, não há lembrança de um lançamento oficial desse artefato no Brasil — o que, convenhamos, seria uma jogada mais do que bem-vinda. Selos, alguém se habilita?


 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

20 anos de Sodom do Sodom!!!


É até estranho dizer que se esperava um álbum mais comercial do Sodom. Mas é exatamente essa a sensação depois de cinco anos de espera. Afinal, a banda vinha de nada menos que Code Red e M-16, duas bombas sensacionais que ampliaram o leque do grupo, trazendo um som mais carregado de personalidade — músicas com vida própria, sem depender de fórmulas ou padrões pra existir.

Até dá pra perceber isso no 11º álbum dos alemães, Sodom, lançado em 2006. Mas há algo que o impede de alçar voos mais altos. E sejamos justos: não estamos falando de um trabalho fraco — pelo contrário, é muito bom. Só que, se alguém esperava algo próximo de um “Black Album” da banda, acabou esbarrando em uma característica peculiar do trio: a produção suja.

Elementar, meu caro Watson. Uma distorção crua, agressiva até demais pra alcançar um estrelato maior — ainda que esse nunca tenha sido exatamente o objetivo dos caras, e convenhamos, nem de boa parte dos fãs. Nesse sentido, M-16 segue sendo o ponto mais próximo de uma “superprodução” dentro da discografia da banda.

Voltando ao opus, com uma capa escura que não desperta grande emoção, o petardo abre com “Blood On Your Lips”. Não é das mais agressivas nem das mais rápidas, mas permanece na memória mesmo após duas décadas — uma faixa obscura, sustentada por um riff cavalgado interessante, embora talvez pedisse uma ponte que o levasse a algo menos previsível.

“Wanted Dead” já mostra que a banda não cairia na repetição, trazendo um solo de guitarra com evolução melódica. A sequência do álbum vai revelando uma progressão: as músicas ganham corpo, aumentam o peso e encontram direções mais definidas, sem fugir da proposta. “Axis of Evil”, por exemplo, apresenta um baixo gordo, vocais narrados e um riff pesado com uma pegada quase americana.

A velocidade arranca sorrisos em “Lords of Depravity”, mas especialmente em “Bibles And Guns”, outra faixa acima da média. O mesmo vale para “City of God”, que ganhou videoclipe e talvez represente o momento mais “comercial” do disco — e isso não é demérito, mas sim reflexo da capacidade de Tom Angelripper, Bernemann e Bobby Schottkowski em equilibrar agressividade e um thrash mais trabalhado dentro da mesma proposta.

“No Captures” captura bem essa dualidade (sem trocadilho proposital): começa no estilo rápido e sujo do thrash alemão, apresenta um solo quase virtuoso e, na sequência, engata um riff mais aberto na melhor escola Slayer, com Tom despejando seu vocal agressivo e inconfundível.

E falando nele, talvez seu melhor momento no álbum esteja em “Lay Down The Law”, mostrando que Angelripper conseguiu preservar sua agressividade vocal melhor que muitos de seus contemporâneos do thrash alemão.

Não é o masterpiece que alguns esperavam — mas é bom pra caracolas!

segunda-feira, 20 de abril de 2026

20 anos de Under The Mind's Sheet do Eternal Fall!!!


O logo e a fonte utilizados no título do segundo álbum do Eternal Fall neste post são diferentes da arte que publicamos em 2019, mas trata-se do mesmo disco já resenhado por aqui — naquela ocasião, por conta de seu relançamento, quando recebeu o carimbo de “fudido” do M&L. Ainda assim, não dava pra deixar passar batido o aniversário de 20 anos de uma das bandas de death doom mais importantes do cenário nacional, mais precisamente de Belo Horizonte, com seu segundo trabalho de 2006, Under The Mind's Sheet.

Com André Salatiel nos vocais, João Silva na guitarra, Anderson Gualberto no baixo e Luiz Toledo na bateria, a banda arrastava ainda mais o seu som em relação ao debut, caprichando na morbidez — algo perceptível já de cara em “For The Eternity”, quando uma voz sinistra e narrada inicia a jornada, acompanhada apenas por baixo e um piano soturno.

A banda atravessava um processo meio conturbado de troca de vocalista: o original Salatiel retornava a tempo de gravar as vozes deste play — uma decisão mais que acertada, já que seu vocal rosnado e cavernoso casa perfeitamente com o instrumental. “Angústia Suprema” é a primeira faixa em português do álbum, com dedilhados de guitarra sustentando uma melodia agonizante, enquanto “Tears To The Wind” traz passagens narradas que remetem a Darren White, vocalista original do Anathema.

A instrumental “Zahir” — palavra de origem árabe — apresenta uma melodia de guitarra levemente oriental, o que pode ter inspirado o nome. Popularmente, o termo remete a algo em que você não consegue parar de pensar, e também intitula obras do brasileiro Paulo Coelho e do argentino Jorge Luis Borges.

Em “Valhalla”, a banda até acelera um pouco o ritmo, mas nada comparado à ótima “Amaldiçoado”, segunda faixa em português, que começa com teclados, engata um riff muito interessante, acelera no momento mais death metal do álbum e termina com falas que remetem imediatamente ao Rotting Christ em seu excelente Passage to Arcturo.

A faixa-título, mesmo com várias facetas, também evidencia a influência dos paranaenses do Amen Corner, especialmente em uma passagem cuja melodia remete ao EP Darken In Quir Hareset.

O interessante é que, mesmo absorvendo influências diversas, o som do Eternal Fall mantém uma aura única: arrastada, mórbida, por vezes indo além do puro death doom — um prato cheio pra quem aprecia seres rastejantes sobre a terra úmida.

“The Old And The Mirror” encerra o trabalho com a mesma pegada e qualidade indiscutível de todo o artefato.

Se não conhece, procure.


quinta-feira, 16 de abril de 2026

20 anos de Afterburner do Sinister!!!


Como já falamos na resenha de Savage or Grace, a banda passava por um momento conturbado durante sua gravação, o que acabou levando ao encerramento das atividades pouco depois, em 2003. Mas o grupo holandês Sinister retornou — e com mudanças interessantes: o baterista original Aad largou as baquetas para assumir os vocais, enquanto o baixista Alex Paul também voltava, gravando tanto as 4 quanto as 6 cordas. Já o novato Paul Beltman iniciava seu curto período de dois anos socando o kit.

Esse retorno pariu Afterburner, o sétimo trabalho do Sinister, uma obra infinitamente superior ao seu antecessor e, até hoje, um dos melhores da banda. Começando pela arte da capa que, mesmo naquela confusão de Photoshop, ficou bem interessante — com o monstro maligno e todas as tetas espalhadas.

Musicalmente, o play é um atropelo. Na maior parte do tempo acelerado, mas com passagens mais cadenciadas muito bem encaixadas — vide a faixa-título, a melhor do álbum, cujo refrão mais lento é simplesmente um dos melhores que o death metal já concebeu.

“The Grey Massacre” abre a pedrada com maestria: rápida, com ótimas viradas de bateria, riffs pesados e um vocal ultra gutural excelente, ainda com espaço para o baixo aparecer. “Altruistic Suicide” mantém a pancadaria até desembocar num andamento médio perfeito para o mosh.

Quando você pega uma música como “Presage of the Mindless” e acompanha a letra, fica difícil não notar certa similaridade com Chris Barnes, especialmente pela abordagem vocal que remete ao trabalho dele no Six Feet Under ou no álbum "The Bleeding" do Cannibal Corpse. Em quase 8 minutos, com direito a solo de guitarra, a faixa despeja momentos arrastados em meio ao caos acelerado, trazendo riffs técnicos que não soam cansativos dentro da estrutura.

Há também alguns trechos narrados aqui e ali, mas nada que torne a audição monótona — pelo contrário, agregam valor à bolacha. Já “The Riot Crossfire” é a mais curta e uma das mais brutais do disco, com uma parte de guitarra menos agressiva e mais pesada em sua metade, remetendo de forma certeira aos americanos do Obituary.

Se você se deixou levar pelo desânimo com a banda após alguns álbuns irrelevantes que sucederam o início matador com Cross the Styx e Diabolical Summoning, e acabou deixando passar Afterburner, talvez seja a hora perfeita de corrigir isso — ainda mais agora que ele completa 20 anos.

Furioso e excelente!


 

20 anos de Haeresis do Expulser!!!


O Expulser nasceu em 1987 na cidade de Lavras, no interior de Minas Gerais, distante cerca de 230 km da capital Belo Horizonte, e hoje com mais de 105 mil habitantes. Era a época do boom do maior movimento metálico brasileiro, quando a MGArea ganhava contornos de movimento clássico do underground — e no mesmo ano em que vieram à luz os icônicos Schizophrenia, do Sepultura, e I.N.R.I., do Sarcófago.

Lançaram pela Cogumelo Records, em 1992, o álbum The Unholy One que, para mim, é o melhor disco lançado por uma banda mineira fora das imediações da capital. Em 2006, em meio a uma turbulenta separação entre os integrantes, saiu o segundo trabalho, Haeresis, de forma praticamente independente — momento em que a banda encerrou atividades, para retornar muitos anos depois.

Haeresis não tem a mesma aura do debut e, na formação que o concebeu, apenas o guitarrista D. Strike da fase inicial permanecia, agora assumindo também parte dos vocais. O outro vocalista e guitarrista era Jose Bougleux, enquanto o baixo ficou a cargo de Maria Juanna e a bateria de Kiko Ciociola (hoje na banda de thrash Aneurose).

Os vocais vêm gritados em uníssono — tanto o gutural quanto o rasgado, quase no limite. A única lembrança mais direta da fase áurea aparece na bateria “bate-estaca”, com a inclusão incessante dos pedais duplos. As guitarras, que outrora flertavam com o thrash, agora se voltam mais ao death metal, com alguma melodia pouco convencional — há até uma viagem astral no início de “Dismembering God”, que chega a 7 minutos de duração (a música, não a viagem).

Outras duas faixas instrumentais também aparecem no disco, sendo que “Blessed Angels”, com seus 4 minutos à la Morbid Angel, merecia um bom vocal. Dá pra pinçar alguns bons momentos de solos, como em “The Pages”, faixa resgatada da demo de 2004, junto com “Nevermore” e “The Enchanter”, que abre a bolacha.

Um detalhe que não dá pra deixar passar é a faixa que encerra o álbum e dá nome a ele: “Haeresis”. Porque ela realmente é uma heresia para o death metal. Ouça e comprove!


 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

20 anos de Metal Black do Venom!!!


Lembro de quando o 11º álbum de estúdio dos ingleses do Venom foi anunciado: chegou cercado por um misto de curiosidade e desconfiança. Afinal, a arte da capa era fenomenal, uma das melhores da história da banda, porém o uso do nome de seu maior álbum com a troca de posição das palavras soava muito mal. E ficava a pergunta: viria o Venom com um trabalho à altura de Black Metal de 1982?

Uma coisa já preocupava: o guitarrista Mantas havia pulado fora após o álbum anterior, Resurrection, e em seu lugar entrou Mike Hickey (creditado como Mykus), que já havia participado de Calm Before the Storm de 1987, além de trabalhos solo de Cronos. Após as especulações, era hora de conferir o que realmente importa: as músicas de Metal Black. E a empolgação era grande, afinal Resurrection foi um primor digno de nota 10.

Mas quando a faixa “Antechrist” abre o play (com esse “e” mesmo, grafado errado), a primeira coisa que vem à mente é: “o álbum foi mixado? Teve problema na produção? Que merda de som é essa?”. Ok, alguns vão dizer que foi proposital, que Cronos queria entregar algo com a sonoridade oitentista, suja e deficiente. Se o Sepultura fizesse algo parecido até seria interessante, porque a produção de Morbid Visions ou Bestial Devastation, mesmo com poucos recursos, ainda soa muito bem; ao passo que ouvir Welcome to Hell hoje em dia, por exemplo, é decepcionante justamente pela baixa qualidade de gravação. E o Venom resolve fazer exatamente a mesma coisa? Nota zero pra eles.

E sabe o que é ainda mais triste? São boas músicas. Conseguindo filtrar a qualidade do som, percebe-se que as composições seguem o caminho que a banda havia iniciado seis anos antes, no álbum anterior. Músicas pesadas, com bons riffs, vocal ainda excelente de Cronos e uma bateria sem muito brilho de Antton, mas cumprindo seu papel. “House of Pain”, “Rége Satanas” e “Assassin” são boas faixas que ao vivo devem soar muito bem. Uma pena o Venom tê-las trucidado com essa sonoridade pobre e suja.

Um destaque absoluto é “Hours of Darkness”, música de andamento mais lento e mais trabalhada; se estivesse em Resurrection, seria um clássico da banda.

Enfim, algumas ideias às vezes simplesmente não funcionam. Acredito que Cronos tenha dado ouvidos a pessoas próximas que acusaram Resurrection de ser polido demais. É o único motivo que explica essa guinada negativa, que prejudicou deveras um momento que poderia ter sido muito mais marcante na trajetória da banda.