Eu me lembro muito bem de quando AssassiNation foi lançado. Ainda vivíamos aquela fase de conferir material em loja física, onde amigos e músicos se encontravam para discutir lançamentos, ouvir novidades e até tomar uma cerveja — geralmente nas tardes de sexta ou nas manhãs de sábado. Tudo isso numa época anterior à frieza do e-commerce. Pois bem, a impressão geral, à época, era de que o Krisiun havia tirado o pé do acelerador. Algo estranho de se dizer ouvindo o álbum hoje, mas perfeitamente compreensível. E há um culpado claro para essa sensação: o groove.
Sim, o sexto trabalho dos brasileiros pode tranquilamente ser classificado como um death groove, com afinações de guitarra um pouco estranhas ao padrão do Krisiun, deixando o som ainda mais pesado. Justamente por isso, surgem momentos que passam a impressão de “buracos” na estrutura, quando as seis cordas baixam a guarda para dar maior ênfase à bateria. A faixa de abertura (Bloodcraft) é o maior exemplo disso, trazendo melodias de guitarra que se aproximam muito mais dos dois últimos álbuns do Sepultura da era Max do que dos trabalhos anteriores do próprio Krisiun.
Não coloco isso como crítica, mas como uma justificativa para a falsa imagem de menor agressividade que tivemos há 20 anos. O brutal death metal sempre foi — e continua sendo — a proposta da banda. Ainda nessa primeira faixa, temos um ótimo solo de guitarra, sem a necessidade de soar absurdamente rápido como em músicas como H.O.G. (House of God).
“Vicious Wrath”, que ganhou um videoclipe bem barato — basicamente a banda tocando sob luzes estroboscópicas, com um Alex Camargo exibindo o lado esquerdo do rosto mutilado — é uma música típica da banda. Para quem aprecia riffs mais elaborados, “Father’s Perversion” é um dos grandes destaques do álbum, com uma estrutura que beira Morbid Angel.
Os vocais guturais continuam sendo um espetáculo à parte. Não há entrega ou enfraquecimento em momento algum, e aquele efeito de eco característico nos transporta diretamente para cavernas primitivas. No final do álbum, temos um cover do Motörhead: “Sweet Revenge”, terceira faixa do clássico Bomber (1979), que, assim como “Orgasmatron” em Arise, se tornou um momento icônico do play, guardadas as devidas proporções.
A bateria de Max Kolesne passa por cima de todos os esqueletos, como de costume — ouça “Suicidal Savagery” e se delicie com o caos sonoro. Outro destaque é “United in Decepcion”, que traz um início groove thrash épico. A arte da capa, assim como já comentado em Works of Carnage, não é exatamente do tipo que enche os olhos, mas era uma estética bastante comum na época e não se compara ao impacto de um desenho feito à mão.
AssassiNation é um álbum um tanto diferenciado dentro da discografia do Krisiun, mas não deve ser visto como algo fora da curva ou digno de apedrejamento. Pelo contrário: trata-se de uma mudança bem-vinda, justamente para evitar a saturação.

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