O derradeiro álbum do Dissection, Reinkaos, completou 20 anos ontem, 30 de abril de 2026. Considerada por muitos fãs uma das bandas mais importantes surgidas na Suécia, o Dissection — liderado por Jon Nödtveidt — entregou dois clássicos absolutos do black metal nos anos 90: The Somberlain e Storm of the Light’s Bane, antes de seu líder ser preso, em 1997, por participação em um assassinato.
Após sete anos atrás das grades, Jon concebeu o último trabalho da banda ao lado do guitarrista italiano Set Teitan e do baterista Tomas Asklund (ex-Dark Funeral). O baixo ficou a cargo de Brice Leclercq, do Nightrage, embora não tenha sido creditado como membro oficial.
Musicalmente, o álbum desagradou uma grande parcela dos fãs pela mudança de proposta: aqui, o som se aproxima muito mais de um death metal melódico, com a malignidade black aparecendo de forma mais sutil. Por outro lado, há quem idolatre o disco — seja pela devoção à figura de Jon como um verdadeiro black metalhead, seja por não se identificar tanto com a fase mais crua da banda, ou simplesmente porque Reinkaos funciona muito bem dentro do que se propõe.
Pessoalmente, reconheço que deveria ter tido mais contato com a fase inicial. Se tivesse conhecido os dois primeiros álbuns ainda no fim dos anos 90, provavelmente o Dissection estaria entre minhas bandas favoritas. Mas foi só anos depois, na casa de um amigo, que tive meu primeiro contato com Reinkaos — e foi amor à primeira audição. Eu realmente não esperava algo tão envolvente.
Reinkaos não é uma obra-prima revolucionária nem um marco de inovação. Pelo contrário: é um trabalho relativamente simples, com produção cristalina e direta. Os riffs de guitarra flertam com o power metal, e os momentos mais acelerados são poucos. Não há explosões de bateria, nem blast beats. O grande destaque fica para os solos: melodias acima da média, carregadas de emoção — especialmente na faixa-título instrumental, que entrega um dos momentos mais marcantes do disco.
“Xeper-i-Set” é a faixa mais energética, ainda que seu riff soe quase alto astral demais para o histórico da banda. “Internal Fire” também traz mais agressividade, com bumbos mais acelerados, mas no geral o álbum caminha em andamentos médios. Os vocais rasgados e inconfundíveis de Jon são um dos pilares do trabalho — e, sem eles, talvez o disco não tivesse o mesmo impacto.
Minha favorita é “Dark Mother Divine”. Desde a primeira audição, ela se destacou com sua introdução mais contida e um desfecho explosivo. Ainda assim, outros fãs costumam apontar diferentes preferidas, como a faixa de encerramento “Maha Kali” — talvez a que mais se aproxima da proposta black, contando com a participação da vocalista Nyx 218, cuja identidade permanece desconhecida. “Beyond the Horizon” e “Starless Aeon” também aparecem com frequência entre as mais lembradas.
Reinkaos pode ser definido como um disco pop lançado no inferno — onde tudo, por natureza, soa mais pesado e carregado. Seu conteúdo ocultista, profundamente ligado à visão de mundo de Jon, dialoga diretamente com quem compartilha desse tipo de filosofia. Mas, acima de tudo, o que realmente importa é que, mesmo diante de uma mudança tão significativa de estilo, trata-se de uma obra atemporal.
Satisfeito com o resultado, Jon tirou a própria vida pouco mais de três meses após o lançamento — o que inevitavelmente torna a experiência de ouvir Reinkaos ainda mais densa, enigmática e carregada de significado do que qualquer outra obra da banda.
