domingo, 8 de fevereiro de 2026

20 anos de The Black Waltz do Kalmah!!!


E o Kalmah, da Finlândia, chegava em poucos anos ao seu quarto lançamento, agora com The Black Waltz. O álbum traz uma mudança fundamental na formação em relação a Swampsong (2003): a saída do tecladista Pasi Hiltula e a entrada de Marco Sneck (Poisonblack). Fundamental porque Pasi exercia um papel crucial no som do Kalmah; ele não apenas acompanhava os instrumentais, mas criava melodias que completavam as seções rítmicas de guitarra com profundidade e criatividade superiores.

Não que Sneck não tente fazer isso em The Black Waltz, mas aqui a abordagem soa muito mais orquestral. Ainda assim, nada que freie o crescimento da banda — afinal, este álbum é sensacional. Outro grande diferencial está nos vocais de Pekka Kokko, que se mostram bem mais guturais desta vez. Parece que o camarada estava numa fase mais brutal death metal. Isso não acontece em todas as músicas, mas, se quiser um exemplo claro, ouça a faixa-título e não se assuste.

No geral, trata-se de um trabalho com músicas bastante diversificadas. A produção é excelente: o som soa límpido e poderoso, com a agressividade bem resguardada e as melodias sempre em evidência. Aqui já não se percebe aquela sensação de uma banda seguindo os caminhos de seus conterrâneos do Children of Bodom, mas sim de um grupo que encontrou definitivamente sua própria estrada, com maestria e uma precisão que ainda me fazem questionar por que o Kalmah não é mais lembrado pelos meios de comunicação metálicos ou pela maioria dos fãs.

Talvez isso se deva, além da pouca divulgação — afinal, passaram a maior parte da carreira sob as asas da Spikefarm, que não chega a ser uma gigante — ao fato de não se encaixarem perfeitamente no rótulo de melodic death metal. Há uma boa quantidade de influências no som do Kalmah: death, melodic, power, thrash e até black metal. Talvez por não caberem exatamente em um nicho específico, acabem sendo menos lembrados. Mas tudo bem, isso está longe de ser exclusividade deles.

Voltando ao petardo, “The Terminal Intensity” carrega algo de Amon Amarth, ainda que soe muito melhor do que muita coisa dos suecos. A capa não está entre as mais bonitas, mas o logo da banda passou por mudanças, ficando mais compreensível e ainda ganhou um floreio extra.

Ouça sem moderação 

 

20 anos de AssassiNation do Krisiun!!!


Eu me lembro muito bem de quando AssassiNation foi lançado. Ainda vivíamos aquela fase de conferir material em loja física, onde amigos e músicos se encontravam para discutir lançamentos, ouvir novidades e até tomar uma cerveja — geralmente nas tardes de sexta ou nas manhãs de sábado. Tudo isso numa época anterior à frieza do e-commerce. Pois bem, a impressão geral, à época, era de que o Krisiun havia tirado o pé do acelerador. Algo estranho de se dizer ouvindo o álbum hoje, mas perfeitamente compreensível. E há um culpado claro para essa sensação: o groove.

Sim, o sexto trabalho dos brasileiros pode tranquilamente ser classificado como um death groove, com afinações de guitarra um pouco estranhas ao padrão do Krisiun, deixando o som ainda mais pesado. Justamente por isso, surgem momentos que passam a impressão de “buracos” na estrutura, quando as seis cordas baixam a guarda para dar maior ênfase à bateria. A faixa de abertura (Bloodcraft) é o maior exemplo disso, trazendo melodias de guitarra que se aproximam muito mais dos dois últimos álbuns do Sepultura da era Max do que dos trabalhos anteriores do próprio Krisiun.

Não coloco isso como crítica, mas como uma justificativa para a falsa imagem de menor agressividade que tivemos há 20 anos. O brutal death metal sempre foi — e continua sendo — a proposta da banda. Ainda nessa primeira faixa, temos um ótimo solo de guitarra, sem a necessidade de soar absurdamente rápido como em músicas como H.O.G. (House of God).

“Vicious Wrath”, que ganhou um videoclipe bem barato — basicamente a banda tocando sob luzes estroboscópicas, com um Alex Camargo exibindo o lado esquerdo do rosto mutilado — é uma música típica da banda. Para quem aprecia riffs mais elaborados, “Father’s Perversion” é um dos grandes destaques do álbum, com uma estrutura que beira Morbid Angel.

Os vocais guturais continuam sendo um espetáculo à parte. Não há entrega ou enfraquecimento em momento algum, e aquele efeito de eco característico nos transporta diretamente para cavernas primitivas. No final do álbum, temos um cover do Motörhead: “Sweet Revenge”, terceira faixa do clássico Bomber (1979), que, assim como “Orgasmatron” em Arise, se tornou um momento icônico do play, guardadas as devidas proporções.

A bateria de Max Kolesne passa por cima de todos os esqueletos, como de costume — ouça “Suicidal Savagery” e se delicie com o caos sonoro. Outro destaque é “United in Decepcion”, que traz um início groove thrash épico. A arte da capa, assim como já comentado em Works of Carnage, não é exatamente do tipo que enche os olhos, mas era uma estética bastante comum na época e não se compara ao impacto de um desenho feito à mão.

AssassiNation é um álbum um tanto diferenciado dentro da discografia do Krisiun, mas não deve ser visto como algo fora da curva ou digno de apedrejamento. Pelo contrário: trata-se de uma mudança bem-vinda, justamente para evitar a saturação.


 

sábado, 31 de janeiro de 2026

20 anos de The God That Never Was do Dismember!!!


O sétimo trabalho de uma das bandas old school mais importantes da Suécia, The God That Never Was, saiu em março de 2006 e agora completa 20 anos. Rickard Cabeza, que havia gravado o baixo do petardo anterior, deixou a banda, abrindo espaço para a entrada de Martin Persson, que já excursionava com o grupo havia dois anos. Aqui, Persson assume baixo e guitarra, o mesmo ocorrendo com David Blomqvist, guitarrista original do Dismember, marcando o aguardado retorno ao formato de duas guitarras. Completam a formação o batera Fred Estby e o vocalista Matti Kärki.

The God That Never Was é um prato pesado e viciante para qualquer fã de death metal. Se em Where Ironcrosses Grow a banda voltou do hiato com o pé na porta, aqui ela se consolida (novamente) como uma das maiores forças do metal da morte do planeta. Faixas mais curtas, como a música-título que abre o disco e a fenomenal “Never Forget, Never Forgive” — com menos de dois minutos — levantam até aqueles que já se deitaram eternamente em covas profundas.

Aquela veia à la Autopsy da Califórnia ainda está presente, embora menos saltada no pescoço do que em seu antecessor, mas surge de forma cristalina na faixa “Autopsy”. Coincidência? Homenagem? Fica a provocação. Há também a lembrança do Iron Maiden, agora em forma instrumental com “Phantoms (of the Oath)”, que além do título quase gêmeo de uma pérola dos britânicos, remete diretamente à clássica “Transylvania”.

A única faixa que foge um pouco do legado do Dismember é a que encerra o álbum, “Where No Ghost Is Holy”, cujo instrumental flerta com o melodic death sueco à la In Flames, destoando da proposta old school da banda. Ainda assim, nada que comprometa o conjunto: o restante pode ser consumido sem receio, quantas vezes for necessário.

Em meio a tanta porrada maravilhosa, destaco minha favorita: “Trail of the Dead”. A música traz um breve interlúdio com sons de guerra que dialogam com a arte da capa, entra com riff pesado e bateria em mid-tempo, acelera com a chegada dos vocais guturais e cavernosos e termina com uma passagem feita sob medida para mosh e headbanging, acompanhada de um solo curto, virtuoso e espiritualmente próximo dos antigos solos de Chuck Schuldiner.

E já que falamos em capa, parece que pegaram aquele soldado com máscara de gás que estampa várias artes dos alemães do Sodom e simplesmente enfiaram uma espada em suas mãos para deixá-lo ainda mais carniceiro.

Perdeu o rumo nesses 20 anos ouvindo bandas genéricas ou se limitando apenas aos maiores clássicos de cada nome? Então corra atrás de The God That Never Was agora.


 

sábado, 24 de janeiro de 2026

20 anos de Warrior Soul da Doro!!!




Criaturas, esse é o tipo de álbum perfeito pra dar um respiro no metal extremo do dia a dia. Sem choradeira, sem preconceito com voz feminina no metal — afinal, estamos falando da rainha dos headbangers. Em 2006, Doro chegava ao seu 10º álbum da carreira solo com o excelente Warrior Soul, um trabalho que deixa claro, sem rodeios, que ela realmente tem alma de guerreira.

Imaginar tudo o que Doro deve ter enfrentado em um mundo metal ainda profundamente machista — jovem, bela e à frente do Warlock desde os vinte e poucos anos — já seria motivo suficiente para medalhas, troféus e reconhecimento eterno. Mas o mérito aqui vai muito além da história: Doro é uma cantora de voz especial, personalidade forte e inteligência musical, sempre cercada de músicos que conseguem materializar exatamente o que ela tem em mente.

Neste álbum, ela conta novamente com Joe Taylor (guitarra), Oliver Palotai (guitarra e teclados), Nick Mitchell (baixo) e Johnny Dee (bateria), a mesma formação do ótimo Fight (2002). Vale lembrar que o disco anterior não é esse, já que em 2004 Doro lançou Classic Diamonds, um trabalho focado em covers e versões — principalmente da fase Warlock — e recheado de convidados.

Warrior Soul é daqueles álbuns que prendem a atenção faixa após faixa, mesmo que alguns momentos soem familiares entre si. Não é um disco para quem busca velocidade: os andamentos variam do lento ao médio, com espaço para baladas, atmosferas bem construídas e teclados ocupando papel central. Os solos de guitarra são, em sua maioria, curtos e funcionais, com destaque absoluto para o belíssimo solo de “Above The Ashes”.

Há espaço até para um momento punk, “Ungebrochen”, com pouco mais de um minuto e meio e Doro cantando com aquela voz rasgada deliciosa, remetendo ao álbum anterior. “In Liebe Und Freundschaft” é uma bela balada cantada em alemão, sua língua nativa. Outras baladas são  “Shine On”, que encerra o play com um final bombástico, enquanto a faixa-título “Warrior Soul” arrepia e deixa claro o quanto a voz de Doro consegue mexer com quem ouve — além de reaparecer de forma acústica e escondida no final do álbum.

“Creep Into My Brain” é a faixa ideal para medir a potência vocal da loira, enquanto músicas como “Haunted Heart”, “Strangers Yesterday”, “Thunderspell” e “You’re My Family” entregam aquele Heavy Rock honesto, prazeroso e sem culpa, pra curtir sem medo de ser feliz.

A arte da capa mais uma vez é de Geoffrey Gillespie, e novamente ficou um arraso, com Doro ilustrada empunhando uma espada frente a criaturas horrendas, mas girando o rosto para te olhar nos olhos com charme: feroz e cativante!

No fim das contas, Warrior Soul é mais uma prova da força, consistência e relevância de Doro — um ótimo trabalho de uma rainha que, mesmo 20 anos depois, continua firme no trono.


 

sábado, 17 de janeiro de 2026

20 anos de In The Arms of Devastation do Kataklysm!!!


Muitos exageros — e exageros negativos, diga-se — é o que se lê por aí a respeito de In the Arms of Devastation. Que o Kataklysm perdeu parte da brutalidade com o passar dos anos, isso é inegável. Mas chegar ao ponto de afirmar que a banda tentou se aproximar do mainstream com seu sétimo álbum de estúdio é, no mínimo, demonstrar pouco entendimento do que é heavy metal. Já não é mais aquele death metal old school cru e impiedoso; há boas camadas de groove aqui e ali, melodias que flertam com o melodic death, mas ainda não — definitivamente não — neste álbum.

Após um período afastado, o baterista Max Duhamel estava de volta, mas tudo indica que o restante da banda puxou o freio de mão, impedindo que ele atingisse as velocidades de outrora. E faz sentido: blast beats desenfreados destoariam do instrumental mais cadenciado preparado pelo guitarrista Jean-François Dagenais e pelo baixista Stéphane Barbe. Curiosamente, a música mais arrastada do disco é justamente a que o encerra. “The Road to Devastation”, além de ser a mais longa — ultrapassando os sete minutos —, traz uma passagem atmosférica após os quatro minutos e ainda carrega algo relativamente raro no álbum: um solo de guitarra. Ok, todos nós gostamos de solos, mas aqui você não sentirá falta deles nas demais faixas.

A abertura com “Like Angels Weeping (The Dark)” apresenta uma energia inicial poderosa, embora em determinado momento escorregue para o groove. O riff principal caminha naquela linha tênue do death metal dos anos 90, mas o peso incorporado no riff secundário acaba afastando a música dessa referência. Ainda assim, o final guarda uma das passagens mais pesadas de todo o álbum. A bateria acelera em diversos momentos, e é justamente desse prato que a banda bebe para não receber de vez o rótulo de groove metal.

Os vocais de Maurizio Iacono seguem excelentes, alternando guturais e rasgados com a mesma competência de sempre — agressivos, raivosos e, na maior parte do tempo, perfeitamente compreensíveis. “Let Them Burn” é uma das faixas mais agressivas do trabalho, mesmo sem recorrer às velocidades extremas do passado.

Minha faixa preferida vem logo na sequência, e pode muito bem ser a sua também, desde que você não se incomode com andamentos mais cadenciados. “Crippled and Broken” escancara o quão pesados esses caras ainda conseguem soar. Após um refrão espetacular, denso como uma montanha, entra um acorde de guitarra solo sustentado por alguns segundos — e é em momentos assim que se percebe como, em certas bandas, solos podem ser suprimidos em favor de atmosferas e melodias sem que a obra perca impacto.

“To Reign Again” é outra pedrada: acelerada, agressiva e com vocais que te fazem urrar junto. O destaque aqui fica para uma passagem de baixo solo, fazendo você sentir os batimentos cardíacos borrifando sangue pelas veias.

A grande surpresa do álbum é a participação de Morgan Lander, vocalista da banda compatriota Kittie. Independentemente do viés mais new metal de sua banda, ela entrega uma performance gutural intensa, gritando a plenos pulmões e sem contrastar demais com Maurizio — em certos momentos, poderia até passar despercebida como sendo ele. Rob Doherty, do Into Eternity, falecido em 2012, também aparece na derradeira faixa "The Road To Devastation" com um gutural animal no refrão.

A capa, em tons de cinza, assinada por Anthony Clarkson, retrata um ser alado, meio humano, em um cenário devastado, refletindo bem o clima do álbum. Outra surpresa positiva é a produção, agora a cargo de Tue Madsen, substituindo Dagenais, que vinha produzindo os últimos trabalhos da banda.

Altamente recomendável.


 

sábado, 10 de janeiro de 2026

20 anos de Eclipse do Amorphis!!!


Às vezes a vida dá uma guinada repentina, daquelas que podem ser vistas a grande distância. E essa guinada tanto pode apontar para frente quanto para trás. No caso dos finlandeses do Amorphis, em “Eclipse” (2006), seu sétimo álbum de estúdio, ela foi claramente para frente — e com força. Aqui, a banda descarta por completo uma era inteira, como se tivesse entrado em um casulo e emergido com novas cores, novas asas e, sobretudo, um novo espírito.

Após um início arrebatador que conquistou boa parte do público do metal extremo e, mais adiante, uma fase quase descartável — daquelas que não deixam saudade alguma, como já ficou claro nos dois discos anteriores —, o Amorphis se reformula e apresenta ao mundo um dos grandes trabalhos de sua fase moderna: o espetacular “Eclipse”.

A mudança mais visível está no vocal. Sai Pasi Koskinen, entra Tomi Joutsen, e tudo indica que essa troca funcionou como um verdadeiro choque de energia para a banda inteira. O que nunca saberemos ao certo é se o grupo já planejava um disco mais pesado e coeso — o que teria motivado a saída de Pasi — ou se as composições já nasceram pensando na nova voz. Seja como for, Tomi acabou sendo a peça que faltava, a cereja no topo do bolo.

Se em álbuns como “Far From the Sun” é difícil apontar duas músicas realmente memoráveis, em “Eclipse” o desafio é justamente o oposto: encontrar uma faixa fraca beira o impossível. Logo na abertura, “Two Moons” surge com um órgão diferenciado e apresenta Joutsen como aquele jogador versátil que o técnico pode escalar em qualquer posição sem medo. Vocais limpos e agressivos se alternam com naturalidade, a levada é levemente acelerada e o final, após um belo solo, muda de direção, deixando clara a versatilidade que permeia todo o álbum.

“House of Sleep” revela um lado mais gótico, com instrumental menos pesado, passagens acústicas bem dosadas, teclados em destaque e um refrão que gruda facilmente. Já “Leaves Scar” começa de forma bela e serena, mas quando as guitarras entram com peso é impossível não lembrar dos acordes de “Alma Mater”, do Moonspell. Aqui, Joutsen solta pela primeira vez um gutural poderoso — e essa é uma das faixas mais marcantes do disco, com o único defeito de acabar rápido demais.

“Born From Fire” mantém o nível elevado, com melodias inspiradas das guitarras de Esa Holopainen e Tomi Koivusaari, enquanto os teclados de Santeri Kallio assumem papel fundamental na construção das músicas — nada de mero acompanhamento descartável. As faixas, em sua maioria com três ou quatro minutos, contribuem para a dinâmica do álbum: uma boa melodia termina e outra ainda melhor começa logo em seguida.

“Under a Soil and Black Stone” traz um momento mais contemplativo, com guitarras estelares e clima envolvente. “Perkele (The God of Fire)” despeja peso, melodias orientais e um refrão absurdamente grudento, tornando-se outro grande destaque. O disco segue sólido com “The Smoke”, a sensacional “Same Flesh”, “Brother Moon” e “Empty Opening”, encerrando sem perder força.

Para coroar o conjunto, a capa é belíssima, com tons de amarelo, marrom e laranja que se complementam e traduzem visualmente o renascimento artístico vivido pela banda. “Eclipse” não é apenas um retorno à boa forma: é a prova de que o Amorphis encontrou, enfim, um novo caminho — e acertou em cheio. 

 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

20 anos de Come Clarity do In Flames!!!

Se o personagem que segura um coração na capa de Come Clarity, do In Flames, não for o mesmo que executa um trabalho manual no planeta Terra em Roorback, do Sepultura (2003), eu não me chamo Raimundo. Tudo bem, porque não me chamo mesmo — mas o fato é que o responsável por ambas as artes é o americano Derek Hess, e é impossível olhar para uma sem imediatamente lembrar da outra, sobretudo pelos tons semelhantes e pela estética melancólica que as conecta.

Musicalmente, em relação ao antecessor Soundtrack to Your Escape (2004), o In Flames conseguiu incorporar aqui algo que faltava naquele álbum: alma. Sim, talvez você não curta essa fase mais metalcore ou com grooves evidentes da banda, mas a verdade é que, em Come Clarity, eles ao menos tiraram do coração (sem trocadilho… ou talvez com) aquilo que se propuseram a fazer.

Há faixas mais melódicas, como a própria música-título, bem distante da fase melodic death metal que consagrou o grupo. Por outro lado, surgem momentos mais agressivos, como a rápida “Scream”, que dialoga melhor com o passado, ainda que filtrado pela estética atual da banda em 2006. “Vacuum” já funciona como um meio-termo interessante, mesclando agressividade com vocais mais chorados.

O instrumental, vale destacar, não se rende completamente ao metalcore: não há aquela obsessão por riffs secos e minimalistas. As guitarras ainda trabalham com camadas e ambiências que remetem a um death metal mais progressivo, algo que sempre foi um diferencial do In Flames. Uma surpresa bastante agradável aparece em “Dead End”, com a participação de Lisa Miskovsky — cantora e compositora sueca — cuja entrada com vocais femininos adiciona sensibilidade e peso emocional à faixa.

Talvez o maior problema do álbum esteja na insistência em empurrar refrões goela abaixo. Não que refrões sejam um problema em si — o thrash metal, por exemplo, sempre viveu muito bem com eles —, mas aqui o In Flames força uma aproximação excessiva com o som americano (e não exatamente o melhor recorte dele), sem real necessidade. Se não fosse por isso, somado ao uso frequente de vocais limpos por Anders Fridén, talvez — e isso é apenas uma suposição — a banda pudesse ter reconquistado uma parcela maior dos fãs antigos com Come Clarity.

Se você aprecia essa fase da banda, este álbum certamente tem muito a oferecer. Se sua relação com o In Flames terminou em Clayman, talvez seja melhor permanecer por lá — ou, no máximo, ouvir “Our Infinite Struggle” antes de decidir se vale a pena se aprofundar neste capítulo da discografia.