segunda-feira, 19 de outubro de 2026

20 anos de Bio-Violence do Drowned!!!

O Drowned, de Belo Horizonte, chegava a seu quarto full-length, intitulado Bio-Violence, em 2006. Após alguns trabalhos imprescindíveis, cada qual com sua identidade, era hora de mostrar se ainda havia formas de demonstrar força em meio a um período de revigoramento do metal nacional, com lançamentos cada vez mais carregados de qualidade, buscando um equilíbrio com o metal mundial.

Gravado no DR Studio, em Nova Lima, e produzido pelo guitarrista Marcos Amorim e pela própria banda, Bio-Violence foi criado com a intenção de soar mais original e não seguir a mesma fórmula. Acredito que a banda tenha soado mais séria neste álbum, e a palavra seria “profissional” se isso não acabasse por deturpar o passado para quem não conseguisse entender. Isso pode ter tirado um pouco da fúria tradicional da banda, em uma audição menos atenta. Porque, na real, o Drowned acabou não mudando a fórmula nem reinventando a roda, mas permaneceu fiel ao seu legado.

Se pegarmos minha faixa favorita neste álbum, justamente a faixa-título, eu a colocaria para abrir o disco no lugar de “New Romes Arise”. Primeiro, porque ela tem uma introdução ultrapesada e cadenciada que acho perfeita para uma abertura. Segundo, porque sua estrutura lembra demais algumas músicas de By the Grace of Evil, o álbum anterior e o melhor da banda. Ok, várias músicas seguem essa tendência, como “The Fossil Target”, com alguns detalhes à parte, já que os vocais limpos de Marcos Amorim foram reduzidos, assim como o impacto dos refrãos.

Mas temos um som de guitarras bem produzido, com bases pesadas e pouco abafadas, amparadas pelo baixo, além de guitarras mais melódicas, bem limpas e choradas. Por falar em baixo, quem gravou o instrumento foi Wesley Ribeiro, que estava no The Mist e anunciou sua saída estes dias, no lugar de Rodrigo Nunes, que, na época, foi para o Eminence.

A capa foi novamente criada pelo vocalista Fernando Lima e também mostra uma arte mais madura, apesar de eu gostar mais das anteriores. Acredito que, assim como Butchery Age, Bio-Violence tenha se tornado mais bem compreendido e aceito com o passar do tempo, mesmo tendo reduzido um pouco a brutalidade, sem deixar de ser death/thrash, no entanto.


 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

20 anos de The Burning Halo do Draconian!!!

O quão surpreendente pode ser uma banda? Ultimamente, isso é tão difícil de acontecer que parece que aquelas bandas capazes de colocar uma legião de fãs em êxtase pela terceira vez consecutiva ficaram todas confinadas nos anos 80. O Draconian, da Suécia, é um exemplo de banda que brilhou no debut, provou que a perfeição existe no segundo trabalho e manteve a qualidade no mesmo nível nesta sequência denominada The Burning Halo, de 2006.

Apresentando um novo guitarrista, Daniel Arvidsson, que hoje é o baixista da banda, e Fredrik Johansson no baixo, no lugar de Jesper Stolpe, o grupo manteve os demais integrantes e também a atmosfera pesada, com uma carga emocional melancólica no sentido mais puro da palavra.

“She Dies” é uma música que acaba com você, literalmente. Ela abre o álbum e é como se ouvíssemos uma sequência natural de Arcane Rain Fell. A tensão que a música traz endurece nossos músculos, como se estivéssemos sendo envenenados e inebriados pelo cheiro de álcool mentolado escorrendo pelos lábios de um anjo que morde nosso pescoço enquanto ceifa nossa vida com delicadeza e resignação.

As guitarras passeiam com tristeza sobre nossos corpos, e a voz gutural de Anders Jacobsson grita para nos manter acordados, para manter o último elo de vida entre o mundo espiritual e o mundo físico. Ao mesmo tempo, a voz de Lisa Johansson, delicada como uma teia de aranha, sufoca nossa respiração, enquanto suas mãos geladas nos puxam em direção à escuridão.

Tudo bem que “She Dies” é uma das melhores músicas da carreira do Draconian, mas, ainda assim, o álbum nos traz um conjunto de pérolas preciosas dentro de conchas pegajosas, prontas para serem abertas e nos presentear com sua delicadeza e beleza resplandecente. Não importa se é a sutileza de “Serenade of Sorrow”, quando Anders e Lisa cantam juntos, mas em tons tão opostos, ou o princípio de fúria e revolta enclausuradas em “The Morningstar”: qualquer momento de The Burning Halo é um bálsamo de serenidade e languidez latentes.

E, para aqueles que criticam a decisão da banda de acrescentar dois covers ao álbum, “On Sunday They Will Kill The World”, da banda Ekseption, e “Forever My Queen”, do Pentagram, vale lembrar que a ideia inicial de The Burning Halo era a de uma coletânea, já que “She Dies”, “Through Infectious Waters (A Sickness Elegy)” e “The Dying” são as únicas músicas inéditas do álbum. Além dos covers, as outras três faixas são regravações de fitas demo.

Mas ninguém no mundo, em sã consciência, vai considerar um álbum tão maravilhoso uma coletânea, não é mesmo?

Blast Doommaker


 

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Curiosidades sobre Taking Over do Overkill!!!

Nosso ponto de partida para as publicações do Metal e Loucuras sempre foi este blog, inaugurado em novembro de 2009. Porém, temos deixado este espaço restrito às resenhas de 20 anos, pois elas têm a cara de um blog, com textos mais longos e, geralmente, apenas uma ilustração.

Mas entendemos que alguns conteúdos que criamos para o Instagram nos últimos tempos não deveriam permanecer apenas por lá, rolando no feed. Queríamos que eles também ficassem eternizados por aqui. O que não sabemos é se o formato de vários slides causaria algum impacto neste espaço.

Como somos teimosos com algumas ideias, resolvemos tentar. O quadro CURIOSIDADES, que traz slides sobre algum álbum clássico em especial, foi lançado há pouco tempo e já conta com três apresentações, dedicadas a álbuns do Overkill, Messiah e Head Hunter D.C.

Vamos iniciar esta experiência agora com Taking Over, do Overkill, que foi o primeiro álbum que ouvi da banda e sempre foi o meu preferido.











Blast Doommaker!

20 anos de With Oden on Our Side do Amon Amarth!!!


O fã de heavy metal é o mais fiel, crítico e chato do universo. E não estou me excluindo desta fatia, apesar de que, na qualidade de quem escreve para outros fãs, nem sempre é possível falar tudo o que se pensa, para não desmerecer demais o trabalho de uma banda. Mas fique calmo, não é nesta seara de trabalho ruim que estou entrando ao falar do sexto álbum do Amon Amarth, With Oden on Our Side, lançado em 2006 pela Metal Blade e que completa 20 anos.

O que estou querendo dizer com esta introdução é que, quando uma banda muda drasticamente seu som, nós xingamos até a quinta geração, porque o som agora não é o que esperávamos, etc., etc. Mas, quando uma banda faz álbum após álbum soando como se fosse apenas um disco com lado A, B, C, D... nós reclamamos que ela não evolui e faz sempre a mesma coisa. Pobre Lemmy, que deve ter ouvido isso a vida inteira.

Temos aqui um caso bem parecido. Ou então eu não tenho ouvido o Amon Amarth com a devida atenção para perceber mudanças tão drásticas em seus seis primeiros trabalhos, mas ainda fico com a primeira visão. Estou reclamando? Não! O som dos caras é muito bom, seja numa faixa mais tranquila como “Gods of War Arise”, seja numa pedrada como “Valhall Awaits Me”, que, inclusive, tem um dos melhores solos de guitarra que já ouvi a banda gravar.

Mas o fato de estar sempre com a mesma distorção, os mesmos ritmos e as mesmas letras acaba fazendo com que o som não me impressione tanto. Mas, como eu disse, o álbum é bom, e arrisco dizer que é um dos melhores já lançados por eles. Se pegares uma música como “Asator” e não conseguires te empolgar, é porque tua praia não é aquela cheia de drakkars se aproximando.

“Cry of the Black Birds” já é uma faixa com uma melodia bem interessante, talvez trazendo aquele ponto de surpresa tão desejado por este que vos escreve. A capa do álbum é a menos chamativa até então, mas as cores também se repetem, como nos anteriores. Creio que talvez ainda houvesse um receio de explorar novas terras. Mas nós sabemos que seus povos antigos, os vikings, não tinham esse receio.

 

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

20 anos de Homo Morbus Est do Paradise In Flames!!!

Não me lembro de ter ido à caça de minhas revistas velhas antes de escrever uma resenha de 20 anos, mas desta vez aconteceu. Isso porque eu me lembrava de ter lido uma resenha de lançamento de Homo Morbus Est, da banda mineira Paradise In Flames, e de ter procurado por esse álbum na época, justamente por causa da resenha. Bom, fiz isso muitas vezes enquanto ainda colecionava revistas, mas o que me marcou foi não ter conseguido o álbum, vindo a ouvi-lo por inteiro apenas muitos anos depois, com a proliferação de postagens no YouTube.

Mas cá estou eu, com a edição 94, de novembro de 2006, da revista Roadie Crew em mãos, com uma resenha que atribuiu nota 9 ao álbum, assinada por Alexandre Oliveira. E, para minha surpresa, algo que nem imaginava mais, a mesma edição trazia uma entrevista com a banda, que acabava de fazer uma turnê de mais de 30 shows em nove estados brasileiros, antes mesmo do lançamento do debut. Valeu a pena revirar as gavetas!

A banda, que nasceu em Santa Luzia, região metropolitana de Belo Horizonte, e depois se mudou para a capital, veio com seu black metal sinfônico carregado de melodias e teclados, além de muita maldade sonora. Com uma capa bem legal, que mostra uma menina caminhando em meio a um mundo em chamas (alguém lembrou de Carrie aí?), tons avermelhados e um logo totalmente decifrável — algo impensável para uma banda de black metal no início da jornada —, Ricardo Andrade, na guitarra e no baixo, Thiago Andrade, na bateria, e o idealizador da banda, André Damien, nos vocais, guitarra e teclados, criaram um baita trabalho.

Os vocais ficam no meio-termo entre aquele rasgado mais agudo e o gutural, e as guitarras geralmente comandam o som, apesar de os teclados estarem sempre presentes, fazendo fundo para músicas extremas que não tentam trazer melodias bonitas ou tristes, mas, ainda assim, apresentam muitas melodias em meio a riffs às vezes quase death, como os de “Empty Feelings”.

Vale destacar também a faixa “Mortal Ossetia”, com um belo título e um início muito bem feito. Mas não se prenda aos destaques. Se não conhece esse trabalho e curte black metal com melodia, sem tentar soar bonito, pode conferir sem medo. 

 

terça-feira, 13 de outubro de 2026

20 anos de Smear Campaign do Napalm Death!!!

Sabe quando você trabalha a semana inteira com o mesmo macacão, sujo de óleo e graxa, e acha que ele não tem mais onde colocar sujeira, mas, ao fim da tarde de sexta, uma tempestade te pega no caminho de volta para sua caverna e te joga numa poça de lama? Pois é, o som do Napalm Death, que achávamos que não poderia ficar mais sujo, ficou.

Em 2006, seu décimo segundo trabalho, Smear Campaign, saiu de trás de montanhas de lixo para trazer ainda mais sujeira e violência às ruas inglesas. E que sujeira bem-vinda, apenas um ano após nos brindar com The Code Is Red... Long Live The Code!

A banda, formada por Mark Greenway nos vocais, Mitch Harris na guitarra e backing vocals, Shane Embury no baixo e backing vocals e Danny Herrera na bateria, desta feita contou com uma participação meio fora da curva: a holandesa Anneke Van Giersbergen (ex-The Gathering), em “Weltschmerz”, uma intro muito legal, mas que não entrega o que está por vir, pois tem uma aura clássica bem diferente do grind/death. Ela também aparece em “In Deference”, uma pancadaria esquizofrênica na qual narra duas estrofes.

A faixa seguinte à intro, “Sink Fast, Let Go”, começa com aqueles backing vocals rasgados, e você fica sem saber o que vai acontecer, já que esperava os guturais de homens das cavernas que Barney vocifera. Mas logo ele dá o ar da graça com sua guturalidade.

Na sequência, temos aquelas que, para mim, são as duas melhores faixas do petardo: “Fatalist” e “Puritanical Punishment Beating” (caraca, como não lembrar de Dimmu Borgir com este título?). Esta última casa a velocidade massacrante a uma levada mosh perfeita.

Com uma arte de capa bélica e a cara do Napalm, em tons de preto e cinza, Smear Campaign traz o Napalm de volta à era grind inicial e carrega poucas influências death, mesmo que elas ainda estejam incrustadas na pele morta das canções.

Pode mergulhar sem pestanejar neste copo musical de fel, porque você vai se divertir como nos tempos antigos de redenção para o metal extremo, ou seja, no início dos anos 90.


 

domingo, 11 de outubro de 2026

20 anos de Where Demons Dwell do Imperious Malevolence!!!

O Imperious Malevolence, de Curitiba, Paraná, agora reduzido a um trio coO Imperious Malevolence, de Curitiba, Paraná, agora reduzido a um trio composto por Rafahell no baixo e vocal, Mano na guitarra e Antonio Death na bateria, chegava a seu terceiro trabalho, Where Demons Dwell, de 2006, lançado pela Evil Horde Records. O som continua o mesmo: brutal death metal rápido, pesado e agressivo, com vocais guturais vomitando blasfêmias. Mas percebe-se uma redução sistemática na duração das músicas, que giram em torno de dois minutos, raramente passando dos três. Para se ter uma ideia, o trabalho tem 12 músicas e não chega a 30 minutos.

Uma curiosidade é que o Imperious foi até São Paulo para gravar seu terceiro trabalho no estúdio DaTribo, em parceria com Ciero, o que representou um avanço na qualidade sonora da banda. Já a arte da capa ficou a cargo de Anderson L.A., artista ligado ao projeto Natureza Morta, e mostra, em tons de cinza, é claro, vários demônios.

O álbum foi bem aceito pelos fãs e considerado o melhor da banda até aquele momento. Destaque para faixas como “Icon of Filth”, a porrada “Excruciate”, que abre a porradaria e até assusta quando termina, “Advento Caligo”, a mais longa, com seus três minutos e quinze segundos, e “We Evoke Thee”.

Gosta de death metal brutal? Ouça esse petardo! 

 

20 anos de Maniacal Renderings do Jon Oliva's Pain!!!

A história é conhecida de grande parte dos fãs de metal pelo mundo. O Savatage foi uma banda de Power Metal em sua primeira fase e, depois, incorporou o prog metal ao seu som. Duas bases fundamentais eram o tecladista e vocalista Jon Oliva e seu irmão, Criss Oliva, na guitarra, que faleceu em 1993. A banda continuou até 2002, quando encerrou suas atividades, mas depois teve outras aparições.

Jon, porém, que parece nunca ter superado totalmente a morte do irmão, montou sua própria banda, o Jon Oliva's Pain, em 2003, lançou seu debut, 'Tage Mahal, em 2004, e chegava ao segundo petardo, Maniacal Renderings, em 2006, que acaba de completar 20 anos. Ao lado de Jon, temos John Zahner também nos teclados, os guitarristas Matt Laporte e o novato Shane French, Kevin Rothney no baixo e Christopher Kinder na bateria. No primeiro álbum, Oliva havia gravado a segunda guitarra, mas Shane assumiu esse trabalho na sequência.

Particularmente, no Savatage, prefiro a fase com o vocalista Zak Stevens, mas confesso que é um prazer imenso ouvir Jon Oliva cantar neste projeto, que remete demais ao Savatage. Se, por um lado, temos a banda Circle II Circle fazendo esse papel com Zak, do outro temos aqui a fiel sequência musical de Poets and Madmen. Já foi dito que Jon trouxe alguns fraseados de guitarra de velhas ideias de seu irmão.

Abrindo com Through the Eyes of the King, que em raros momentos lembra a clássica Hall of the Mountain King, especialmente naquela pausa antes do refrão. A seguir, temos a minha preferida, a faixa-título, com toda aquela estrutura progressiva típica do Savatage e uma interpretação vocal magnífica. The Evil Beside You começa fingindo ser uma balada, mas logo segue o curso normal do metal. Time to Die pode não ter os solos de guitarra mais inspirados, mas é uma das mais pesadas, com um riff de certo groove que lembra algo de War of Words, do Fight, banda de Rob Halford.

The Answer já pode ser considerada uma balada, e chama a atenção por sua letra quase religiosa e muito introspectiva. Push It to the Limit é a mais veloz, mas não acho que a banda tenha se saído tão bem nessa abordagem. Na sequência, temos Who's Playing God, com um teclado que lembra um Hammond, a bela e sentimental Timeless Flight, com Jon dando uma aula de canto, além de Holes, End Times e Still I Pray for You Now.

Se ouviu muito Savatage e ainda não conhece Maniacal Renderings, está perdendo um precioso tempo.


 

sábado, 3 de outubro de 2026

20 anos de Kiss of Death do Motörhead!!!

Lemmy Kilmister, Phil Campbell e Mikkey Dee se reuniram em 2006 para gravar o décimo nono álbum de estúdio do Motörhead. E, nesta fase da vida, você acha que o trio iria se arriscar ou bater o martelo exatamente na mesma cabeça de prego sobre a mesa? Elementar, meu caro Watson.

Segundo informações da época, “Kiss of Death” foi uma ideia de Phil Campbell, e não de Lemmy. Phil explicou o título a partir da ideia de que, quando uma banda como o Motörhead começa a escrever pensando em agradar outras pessoas ou mudar sua essência para atender expectativas externas, isso pode ser literalmente um “beijo da morte”, porque a pureza da banda desapareceria.

Em Kiss of Death, você ouvirá tudo aquilo que está acostumado quando o assunto é a banda britânica. Músicas rápidas, sujas, bem gravadas, baixo pulsante, vocais roucos, pitadas de blues, rock 'n' roll e aquela vontade de abrir uma cerveja chacoalhando a cabeça. As faixas são rápidas, na casa dos 3 e 4 minutos. O início é explosivo, com Sucker, One Night Stand mantém o nível e Devil I Know remete à era em que a banda se tornou um quarteto, com um som menos visceral, porém bem agradável de se ouvir.

Trigger é aquele rock sujo e pesado e, lá pelos seus dois minutos, surge a guitarra mais próxima de um breakdown que você ouvirá em um trabalho da banda. Under The Gun tem um solo pra lá de especial de Campbell e uma participação especial no baixo de Mike Inez, do Alice in Chains.

Um dos melhores momentos de Kiss of Death é a faixa God Was Never on Your Side, que ganhou um videoclipe cheio de imagens religiosas e de pessoas importantes da história. É uma música triste, com uma letra sem fé e esperança. Uma crítica aos cristãos, na verdade. Ela conta com um solo de guitarra de C.C. DeVille, guitarrista do Poison, além de vocais adicionais de Zoli Téglás, na época em uma banda chamada Ignite.

O trabalho segue com grandes músicas, como Living in the Past, Christine (que não é o carro de Stephen King), Sword of Glory, Be My Baby (que também ganhou um videoclipe), Kingdom of the Worm e Going Down, que o filho de Phil ajudou a escrever.

Este é o último trabalho do Motörhead a contar com uma arte de capa de Joe Petagno, criador do mascote Snaggletooth.

Se você acha que Lemmy, que completou 60 anos no mesmo ano de lançamento de Kiss of Death, abaixaria a guarda, você foi reprovado na prova, meu caro.


 

sábado, 26 de setembro de 2026

20 anos de A Matter of Life and Death do Iron Maiden!!!


E o Iron Maiden chegava a seu décimo quarto trabalho de estúdio em 2006, durante a segunda era com os vocais de Bruce Dickinson, que dura até hoje. Aliás, é estranho quando pensamos que a fase de ouro da Donzela trouxe Bruce como vocalista durante 12 anos e, desde que ele retornou naquela fase conturbada, lá se vão outros 27 anos e 6 álbuns de estúdio, alguns notáveis e outros nem tanto. A Matter of Life and Death foi o terceiro trabalho após seu retorno e, acredito, o primeiro mais contestado desta fase, ao menos até o próximo The Final Frontier, do qual falaremos em 4 anos, se ainda estivermos caminhando por esta terra.

Mas a causa destas contestações, que ao menos no meu caso sumiram com o tempo, está claramente relacionada a uma veia mais progressiva que os ingleses incorporaram em seu álbum. Alguns começaram a reclamar, inclusive, da duração mais extensa das faixas, os mesmos que sempre elogiaram faixas longas da era de ouro, como Rime of the Ancient Mariner ou Seventh Son of a Seventh Son. Talvez sejam saudosistas que acompanharam a medonha evolução da humanidade no sentido de não terem mais tempo para ouvir uma música inteira com mais de 3 minutos.

Mas, em minha opinião, hoje este álbum supera seu antecessor, Dance of Death, começando pela arte da capa. Claro, afirmar isso talvez seja o mesmo que dizer que o vinho é melhor que a cachaça, pois é muito óbvio que qualquer arte do Maiden seja melhor que a de Dance of Death. Mas a arte da banda em forma de caveiras ao redor de um tanque de guerra, em um cenário de destruição e tons mortos, ficou sensacional.

Different World e These Colours Don't Run, esta com um solo que lembra a fase No Prayer for the Dying, são boas músicas, mas o primeiro grande momento vem em seguida com a sensacional Brighter Than a Thousand Suns, com um riff pesado que fica martelando sua cabeça. Bruce, já sem aquele poderio vocálico de outrora, canta de forma mais grave, alternando momentos mais suaves, e novamente se sobressai.

The Pilgrim também é uma faixa que fica na memória. Mesmo que não tão pesada, traz até um refrão bem palatável.

Algo sobre as letras do álbum: ao meu ver, elas se encontram com o tema de Seventh Son, pois encontramos muitas menções ao diabo, a Deus, ao céu e ao inferno, em meio a guerras e coisas afins.

The Longest Day carrega uma passagem um tanto progressiva em sua metade, antes e após o solo, além de algumas melodias que lembram música folk de algum país europeu.

E temos The Reincarnation of Benjamin Breeg, uma das músicas mais icônicas do álbum. Primeiro que é uma grande canção, com guitarras pesadas, cavalgadas em determinado momento, aquele baixo de Steve Harris sempre evidente e a curiosidade despertada nos fãs sobre quem era aquele tal de Benjamin. Ok, isso é uma das grandes brincadeiras de mistério do Iron Maiden. A banda criou uma biografia fictícia para um personagem que, curiosamente, sequer é citado na letra da música, alimentando durante algum tempo a dúvida sobre quem seria Benjamin Breeg. O Maiden criou um site dedicado a Benjamin Breeg, apresentado como se fosse mantido por um suposto primo que tentava descobrir o paradeiro dele. A intenção era justamente fazer os fãs investigarem e tentarem descobrir quem era aquele sujeito. Coisas que sempre fizeram com que gostássemos ainda mais do Iron Maiden.

Destaque ainda para For The Greater Good of God e The Legacy.


 

20 anos de Quarrel in Hell do Nervochaos!!!


Pela terceira vez, o baterista Edu Lane se cercou de músicos para gravar Quarrel in Hell. Agora ao lado de Wellington Simões (hoje no Genocídio) e Vinícius de Souza (hoje no Neophitus) nas guitarras, o baixista Thiago Anduscias (hoje no Amazarak) e Daniel Blasphemoon (hoje no Shaytan) como frontman, a banda mostrou uma evolução nesta terceira jornada e gravou um de seus álbuns mais conceituados. Na balança, o prato Thrash ficou mais leve, enquanto o prato Death quase encostou na base da mesa, mostrando que os novos músicos trouxeram uma veia ainda mais extrema ao já poderoso som do Nervochaos, enquanto seu nome já ecoava pelos empoeirados porões do underground.

Os vocais são guturais em sua maioria, mas temos também aquele rasgado para trazer um contraponto. Edu faz os backing vocals aqui. Algumas letras, no melhor estilo Cannibal Corpse, como em Putrid Pleasure, que começa com o som de uma pá cavando (lembraram de The Worst, do Sarcófago, de 1996?), trazem o tema da necrofilia, enquanto Evocations também tem uma sonoplastia medonha e digna do black metal.

A bateria é incessante, como em Nailed to the Bed of Worms, uma das mais death metal do trabalho, com guturais dominantes, incluindo berros em coro no refrão, um grande momento do petardo.

A inovação deste trabalho é que a banda criou as músicas pensando em convidados especiais para participar das faixas. Daí vieram várias participações especiais de peso no trabalho. Alex Camargo, do Krisiun, em “Horde of Demons”; John McEntee, do Incantation, em “Cursed Soul”; Emperor Magus Caligula, do Dark Funeral, em “Televangelism”; Sanguine e Wrath, do Averse Sefira, em “Evocations”; e Barney Greenway, do Napalm Death, em “Nailed to the Bed of Worms”.

Outra curiosidade é que o álbum foi gravado duas vezes, pois houve mudança na formação antes de seu lançamento. E uma coisa que vira e mexe acontecia naqueles anos também aparece aqui em Quarrel in Hell: uma faixa escondida, um tempo depois da última música, e, após alguns sons demoníacos, temos uma versão da clássica “Iron Fist”, do Motörhead. Em versão death metal, claro.

Já faz 20 anos, mas é sempre bom ouvir de novo!


 

domingo, 13 de setembro de 2026

20 anos de Sacrament do Lamb of God!!!


Sejamos sinceros, o estilo do Lamb of God não é aquele que eu amo do fundo do coração. O groove não é nada mal, afinal temos exemplos maravilhosos em álbuns de Sepultura, Pantera e Machine Head, e os músicos do Lamb of God são muito bons, por sinal, mas é um som para ouvir e curtir, e raramente querer ouvir de novo. Mas fiquei me perguntando o porquê! Penso que faltam hits. E não estou falando de hits de sucesso que vão tornar a música mais comercial, mas aquela música que cria uma memória afetiva e é reconhecível em qualquer lugar, músicas como Walk ou Davidian, por exemplo.

Mas tudo bem, vamos nos concentrar em Sacrament que, de tudo que já ouvi do Lamb of God, é o que mais gostei até aqui. Ele começa com uma música chamada Walk with Me in Hell, que ganhou videoclipe. A letra é negativa e o clipe mostra imagens aleatórias tentando soar engraçado, e uma coisa já contradiz a outra. Falando da música em si, não é a melhor do álbum, mas você automaticamente percebe que Chris Adler é um monstro na bateria. Não à toa, o cara chegou a gravar com o Megadeth.

Já a segunda faixa, Again We Rise, tem uma espécie de coral no refrão que ficou muito interessante. A outra faixa a ganhar um videoclipe foi Redneck. Essa sim é uma música muito boa, mais acelerada, com o vocalista Randy Blythe soando menos gutural, o que automaticamente nos remete a Phil Anselmo. O vídeo é aquela típica história para a MTV, quando uma banda é convidada para tocar (e destruir) em um aniversário infantil e chega em um ônibus cheio de gostosas (ops).

Uma música que chama a atenção pela letra é Forgotten (Lost Angels), por dois motivos. Na época, a banda anunciou que estava se afastando de letras mais politizadas para algo mais introspectivo e pessoal. Porém, a letra de Forgotten pode ser classificada tanto como politizada quanto pessoal, já que retrata a visão da cidade de Los Angeles através dos olhos do vocalista, como o lugar onde ele cresceu, mas que não tinha nada do glamour de Hollywood que vemos de fora.

Forgotten (Lost Angels) é Randy Blythe olhando para Los Angeles e enxergando não os “anjos” de Hollywood, mas os seres humanos esquecidos sob as luzes da cidade. A referência aos tumultos de 1992 transforma essa repulsa em uma espécie de retrato apocalíptico de uma cidade que, para ele, já havia queimado por dentro — e que só precisava terminar de pegar fogo por fora.

Resumindo, talvez Sacrament seja o melhor trabalho da carreira do Lamb of God, mas ainda falta aquela música que te remete imediatamente a ele. 

 

20 anos de Above the Weeping World do Insomnium!!!

O terceiro álbum dos finlandeses do Insomnium, Above the Weeping World, de 2006, é uma continuação natural de seu legado. Aquele death metal melódico com algumas características doom, tanto no visual quanto nas letras e na melancolia explícita de suas músicas.

Começando por mais uma bela arte de capa, onde novamente a natureza se mostra suficiente para os melhores cenários de fundo para o som proposto pela banda. A lua, as árvores desfolhadas e um céu quase em chamas já prendem sua atenção, compondo um título desesperançoso que significa "acima do mundo que chora".

As letras continuam sendo um diferencial positivo, já que não soam piegas em um cenário em que muitas bandas se perdem. Inclusive, temos referências, como na faixa Drawn to Black, em que o refrão foi retirado de um poema de Francis Bourdillon, A Noite Tem Mil Olhos.

O vocalista e baixista Niilo Sevänen baixou um pouco o tom rosnado e, desta vez, sua voz veio menos parecida com a do vocalista do Amon Amarth. Além disso, aqueles fraseados limpos que encontramos no trabalho anterior foram limados, portanto temos aqui um álbum um pouco mais pesado do Insomnium.

Os riffs de Ville Friman e Ville Vänni soam básicos, porém totalmente ligados ao que a banda sabe fazer, além de apresentar aquelas melodias que enriquecem sua música e fazem dela tão desoladora, como na metade de The Killjoy.

A música Last Statement é uma de minhas favoritas, intercalando passagens mais leves, com solo de guitarra quase folk, a momentos de puro melodic death, onde os vocais, em algumas estrofes, se arrastam agonizantes.

Encerrando o petardo, uma faixa épica chamada In The Groves of Death, que já começa com dedilhado e teclados. Em sua parte pesada, uma melodia à la Paradise Lost, junto ao solo, enriquece a canção, antecedendo uma passagem limpa e belíssima.

A letra é um diálogo entre um filho que se sente frágil diante de um mundo assustador e misterioso, e o conselho do pai é que ele se afaste dos medos e aproveite a vida, que é breve, e a morte, mais austera.

E digo: se não é o que devemos fazer em nossos dias? Viver o hoje sem o desejo de que o próximo dia chegue rápido, já que talvez ele não chegue?


 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

20 anos de Christ Illusion do Slayer!!!

Sempre achei o Slayer uma banda inconstante depois do sensacional Seasons in the Abyss, de 1990. Defender a banda como representante suprema do Thrash Metal, frente às incursões das outras três bandas do Big 4 em outros estilos, foi — ou continua sendo — uma falácia de advogado forjado em EAD, já que, de 1994 em diante, eles flertaram com Punk e New Metal.

Mas acredito que justamente Christ Illusion tenha sido a primeira tentativa, em anos, de voltar ao Thrash Metal, mesmo que sem a mesma capacidade de trazer à tona novos e imortais clássicos. Algumas músicas, como Flesh Storm, que abre o trabalho, ou Jihad, têm uma veia mais interessante, apesar de os fraseados inseridos em Jihad terem sido usados dezenas de vezes por Dave Mustaine.

O retorno de Dave Lombardo ao kit de bateria também pode não ter tido o resultado desejado por milhares de fãs, uma vez que Paul Bostaph vinha desempenhando um bom trabalho, e aqui não vemos nada tão esmagador quanto o que ele entregava nos anos 80. Catatonic é uma música interessante, com ritmo cadenciado, e deixa ainda mais claro um aspecto cru da produção. Como se a banda tivesse voltado à era analógica sem botar muito a mão na massa na hora de produzir o trabalho.

Isso não soa exatamente como um álbum mais Thrash, porém elimina qualquer groove ou tendência mais modernosa presentes nos dois últimos full lengths. As letras também não evoluíram. Motivados por guerras santas (se você considera o petróleo algo santo) ao redor do mundo e críticas ao próprio governo americano, lembram mais adolescentes tentando soar inteligentes para colegas e garotas numa mesa cheia de garrafas vazias de cerveja e fumaça de cigarro no bar da faculdade, em final de período.

Mas, repito em outras palavras: antes uma tentativa vaga de retornar ao som que os consagrou do que continuar tentando a redenção num estilo em que entraram de intrometidos.  

 

20 anos de Second Skin of Harlequin do Illnath!!!

Após um início bem interessante, com Cast Into Fields of Evil Pleasure, de 2003, a banda de Symphonic/Melodic Black Metal Illnath, da Dinamarca, retornava em 2006 com sua segunda obra, Second Skin of Harlequin. Na formação, apenas a saída do baterista Benjamin Johannesen, com créditos para um músico contratado creditado como Snick (se bem que, com este nome e mais nada com que se possa pesquisar a respeito, pode nem ser um humano).

A música do Illnath continua muito boa aqui, apenas perdeu um pouco daquela magia do debut, quando os músicos ficam anos aprimorando as ideias para colocá-las em prática no estúdio. A arte da capa me agrada, principalmente pelo jogo de cores verdes, pretas e brancas, apesar de indicar erroneamente um trabalho gótico. Não que a influência do estilo não exista, mas ela realmente não define o som.

Geralmente, as faixas têm vida própria, com os teclados comandando tudo, porém algumas são menos expressivas que outras. She The Plague, por exemplo, é mediana se comparada à Pieta, com sua melodia inspirada. Este trabalho já lembra menos o Cradle of Filth do que o debut, e estes momentos ficam mais por conta dos gritos estridentes de Narrenschiff, mas, no decorrer das músicas, pouco se depara com o som dos ingleses agora.

A praia te joga mais para o lado de um Agathodaimon, da Alemanha, por exemplo, com a adição de teclados mais felizes. As mostras de Melodic Death já eram flagrantes, mesmo que fossem na linha Children of Bodom, onde os teclados ganham mais força do que em bandas como Soilwork.

Second Skin of Harlequin não é um trabalho essencial que mudará sua vida, mas não é para ficar esquecido em uma prateleira. Se você, que não o conhece ainda, gosta de melodias bonitas, vocais extremos, guturais e rasgados, teclados comandando músicas relativamente curtas, entre 4 e 5 minutos, pode conferir.   

 

sábado, 5 de setembro de 2026

20 anos de A Twist In The Myth do Blind Guardian!!!

O Blind Guardian, da Alemanha, foi moldando seu som através dos anos. De um início mais tradicional, com Battalions Of Fear e Follow The Blind, a um Power Metal ora com influências folk, ora progressivas, para, a partir de Nightfall In Middle-Earth, apresentar um som menos agressivo. O que ouço em seu oitavo trabalho, A Twist In The Myth, é uma banda que sofreu com algumas críticas mais pesadas ao registro anterior, A Night At The Opera, e tentou voltar à era de ouro, mas sem energia suficiente para emplacar clássicos como Imaginations From The Other Side, por exemplo.

Não que Twist seja um álbum ruim, ele só não tem nenhuma raiva embutida e soa politizado, no sentido de tentar agradar uma parcela de fãs que, por ventura, tenham se distanciado nos últimos anos. E é a partir da terceira faixa, Turn The Page, exatamente uma das canções que me remetem ao álbum anterior, que este trabalho começa a fazer sentido. Ela não parece fazer parte da síndrome do "olha, eu ainda sou o Blind Guardian".

Fly também é uma faixa interessante, mas não espere nada acelerado, nenhum grito excepcional de Hansi Kürsch ou uma distorção mais poderosa nas guitarras de Andre Olbrich e Marcus Siepen. Another Strange Me foi presenteada com videoclipe. O solo é legal, apesar de curto, e as cenas do vídeo lembram mais uma banda como o Nevermore do que uma banda que sempre falou de fantasia como o Blind. Mas a música fica um pouco acima da média em relação às demais.

Talvez seja uma unanimidade que as melhores faixas deste trabalho sejam Straight Through The Mirror e Skalds And Shadows, aquelas que mais se aproximam daquilo que o Blind já fez anteriormente. Ainda assim, é importante frisar: o som parece ter recebido uma camada extra de plasticidade, que tornou as músicas muito digitalizadas, como se elas fossem criadas por inteligência artificial, coisa ainda impossível em 2006.

E se você quiser começar a ouvir o Blind Guardian, não comece por A Twist In The Myth. A chance de não querer ouvir algum outro é grande. 

 

20 anos de Stench of Redemption do Deicide!!!


O que esperar do oitavo álbum de estúdio do Deicide, o primeiro após a saída dos guitarristas Eric e Brian Hoffman, dois dos fundadores da banda em 1989?

Bem assessorados — ou inteligentes —, o baixista e vocalista Glen Benton, ao lado do baterista Steve Asheim, trouxeram dois nomes de peso para abafar qualquer polêmica. O primeiro foi Jack Owen, que acabava de se desligar do Cannibal Corpse, outro gigante do death metal americano. Owen também havia sido um dos fundadores do Cannibal, 15 anos antes, e o que saiu na mídia foi que ele havia perdido o interesse pelo death metal. Pois é... meses depois, entrou no Deicide. Então...

O outro convocado, pelo contrário, entrava de cabeça nesse estilo a partir dali. Ralph Santolla, que acabara de tocar por aproximadamente um ano com Sebastian Bach (ex-Skid Row) e que havia feito seu nome na banda de melodic heavy metal Millenium, chegava para abrir um novo leque de possibilidades na guitarra da banda.

Com uma bela e medonha arte de capa, o trabalho, que também saiu pela Earache, é uma bela obra estúpida e acelerada. Percebe-se guitarras mais técnicas e solos mais elaborados — ouça o de "Not of This Earth". Já Asheim ganhou um novo fôlego com essa formação, pois sua bateria está impecável, absurdamente veloz, com pedais duplos arrasadores.

Uma de minhas preferidas é "Desecration". Com um nome simples, porém, sempre que seu riff inicial surge, já me vem aquela lembrança de uma boa e conhecida pancadaria começando.

Os vocais de Benton continuam destruidores. Em momentos como "Never to Be Seen Again", eles são aquele gutural ultracavernoso de álbuns como Once Upon the Cross. Em outros, como "Crucified for the Innocence", Benton já mescla bem os rasgados com o gutural mais aberto.

"The Lord's Sedition", a mais longa do petardo, é aquela que tem um início totalmente distinto de tudo aquilo que o Deicide já havia feito. Parece até que você está começando uma faixa de heavy metal. Claro que essa foi uma inspiração de Santolla — e claro que Benton não permitiu que ela fosse assim o tempo todo. Chega o momento certo, o caos impera e o holocausto se inicia.

A faixa mais conhecida do trabalho certamente é "Homage for Satan", que ganhou um videoclipe, com um riff que remete até ao Slayer em sua fase God Hates Us All e um solo fenomenal de Santolla.

A nova era do Deicide começou com o pé direito.


 

sábado, 29 de agosto de 2026

20 anos de Thornography do Cradle of Filth!!!


Se eu perdi o interesse no Cradle of Filth, após um período sedento por todo material lançado pela banda, foi com Thornography. Não que eu tenha ouvido muito do álbum quando foi lançado, pois naquela época nos baseávamos mais nas resenhas de revistas especializadas para, então, ir atrás do material — caro, diga-se de passagem, principalmente quando se tratava dos álbuns do Cradle, que quase sempre eram importados.

Mas é claro que a paixão por uma banda não acaba apenas por causa de resenhas. É um processo lento e contínuo, construído ao longo de alguns trabalhos que já não trazem o mesmo brilho aos olhos de antigamente. E, ao ouvir agora o sétimo álbum da banda, 20 anos depois, percebo que o (pré)conceito muitas vezes prejudica a nós mesmos. Deixamos de acompanhar um material de qualidade baseados apenas no achismo ou na resenha de outrem, ou seja, em uma opinião muito particular, mesmo quando sustentada por descrições minuciosas da música. Afinal, aquele que escreve também deixa quase sempre explícito aquilo que o álbum representava para ele naquele momento.

O trabalho tem como premissa os riffs de guitarra, o que já vale muitos pontos, já que Paul Allender e Charles Hedger desenvolveram melodias rápidas e condizentes com a proposta de melodic black metal da banda. Os teclados e as orquestrações, com a participação de vários convidados, complementam os elementos góticos e sinfônicos que também preenchem a carenagem da banda.

Adrian Erlandsson, do At The Gates e The Haunted, faz um trabalho de qualidade na bateria, tanto nos momentos acelerados quanto naqueles mais calmos, como em "Lovesick for Mina". A música, inclusive, apresenta algumas guitarras que remetem ao Iron Maiden — não àquele som cavalgado de "Run to the Hills", mas a uma melodia mais progressiva.

Um dos momentos mais interessantes do álbum está em "The Foetus of a New Day Kicking", uma tentativa descarada de soar mais popular e que, em minha opinião, deu muito certo. A banda sai da caixinha e navega por mares já visitados por outros gigantes, como Moonspell e Tiamat. É uma música mais curta e, claro, ganhou videoclipe para divulgação, com Dani se aventurando nos vocais limpos no refrão. Poderia ter soado ridículo, mas ficou muito interessante.

Vendidos? Bem, se esta foi a palavra que você pensou, talvez precise de mais uns 20 anos para se reposicionar.

Um pouco estranha foi a participação de Ville Valo, da banda gótica finlandesa HIM. Definitivamente, acho que seu vocal não combinou em nada com a música Byronic Man do Cradle.

Outra faixa que ganhou videoclipe foi "Tonight in Flames", e chama atenção a base quase heavy metal criada para a música, destoando um pouco do restante, mas sem reduzir a pontuação do trabalho.

David Pybus continua mandando bem no baixo, que aparece de forma mais clara em "Dirge Inferno", faixa que vem logo após a introdução. E minha faixa favorita talvez seja "Under Huntress Moon", com corais bem encaixados, riffs pesados à la Midian e uma grande interpretação de Dani Filth, que, como sempre, é a maior atração da banda, com seus variados vocais demoníacos.

É um álbum que realmente descobri 20 anos depois e que, hoje, teria prazer em ter na minha coleção.


sábado, 22 de agosto de 2026

20 anos de Klagebilder do Crematory!!!


Klagebilder, o nono álbum dos alemães do Crematory, é frequentemente queimado nas fornalhas dos fiscais do metal como um dos maiores traidores da sonoridade death/gótica que a banda construiu em seus primeiros anos. Mas a verdade é que todos os álbuns dessa fase, seja Revolution ou Believe, que já foram resenhados aqui no Metal e Loucuras, sofrem do mesmo estigma. Daí a gente coloca a bolacha para tocar, ouve com atenção para poder resenhar e percebe que, ou a galera que critica mal ouviu o trabalho, ou a banda simplesmente caiu no nosso gosto musical, independentemente da fase.

Não foi diferente com esta obra, gravada por Felix Stass nos vocais guturais, Matthias Hechler nos vocais limpos e guitarras, Katrin Jüllich nos teclados, Harald Heine no baixo e Marcus Jüllich na bateria. Era uma formação que trabalhava junta desde 1999, quando Matthias entrou para a banda, enquanto os demais já estavam presentes desde o início dos anos 90.

A introdução é instrumental e não compromete em nada, mas a faixa seguinte talvez tenha sido uma escolha ruim para apresentar a cara do álbum. "Die Abrechnung" soa bem até chegar ao refrão, quando o vocal limpo não cai tão bem, soando fora de sintonia e um tanto forçado na tentativa de levar a música para um lado mais comercial.

Que bom que o restante não sofre da mesma doença. Isso não significa que a banda não tenha tentado soar mais acessível neste trabalho, com seu lado gótico bastante evidente, mas pelo menos as coisas soam mais naturais a partir de "Hoffnungen".

Aliás, temos algumas músicas muito interessantes, como a ótima "Ein Leben Lang", com um riff forte que lembra algo mais próximo do thrash metal dos conterrâneos do Kreator — que, vale lembrar, também flertou com o gótico em determinado período. "Warum" é outra faixa que agrada profundamente meus ouvidos, graças a um riff pesado, carregado de groove e capaz de fazer a cabeça balançar sem precisar recorrer à velocidade.

Um momento mais introspectivo aparece em "Der Nächste", com vocais mais sussurrados e uma atmosfera perfeita para quem gosta de viagens mais contemplativas.

Os teclados de Katrin sempre foram importantes na música do Crematory, independentemente da fase, e aqui não seria diferente. A diferença é que sinto as guitarras mais evidentes, fazendo com que os teclados funcionem muito mais como apoio e preenchimento do que como protagonistas. E isso funciona muito bem para a proposta do álbum.

Se você não conhece Klagebilder, não o coloque para tocar esperando momentos para sair batendo cabeça pela sala. Ouça-o para relaxar, acompanhado de uma música que, mesmo sem ter essa missão declarada, consegue te arrancar por alguns minutos daquela rotina entediante do dia a dia.

Destaque para Matthias Hechler que, tirando a abertura, entrega ótimos vocais limpos durante o restante do trabalho, além de contribuir com guitarras que funcionam muito bem dentro da proposta de Klagebilder. E Felix Stass, claro, continua sendo responsável por aquele vocal gutural que é, para mim, uma das almas do Crematory. 

 

domingo, 16 de agosto de 2026

20 anos de Cristo Satânico do Asesino!!!



Conhecido mundialmente como guitarrista do Fear Factory, Dino Cazares ajudou a criar o Brujeria em 1989, utilizando o nome de Assassino, ou Asesino, em espanhol. Também criou o Divine Heresy e, logo que saiu do Brujeria, formou o Asesino, banda que carregava seu nome de mascarado e seguia a mesma proposta: death/grind cantado em espanhol. Cristo Satánico foi o segundo álbum, lançado em 2006, e representa mais um capítulo monstruoso de sua trajetória.

Ao seu lado estavam o vocalista e baixista Maldito X, ou Tony Campos, e o baterista El Sadístico, ou Emilio Marques, formando um trio avassalador. O que chama a atenção de imediato é a produção do álbum, com todos os instrumentos muito bem equalizados. A bateria é rápida, carregada de blast beats e viradas velozes, mas sem perder a precisão dos timbres.

Outro destaque são os vocais monstruosos de Maldito. Seja no gutural mais profundo ou no rasgado, ele despeja podridão com força e uma entonação perfeitamente encaixada no instrumental.

As letras, evidentemente, não podem ser levadas muito a sério. Há muito sarcasmo e um humor de quinta série que, dependendo do seu estado de espírito, pode ser simplesmente ignorado ou até divertido. Títulos inusitados como "Puta con Pito?" e "Y Tu Mamá También" deixam claro que seriedade não é algo que você deve esperar por aqui. Se para você o que importa é o som, Cristo Satánico é um prato de fel caprichado.

Cazares, como sempre, despeja riffs insanos por todos os lados. Mas há uma diferença importante em relação ao que ele faz no Fear Factory. Aqui não temos aquele groove, os riffs gordos e as notas extensas que marcaram sua outra banda. As palhetadas são mais rápidas e curtas, mantendo o instrumental em constante estado de agressividade. São raros os momentos em que o som diminui a intensidade, como acontece em "Padre Pedófilo" e "Sadístico".

Minha faixa preferida é justamente a que vem logo depois da introdução, "Regresando Odio", uma verdadeira cassetada carregada de agressividade, perfeita para aquele mosh com nome de filme antigo: "Pague para entrar, reze para sair". Aqui, a destruição não é uma possibilidade, mas parte do pacote.

Temos algumas participações especiais no trabalho, mas duas merecem destaque. O guitarrista Andreas Kisser do Sepultura, creditado como Sepulculo, e o o vocalista James Jasta do Hatebreed, como El Odio, que adiciona seus berros na citada Regresando Odio.

Uma pena é que este tenha sido o último trabalho do Asesino até agora. Passadas duas décadas, Cristo Satánico continua sendo um registro brutal, sarcástico e extremamente divertido de uma das faces mais podres — no melhor sentido possível — de Dino Cazares.


 

sábado, 1 de agosto de 2026

20 anos de Aeternum Vale do Doom:vs!!!


Enquanto a banda sueca Draconian chegava ao seu terceiro trabalho, intitulado The Burning Halo, um de seus guitarristas, Johan Ericson, também lançava o álbum de estreia de seu projeto solo, o Doom:vs. Aproveitando a oportunidade, vale corrigir uma informação antiga: o "vs" não significa "versus". Na verdade, a letra v substitui o u, e a pronúncia correta do nome é "Doomus". O próprio Johan explicou que a palavra deriva do latim domus, que significa "casa". Acrescentando um "o", em referência ao doom metal, chegou a um nome que pode ser interpretado como "a casa da perdição".

E essa sensação é imediata ao folhear o encarte de Aeternum Vale. Forcas penduradas, cadeiras destroçadas e o interior decadente de uma casa criam uma atmosfera de desespero antes mesmo da primeira nota soar.

Nesta empreitada, Johan toca todos os instrumentos e assume todos os vocais, algo que impressiona, já que a maioria dos projetos solo costuma recorrer a músicos convidados, principalmente bateristas e vocalistas.

A capa do álbum remete imediatamente ao segundo trabalho do Draconian, em que uma árvore ocupa o centro da composição. Aqui, porém, não existe um anjo sofrendo sob seus galhos. Acho esse contraste bastante interessante, pois, se encararmos o vocal feminino do Draconian como uma representação angelical, em Aeternum Vale temos um instrumental que caminha pela mesma atmosfera, mas sem essa voz. É como se o anjo simplesmente tivesse desaparecido, tanto da música quanto da arte.

Para quem acompanha o estilo com devoção, Aeternum Vale é um prato servido com dor, lodo e tristeza — exatamente tudo aquilo que esperamos encontrar em um grande álbum de doom metal, daqueles que permanecem na memória e parecem pedir para serem ouvidos por toda a vida.

Na minha opinião, é o trabalho mais impactante dos três lançados pelo Doom:vs. Ele preserva a essência das grandes bandas de death/doom dos anos 90 e ainda incorpora uma atmosfera funeral que, naquela época, era pouco explorada.

As guitarras conduzem toda a obra com peso e uma distorção profundamente fúnebre, enquanto os teclados aparecem de maneira discreta e pontual, apenas para reforçar os momentos mais melancólicos. Os vocais são predominantemente guturais, mas também há espaço para passagens limpas e narradas. E ainda encontramos belíssimos solos de guitarra, que parecem transportar o ouvinte pelo espaço com uma delicadeza quase hipnótica, como acontece em "The Faded Earth".

Tenho a impressão de que, se Aeternum Vale tivesse sido lançado na primeira metade dos anos 90, o Doom:vs seria lembrado hoje como uma das grandes bandas do estilo, e não apenas como um projeto paralelo cuja continuidade sequer sabemos se ainda existe, especialmente porque o Draconian passou a consumir cada vez mais tempo de Johan Ericson com turnês e compromissos ao redor do mundo.

Aeternum Vale é um trabalho irrepreensível e merece ocupar um lugar na prateleira de qualquer amante da escuridão gelada que é o doom metal.


Blast Doommaker

domingo, 19 de julho de 2026

20 anos de Nefasto Caminho da Profanação do In Nomine Belialis!!!


Quem aí se lembra ou conhece os primeiros álbuns do Malkuth, banda de black metal pernambucana com origem nos anos 90? Em especial das melodias quase ingênuas, gravadas na raça, que surgiam em meio à enxurrada maléfica? E o vocal rasgado, profundo, lembrando um demônio acorrentado nas masmorras da geena de Sucoth Benoth, do Amen Corner, ainda antes do primeiro full? E da banda americana Absu, do baterista e vocalista Proscriptor, que tocava tão rápido quanto um raio enquanto berrava ao microfone? Pois bem, jogue todas essas influências em um liquidificador e terá Nefasto Caminho da Profanação, primeiro full da banda belo-horizontina de black metal In Nomine Belialis, lançado em 2006.

Com o guitarrista Ameth, que também gravou o primeiro álbum do Defacer, a banda desfere riffs afiados, quase tão gelados quanto os das formações nórdicas, mas carregando uma identidade fortemente ligada ao underground mineiro, que domina o trabalho do início ao fim. O baixo de Black Priest sofre um pouco com a produção modesta e acaba ficando mais discreto do que merece, embora uma audição mais atenta — de preferência com fones de ouvido — revele linhas que enriquecem consideravelmente as composições. Nos vocais e na bateria, Nephastus Porphir entrega uma performance malignamente soberba, despejando fúria com braços e pés enquanto vocifera blasfêmias que parecem ecoar diretamente de catacumbas úmidas e esquecidas pelo tempo.

As composições transitam entre investidas velozes e passagens mais cadenciadas, sempre sustentadas por melodias soturnas que remetem ao black metal brasileiro da segunda metade dos anos 90. Não há espaço para exibicionismos; cada riff, cada virada de bateria e cada mudança de andamento parecem existir exclusivamente para fortalecer a atmosfera profana que envolve o disco. A produção crua, longe de representar uma deficiência, reforça a sensação de estar diante de um registro genuinamente underground.

A faixa-título, Nefasto Caminho da Profanação, sintetiza perfeitamente a proposta da banda. Rápida, agressiva e com mudanças de andamento muito bem encaixadas, carrega um espírito old school que se manifesta tanto na construção musical quanto na temática lírica. Profanação e Vitória chama atenção logo nos primeiros segundos ao colocar o baixo em evidência antes da avalanche de guitarras tomar conta da composição. Nesse momento, a banda deixa transparecer uma sutil influência do black metal escandinavo, especialmente da escola finlandesa, sem jamais abandonar sua personalidade. Já Meu Espírito Prolifera o Mal reserva uma das passagens mais inspiradas do álbum, quando o baixo novamente assume protagonismo e conduz uma sequência melódica obscura, enriquecendo a atmosfera e demonstrando que a agressividade do In Nomine Belialis também sabe dialogar com momentos mais contemplativos.

Outro grande destaque é Glórias a Belial, composição que aposta em uma abordagem mais ritualística, marcada por vocais ainda mais cavernosos e uma atmosfera quase litúrgica em sua blasfêmia. É um daqueles momentos em que a banda consegue transportar o ouvinte para um cenário de templos em ruínas, fumaça e profanação, encerrando um dos pontos mais altos do álbum.

Todas as letras são em português, reforçando ainda mais a identidade da obra. Nefasto Caminho da Profanação permanece como uma joia escondida do underground mineiro e um retrato fiel de uma época em que paixão, convicção e autenticidade falavam mais alto do que grandes produções ou orçamentos elevados. Felizmente, o álbum ainda pode ser encontrado por aí, desde que se tenha sorte. Uma verdadeira relíquia que merece ser redescoberta por qualquer apreciador de black metal que valorize personalidade, atmosfera e a essência mais pura da música extrema nacional.


 

sábado, 11 de julho de 2026

20 anos de Suffocation do Suffocation!!!


O Suffocation nasceu em 1989, em Nova York, numa época em que o death metal americano já havia cravado seu nome na história como um dos mais insanos e influentes do planeta. Nem por isso a banda resolveu ser apenas mais uma cópia dos gigantes que já dominavam o estilo. Muito pelo contrário. O Suffocation carrega o estigma — e também o mérito — de ser um dos criadores do technical brutal death metal, subgênero que une a brutalidade de um som ignorante e doentio à complexidade de quebras de ritmo, baterias repletas de viradas intrincadas, guitarras dissonantes e um alto grau de virtuosismo.

Neste álbum autointitulado, o quinto da carreira, encontramos exatamente essa combinação explosiva. O que o diferencia de muitos outros trabalhos do estilo é seu andamento mais arrastado, como se o caminhão do sorveteiro do inferno estivesse subindo uma ladeira enquanto o sujeito lá dentro congela membros amputados e embalados a vácuo. A violência continua presente, mas é conduzida por um peso quase sufocante.

Há espaço até para melodias inesperadas, como na introdução de "Redemption", que logo desemboca em um longo solo de guitarra. Já "Translucent Patterns of Delirium" talvez seja o maior exemplo da proposta técnica do álbum, apresentando riffs que desafiam qualquer lógica estabelecida dentro do death metal.

E é curioso falar em padrões dentro do heavy metal, um estilo que nasceu justamente para defender a liberdade de expressão e de escolhas, mas que, no fim das contas, acaba se tornando refém de uma característica tipicamente humana: a necessidade de criar rótulos e regras.

Já que o assunto são guitarras, faça um favor a si mesmo e ouça o solo de "Creed of the Infidel". Está entre os melhores que o Suffocation já compôs.

Outro aspecto que merece destaque são os vocais de Frank Mullen. Não é por acaso que ele é apontado como uma das maiores influências para vocalistas do death metal moderno. Seu gutural gravíssimo, surpreendentemente inteligível em boa parte do álbum, ajudou a consolidar o death growl como referência dentro do estilo. Além disso, surgem alguns fraseados que lembram os pig squeals, aquele vocal que mais parece um porco enfurecido sendo esfaqueado.

A arte da capa, assinada por Jon Zig — conhecido por trabalhos com bandas como Exhumed e Averse Sefira —, retrata um cenário sombrio e desolado, povoado por esqueletos soterrados e demônios errantes. O logotipo da banda e seu símbolo ocupam posição de destaque na parte superior da composição, resultando em uma ilustração simples, mas extremamente eficiente.

E como presente temos uma regravação da música "Prelude To Repulsion", faixa do eterno clássico trabalho Breeding the Spawn de 1993, que novamente ficou arrasadora.

Completam a formação Terrance Hobbs e Guy Marchais nas guitarras, Derek Boyer no baixo e Mike Smith na bateria.

Material absolutamente não recomendável para ouvidos sensíveis.


 

sábado, 4 de julho de 2026

20 anos de Transcendental do Imago Mortis!!!


O terceiro trabalho dos cariocas do Imago Mortis é Transcendental. Liderada pelo vocalista Alex Voorhees, a banda contava com Dennis Pombo e Rafael Bianzeno nas guitarras — este último também responsável pelas passagens de violino. A formação se completava com Bruno Coe no baixo e André Delacroix na bateria. Já o tecladista Pedro Santos aparece como músico convidado, embora participe de metade das doze faixas do álbum.

A banda continua trilhando o caminho do doom metal, ainda que incorpore, em diversos momentos, influências de power metal e até de thrash metal, como acontece na agressiva "Kali Yuga". Curiosamente, a música traz um órgão Hammond em destaque, instrumento que vez ou outra aparece em algum trabalho de metal, mas com o qual confesso nunca consegui me acostumar.

Há espaço também para um quase death/thrash em "Sangue e Dor", a faixa mais agressiva do disco e a única cantada em português. Em contrapartida, a abertura formada por "Hall of Souls" e "Across the Desert" mergulha de cabeça no épico doom metal, agradando facilmente aos fãs de Candlemass e Solitude Aeternus.

A participação especial de Melissa Matos, creditada como Mel Bôa Morte e conhecida por sua passagem pela banda de gothic metal Trinnity, enriquece "Searching for a Touch of Divinity" com seus vocais femininos.

O trabalho das guitarras merece elogios à parte. Em alguns momentos, como na belíssima "Love Path", as melodias remetem ao My Dying Bride, especialmente à fase de Like Gods of the Sun.

Meu momento preferido, no entanto, é a épica "Undrying Tears". Talvez porque ela faça parte de uma de minhas coletâneas pessoais de muitos anos atrás, mas também porque reúne com enorme competência diferentes atmosferas e elementos musicais, conduzindo o ouvinte de um sentimento a outro com naturalidade, classe e desenvoltura. É impossível não reservar um lugar especial para uma composição como essa.

Como bônus, o álbum ainda traz "Bring Out Your Dead", clássico absoluto e provavelmente a música mais conhecida da banda, originalmente lançada no álbum de estreia, em 1998.

Transcendental é mais uma prova da enorme qualidade do vasto e poderoso cenário nacional, e chega aos vinte anos como um trabalho que merece ser redescoberto.