sábado, 30 de maio de 2026

20 anos de Homem Inimigo do Homem do Ratos de Porão!!!


Considerando todos os álbuns lançados em português e suas respectivas versões em inglês, o Ratos de Porão chegava, em 2006, ao seu 15º trabalho de estúdio: Homem Inimigo do Homem.

Começando pela arte da capa, vemos dois homens adultos saindo na porrada enquanto a imprensa registra tudo — ou quase tudo, já que o cinegrafista à direita parece mais interessado em um desenho do Mickey. Ao redor, uma plateia formada por pessoas e macacos se diverte assistindo à violência. Nada que não tenha piorado nos últimos vinte anos.

A formação clássica, com João Gordo nos vocais, Jão na guitarra, Boka na bateria e Juninho no baixo, retornava quatro anos após o lançamento de Onisciente Coletivo com mais meia hora de pancadaria sonora e crítica social. E sobrou para todo mundo: da Igreja, em "Pedofilia Santa", à polícia, em "PMs de Satã", sem esquecer de um certo Luis em "Quem Te Viu..." (sim, escrito com S de propósito, mas todos sabemos que o motivo da música se escreve com Z).

Musicalmente, o som é aquele crossover violento que transformou o R.D.P. em uma das bandas mais respeitadas da América do Sul. A alternância dos vocais entre o urrado e um gritado menos grave é um dos diferenciais do álbum, e em "Quem Te Viu..." esse recurso produz um efeito sensacional.

Alguns solos de guitarra surgem em faixas como "Covardia de Plantão", deixando tudo ainda mais interessante. A produção também merece elogios: as linhas de baixo são claramente audíveis, enquanto a distorção soa como um soco na cara seguido de alguns pontapés.

Para entender todas as letras, porém, talvez você precise recorrer ao encarte, porque João Gordo despeja suas palavras em uma velocidade impressionante.

Vale a pena separar trinta minutos do seu dia para encarar essa porrada.


 

sábado, 23 de maio de 2026

20 anos de Ruun do Enslaved!!!


Não se chega a nove álbuns de estúdio fazendo música ruim. Partindo disso, e até como defesa diante das acusações direcionadas à música muitas vezes difícil de compreender da banda norueguesa Enslaved, podemos dizer que música ruim realmente existe — mas existe também música boa para certos ouvidos.

Você, fã de metal extremo, especialmente de black metal, que acredita que tudo o que o Darkthrone faz desde o nascimento é o único paradoxo aceito na comunidade, provavelmente arrepia só de ouvir o nome Enslaved. Mas talvez se surpreenda ao ouvir Ruun, lançado em 2006.

Em meio a toda a progressividade encontrada aqui, quase nada se compara às loucuras e experimentações registradas em Monumension, tornando a audição deste petardo muito mais coerente com o universo ao qual estamos acostumados a acordar todos os dias — ou noites.

Logo de início, em “Entroper”, temos a faixa mais metal do trabalho: rápida, carregada de riffs cheirando a enxofre e mostrando que parte da melancolia do álbum anterior, Isa, ficou pelo caminho. Conforme o álbum avança, fica evidente que a banda está mais raivosa desta vez.

Momentos como “Api-vat”, mesmo com teclados quebrando o instrumental gelado, mostram um Enslaved menos interessado em divagações e mais disposto ao confronto sangrento, voltando a caminhar por todos os invernos, como diz sua letra.

Em “Path to Vanir”, o ritmo desacelera um pouco, mas ainda assim temos uma das melhores músicas do álbum. Seu encerramento traz uma passagem extremamente calma, onde os vocais limpos aparecem. E é bom frisar: eles são usados com certa moderação aqui, já que Grutle Kjellson já abusou desse recurso em outros trabalhos da banda.

“Fusion of Sense and Earth” também merece destaque. Sua estrutura é um deleite para quem procura algo mais melódico, com camadas de teclado profundas e anestesiantes.

A maior viagem de Ruun fica para a faixa de encerramento, “Heir to the Cosmic Seed”. Ainda assim, mesmo com vozes limpas e guitarras estelares, ela talvez contenha as melodias mais belas do álbum, incluindo um solo que beira Pink Floyd sobre uma base completamente distorcida.

No fim das contas, Ruun me caiu melhor do que os três trabalhos anteriores do Enslaved. 

 

domingo, 17 de maio de 2026

20 anos de Veronika Decides To Die do Saturnus!!!


Já li várias obras do escritor brasileiro Paulo Coelho. O Diário de um Mago, O Demônio e a Srta. Prym, Onze Minutos, Brida, O Zahir e o melhor deles, O Alquimista. Ainda assim, nunca tive a oportunidade de ler Veronika Decide Morrer, justamente a obra que dá nome ao terceiro álbum da banda dinamarquesa Saturnus. Mesmo com o título retirado do livro, a banda afirma que as letras não refletem diretamente aquilo que encontramos em suas páginas.

A verdade é que o lirismo apresentado aqui nasce de um desespero legítimo, onde amor, dor, desolação e escuridão se misturam ao sabor salgado das lágrimas. Ouvir Veronika Decides to Die é mergulhar em uma jornada fria, doce e sensível, onde sentimentos que jamais ousamos revelar sob a luz brotam da alma em nossos momentos mais amargurados.

A produção é cristalina sem esconder o peso. Pelo contrário: reforça as melodias inquietantes, onde todos os instrumentos se unem para idealizar a tragédia da imperfeição humana. Os solos de guitarra, longos e belíssimos, conduzem o ouvinte a um estado de espírito quase inebriante. As passagens de bateria também não servem apenas como detalhe; foram cuidadosamente pensadas para enriquecer as linhas e reafirmar sua importância dentro do melodic death/doom, sem sequer fingir acelerações desnecessárias apenas para quebrar nuances. Este trabalho não precisa destruir nada além de nossas almas.

Tais Pedersen e Peter Poulsen eram os responsáveis pelas belas melodias nas seis cordas, com Lennart Jacobsen no baixo e Nikolaj Borg na bateria. Nos teclados, Anders Nielsen — presente na banda desde 1994 e realizando aqui seu último trabalho com o grupo — enquanto Thomas Jensen assumia os vocais, sendo hoje o único integrante daquela formação ainda presente na banda. Sua voz transita pelo gutural tradicional, pelo narrado e por um gutural mais aberto, como podemos ouvir em “Pretend”.

São oito hinos espalhados por praticamente uma hora de música, onde momentos mais introspectivos, compostos apenas por dedilhados, teclados e vozes limpas, fazem você mergulhar em um lago gelado, como acontece em “All Alone”. Os solos viajantes estão por toda parte, mas destacar “Descending” é indispensável.

Ainda assim, você não precisa se prender a uma faixa específica. Veronika Decides to Die foi feito para ser sofrido em sua totalidade.

Se você ainda não foi completamente corrompido pela modernidade — essa era em que música se tornou descartável e gravadoras pedem até mesmo a bandas gigantes que eliminem minutos acústicos de seus lançamentos — tire um momento da sua noite para ouvir este artefato com calma. Abra o coração e sinta o sangue correndo pelas veias, porque você está vivo. 

 

domingo, 10 de maio de 2026

20 anos de Kvass do Kampfar!!!


Se você está em busca de um álbum de black metal norueguês empolgante, recheado de riffs velozes e bateria destruindo tudo pela frente... melhor procurar outro disco para ouvir. O terceiro trabalho dos noruegueses do Kampfar não entrega exatamente esse tipo de brutalidade, ainda que alguns momentos justifiquem essa expectativa, como em “Ravenheart”. Terceira faixa de um álbum com apenas seis músicas, ela é a primeira a realmente flertar com a velocidade. Curiosamente, também é a única cantada em inglês, e a voz de Dolk soa muito bem na língua universal.

Foi um erro gigantesco não abrir o álbum com essa música, já que a escolhida para essa tarefa milenarmente importante foi “Lyktemenn”, uma daquelas faixas feitas sob medida para qualquer ouvinte menos resiliente desistir da audição. Em seus mais de oito minutos, ela é extremamente monótona. O riff apático praticamente não muda, assim como as batidas da bateria. O vocal, para piorar, soa quase como uma narração, entoado da mesma maneira do início ao fim.

É verdade que o Pagan Black Metal não precisa necessariamente apresentar elementos musicais óbvios que indiquem imediatamente sua ligação com o paganismo — como passagens folk ou viking, por exemplo — deixando muitas vezes essa responsabilidade para as letras. Mas o som do Kampfar, ao menos em Kvass — e sem dar spoiler, também em seu sucessor — carece de alguma característica mais marcante que demonstre uma identidade realmente firme em seus ideais, não ficando apenas nesse black metal insípido flertando com a natureza e seus poderes.

Por outro lado, se sua procura for por algo mais “viagem”, um som extremo para relaxar, mas sem cair totalmente no atmosférico, e que ainda possa trazer longas e até cansativas passagens de teclado, Kvass pode acabar sendo uma boa opção. “Hat Og Avind”, inclusive, traz uma ótima pegada black metal, com guitarras em trêmulo que remetem diretamente às bandas clássicas dos anos 90.

Já “Gaman Av Drommer” incorpora muito mais o espírito pagan folk, proporcionando um excelente encerramento para o álbum, com Ask entregando seu melhor trabalho na bateria e vocais muito mais empolgantes e agressivos.

No fim das contas, Kvass erra apenas em sua faixa de abertura. Passando por ela sem dormir, o restante do álbum oferece músicas bastante interessantes para quem realmente procura um som “viagem”, mas sem mergulhar completamente no black metal atmosférico.



 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

20 anos de Reinkaos do Dissection!!!

O derradeiro álbum do Dissection, Reinkaos, completou 20 anos ontem, 30 de abril de 2026. Considerada por muitos fãs uma das bandas mais importantes surgidas na Suécia, o Dissection — liderado por Jon Nödtveidt — entregou dois clássicos absolutos do black metal nos anos 90: The Somberlain e Storm of the Light’s Bane, antes de seu líder ser preso, em 1997, por participação em um assassinato.

Após sete anos atrás das grades, Jon concebeu o último trabalho da banda ao lado do guitarrista italiano Set Teitan e do baterista Tomas Asklund (ex-Dark Funeral). O baixo ficou a cargo de Brice Leclercq, do Nightrage, embora não tenha sido creditado como membro oficial.

Musicalmente, o álbum desagradou uma grande parcela dos fãs pela mudança de proposta: aqui, o som se aproxima muito mais de um death metal melódico, com a malignidade black aparecendo de forma mais sutil. Por outro lado, há quem idolatre o disco — seja pela devoção à figura de Jon como um verdadeiro black metalhead, seja por não se identificar tanto com a fase mais crua da banda, ou simplesmente porque Reinkaos funciona muito bem dentro do que se propõe.

Pessoalmente, reconheço que deveria ter tido mais contato com a fase inicial. Se tivesse conhecido os dois primeiros álbuns ainda no fim dos anos 90, provavelmente o Dissection estaria entre minhas bandas favoritas. Mas foi só anos depois, na casa de um amigo, que tive meu primeiro contato com Reinkaos — e foi amor à primeira audição. Eu realmente não esperava algo tão envolvente.

Reinkaos não é uma obra-prima revolucionária nem um marco de inovação. Pelo contrário: é um trabalho relativamente simples, com produção cristalina e direta. Os riffs de guitarra flertam com o power metal, e os momentos mais acelerados são poucos. Não há explosões de bateria, nem blast beats. O grande destaque fica para os solos: melodias acima da média, carregadas de emoção — especialmente na faixa-título instrumental, que entrega um dos momentos mais marcantes do disco.

“Xeper-i-Set” é a faixa mais energética, ainda que seu riff soe quase alto astral demais para o histórico da banda. “Internal Fire” também traz mais agressividade, com bumbos mais acelerados, mas no geral o álbum caminha em andamentos médios. Os vocais rasgados e inconfundíveis de Jon são um dos pilares do trabalho — e, sem eles, talvez o disco não tivesse o mesmo impacto.

Minha favorita é “Dark Mother Divine”. Desde a primeira audição, ela se destacou com sua introdução mais contida e um desfecho explosivo. Ainda assim, outros fãs costumam apontar diferentes preferidas, como a faixa de encerramento “Maha Kali” — talvez a que mais se aproxima da proposta black, contando com a participação da vocalista Nyx 218, cuja identidade permanece desconhecida. “Beyond the Horizon” e “Starless Aeon” também aparecem com frequência entre as mais lembradas.

Reinkaos pode ser definido como um disco pop lançado no inferno — onde tudo, por natureza, soa mais pesado e carregado. Seu conteúdo ocultista, profundamente ligado à visão de mundo de Jon, dialoga diretamente com quem compartilha desse tipo de filosofia. Mas, acima de tudo, o que realmente importa é que, mesmo diante de uma mudança tão significativa de estilo, trata-se de uma obra atemporal.

Satisfeito com o resultado, Jon tirou a própria vida pouco mais de três meses após o lançamento — o que inevitavelmente torna a experiência de ouvir Reinkaos ainda mais densa, enigmática e carregada de significado do que qualquer outra obra da banda.


 

domingo, 26 de abril de 2026

20 anos de Rape From Hell do Sextrash!!!


Quando as bandas clássicas da cena mineira voltaram a lançar álbuns em meados dos anos 2000 — movimento encabeçado por Deadland (2003), do Chakal, e seguido por nomes como Holocausto, Witchhammer e Sextrash após mais de uma década sem registros — Rape From Hell, do Sextrash, foi o que mais curti. É verdade que o Chakal já havia soltado dois petardos nessa fase, incluindo o fenomenal Demon King, mas isso é outra história.

O Sextrash havia interrompido suas atividades em 1997, após a morte prematura de Oswald “Pussy Ripper” em um acidente automobilístico — uma perda que abalou profundamente a cena mineira, não só pela figura de frontman marcante, mas pela pessoa querida que era. Anos depois, o baixista Krueger reativou a banda e, ao lado do vocalista Cláudio Siqueira (Doom, ex-Brutal Distortion), do guitarrista Marck Monthebar — remanescente da formação que gravou o impecável Funeral Serenade — e do baterista Quake (ex-Obsessed), o grupo retornava com seu terceiro full-length, Rape From Hell, lançado pela Cogumelo Records.

A arte de capa, assinada por Fernando Lima, resgata o nu feminino e reforça, junto ao título, a fidelidade da banda à sua linha lírica sexual. Já na audição desatenta, o álbum pode soar homogêneo, como se priorizasse apenas a brutalidade sem maiores nuances. Mas basta parar e ouvir com cuidado para perceber que, em meio ao caos, há bastante coisa interessante acontecendo.

A começar pela produção, clara e bem definida. Ainda que a própria banda preferisse algo mais sujo, não há prejuízo aqui — pelo contrário. As palhetadas vêm um pouco abafadas, algo inerente ao death metal, enquanto os vocais de Doom seguem um gutural firme, pouco variado, mas bastante inteligível e próximo do death/thrash.

“Suck Me”, uma das melhores do disco, abre o trabalho com velocidade, descambando para um "provocamosh" logo após a segunda sequência de refrão, chegando até bem próximo do slow death na ponte para o solo estilo Cause of Death do Obituary (que coisa linda).

“Brutal Sex” começa com um efeito de guitarra um pouco estranho, mas rapidamente se ajusta quando os riffs entram em aceleração. É uma faixa mais cadenciada, que atinge um peso “bate-estaca” por volta dos dois minutos, remetendo aos tempos de D.D. Crazy. Vale destacar também a presença de dois solos distintos, mostrando que ainda havia muita lenha para queimar.

“Chemical Orgy” chega quebrando tudo, com vocais mais rasgados e diretos enfatizando o título. A música alterna bem entre velocidade e momentos mais cadenciados, com um riff que pede palco — fácil de imaginar funcionando ao vivo.

E aqui cabe um parêntese: tive a oportunidade de ver essa formação ao vivo em Belo Horizonte, durante a turnê de divulgação do álbum, abrindo para o Kreator — e me deleitei com a apresentação.

Na sequência vem minha favorita: “Fuck In All”. Pesada, com riff marcante, refrão melódico e uma parte mais rápida que se inicia com um solo bem característico da fase Funeral Serenade, além de vocais rasgados que remetem diretamente ao Campo de Extermínio do Holocausto.

“Possessed By Cruelty” abre com breakdowns que lembram “Ceremony of the Seventh Circle”, do álbum Let Us Pray, do Vital Remains. O disco segue com “Maze of the Damn Madness”, trazendo riffs malignos e vocais agressivos; a faixa-título, com pegada quase thrash e gritos femininos no momento mais diabólico das guitarras; “Lust, Money and Violence”, com bases cavalgadas e uma sonoplastia soturna bem encaixada; além de “Obscure Doors”, “Sweet Suffering” e “Tchambs”.

Um belo retorno do Sextrash ao cenário — ainda que, até aqui, tenha representado também seu último suspiro em estúdio. Fica a torcida para que não seja o final definitivo. Ainda mais sabendo que a banda voltou a ensaiar e já carrega algumas músicas novas no bolso.


 

20 anos de Memorial do Moonspell!!!



A maior banda de Portugal — e sem esforço também uma das maiores da Europa — o Moonspell vinha, pouco a pouco, deixando à mostra novamente seus dentes afiados no caminho de volta ao metal extremo. Subindo as escadas do Olimpo ou descendo os degraus do inferno, a banda já havia ensaiado esse retorno ao incorporar peso em Darkness and Hope e agressividade em The Antidote. Ainda assim, ambos permaneciam mergulhados até o pescoço no gothic metal.

Mas então veio Memorial (2006), lançado pela Steamhammer. Um novo degrau na carreira — e que degrau: em chamas. A capa, simples e belíssima, com árvores mortas sobre um fundo vermelho-sangue e a logo em branco, já antecipa o clima do álbum. Para o fã que acompanhou a banda até Irreligious, aqui soa como um retorno triunfal do filho pródigo, e um carneiro foi imolado para comemoração, ao som brutal da banda, como ela sabe fazer.

Das quatro faixas instrumentais, a abertura com “In Memoriam” foge do lugar-comum das intros descartáveis. Ela prepara o terreno, acende o pavio e provoca aquele arrepio há muito esquecido desde 96. E quando “Finisterra” entra, o impacto é imediato: guitarras densas, atmosfera sufocante e os vocais de Fernando Ribeiro em estado bruto — cavernosos, poderosos, viscerais como poucos conseguem entregar.

Ao longo do álbum, percebe-se — e até se sente falta — daquele vocal grave e gótico mais constante de outrora. Aqui, Ribeiro alterna momentos de fúria com passagens mais narrativas, reservando seu timbre mais profundo para ocasiões específicas, como em “Luna”. Essa faixa, aliás, é o respiro do disco: mais amena, sem perder identidade, e enriquecida pela participação da alemã Birgit Zacher, em sua quarta e última colaboração com a banda. Um dos pontos altos, sem dúvida, mostrando como o Moonspell expande seu próprio universo sem soar artificial.

Os teclados, divididos entre Ricardo Amorim e Pedro Paixão, são uma presença constante — muitas vezes assumindo protagonismo à frente das guitarras. Não comprometem o resultado, mas em certos momentos fica a sensação de que riffs mais evidentes poderiam elevar ainda mais o peso do conjunto.

Na bateria, Miguel Gaspar atua com precisão e discrição, sustentando a base com eficiência, mas também surpreendendo com momentos mais extremos, como os blast beats em “Finisterra”.

Os solos são econômicos, quase raros, e talvez por isso se destaquem tanto quando aparecem — como na excelente faixa bônus “Atlantic”, que facilmente poderia ocupar lugar no corpo principal do álbum, substituindo canções menos impactantes como “Upon the Blood of Men” ou “At the Image of Pain”. E aqui vale o ajuste: “menos impactantes” dentro de um disco que opera em nível alto — ainda superiores a muito do que a fase mais experimental da banda produziu.

Entre os grandes momentos, ainda se destacam “Memento Mori”, “Sanguine”, “Once It Was Ours!” e “Best Forgotten”.

Memorial não é um álbum de classificação simples. Para quem busca um rótulo, algo como death/black com fortes nuances góticas talvez se aproxime do ideal. Mas, no fim das contas, rótulos pouco importam diante de um trabalho que reafirma identidade, resgata agressividade e reposiciona a banda com autoridade.

Curiosamente, não há lembrança de um lançamento oficial desse artefato no Brasil — o que, convenhamos, seria uma jogada mais do que bem-vinda. Selos, alguém se habilita?