segunda-feira, 7 de setembro de 2026

20 anos de Christ Illusion do Slayer!!!

Sempre achei o Slayer uma banda inconstante depois do sensacional Seasons in the Abyss, de 1990. Defender a banda como representante suprema do Thrash Metal, frente às incursões das outras três bandas do Big 4 em outros estilos, foi — ou continua sendo — uma falácia de advogado forjado em EAD, já que, de 1994 em diante, eles flertaram com Punk e New Metal.

Mas acredito que justamente Christ Illusion tenha sido a primeira tentativa, em anos, de voltar ao Thrash Metal, mesmo que sem a mesma capacidade de trazer à tona novos e imortais clássicos. Algumas músicas, como Flesh Storm, que abre o trabalho, ou Jihad, têm uma veia mais interessante, apesar de os fraseados inseridos em Jihad terem sido usados dezenas de vezes por Dave Mustaine.

O retorno de Dave Lombardo ao kit de bateria também pode não ter tido o resultado desejado por milhares de fãs, uma vez que Paul Bostaph vinha desempenhando um bom trabalho, e aqui não vemos nada tão esmagador quanto o que ele entregava nos anos 80. Catatonic é uma música interessante, com ritmo cadenciado, e deixa ainda mais claro um aspecto cru da produção. Como se a banda tivesse voltado à era analógica sem botar muito a mão na massa na hora de produzir o trabalho.

Isso não soa exatamente como um álbum mais Thrash, porém elimina qualquer groove ou tendência mais modernosa presentes nos dois últimos full lengths. As letras também não evoluíram. Motivados por guerras santas (se você considera o petróleo algo santo) ao redor do mundo e críticas ao próprio governo americano, lembram mais adolescentes tentando soar inteligentes para colegas e garotas numa mesa cheia de garrafas vazias de cerveja e fumaça de cigarro no bar da faculdade, em final de período.

Mas, repito em outras palavras: antes uma tentativa vaga de retornar ao som que os consagrou do que continuar tentando a redenção num estilo em que entraram de intrometidos.  

 

20 anos de Second Skin of Harlequin do Illnath!!!

Após um início bem interessante, com Cast Into Fields of Evil Pleasure, de 2003, a banda de Symphonic/Melodic Black Metal Illnath, da Dinamarca, retornava em 2006 com sua segunda obra, Second Skin of Harlequin. Na formação, apenas a saída do baterista Benjamin Johannesen, com créditos para um músico contratado creditado como Snick (se bem que, com este nome e mais nada com que se possa pesquisar a respeito, pode nem ser um humano).

A música do Illnath continua muito boa aqui, apenas perdeu um pouco daquela magia do debut, quando os músicos ficam anos aprimorando as ideias para colocá-las em prática no estúdio. A arte da capa me agrada, principalmente pelo jogo de cores verdes, pretas e brancas, apesar de indicar erroneamente um trabalho gótico. Não que a influência do estilo não exista, mas ela realmente não define o som.

Geralmente, as faixas têm vida própria, com os teclados comandando tudo, porém algumas são menos expressivas que outras. She The Plague, por exemplo, é mediana se comparada à Pieta, com sua melodia inspirada. Este trabalho já lembra menos o Cradle of Filth do que o debut, e estes momentos ficam mais por conta dos gritos estridentes de Narrenschiff, mas, no decorrer das músicas, pouco se depara com o som dos ingleses agora.

A praia te joga mais para o lado de um Agathodaimon, da Alemanha, por exemplo, com a adição de teclados mais felizes. As mostras de Melodic Death já eram flagrantes, mesmo que fossem na linha Children of Bodom, onde os teclados ganham mais força do que em bandas como Soilwork.

Second Skin of Harlequin não é um trabalho essencial que mudará sua vida, mas não é para ficar esquecido em uma prateleira. Se você, que não o conhece ainda, gosta de melodias bonitas, vocais extremos, guturais e rasgados, teclados comandando músicas relativamente curtas, entre 4 e 5 minutos, pode conferir.   

 

sábado, 5 de setembro de 2026

20 anos de A Twist In The Myth do Blind Guardian!!!

O Blind Guardian, da Alemanha, foi moldando seu som através dos anos. De um início mais tradicional, com Battalions Of Fear e Follow The Blind, a um Power Metal ora com influências folk, ora progressivas, para, a partir de Nightfall In Middle-Earth, apresentar um som menos agressivo. O que ouço em seu oitavo trabalho, A Twist In The Myth, é uma banda que sofreu com algumas críticas mais pesadas ao registro anterior, A Night At The Opera, e tentou voltar à era de ouro, mas sem energia suficiente para emplacar clássicos como Imaginations From The Other Side, por exemplo.

Não que Twist seja um álbum ruim, ele só não tem nenhuma raiva embutida e soa politizado, no sentido de tentar agradar uma parcela de fãs que, por ventura, tenham se distanciado nos últimos anos. E é a partir da terceira faixa, Turn The Page, exatamente uma das canções que me remetem ao álbum anterior, que este trabalho começa a fazer sentido. Ela não parece fazer parte da síndrome do "olha, eu ainda sou o Blind Guardian".

Fly também é uma faixa interessante, mas não espere nada acelerado, nenhum grito excepcional de Hansi Kürsch ou uma distorção mais poderosa nas guitarras de Andre Olbrich e Marcus Siepen. Another Strange Me foi presenteada com videoclipe. O solo é legal, apesar de curto, e as cenas do vídeo lembram mais uma banda como o Nevermore do que uma banda que sempre falou de fantasia como o Blind. Mas a música fica um pouco acima da média em relação às demais.

Talvez seja uma unanimidade que as melhores faixas deste trabalho sejam Straight Through The Mirror e Skalds And Shadows, aquelas que mais se aproximam daquilo que o Blind já fez anteriormente. Ainda assim, é importante frisar: o som parece ter recebido uma camada extra de plasticidade, que tornou as músicas muito digitalizadas, como se elas fossem criadas por inteligência artificial, coisa ainda impossível em 2006.

E se você quiser começar a ouvir o Blind Guardian, não comece por A Twist In The Myth. A chance de não querer ouvir algum outro é grande. 

 

20 anos de Stench of Redemption do Deicide!!!


O que esperar do oitavo álbum de estúdio do Deicide, o primeiro após a saída dos guitarristas Eric e Brian Hoffman, dois dos fundadores da banda em 1989?

Bem assessorados — ou inteligentes —, o baixista e vocalista Glen Benton, ao lado do baterista Steve Asheim, trouxeram dois nomes de peso para abafar qualquer polêmica. O primeiro foi Jack Owen, que acabava de se desligar do Cannibal Corpse, outro gigante do death metal americano. Owen também havia sido um dos fundadores do Cannibal, 15 anos antes, e o que saiu na mídia foi que ele havia perdido o interesse pelo death metal. Pois é... meses depois, entrou no Deicide. Então...

O outro convocado, pelo contrário, entrava de cabeça nesse estilo a partir dali. Ralph Santolla, que acabara de tocar por aproximadamente um ano com Sebastian Bach (ex-Skid Row) e que havia feito seu nome na banda de melodic heavy metal Millenium, chegava para abrir um novo leque de possibilidades na guitarra da banda.

Com uma bela e medonha arte de capa, o trabalho, que também saiu pela Earache, é uma bela obra estúpida e acelerada. Percebe-se guitarras mais técnicas e solos mais elaborados — ouça o de "Not of This Earth". Já Asheim ganhou um novo fôlego com essa formação, pois sua bateria está impecável, absurdamente veloz, com pedais duplos arrasadores.

Uma de minhas preferidas é "Desecration". Com um nome simples, porém, sempre que seu riff inicial surge, já me vem aquela lembrança de uma boa e conhecida pancadaria começando.

Os vocais de Benton continuam destruidores. Em momentos como "Never to Be Seen Again", eles são aquele gutural ultracavernoso de álbuns como Once Upon the Cross. Em outros, como "Crucified for the Innocence", Benton já mescla bem os rasgados com o gutural mais aberto.

"The Lord's Sedition", a mais longa do petardo, é aquela que tem um início totalmente distinto de tudo aquilo que o Deicide já havia feito. Parece até que você está começando uma faixa de heavy metal. Claro que essa foi uma inspiração de Santolla — e claro que Benton não permitiu que ela fosse assim o tempo todo. Chega o momento certo, o caos impera e o holocausto se inicia.

A faixa mais conhecida do trabalho certamente é "Homage for Satan", que ganhou um videoclipe, com um riff que remete até ao Slayer em sua fase God Hates Us All e um solo fenomenal de Santolla.

A nova era do Deicide começou com o pé direito.


 

sábado, 29 de agosto de 2026

20 anos de Thornography do Cradle of Filth!!!


Se eu perdi o interesse no Cradle of Filth, após um período sedento por todo material lançado pela banda, foi com Thornography. Não que eu tenha ouvido muito do álbum quando foi lançado, pois naquela época nos baseávamos mais nas resenhas de revistas especializadas para, então, ir atrás do material — caro, diga-se de passagem, principalmente quando se tratava dos álbuns do Cradle, que quase sempre eram importados.

Mas é claro que a paixão por uma banda não acaba apenas por causa de resenhas. É um processo lento e contínuo, construído ao longo de alguns trabalhos que já não trazem o mesmo brilho aos olhos de antigamente. E, ao ouvir agora o sétimo álbum da banda, 20 anos depois, percebo que o (pré)conceito muitas vezes prejudica a nós mesmos. Deixamos de acompanhar um material de qualidade baseados apenas no achismo ou na resenha de outrem, ou seja, em uma opinião muito particular, mesmo quando sustentada por descrições minuciosas da música. Afinal, aquele que escreve também deixa quase sempre explícito aquilo que o álbum representava para ele naquele momento.

O trabalho tem como premissa os riffs de guitarra, o que já vale muitos pontos, já que Paul Allender e Charles Hedger desenvolveram melodias rápidas e condizentes com a proposta de melodic black metal da banda. Os teclados e as orquestrações, com a participação de vários convidados, complementam os elementos góticos e sinfônicos que também preenchem a carenagem da banda.

Adrian Erlandsson, do At The Gates e The Haunted, faz um trabalho de qualidade na bateria, tanto nos momentos acelerados quanto naqueles mais calmos, como em "Lovesick for Mina". A música, inclusive, apresenta algumas guitarras que remetem ao Iron Maiden — não àquele som cavalgado de "Run to the Hills", mas a uma melodia mais progressiva.

Um dos momentos mais interessantes do álbum está em "The Foetus of a New Day Kicking", uma tentativa descarada de soar mais popular e que, em minha opinião, deu muito certo. A banda sai da caixinha e navega por mares já visitados por outros gigantes, como Moonspell e Tiamat. É uma música mais curta e, claro, ganhou videoclipe para divulgação, com Dani se aventurando nos vocais limpos no refrão. Poderia ter soado ridículo, mas ficou muito interessante.

Vendidos? Bem, se esta foi a palavra que você pensou, talvez precise de mais uns 20 anos para se reposicionar.

Um pouco estranha foi a participação de Ville Valo, da banda gótica finlandesa HIM. Definitivamente, acho que seu vocal não combinou em nada com a música Byronic Man do Cradle.

Outra faixa que ganhou videoclipe foi "Tonight in Flames", e chama atenção a base quase heavy metal criada para a música, destoando um pouco do restante, mas sem reduzir a pontuação do trabalho.

David Pybus continua mandando bem no baixo, que aparece de forma mais clara em "Dirge Inferno", faixa que vem logo após a introdução. E minha faixa favorita talvez seja "Under Huntress Moon", com corais bem encaixados, riffs pesados à la Midian e uma grande interpretação de Dani Filth, que, como sempre, é a maior atração da banda, com seus variados vocais demoníacos.

É um álbum que realmente descobri 20 anos depois e que, hoje, teria prazer em ter na minha coleção.


sábado, 22 de agosto de 2026

20 anos de Klagebilder do Crematory!!!


Klagebilder, o nono álbum dos alemães do Crematory, é frequentemente queimado nas fornalhas dos fiscais do metal como um dos maiores traidores da sonoridade death/gótica que a banda construiu em seus primeiros anos. Mas a verdade é que todos os álbuns dessa fase, seja Revolution ou Believe, que já foram resenhados aqui no Metal e Loucuras, sofrem do mesmo estigma. Daí a gente coloca a bolacha para tocar, ouve com atenção para poder resenhar e percebe que, ou a galera que critica mal ouviu o trabalho, ou a banda simplesmente caiu no nosso gosto musical, independentemente da fase.

Não foi diferente com esta obra, gravada por Felix Stass nos vocais guturais, Matthias Hechler nos vocais limpos e guitarras, Katrin Jüllich nos teclados, Harald Heine no baixo e Marcus Jüllich na bateria. Era uma formação que trabalhava junta desde 1999, quando Matthias entrou para a banda, enquanto os demais já estavam presentes desde o início dos anos 90.

A introdução é instrumental e não compromete em nada, mas a faixa seguinte talvez tenha sido uma escolha ruim para apresentar a cara do álbum. "Die Abrechnung" soa bem até chegar ao refrão, quando o vocal limpo não cai tão bem, soando fora de sintonia e um tanto forçado na tentativa de levar a música para um lado mais comercial.

Que bom que o restante não sofre da mesma doença. Isso não significa que a banda não tenha tentado soar mais acessível neste trabalho, com seu lado gótico bastante evidente, mas pelo menos as coisas soam mais naturais a partir de "Hoffnungen".

Aliás, temos algumas músicas muito interessantes, como a ótima "Ein Leben Lang", com um riff forte que lembra algo mais próximo do thrash metal dos conterrâneos do Kreator — que, vale lembrar, também flertou com o gótico em determinado período. "Warum" é outra faixa que agrada profundamente meus ouvidos, graças a um riff pesado, carregado de groove e capaz de fazer a cabeça balançar sem precisar recorrer à velocidade.

Um momento mais introspectivo aparece em "Der Nächste", com vocais mais sussurrados e uma atmosfera perfeita para quem gosta de viagens mais contemplativas.

Os teclados de Katrin sempre foram importantes na música do Crematory, independentemente da fase, e aqui não seria diferente. A diferença é que sinto as guitarras mais evidentes, fazendo com que os teclados funcionem muito mais como apoio e preenchimento do que como protagonistas. E isso funciona muito bem para a proposta do álbum.

Se você não conhece Klagebilder, não o coloque para tocar esperando momentos para sair batendo cabeça pela sala. Ouça-o para relaxar, acompanhado de uma música que, mesmo sem ter essa missão declarada, consegue te arrancar por alguns minutos daquela rotina entediante do dia a dia.

Destaque para Matthias Hechler que, tirando a abertura, entrega ótimos vocais limpos durante o restante do trabalho, além de contribuir com guitarras que funcionam muito bem dentro da proposta de Klagebilder. E Felix Stass, claro, continua sendo responsável por aquele vocal gutural que é, para mim, uma das almas do Crematory. 

 

domingo, 16 de agosto de 2026

20 anos de Cristo Satânico do Asesino!!!

Gostei bastante desta. Ela tem uma pegada mais descontraída e agressiva, que combina muito com o Asesino. Mantive suas brincadeiras, principalmente a referência ao filme no final, mas corrigi algumas repetições e deixei mais claro o contraste entre o som do Asesino e o trabalho de Dino no Fear Factory.

Conhecido mundialmente como guitarrista do Fear Factory, Dino Cazares ajudou a criar o Brujeria em 1989, utilizando o nome de Assassino, ou Asesino, em espanhol. Também criou o Divine Heresy e, logo que saiu do Brujeria, formou o Asesino, banda que carregava seu nome de mascarado e seguia a mesma proposta: death/grind cantado em espanhol. Cristo Satánico foi o segundo álbum, lançado em 2006, e representa mais um capítulo monstruoso de sua trajetória.

Ao seu lado estavam o vocalista e baixista Maldito X, ou Tony Campos, e o baterista El Sadístico, ou Emilio Marques, formando um trio avassalador. O que chama a atenção de imediato é a produção do álbum, com todos os instrumentos muito bem equalizados. A bateria é rápida, carregada de blast beats e viradas velozes, mas sem perder a precisão dos timbres.

Outro destaque são os vocais monstruosos de Maldito. Seja no gutural mais profundo ou no rasgado, ele despeja podridão com força e uma entonação perfeitamente encaixada no instrumental.

As letras, evidentemente, não podem ser levadas muito a sério. Há muito sarcasmo e um humor de quinta série que, dependendo do seu estado de espírito, pode ser simplesmente ignorado ou até divertido. Títulos inusitados como "Puta con Pito?" e "Y Tu Mamá También" deixam claro que seriedade não é algo que você deve esperar por aqui. Se para você o que importa é o som, Cristo Satánico é um prato de fel caprichado.

Cazares, como sempre, despeja riffs insanos por todos os lados. Mas há uma diferença importante em relação ao que ele faz no Fear Factory. Aqui não temos aquele groove, os riffs gordos e as notas extensas que marcaram sua outra banda. As palhetadas são mais rápidas e curtas, mantendo o instrumental em constante estado de agressividade. São raros os momentos em que o som diminui a intensidade, como acontece em "Padre Pedófilo" e "Sadístico".

Minha faixa preferida é justamente a que vem logo depois da introdução, "Regresando Odio", uma verdadeira cassetada carregada de agressividade, perfeita para aquele mosh com nome de filme antigo: "Pague para entrar, reze para sair". Aqui, a destruição não é uma possibilidade, mas parte do pacote.

Temos algumas participações especiais no trabalho, mas duas merecem destaque. O guitarrista Andreas Kisser do Sepultura, creditado como Sepulculo, e o o vocalista James Jasta do Hatebreed, como El Odio, que adiciona seus berros na citada Regresando Odio.

Uma pena é que este tenha sido o último trabalho do Asesino até agora. Passadas duas décadas, Cristo Satánico continua sendo um registro brutal, sarcástico e extremamente divertido de uma das faces mais podres — no melhor sentido possível — de Dino Cazares.


 

sábado, 1 de agosto de 2026

20 anos de Aeternum Vale do Doom:vs!!!


Enquanto a banda sueca Draconian chegava ao seu terceiro trabalho, intitulado The Burning Halo, um de seus guitarristas, Johan Ericson, também lançava o álbum de estreia de seu projeto solo, o Doom:vs. Aproveitando a oportunidade, vale corrigir uma informação antiga: o "vs" não significa "versus". Na verdade, a letra v substitui o u, e a pronúncia correta do nome é "Doomus". O próprio Johan explicou que a palavra deriva do latim domus, que significa "casa". Acrescentando um "o", em referência ao doom metal, chegou a um nome que pode ser interpretado como "a casa da perdição".

E essa sensação é imediata ao folhear o encarte de Aeternum Vale. Forcas penduradas, cadeiras destroçadas e o interior decadente de uma casa criam uma atmosfera de desespero antes mesmo da primeira nota soar.

Nesta empreitada, Johan toca todos os instrumentos e assume todos os vocais, algo que impressiona, já que a maioria dos projetos solo costuma recorrer a músicos convidados, principalmente bateristas e vocalistas.

A capa do álbum remete imediatamente ao segundo trabalho do Draconian, em que uma árvore ocupa o centro da composição. Aqui, porém, não existe um anjo sofrendo sob seus galhos. Acho esse contraste bastante interessante, pois, se encararmos o vocal feminino do Draconian como uma representação angelical, em Aeternum Vale temos um instrumental que caminha pela mesma atmosfera, mas sem essa voz. É como se o anjo simplesmente tivesse desaparecido, tanto da música quanto da arte.

Para quem acompanha o estilo com devoção, Aeternum Vale é um prato servido com dor, lodo e tristeza — exatamente tudo aquilo que esperamos encontrar em um grande álbum de doom metal, daqueles que permanecem na memória e parecem pedir para serem ouvidos por toda a vida.

Na minha opinião, é o trabalho mais impactante dos três lançados pelo Doom:vs. Ele preserva a essência das grandes bandas de death/doom dos anos 90 e ainda incorpora uma atmosfera funeral que, naquela época, era pouco explorada.

As guitarras conduzem toda a obra com peso e uma distorção profundamente fúnebre, enquanto os teclados aparecem de maneira discreta e pontual, apenas para reforçar os momentos mais melancólicos. Os vocais são predominantemente guturais, mas também há espaço para passagens limpas e narradas. E ainda encontramos belíssimos solos de guitarra, que parecem transportar o ouvinte pelo espaço com uma delicadeza quase hipnótica, como acontece em "The Faded Earth".

Tenho a impressão de que, se Aeternum Vale tivesse sido lançado na primeira metade dos anos 90, o Doom:vs seria lembrado hoje como uma das grandes bandas do estilo, e não apenas como um projeto paralelo cuja continuidade sequer sabemos se ainda existe, especialmente porque o Draconian passou a consumir cada vez mais tempo de Johan Ericson com turnês e compromissos ao redor do mundo.

Aeternum Vale é um trabalho irrepreensível e merece ocupar um lugar na prateleira de qualquer amante da escuridão gelada que é o doom metal.


Blast Doommaker

domingo, 19 de julho de 2026

20 anos de Nefasto Caminho da Profanação do In Nomine Belialis!!!


Quem aí se lembra ou conhece os primeiros álbuns do Malkuth, banda de black metal pernambucana com origem nos anos 90? Em especial das melodias quase ingênuas, gravadas na raça, que surgiam em meio à enxurrada maléfica? E o vocal rasgado, profundo, lembrando um demônio acorrentado nas masmorras da geena de Sucoth Benoth, do Amen Corner, ainda antes do primeiro full? E da banda americana Absu, do baterista e vocalista Proscriptor, que tocava tão rápido quanto um raio enquanto berrava ao microfone? Pois bem, jogue todas essas influências em um liquidificador e terá Nefasto Caminho da Profanação, primeiro full da banda belo-horizontina de black metal In Nomine Belialis, lançado em 2006.

Com o guitarrista Ameth, que também gravou o primeiro álbum do Defacer, a banda desfere riffs afiados, quase tão gelados quanto os das formações nórdicas, mas carregando uma identidade fortemente ligada ao underground mineiro, que domina o trabalho do início ao fim. O baixo de Black Priest sofre um pouco com a produção modesta e acaba ficando mais discreto do que merece, embora uma audição mais atenta — de preferência com fones de ouvido — revele linhas que enriquecem consideravelmente as composições. Nos vocais e na bateria, Nephastus Porphir entrega uma performance malignamente soberba, despejando fúria com braços e pés enquanto vocifera blasfêmias que parecem ecoar diretamente de catacumbas úmidas e esquecidas pelo tempo.

As composições transitam entre investidas velozes e passagens mais cadenciadas, sempre sustentadas por melodias soturnas que remetem ao black metal brasileiro da segunda metade dos anos 90. Não há espaço para exibicionismos; cada riff, cada virada de bateria e cada mudança de andamento parecem existir exclusivamente para fortalecer a atmosfera profana que envolve o disco. A produção crua, longe de representar uma deficiência, reforça a sensação de estar diante de um registro genuinamente underground.

A faixa-título, Nefasto Caminho da Profanação, sintetiza perfeitamente a proposta da banda. Rápida, agressiva e com mudanças de andamento muito bem encaixadas, carrega um espírito old school que se manifesta tanto na construção musical quanto na temática lírica. Profanação e Vitória chama atenção logo nos primeiros segundos ao colocar o baixo em evidência antes da avalanche de guitarras tomar conta da composição. Nesse momento, a banda deixa transparecer uma sutil influência do black metal escandinavo, especialmente da escola finlandesa, sem jamais abandonar sua personalidade. Já Meu Espírito Prolifera o Mal reserva uma das passagens mais inspiradas do álbum, quando o baixo novamente assume protagonismo e conduz uma sequência melódica obscura, enriquecendo a atmosfera e demonstrando que a agressividade do In Nomine Belialis também sabe dialogar com momentos mais contemplativos.

Outro grande destaque é Glórias a Belial, composição que aposta em uma abordagem mais ritualística, marcada por vocais ainda mais cavernosos e uma atmosfera quase litúrgica em sua blasfêmia. É um daqueles momentos em que a banda consegue transportar o ouvinte para um cenário de templos em ruínas, fumaça e profanação, encerrando um dos pontos mais altos do álbum.

Todas as letras são em português, reforçando ainda mais a identidade da obra. Nefasto Caminho da Profanação permanece como uma joia escondida do underground mineiro e um retrato fiel de uma época em que paixão, convicção e autenticidade falavam mais alto do que grandes produções ou orçamentos elevados. Felizmente, o álbum ainda pode ser encontrado por aí, desde que se tenha sorte. Uma verdadeira relíquia que merece ser redescoberta por qualquer apreciador de black metal que valorize personalidade, atmosfera e a essência mais pura da música extrema nacional.


 

sábado, 11 de julho de 2026

20 anos de Suffocation do Suffocation!!!


O Suffocation nasceu em 1989, em Nova York, numa época em que o death metal americano já havia cravado seu nome na história como um dos mais insanos e influentes do planeta. Nem por isso a banda resolveu ser apenas mais uma cópia dos gigantes que já dominavam o estilo. Muito pelo contrário. O Suffocation carrega o estigma — e também o mérito — de ser um dos criadores do technical brutal death metal, subgênero que une a brutalidade de um som ignorante e doentio à complexidade de quebras de ritmo, baterias repletas de viradas intrincadas, guitarras dissonantes e um alto grau de virtuosismo.

Neste álbum autointitulado, o quinto da carreira, encontramos exatamente essa combinação explosiva. O que o diferencia de muitos outros trabalhos do estilo é seu andamento mais arrastado, como se o caminhão do sorveteiro do inferno estivesse subindo uma ladeira enquanto o sujeito lá dentro congela membros amputados e embalados a vácuo. A violência continua presente, mas é conduzida por um peso quase sufocante.

Há espaço até para melodias inesperadas, como na introdução de "Redemption", que logo desemboca em um longo solo de guitarra. Já "Translucent Patterns of Delirium" talvez seja o maior exemplo da proposta técnica do álbum, apresentando riffs que desafiam qualquer lógica estabelecida dentro do death metal.

E é curioso falar em padrões dentro do heavy metal, um estilo que nasceu justamente para defender a liberdade de expressão e de escolhas, mas que, no fim das contas, acaba se tornando refém de uma característica tipicamente humana: a necessidade de criar rótulos e regras.

Já que o assunto são guitarras, faça um favor a si mesmo e ouça o solo de "Creed of the Infidel". Está entre os melhores que o Suffocation já compôs.

Outro aspecto que merece destaque são os vocais de Frank Mullen. Não é por acaso que ele é apontado como uma das maiores influências para vocalistas do death metal moderno. Seu gutural gravíssimo, surpreendentemente inteligível em boa parte do álbum, ajudou a consolidar o death growl como referência dentro do estilo. Além disso, surgem alguns fraseados que lembram os pig squeals, aquele vocal que mais parece um porco enfurecido sendo esfaqueado.

A arte da capa, assinada por Jon Zig — conhecido por trabalhos com bandas como Exhumed e Averse Sefira —, retrata um cenário sombrio e desolado, povoado por esqueletos soterrados e demônios errantes. O logotipo da banda e seu símbolo ocupam posição de destaque na parte superior da composição, resultando em uma ilustração simples, mas extremamente eficiente.

E como presente temos uma regravação da música "Prelude To Repulsion", faixa do eterno clássico trabalho Breeding the Spawn de 1993, que novamente ficou arrasadora.

Completam a formação Terrance Hobbs e Guy Marchais nas guitarras, Derek Boyer no baixo e Mike Smith na bateria.

Material absolutamente não recomendável para ouvidos sensíveis.


 

sábado, 4 de julho de 2026

20 anos de Transcendental do Imago Mortis!!!


O terceiro trabalho dos cariocas do Imago Mortis é Transcendental. Liderada pelo vocalista Alex Voorhees, a banda contava com Dennis Pombo e Rafael Bianzeno nas guitarras — este último também responsável pelas passagens de violino. A formação se completava com Bruno Coe no baixo e André Delacroix na bateria. Já o tecladista Pedro Santos aparece como músico convidado, embora participe de metade das doze faixas do álbum.

A banda continua trilhando o caminho do doom metal, ainda que incorpore, em diversos momentos, influências de power metal e até de thrash metal, como acontece na agressiva "Kali Yuga". Curiosamente, a música traz um órgão Hammond em destaque, instrumento que vez ou outra aparece em algum trabalho de metal, mas com o qual confesso nunca consegui me acostumar.

Há espaço também para um quase death/thrash em "Sangue e Dor", a faixa mais agressiva do disco e a única cantada em português. Em contrapartida, a abertura formada por "Hall of Souls" e "Across the Desert" mergulha de cabeça no épico doom metal, agradando facilmente aos fãs de Candlemass e Solitude Aeternus.

A participação especial de Melissa Matos, creditada como Mel Bôa Morte e conhecida por sua passagem pela banda de gothic metal Trinnity, enriquece "Searching for a Touch of Divinity" com seus vocais femininos.

O trabalho das guitarras merece elogios à parte. Em alguns momentos, como na belíssima "Love Path", as melodias remetem ao My Dying Bride, especialmente à fase de Like Gods of the Sun.

Meu momento preferido, no entanto, é a épica "Undrying Tears". Talvez porque ela faça parte de uma de minhas coletâneas pessoais de muitos anos atrás, mas também porque reúne com enorme competência diferentes atmosferas e elementos musicais, conduzindo o ouvinte de um sentimento a outro com naturalidade, classe e desenvoltura. É impossível não reservar um lugar especial para uma composição como essa.

Como bônus, o álbum ainda traz "Bring Out Your Dead", clássico absoluto e provavelmente a música mais conhecida da banda, originalmente lançada no álbum de estreia, em 1998.

Transcendental é mais uma prova da enorme qualidade do vasto e poderoso cenário nacional, e chega aos vinte anos como um trabalho que merece ser redescoberto.


 

domingo, 28 de junho de 2026

20 anos de Triumph Or Agony do Rhapsody!!!


Confesso que, em 2006, o Rhapsody já não era mais um nome presente em meu radar metálico como havia sido nos primeiros anos. A banda parecia ocupar mais espaço nas discussões sobre os direitos de seu próprio nome do que em meu aparelho de som. Também era um fenômeno que conquistava rapidamente uma parcela mais jovem dos fãs de metal, aqueles que não suportavam o sangue e os zumbis de bandas como Cannibal Corpse e passavam as tardes de sábado jogando RPG como se os poderes das cartas emanassem de seus próprios corpos.

Ouvindo Triumph or Agony hoje, percebo uma banda que se aproximou muito mais de uma trilha sonora para jogos de fantasia do que propriamente de uma banda de metal. E isso não é necessariamente um defeito. O álbum é agradável, os corais são empolgantes e a voz de Fabio Lione continua cativando por sua beleza natural. O problema é que as guitarras de Luca Turilli passaram a exercer um papel quase figurativo dentro do conjunto da obra, enquanto vocais, corais e orquestrações assumiram definitivamente o protagonismo.

Alguns solos, como os de "The Myth of the Holy Sword", ainda preservam resquícios do heavy metal que consagrou a banda, mas quem realmente dita as regras aqui é a orquestra. A redução da duração das faixas foi uma decisão interessante, embora a épica "The Mystic Prophecy of the Demonknight" ultrapasse os dezesseis minutos. Felizmente, suas diversas mudanças de andamento justificam a extensão, principalmente quando a criatividade da banda explode na parte mais agressiva da música, por volta dos nove minutos e meio.

As baladas também marcam presença. Entre elas está "Il Canto del Vento", cantada em italiano, língua natal da banda. Ainda assim, em vez de apostar em uma abordagem mais folk, baseada apenas em voz e violão, o Rhapsody novamente entrega o protagonismo às orquestrações, que ocupam praticamente todos os espaços.

"Silent Dreams" é uma das raras ocasiões em que as guitarras recebem maior destaque. Mesmo sem fazer da velocidade uma prioridade, a faixa desperta uma nostalgia que remete aos primeiros trabalhos do grupo.

No fim das contas, Triumph or Agony não é um álbum indicado para quem pretende extravasar como faria ao ouvir um verdadeiro disco de heavy metal. Agora, se a ideia é colocá-lo para tocar enquanto você mergulha em um bom livro de fantasia, no melhor estilo O Senhor dos Anéis, aí sim, criatura noturna, você estará muito bem equipado — e melhor acompanhado.

 

20 anos de The Nether Hell do Scars!!!


Uma amiga de Barueri/SP me enviou de presente o EP The Nether Hell, da banda paulista Scars, em uma época em que a comunidade metal ainda trocava cartas e material pelo Brasil afora, sem que as pessoas sequer se conhecessem pessoalmente. Aquele presente abriu as portas para que eu conhecesse uma banda sensacional, que anos mais tarde estaria concedendo uma entrevista aos nossos canais.

A qualidade de The Nether Hell é um primor, seja na produção, na arte gráfica ou, principalmente, na música. O Scars entrega um thrash metal agressivo que agrada facilmente aos fãs de Exodus e Korzus, já que o timbre de voz de Régis lembra bastante o de Marcello Pompeu. Os riffs de Alex Zeraib e Eduardo Boccomino transbordam peso e distorção, deixando evidente um trabalho construído com dedicação e capricho.

O baixo de André Sterzza ganha destaque em "Hidden Roots of Evil", apresentando uma performance diferenciada. Aliás, a faixa que encerra o EP carrega fortes influências do death metal e uma agressividade fora do comum. A escolha de "Creatures That Come Alive in the Dark" para abrir o trabalho foi mais do que acertada, já que essa porrada não dá ao ouvinte sequer um instante para respirar. É um verdadeiro arrasa-quarteirão, apresentando a banda de maneira bombástica, enquanto a faixa-título, um pouco menos acelerada, cria o clima ideal para apreciar suas melodias raivosas.

Curiosamente, as músicas já estavam prontas quando a banda decidiu criar um conceito lírico para o EP. A inspiração veio de Inferno, de Dante Alighieri, obra que o guitarrista Alex havia lido algum tempo antes e que se encaixava perfeitamente na mensagem que pretendiam transmitir, estabelecendo um paralelo entre os pecados descritos por Dante e a corrupção humana. Para ilustrar a capa e todo o encarte, foram utilizadas obras de Gustave Doré, Sandro Botticelli e Amos Nattini, artistas que, ao longo dos anos, eternizaram visualmente o universo criado pelo escritor italiano. O resultado é um conjunto gráfico que amplia ainda mais a atmosfera sombria e o conceito do trabalho.

The Nether Hell é um EP com a força, a consistência e a missão de um álbum completo. Um lançamento que jamais deveria ser esquecido.



 

domingo, 14 de junho de 2026

20 anos de A Light In The Dark do Metal Church!!!

Parece que os americanos do Metal Church estavam tentando evocar a arte de seu primeiro e aclamado álbum autointitulado de 1984, com a clássica guitarra cruciforme tombada na capa. Ou talvez fosse apenas uma lembrança deliberada dos velhos tempos, já que este oitavo trabalho, A Light in the Dark, também remete ao segundo petardo da carreira, The Dark, no título.

Era o primeiro álbum sem o baterista original Kirk Arrington. As baquetas ficaram a cargo de Jeff Plate, ex-Savatage e integrante do Trans-Siberian Orchestra. E o que posso dizer é que Plate fez um trabalho excelente. Grande baterista, encaixou-se perfeitamente na proposta da banda.

Como de costume, o Metal Church seguia mesclando um heavy metal mais melódico com um thrash metal sem tanta agressividade, resultando em um power metal encorpado e distante da velocidade apresentada nos primeiros anos. Ainda assim, o álbum proporciona uma audição extremamente prazerosa, alternando momentos mais introspectivos, como em "The Believer", e passagens mais aceleradas. O mais próximo de um speed metal que você encontrará aqui é a ótima "Mirror of Lies".

Os vocais de Ronny Munroe transitam entre o melódico e o áspero. Isso já fica evidente na faixa-título que abre o álbum, onde sua interpretação combina muito bem com a atmosfera da fase clássica da banda.

A sexta faixa entrega aquele épico que sempre agrada aos fãs do estilo, com seus quase dez minutos de duração. "Temple of the Sea" começa de forma melódica, com destaque para o baixo de Steve Unger, e de repente mergulha em um terreno mais agressivo, acompanhado por uma letra de tom quase apocalíptico.

Jay Reynolds e Kurdt Vanderhoof caminham com segurança por todo o trabalho. Seja nos riffs, solos ou melodias, a dupla demonstra experiência suficiente para não se aventurar em terrenos de areia movediça.

Outras faixas em que Munroe apresenta um vocal mais agressivo são a poderosa "Pill for the Kill" e "Son of the Son". Nesses momentos, fãs de Accept e talvez até de Grave Digger certamente se sentirão em casa.

O lendário vocalista David Wayne, responsável pelos dois primeiros álbuns da banda e também pelo retorno em Masterpeace, de 1999, havia falecido em maio de 2005, pouco tempo após um grave acidente automobilístico. Em sua homenagem, a banda regravou a clássica "Watch the Children Pray", uma das grandes músicas de The Dark, lançado em 1986.

Curiosamente, aquele mesmo álbum havia sido dedicado a Cliff Burton, que faleceu poucos dias antes de seu lançamento. Como muitos já sabem, o Metallica costumava ensaiar e se reunir no apartamento dos integrantes do Metal Church antes de alcançar o sucesso mundial.

São coincidências e conexões que tornam a história da banda tão interessante quanto sua própria música.


 

sábado, 6 de junho de 2026

20 anos de Bleeding in the Shades of Baphomet do Evil War!!!


Dizem que banda de black metal sem polêmica não ganha notoriedade na cena. Em alguns casos, até concordo. Quando a banda é ruim mesmo, nada melhor do que queimar algumas igrejas e matar uns coleguinhas para ficar famosa. Mas não era o caso do Evil War, cujo som sempre foi muito bom ao longo de seus curtos nove anos de existência.

Quando éramos adolescentes de dezoito anos e acompanhávamos a cena de Curitiba, que se destacava no black metal nacional, vivíamos uma realidade bem diferente da atual. Em uma era sem internet, sobrevivíamos de rumores, escolhíamos lados, fazíamos alianças e até brigávamos sem ter certeza do que realmente acontecia no sul do país. Algumas histórias diziam que Murder Rape e Amen Corner eram bandas inimigas, algo que acabou sendo desmentido ao longo dos anos.

O que realmente ocorreu foi uma rixa interna no Murder Rape, culminando na saída de três integrantes e no nascimento da blasfema Evil War, em 1999. Com o passar do tempo, entre casos de suicídio e conversão ao cristianismo, a banda acabaria encerrando suas atividades. Antes disso, porém, lançou seu derradeiro opus em 2006, apenas dois anos antes do fim.

Mesmo tendo permanecido fiel à proposta black metal durante toda a carreira, Bleeding in the Shades of Baphomet é, sem dúvida, o trabalho mais black metal do Evil War. A banda mudou de logotipo pela terceira vez, trocou a parceria com a Somber Records pela Mutilation Records e passou por alterações importantes na formação. O vocalista original Sabatan deixou os vocais para que o guitarrista Halphas assumisse a função, enquanto Shaitan, que anos depois gravaria o clássico Chri$t World Corporation com o Amen Corner, entrou na vaga de Typhon Set. O baterista Ichthys Niger, um dos fundadores do Evil War, permanecia firme na formação.

O som ficou mais próximo daquilo que as bandas norueguesas faziam na época, e é justamente daí que vem minha afirmação de que este é o álbum mais black metal da carreira do grupo. Os riffs são excelentes, como os de "Deluge of Blood", claramente influenciados por nomes como Immortal. A bateria apresenta um timbre limpo e definido, alternando momentos de velocidade, passagens conduzidas por pedais duplos e batidas diretas, sem floreios técnicos, mas carregadas de força.

Os vocais de Halphas são predominantemente rasgados, contrastando com Sabatan, que recorria com frequência aos guturais. Gravado no Estúdio Clínica e produzido por Murilo da Rós em conjunto com a banda, o álbum apresenta uma sonoridade muito acima da média, talvez uma das melhores produções já alcançadas dentro do underground nacional de black metal.

E, para fechar a saga do escudo — citada nas resenhas que fizemos dos dois primeiros trabalhos —, ele aparece aqui revigorado, pronto para uma nova batalha que, infelizmente, jamais aconteceu.


 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

20 anos de The Beauty And The Beer do Tankard!!!


Confesso que, logo de cara, ao ouvir "Ice-Olation", pensei: "ok, o mesmo de sempre, nada demais". Começar uma resenha do décimo segundo álbum de estúdio de uma das maiores bandas de thrash metal dos anos 80 dessa forma talvez não fosse muito justo. Ainda bem que a sequência de músicas não segue esse padrão. Graças a Baco, não segue.

A cerveja, como sempre, é um dos temas preferidos do quarteto, ainda mais quando o petardo se chama The Beauty and the Beer. A bela retratada na capa também deve ter povoado o imaginário de muitos thrashers adolescentes, que certamente sonharam em ocupar o lugar da criatura alienígena.

A partir da segunda faixa, a excelente "We Still Drink the Old Ways", o álbum engrena de vez. As músicas parecem disputar entre si qual será a melhor. E isso inclui "Rockstars No. 1", talvez a faixa mais criticada do trabalho. Com breakdowns interessantes e um riff marcante, um tanto americanizado, ela acabou sendo rejeitada por alguns fãs. Eu, particularmente, gostei bastante.

Escolher uma música essencial aqui não é tarefa fácil. Há várias candidatas. A faixa-título, por exemplo, traz uma estrutura que remete ao thrash dos anos 90, quando o estilo parecia flertar cada vez mais com o power metal. Já "Metal to Metal" é simplesmente sensacional e está entre as melhores composições da carreira da banda. Sua introdução carrega uma melodia quase sinistra, algo que normalmente não associamos ao Tankard, mas que combinou perfeitamente com meus ouvidos.

Os solos de guitarra são outra atração à parte. Em alguns momentos, a banda nem perde tempo e já começa a música solando, como acontece na ótima "Forsaken World".

Confesso que senti falta daquela faixa mais pesada e arrastada que o Tankard costumava encaixar em seus discos. O mais próximo disso aparece no início de "Dirty Digger", que une crítica política e riffs empolgantes até o último segundo.

Com Gerre nos vocais, Frank Thorwarth no baixo, Andy Gutjahr na guitarra, Olaf Zissel na bateria e Andy Classen produzindo toda a bagaça, o Tankard forjou uma verdadeira obra-prima.

The Beauty and the Beer merece ser ouvido. Talvez com uma bela ao lado. Mas certamente com uma cerveja na mão.


 

sábado, 30 de maio de 2026

20 anos de Homem Inimigo do Homem do Ratos de Porão!!!


Considerando todos os álbuns lançados em português e suas respectivas versões em inglês, o Ratos de Porão chegava, em 2006, ao seu 15º trabalho de estúdio: Homem Inimigo do Homem.

Começando pela arte da capa, vemos dois homens adultos saindo na porrada enquanto a imprensa registra tudo — ou quase tudo, já que o cinegrafista à direita parece mais interessado em um desenho do Mickey. Ao redor, uma plateia formada por pessoas e macacos se diverte assistindo à violência. Nada que não tenha piorado nos últimos vinte anos.

A formação clássica, com João Gordo nos vocais, Jão na guitarra, Boka na bateria e Juninho no baixo, retornava quatro anos após o lançamento de Onisciente Coletivo com mais meia hora de pancadaria sonora e crítica social. E sobrou para todo mundo: da Igreja, em "Pedofilia Santa", à polícia, em "PMs de Satã", sem esquecer de um certo Luis em "Quem Te Viu..." (sim, escrito com S de propósito, mas todos sabemos que o motivo da música se escreve com Z).

Musicalmente, o som é aquele crossover violento que transformou o R.D.P. em uma das bandas mais respeitadas da América do Sul. A alternância dos vocais entre o urrado e um gritado menos grave é um dos diferenciais do álbum, e em "Quem Te Viu..." esse recurso produz um efeito sensacional.

Alguns solos de guitarra surgem em faixas como "Covardia de Plantão", deixando tudo ainda mais interessante. A produção também merece elogios: as linhas de baixo são claramente audíveis, enquanto a distorção soa como um soco na cara seguido de alguns pontapés.

Para entender todas as letras, porém, talvez você precise recorrer ao encarte, porque João Gordo despeja suas palavras em uma velocidade impressionante.

Vale a pena separar trinta minutos do seu dia para encarar essa porrada.


 

sábado, 23 de maio de 2026

20 anos de Ruun do Enslaved!!!


Não se chega a nove álbuns de estúdio fazendo música ruim. Partindo disso, e até como defesa diante das acusações direcionadas à música muitas vezes difícil de compreender da banda norueguesa Enslaved, podemos dizer que música ruim realmente existe — mas existe também música boa para certos ouvidos.

Você, fã de metal extremo, especialmente de black metal, que acredita que tudo o que o Darkthrone faz desde o nascimento é o único paradoxo aceito na comunidade, provavelmente arrepia só de ouvir o nome Enslaved. Mas talvez se surpreenda ao ouvir Ruun, lançado em 2006.

Em meio a toda a progressividade encontrada aqui, quase nada se compara às loucuras e experimentações registradas em Monumension, tornando a audição deste petardo muito mais coerente com o universo ao qual estamos acostumados a acordar todos os dias — ou noites.

Logo de início, em “Entroper”, temos a faixa mais metal do trabalho: rápida, carregada de riffs cheirando a enxofre e mostrando que parte da melancolia do álbum anterior, Isa, ficou pelo caminho. Conforme o álbum avança, fica evidente que a banda está mais raivosa desta vez.

Momentos como “Api-vat”, mesmo com teclados quebrando o instrumental gelado, mostram um Enslaved menos interessado em divagações e mais disposto ao confronto sangrento, voltando a caminhar por todos os invernos, como diz sua letra.

Em “Path to Vanir”, o ritmo desacelera um pouco, mas ainda assim temos uma das melhores músicas do álbum. Seu encerramento traz uma passagem extremamente calma, onde os vocais limpos aparecem. E é bom frisar: eles são usados com certa moderação aqui, já que Grutle Kjellson já abusou desse recurso em outros trabalhos da banda.

“Fusion of Sense and Earth” também merece destaque. Sua estrutura é um deleite para quem procura algo mais melódico, com camadas de teclado profundas e anestesiantes.

A maior viagem de Ruun fica para a faixa de encerramento, “Heir to the Cosmic Seed”. Ainda assim, mesmo com vozes limpas e guitarras estelares, ela talvez contenha as melodias mais belas do álbum, incluindo um solo que beira Pink Floyd sobre uma base completamente distorcida.

No fim das contas, Ruun me caiu melhor do que os três trabalhos anteriores do Enslaved. 

 

domingo, 17 de maio de 2026

20 anos de Veronika Decides To Die do Saturnus!!!


Já li várias obras do escritor brasileiro Paulo Coelho. O Diário de um Mago, O Demônio e a Srta. Prym, Onze Minutos, Brida, O Zahir e o melhor deles, O Alquimista. Ainda assim, nunca tive a oportunidade de ler Veronika Decide Morrer, justamente a obra que dá nome ao terceiro álbum da banda dinamarquesa Saturnus. Mesmo com o título retirado do livro, a banda afirma que as letras não refletem diretamente aquilo que encontramos em suas páginas.

A verdade é que o lirismo apresentado aqui nasce de um desespero legítimo, onde amor, dor, desolação e escuridão se misturam ao sabor salgado das lágrimas. Ouvir Veronika Decides to Die é mergulhar em uma jornada fria, doce e sensível, onde sentimentos que jamais ousamos revelar sob a luz brotam da alma em nossos momentos mais amargurados.

A produção é cristalina sem esconder o peso. Pelo contrário: reforça as melodias inquietantes, onde todos os instrumentos se unem para idealizar a tragédia da imperfeição humana. Os solos de guitarra, longos e belíssimos, conduzem o ouvinte a um estado de espírito quase inebriante. As passagens de bateria também não servem apenas como detalhe; foram cuidadosamente pensadas para enriquecer as linhas e reafirmar sua importância dentro do melodic death/doom, sem sequer fingir acelerações desnecessárias apenas para quebrar nuances. Este trabalho não precisa destruir nada além de nossas almas.

Tais Pedersen e Peter Poulsen eram os responsáveis pelas belas melodias nas seis cordas, com Lennart Jacobsen no baixo e Nikolaj Borg na bateria. Nos teclados, Anders Nielsen — presente na banda desde 1994 e realizando aqui seu último trabalho com o grupo — enquanto Thomas Jensen assumia os vocais, sendo hoje o único integrante daquela formação ainda presente na banda. Sua voz transita pelo gutural tradicional, pelo narrado e por um gutural mais aberto, como podemos ouvir em “Pretend”.

São oito hinos espalhados por praticamente uma hora de música, onde momentos mais introspectivos, compostos apenas por dedilhados, teclados e vozes limpas, fazem você mergulhar em um lago gelado, como acontece em “All Alone”. Os solos viajantes estão por toda parte, mas destacar “Descending” é indispensável.

Ainda assim, você não precisa se prender a uma faixa específica. Veronika Decides to Die foi feito para ser sofrido em sua totalidade.

Se você ainda não foi completamente corrompido pela modernidade — essa era em que música se tornou descartável e gravadoras pedem até mesmo a bandas gigantes que eliminem minutos acústicos de seus lançamentos — tire um momento da sua noite para ouvir este artefato com calma. Abra o coração e sinta o sangue correndo pelas veias, porque você está vivo. 

 

domingo, 10 de maio de 2026

20 anos de Kvass do Kampfar!!!


Se você está em busca de um álbum de black metal norueguês empolgante, recheado de riffs velozes e bateria destruindo tudo pela frente... melhor procurar outro disco para ouvir. O terceiro trabalho dos noruegueses do Kampfar não entrega exatamente esse tipo de brutalidade, ainda que alguns momentos justifiquem essa expectativa, como em “Ravenheart”. Terceira faixa de um álbum com apenas seis músicas, ela é a primeira a realmente flertar com a velocidade. Curiosamente, também é a única cantada em inglês, e a voz de Dolk soa muito bem na língua universal.

Foi um erro gigantesco não abrir o álbum com essa música, já que a escolhida para essa tarefa milenarmente importante foi “Lyktemenn”, uma daquelas faixas feitas sob medida para qualquer ouvinte menos resiliente desistir da audição. Em seus mais de oito minutos, ela é extremamente monótona. O riff apático praticamente não muda, assim como as batidas da bateria. O vocal, para piorar, soa quase como uma narração, entoado da mesma maneira do início ao fim.

É verdade que o Pagan Black Metal não precisa necessariamente apresentar elementos musicais óbvios que indiquem imediatamente sua ligação com o paganismo — como passagens folk ou viking, por exemplo — deixando muitas vezes essa responsabilidade para as letras. Mas o som do Kampfar, ao menos em Kvass — e sem dar spoiler, também em seu sucessor — carece de alguma característica mais marcante que demonstre uma identidade realmente firme em seus ideais, não ficando apenas nesse black metal insípido flertando com a natureza e seus poderes.

Por outro lado, se sua procura for por algo mais “viagem”, um som extremo para relaxar, mas sem cair totalmente no atmosférico, e que ainda possa trazer longas e até cansativas passagens de teclado, Kvass pode acabar sendo uma boa opção. “Hat Og Avind”, inclusive, traz uma ótima pegada black metal, com guitarras em trêmulo que remetem diretamente às bandas clássicas dos anos 90.

Já “Gaman Av Drommer” incorpora muito mais o espírito pagan folk, proporcionando um excelente encerramento para o álbum, com Ask entregando seu melhor trabalho na bateria e vocais muito mais empolgantes e agressivos.

No fim das contas, Kvass erra apenas em sua faixa de abertura. Passando por ela sem dormir, o restante do álbum oferece músicas bastante interessantes para quem realmente procura um som “viagem”, mas sem mergulhar completamente no black metal atmosférico.



 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

20 anos de Reinkaos do Dissection!!!

O derradeiro álbum do Dissection, Reinkaos, completou 20 anos ontem, 30 de abril de 2026. Considerada por muitos fãs uma das bandas mais importantes surgidas na Suécia, o Dissection — liderado por Jon Nödtveidt — entregou dois clássicos absolutos do black metal nos anos 90: The Somberlain e Storm of the Light’s Bane, antes de seu líder ser preso, em 1997, por participação em um assassinato.

Após sete anos atrás das grades, Jon concebeu o último trabalho da banda ao lado do guitarrista italiano Set Teitan e do baterista Tomas Asklund (ex-Dark Funeral). O baixo ficou a cargo de Brice Leclercq, do Nightrage, embora não tenha sido creditado como membro oficial.

Musicalmente, o álbum desagradou uma grande parcela dos fãs pela mudança de proposta: aqui, o som se aproxima muito mais de um death metal melódico, com a malignidade black aparecendo de forma mais sutil. Por outro lado, há quem idolatre o disco — seja pela devoção à figura de Jon como um verdadeiro black metalhead, seja por não se identificar tanto com a fase mais crua da banda, ou simplesmente porque Reinkaos funciona muito bem dentro do que se propõe.

Pessoalmente, reconheço que deveria ter tido mais contato com a fase inicial. Se tivesse conhecido os dois primeiros álbuns ainda no fim dos anos 90, provavelmente o Dissection estaria entre minhas bandas favoritas. Mas foi só anos depois, na casa de um amigo, que tive meu primeiro contato com Reinkaos — e foi amor à primeira audição. Eu realmente não esperava algo tão envolvente.

Reinkaos não é uma obra-prima revolucionária nem um marco de inovação. Pelo contrário: é um trabalho relativamente simples, com produção cristalina e direta. Os riffs de guitarra flertam com o power metal, e os momentos mais acelerados são poucos. Não há explosões de bateria, nem blast beats. O grande destaque fica para os solos: melodias acima da média, carregadas de emoção — especialmente na faixa-título instrumental, que entrega um dos momentos mais marcantes do disco.

“Xeper-i-Set” é a faixa mais energética, ainda que seu riff soe quase alto astral demais para o histórico da banda. “Internal Fire” também traz mais agressividade, com bumbos mais acelerados, mas no geral o álbum caminha em andamentos médios. Os vocais rasgados e inconfundíveis de Jon são um dos pilares do trabalho — e, sem eles, talvez o disco não tivesse o mesmo impacto.

Minha favorita é “Dark Mother Divine”. Desde a primeira audição, ela se destacou com sua introdução mais contida e um desfecho explosivo. Ainda assim, outros fãs costumam apontar diferentes preferidas, como a faixa de encerramento “Maha Kali” — talvez a que mais se aproxima da proposta black, contando com a participação da vocalista Nyx 218, cuja identidade permanece desconhecida. “Beyond the Horizon” e “Starless Aeon” também aparecem com frequência entre as mais lembradas.

Reinkaos pode ser definido como um disco pop lançado no inferno — onde tudo, por natureza, soa mais pesado e carregado. Seu conteúdo ocultista, profundamente ligado à visão de mundo de Jon, dialoga diretamente com quem compartilha desse tipo de filosofia. Mas, acima de tudo, o que realmente importa é que, mesmo diante de uma mudança tão significativa de estilo, trata-se de uma obra atemporal.

Satisfeito com o resultado, Jon tirou a própria vida pouco mais de três meses após o lançamento — o que inevitavelmente torna a experiência de ouvir Reinkaos ainda mais densa, enigmática e carregada de significado do que qualquer outra obra da banda.


 

domingo, 26 de abril de 2026

20 anos de Rape From Hell do Sextrash!!!


Quando as bandas clássicas da cena mineira voltaram a lançar álbuns em meados dos anos 2000 — movimento encabeçado por Deadland (2003), do Chakal, e seguido por nomes como Holocausto, Witchhammer e Sextrash após mais de uma década sem registros — Rape From Hell, do Sextrash, foi o que mais curti. É verdade que o Chakal já havia soltado dois petardos nessa fase, incluindo o fenomenal Demon King, mas isso é outra história.

O Sextrash havia interrompido suas atividades em 1997, após a morte prematura de Oswald “Pussy Ripper” em um acidente automobilístico — uma perda que abalou profundamente a cena mineira, não só pela figura de frontman marcante, mas pela pessoa querida que era. Anos depois, o baixista Krueger reativou a banda e, ao lado do vocalista Cláudio Siqueira (Doom, ex-Brutal Distortion), do guitarrista Marck Monthebar — remanescente da formação que gravou o impecável Funeral Serenade — e do baterista Quake (ex-Obsessed), o grupo retornava com seu terceiro full-length, Rape From Hell, lançado pela Cogumelo Records.

A arte de capa, assinada por Fernando Lima, resgata o nu feminino e reforça, junto ao título, a fidelidade da banda à sua linha lírica sexual. Já na audição desatenta, o álbum pode soar homogêneo, como se priorizasse apenas a brutalidade sem maiores nuances. Mas basta parar e ouvir com cuidado para perceber que, em meio ao caos, há bastante coisa interessante acontecendo.

A começar pela produção, clara e bem definida. Ainda que a própria banda preferisse algo mais sujo, não há prejuízo aqui — pelo contrário. As palhetadas vêm um pouco abafadas, algo inerente ao death metal, enquanto os vocais de Doom seguem um gutural firme, pouco variado, mas bastante inteligível e próximo do death/thrash.

“Suck Me”, uma das melhores do disco, abre o trabalho com velocidade, descambando para um "provocamosh" logo após a segunda sequência de refrão, chegando até bem próximo do slow death na ponte para o solo estilo Cause of Death do Obituary (que coisa linda).

“Brutal Sex” começa com um efeito de guitarra um pouco estranho, mas rapidamente se ajusta quando os riffs entram em aceleração. É uma faixa mais cadenciada, que atinge um peso “bate-estaca” por volta dos dois minutos, remetendo aos tempos de D.D. Crazy. Vale destacar também a presença de dois solos distintos, mostrando que ainda havia muita lenha para queimar.

“Chemical Orgy” chega quebrando tudo, com vocais mais rasgados e diretos enfatizando o título. A música alterna bem entre velocidade e momentos mais cadenciados, com um riff que pede palco — fácil de imaginar funcionando ao vivo.

E aqui cabe um parêntese: tive a oportunidade de ver essa formação ao vivo em Belo Horizonte, durante a turnê de divulgação do álbum, abrindo para o Kreator — e me deleitei com a apresentação.

Na sequência vem minha favorita: “Fuck In All”. Pesada, com riff marcante, refrão melódico e uma parte mais rápida que se inicia com um solo bem característico da fase Funeral Serenade, além de vocais rasgados que remetem diretamente ao Campo de Extermínio do Holocausto.

“Possessed By Cruelty” abre com breakdowns que lembram “Ceremony of the Seventh Circle”, do álbum Let Us Pray, do Vital Remains. O disco segue com “Maze of the Damn Madness”, trazendo riffs malignos e vocais agressivos; a faixa-título, com pegada quase thrash e gritos femininos no momento mais diabólico das guitarras; “Lust, Money and Violence”, com bases cavalgadas e uma sonoplastia soturna bem encaixada; além de “Obscure Doors”, “Sweet Suffering” e “Tchambs”.

Um belo retorno do Sextrash ao cenário — ainda que, até aqui, tenha representado também seu último suspiro em estúdio. Fica a torcida para que não seja o final definitivo. Ainda mais sabendo que a banda voltou a ensaiar e já carrega algumas músicas novas no bolso.


 

20 anos de Memorial do Moonspell!!!



A maior banda de Portugal — e sem esforço também uma das maiores da Europa — o Moonspell vinha, pouco a pouco, deixando à mostra novamente seus dentes afiados no caminho de volta ao metal extremo. Subindo as escadas do Olimpo ou descendo os degraus do inferno, a banda já havia ensaiado esse retorno ao incorporar peso em Darkness and Hope e agressividade em The Antidote. Ainda assim, ambos permaneciam mergulhados até o pescoço no gothic metal.

Mas então veio Memorial (2006), lançado pela Steamhammer. Um novo degrau na carreira — e que degrau: em chamas. A capa, simples e belíssima, com árvores mortas sobre um fundo vermelho-sangue e a logo em branco, já antecipa o clima do álbum. Para o fã que acompanhou a banda até Irreligious, aqui soa como um retorno triunfal do filho pródigo, e um carneiro foi imolado para comemoração, ao som brutal da banda, como ela sabe fazer.

Das quatro faixas instrumentais, a abertura com “In Memoriam” foge do lugar-comum das intros descartáveis. Ela prepara o terreno, acende o pavio e provoca aquele arrepio há muito esquecido desde 96. E quando “Finisterra” entra, o impacto é imediato: guitarras densas, atmosfera sufocante e os vocais de Fernando Ribeiro em estado bruto — cavernosos, poderosos, viscerais como poucos conseguem entregar.

Ao longo do álbum, percebe-se — e até se sente falta — daquele vocal grave e gótico mais constante de outrora. Aqui, Ribeiro alterna momentos de fúria com passagens mais narrativas, reservando seu timbre mais profundo para ocasiões específicas, como em “Luna”. Essa faixa, aliás, é o respiro do disco: mais amena, sem perder identidade, e enriquecida pela participação da alemã Birgit Zacher, em sua quarta e última colaboração com a banda. Um dos pontos altos, sem dúvida, mostrando como o Moonspell expande seu próprio universo sem soar artificial.

Os teclados, divididos entre Ricardo Amorim e Pedro Paixão, são uma presença constante — muitas vezes assumindo protagonismo à frente das guitarras. Não comprometem o resultado, mas em certos momentos fica a sensação de que riffs mais evidentes poderiam elevar ainda mais o peso do conjunto.

Na bateria, Miguel Gaspar atua com precisão e discrição, sustentando a base com eficiência, mas também surpreendendo com momentos mais extremos, como os blast beats em “Finisterra”.

Os solos são econômicos, quase raros, e talvez por isso se destaquem tanto quando aparecem — como na excelente faixa bônus “Atlantic”, que facilmente poderia ocupar lugar no corpo principal do álbum, substituindo canções menos impactantes como “Upon the Blood of Men” ou “At the Image of Pain”. E aqui vale o ajuste: “menos impactantes” dentro de um disco que opera em nível alto — ainda superiores a muito do que a fase mais experimental da banda produziu.

Entre os grandes momentos, ainda se destacam “Memento Mori”, “Sanguine”, “Once It Was Ours!” e “Best Forgotten”.

Memorial não é um álbum de classificação simples. Para quem busca um rótulo, algo como death/black com fortes nuances góticas talvez se aproxime do ideal. Mas, no fim das contas, rótulos pouco importam diante de um trabalho que reafirma identidade, resgata agressividade e reposiciona a banda com autoridade.

Curiosamente, não há lembrança de um lançamento oficial desse artefato no Brasil — o que, convenhamos, seria uma jogada mais do que bem-vinda. Selos, alguém se habilita?