quinta-feira, 23 de abril de 2026

20 anos de Sodom do Sodom!!!


É até estranho dizer que se esperava um álbum mais comercial do Sodom. Mas é exatamente essa a sensação depois de cinco anos de espera. Afinal, a banda vinha de nada menos que Code Red e M-16, duas bombas sensacionais que ampliaram o leque do grupo, trazendo um som mais carregado de personalidade — músicas com vida própria, sem depender de fórmulas ou padrões pra existir.

Até dá pra perceber isso no 11º álbum dos alemães, Sodom, lançado em 2006. Mas há algo que o impede de alçar voos mais altos. E sejamos justos: não estamos falando de um trabalho fraco — pelo contrário, é muito bom. Só que, se alguém esperava algo próximo de um “Black Album” da banda, acabou esbarrando em uma característica peculiar do trio: a produção suja.

Elementar, meu caro Watson. Uma distorção crua, agressiva até demais pra alcançar um estrelato maior — ainda que esse nunca tenha sido exatamente o objetivo dos caras, e convenhamos, nem de boa parte dos fãs. Nesse sentido, M-16 segue sendo o ponto mais próximo de uma “superprodução” dentro da discografia da banda.

Voltando ao opus, com uma capa escura que não desperta grande emoção, o petardo abre com “Blood On Your Lips”. Não é das mais agressivas nem das mais rápidas, mas permanece na memória mesmo após duas décadas — uma faixa obscura, sustentada por um riff cavalgado interessante, embora talvez pedisse uma ponte que o levasse a algo menos previsível.

“Wanted Dead” já mostra que a banda não cairia na repetição, trazendo um solo de guitarra com evolução melódica. A sequência do álbum vai revelando uma progressão: as músicas ganham corpo, aumentam o peso e encontram direções mais definidas, sem fugir da proposta. “Axis of Evil”, por exemplo, apresenta um baixo gordo, vocais narrados e um riff pesado com uma pegada quase americana.

A velocidade arranca sorrisos em “Lords of Depravity”, mas especialmente em “Bibles And Guns”, outra faixa acima da média. O mesmo vale para “City of God”, que ganhou videoclipe e talvez represente o momento mais “comercial” do disco — e isso não é demérito, mas sim reflexo da capacidade de Tom Angelripper, Bernemann e Bobby Schottkowski em equilibrar agressividade e um thrash mais trabalhado dentro da mesma proposta.

“No Captures” captura bem essa dualidade (sem trocadilho proposital): começa no estilo rápido e sujo do thrash alemão, apresenta um solo quase virtuoso e, na sequência, engata um riff mais aberto na melhor escola Slayer, com Tom despejando seu vocal agressivo e inconfundível.

E falando nele, talvez seu melhor momento no álbum esteja em “Lay Down The Law”, mostrando que Angelripper conseguiu preservar sua agressividade vocal melhor que muitos de seus contemporâneos do thrash alemão.

Não é o masterpiece que alguns esperavam — mas é bom pra caracolas!

segunda-feira, 20 de abril de 2026

20 anos de Under The Mind's Sheet do Eternal Fall!!!


O logo e a fonte utilizados no título do segundo álbum do Eternal Fall neste post são diferentes da arte que publicamos em 2019, mas trata-se do mesmo disco já resenhado por aqui — naquela ocasião, por conta de seu relançamento, quando recebeu o carimbo de “fudido” do M&L. Ainda assim, não dava pra deixar passar batido o aniversário de 20 anos de uma das bandas de death doom mais importantes do cenário nacional, mais precisamente de Belo Horizonte, com seu segundo trabalho de 2006, Under The Mind's Sheet.

Com André Salatiel nos vocais, João Silva na guitarra, Anderson Gualberto no baixo e Luiz Toledo na bateria, a banda arrastava ainda mais o seu som em relação ao debut, caprichando na morbidez — algo perceptível já de cara em “For The Eternity”, quando uma voz sinistra e narrada inicia a jornada, acompanhada apenas por baixo e um piano soturno.

A banda atravessava um processo meio conturbado de troca de vocalista: o original Salatiel retornava a tempo de gravar as vozes deste play — uma decisão mais que acertada, já que seu vocal rosnado e cavernoso casa perfeitamente com o instrumental. “Angústia Suprema” é a primeira faixa em português do álbum, com dedilhados de guitarra sustentando uma melodia agonizante, enquanto “Tears To The Wind” traz passagens narradas que remetem a Darren White, vocalista original do Anathema.

A instrumental “Zahir” — palavra de origem árabe — apresenta uma melodia de guitarra levemente oriental, o que pode ter inspirado o nome. Popularmente, o termo remete a algo em que você não consegue parar de pensar, e também intitula obras do brasileiro Paulo Coelho e do argentino Jorge Luis Borges.

Em “Valhalla”, a banda até acelera um pouco o ritmo, mas nada comparado à ótima “Amaldiçoado”, segunda faixa em português, que começa com teclados, engata um riff muito interessante, acelera no momento mais death metal do álbum e termina com falas que remetem imediatamente ao Rotting Christ em seu excelente Passage to Arcturo.

A faixa-título, mesmo com várias facetas, também evidencia a influência dos paranaenses do Amen Corner, especialmente em uma passagem cuja melodia remete ao EP Darken In Quir Hareset.

O interessante é que, mesmo absorvendo influências diversas, o som do Eternal Fall mantém uma aura única: arrastada, mórbida, por vezes indo além do puro death doom — um prato cheio pra quem aprecia seres rastejantes sobre a terra úmida.

“The Old And The Mirror” encerra o trabalho com a mesma pegada e qualidade indiscutível de todo o artefato.

Se não conhece, procure.


quinta-feira, 16 de abril de 2026

20 anos de Afterburner do Sinister!!!


Como já falamos na resenha de Savage or Grace, a banda passava por um momento conturbado durante sua gravação, o que acabou levando ao encerramento das atividades pouco depois, em 2003. Mas o grupo holandês Sinister retornou — e com mudanças interessantes: o baterista original Aad largou as baquetas para assumir os vocais, enquanto o baixista Alex Paul também voltava, gravando tanto as 4 quanto as 6 cordas. Já o novato Paul Beltman iniciava seu curto período de dois anos socando o kit.

Esse retorno pariu Afterburner, o sétimo trabalho do Sinister, uma obra infinitamente superior ao seu antecessor e, até hoje, um dos melhores da banda. Começando pela arte da capa que, mesmo naquela confusão de Photoshop, ficou bem interessante — com o monstro maligno e todas as tetas espalhadas.

Musicalmente, o play é um atropelo. Na maior parte do tempo acelerado, mas com passagens mais cadenciadas muito bem encaixadas — vide a faixa-título, a melhor do álbum, cujo refrão mais lento é simplesmente um dos melhores que o death metal já concebeu.

“The Grey Massacre” abre a pedrada com maestria: rápida, com ótimas viradas de bateria, riffs pesados e um vocal ultra gutural excelente, ainda com espaço para o baixo aparecer. “Altruistic Suicide” mantém a pancadaria até desembocar num andamento médio perfeito para o mosh.

Quando você pega uma música como “Presage of the Mindless” e acompanha a letra, fica difícil não notar certa similaridade com Chris Barnes, especialmente pela abordagem vocal que remete ao trabalho dele no Six Feet Under ou no álbum "The Bleeding" do Cannibal Corpse. Em quase 8 minutos, com direito a solo de guitarra, a faixa despeja momentos arrastados em meio ao caos acelerado, trazendo riffs técnicos que não soam cansativos dentro da estrutura.

Há também alguns trechos narrados aqui e ali, mas nada que torne a audição monótona — pelo contrário, agregam valor à bolacha. Já “The Riot Crossfire” é a mais curta e uma das mais brutais do disco, com uma parte de guitarra menos agressiva e mais pesada em sua metade, remetendo de forma certeira aos americanos do Obituary.

Se você se deixou levar pelo desânimo com a banda após alguns álbuns irrelevantes que sucederam o início matador com Cross the Styx e Diabolical Summoning, e acabou deixando passar Afterburner, talvez seja a hora perfeita de corrigir isso — ainda mais agora que ele completa 20 anos.

Furioso e excelente!


 

20 anos de Haeresis do Expulser!!!


O Expulser nasceu em 1987 na cidade de Lavras, no interior de Minas Gerais, distante cerca de 230 km da capital Belo Horizonte, e hoje com mais de 105 mil habitantes. Era a época do boom do maior movimento metálico brasileiro, quando a MGArea ganhava contornos de movimento clássico do underground — e no mesmo ano em que vieram à luz os icônicos Schizophrenia, do Sepultura, e I.N.R.I., do Sarcófago.

Lançaram pela Cogumelo Records, em 1992, o álbum The Unholy One que, para mim, é o melhor disco lançado por uma banda mineira fora das imediações da capital. Em 2006, em meio a uma turbulenta separação entre os integrantes, saiu o segundo trabalho, Haeresis, de forma praticamente independente — momento em que a banda encerrou atividades, para retornar muitos anos depois.

Haeresis não tem a mesma aura do debut e, na formação que o concebeu, apenas o guitarrista D. Strike da fase inicial permanecia, agora assumindo também parte dos vocais. O outro vocalista e guitarrista era Jose Bougleux, enquanto o baixo ficou a cargo de Maria Juanna e a bateria de Kiko Ciociola (hoje na banda de thrash Aneurose).

Os vocais vêm gritados em uníssono — tanto o gutural quanto o rasgado, quase no limite. A única lembrança mais direta da fase áurea aparece na bateria “bate-estaca”, com a inclusão incessante dos pedais duplos. As guitarras, que outrora flertavam com o thrash, agora se voltam mais ao death metal, com alguma melodia pouco convencional — há até uma viagem astral no início de “Dismembering God”, que chega a 7 minutos de duração (a música, não a viagem).

Outras duas faixas instrumentais também aparecem no disco, sendo que “Blessed Angels”, com seus 4 minutos à la Morbid Angel, merecia um bom vocal. Dá pra pinçar alguns bons momentos de solos, como em “The Pages”, faixa resgatada da demo de 2004, junto com “Nevermore” e “The Enchanter”, que abre a bolacha.

Um detalhe que não dá pra deixar passar é a faixa que encerra o álbum e dá nome a ele: “Haeresis”. Porque ela realmente é uma heresia para o death metal. Ouça e comprove!


 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

20 anos de Metal Black do Venom!!!


Lembro de quando o 11º álbum de estúdio dos ingleses do Venom foi anunciado: chegou cercado por um misto de curiosidade e desconfiança. Afinal, a arte da capa era fenomenal, uma das melhores da história da banda, porém o uso do nome de seu maior álbum com a troca de posição das palavras soava muito mal. E ficava a pergunta: viria o Venom com um trabalho à altura de Black Metal de 1982?

Uma coisa já preocupava: o guitarrista Mantas havia pulado fora após o álbum anterior, Resurrection, e em seu lugar entrou Mike Hickey (creditado como Mykus), que já havia participado de Calm Before the Storm de 1987, além de trabalhos solo de Cronos. Após as especulações, era hora de conferir o que realmente importa: as músicas de Metal Black. E a empolgação era grande, afinal Resurrection foi um primor digno de nota 10.

Mas quando a faixa “Antechrist” abre o play (com esse “e” mesmo, grafado errado), a primeira coisa que vem à mente é: “o álbum foi mixado? Teve problema na produção? Que merda de som é essa?”. Ok, alguns vão dizer que foi proposital, que Cronos queria entregar algo com a sonoridade oitentista, suja e deficiente. Se o Sepultura fizesse algo parecido até seria interessante, porque a produção de Morbid Visions ou Bestial Devastation, mesmo com poucos recursos, ainda soa muito bem; ao passo que ouvir Welcome to Hell hoje em dia, por exemplo, é decepcionante justamente pela baixa qualidade de gravação. E o Venom resolve fazer exatamente a mesma coisa? Nota zero pra eles.

E sabe o que é ainda mais triste? São boas músicas. Conseguindo filtrar a qualidade do som, percebe-se que as composições seguem o caminho que a banda havia iniciado seis anos antes, no álbum anterior. Músicas pesadas, com bons riffs, vocal ainda excelente de Cronos e uma bateria sem muito brilho de Antton, mas cumprindo seu papel. “House of Pain”, “Rége Satanas” e “Assassin” são boas faixas que ao vivo devem soar muito bem. Uma pena o Venom tê-las trucidado com essa sonoridade pobre e suja.

Um destaque absoluto é “Hours of Darkness”, música de andamento mais lento e mais trabalhada; se estivesse em Resurrection, seria um clássico da banda.

Enfim, algumas ideias às vezes simplesmente não funcionam. Acredito que Cronos tenha dado ouvidos a pessoas próximas que acusaram Resurrection de ser polido demais. É o único motivo que explica essa guinada negativa, que prejudicou deveras um momento que poderia ter sido muito mais marcante na trajetória da banda.


 

20 anos de Armada do Keep Of Kalessin!!!


Pouco comentada no cenário, a banda Keep of Kalessin surgiu em 1995 na Noruega, após seus dois primeiros anos sob a alcunha de Ildskjaer (e que bom terem mudado o nome). Depois de algumas mudanças de formação — sendo a mais significativa nos vocais, com a entrada de Thebon (Torbjørn Schei) — o grupo chegava, em 2006, ao seu terceiro álbum, Armada.

A capa apresenta a silhueta de um exército diante de montanhas e de um céu carregado, enquanto o logo da banda surge pela primeira vez de forma clara e plenamente legível. Após uma intro insignificante, “Crown of the Kings” desponta carregada de fúria bélica. Riffs melódicos de guitarra se sobrepõem a uma base de baixo firme e a uma bateria veloz, com pedais rapidíssimos, transmitindo a sensação de que esse exército não apenas marcha, mas corre em direção à batalha.

Em meio ao black metal praticado pela banda, os vocais soam menos como demônios enclausurados em cavernas e mais como guerreiros brandindo espadas e ordenando que seus soldados não tenham piedade do inimigo. “The Black Uncharted” é uma faixa ainda mais impressionante: os vocais mostram-se mais consistentes, tangenciando o death metal, surgem passagens com vocais limpos e um interlúdio melancólico conduzido por um violão de clima quase flamenco acompanhado de percussão, enriquecendo a atmosfera e alçando a banda ao panteão dos grandes de bom gosto..

“Vengeance Rising” remete a certos momentos de Immortal em sua construção instrumental, especialmente pela bateria incansável, em que pedais e pratos parecem ganhar vida própria. Há aqui uma massa sonora típica do black metal norueguês que convida ao mosh, mas com um diferencial importante: trata-se de um metal ríspido, porém muito bem produzido, sem o chiado proposital que por vezes obscurece detalhes ou disfarça limitações técnicas.

As letras são agressivas, mas em nenhum momento descambam para o desrespeito religioso pueril nem apelam para temas de estupro ou misoginia que algumas bandas do estilo insistem em explorar. “Winged Watcher” é outra grande faixa, marcada por boas mudanças de andamento. Um ponto menos inspirado aparece em “Into the Fire”, cujos riffs lembram excessivamente os de “Vengeance Rising”; ainda que a estrutura da música siga caminhos diferentes, fica a sensação de déjà-vu.

Já “The Wealth of Darkness” é uma excelente porta de entrada para conhecer o som do Keep of Kalessin, com vocais diferenciados e um instrumental veloz e implacável. No fim das contas, temos um trabalho que agrada aos apreciadores de música extrema, combinando melodia regrada, velocidade acima do permitido e um vocalista versátil que representou um claro salto de qualidade para a banda liderada pelo guitarrista Obsidian Claw.


 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

20 anos de Dante XXI do Sepultura!!!


Dante XXI, obra do Sepultura baseada nos poemas de Dante Alighieri em A Divina Comédia, marca de forma bastante simbólica algumas fases importantes da trajetória da banda de Belo Horizonte. É o décimo álbum da carreira, já com dez anos de estrada sem o vocalista e guitarrista Max Cavalera, e também o último trabalho a contar com seu irmão Iggor Cavalera na bateria. Quer mais? Talvez não seja consenso geral, mas Dante XXI pode ser considerado o primeiro álbum da era Derrick Green que realmente merece uma atenção mais cuidadosa.

Nesta fase da banda, o disco funciona como uma espécie de virada de chave, momento em que parte dos fãs passou a olhar o Sepultura com menos desconfiança. Em minha opinião, “False” é a primeira música a realmente chamar atenção na sequência do play, com riffs pesados e carregados de groove — mas não aquele groove arrastado e previsível, e sim algo mais próximo da pegada thrash metal. O vocal de Derrick aparece mais gutural (oh glória). Antes dela, “Convicted in Life” já dava sinais dessa mudança positiva, enquanto “Fighting On” mantém peso e agressividade, com a guitarra de Andreas Kisser remetendo à fase de Chaos A.D. (oh glória II — e nada a ver com o nome da esposa de ninguém, é louvor mesmo!).

Interessante notar que as três intros do álbum marcam o início das músicas de acordo com as três partes do livro: “Lost” abre o caminho para o Inferno, “Limbo” introduz o Purgatório e “Eunoé” conduz ao Paraíso. A primeira faixa completa do “purgatório”, “Ostia”, quase funciona como uma purificação sonora, trazendo um belo solo de violino que acrescenta uma atmosfera diferenciada ao trabalho. Derrick também entrega uma interpretação bastante expressiva nessa música.

Outros destaques interessantes são “Nuclear Seven”, “Crown and Miter”, “City of Dis” e a enigmática “Still Flame”, que incorpora cellos e uma atmosfera quase oriental.

Para quem ama thrash metal, talvez não seja um álbum para ouvir do início ao fim esperando apenas velocidade e riffs cortantes, pois ainda há uma presença forte de elementos hardcore, perceptível já na abertura com “Dark Wood of Error”. Ainda assim, trata-se de uma obra que carrega uma mensagem bastante clássica: há, sim, uma luz no fim do túnel.


 

20 anos de Pro Patria Finlandia do Impaled Nazarene!!!


O nono álbum de estúdio do Impaled Nazarene traz um título que sugere um trabalho fortemente voltado ao patriotismo em relação ao seu país de origem. No entanto, ao analisar as letras de Pro Patria Finlandia, não se percebe exatamente um disco centrado nessa temática, já que o conteúdo lírico muitas vezes segue por caminhos mais anticristãos e provocativos do que propriamente reverentes à bandeira nacional.

Bandeira que, aliás, aparece muito bem representada na arte da capa: uma paisagem de árvores altas ao fundo, a tradicional combinação azul e branca manchada de sangue sobre pedras e o imponente logo da banda destacando-se na parte mais clara do céu. O nacionalismo finlandês, de modo geral, não costuma seguir uma linha explicitamente política ou separatista, estando mais ligado à história de um país que esteve sob domínio estrangeiro, especialmente do Império Russo, até conquistar sua autonomia em 1917.

Falando de música, o Impaled Nazarene mantém aqui sua sequência sólida de álbuns de black metal fortemente influenciado pelo thrash europeu. A faixa de abertura, “Weapons to Tame a Land”, é um exemplo claro da identidade da banda: veloz, com espaço perceptível para o baixo, vocal rasgado e um solo de guitarra — recurso que nem sempre foi tão explorado em trabalhos anteriores. A letra desta música, curiosamente, é uma das poucas que você pode mostrar a alguém sem maiores constrangimentos, e o refrão com múltiplas vozes bradando “devastate, annihilate, exterminate” ajuda a torná-la um dos destaques do disco.

Falando em solos, em “Something Sinister” a distorção é tão áspera que pode até gerar dúvida se o destaque é guitarra ou baixo, enquanto em “Psychosis” encontramos um solo limpo e muito bem executado, que merece atenção. O vocal de Mika Luttinen ocasionalmente assume um tom mais gutural, como em “I Wage War”, uma das faixas mais brutais do trabalho — abordagem que poderia ser explorada com mais frequência, pois acrescenta uma dinâmica interessante ao conjunto.

Mesmo sendo um álbum bastante veloz, com muitos blast beats de Reima Kellokoski, as músicas quase sempre apresentam pequenas mudanças de andamento, geralmente migrando para trechos mais cavalgados antes de retornar à brutalidade predominante. Isso fica evidente na faixa de encerramento, “Hate–Despise–Arrogance”, que possui pouco mais de três minutos, mas que facilmente poderia se estender por mais tempo sem perder o impacto.

Para você, criatura noturna, que ainda não teve a oportunidade de ouvir este trabalho e se interessou pela proposta, a recomendação inicial fica por conta da já citada faixa de abertura ou da poderosa “One Dead Nation Under Dead God”, outra em que a letra não causa constrangimentos e que, em certos momentos, lembra a finada carioca Unearthly na fase do álbum Black Metal Commando — uma excelente pedida para ouvir logo após Pro Patria Finlandia.

No baixo, a banda já contava com Mika Arnkil, enquanto as guitarras ficaram a cargo de Tuomo Louhio, que permaneceu cerca de quatro anos no grupo, e Jarno Anttila, dupla que contribuiu de forma decisiva para o peso e a identidade desta obra.



 

sábado, 28 de março de 2026

20 anos de Kill do Cannibal Corpse!!!


Esta semana mesmo li um post na internet sobre o antigo vocalista do Cannibal Corpse, Chris Barnes, afirmando que a banda ainda se sentiria ameaçada por ele, o que tornaria inviável qualquer aproximação entre o Cannibal e o Six Feet Under, grupo criado após sua saída. Sabemos que alguns fãs mais radicais permanecem presos à eterna ladainha de que apenas os quatro primeiros álbuns dos caras de Buffalo seriam realmente representativos, mas a verdade é que, após a entrada do vocalista George Fisher, o death metal nojento da banda ganhou uma projeção que poucos imaginariam para um grupo que insiste em grunhir sobre temas tão macabros e putrefatos envolvendo morte e a fragilidade humana.

Uma prova contundente dessa reputação nada amigável é Kill, lançado em março de 2006 e que acaba de completar 20 anos. O disco já era o décimo da carreira dos americanos e o sexto com o Pescoçudo à frente do microfone, girando a cabeleira como se estivesse presa a uma turbina de avião.

Lançado pela Metal Blade Records e produzido por Erik Rutan, que aparentemente buscou um equilíbrio entre a sujeira da era analógica e a nitidez digital — e, se essa era a intenção, acertou em cheio — temos aqui mais um petardo absurdamente pesado. As guitarras de Pat O'Brien e Rob Barrett (de volta à banda após dez anos e quatro álbuns, substituindo Jack Owen) surgem como verdadeiras paredes de chumbo, enquanto o baixo de Alex Webster preenche qualquer lacuna possível. Já a bateria de Paul Mazurkiewicz vem socada com raiva, como manda o manual do bom death metal. Basta ouvir “Purification by Fire” para sentir o peso dessa pancadaria.

Se a pergunta for sobre os solos de guitarra, a resposta é simples: ouça “Maniacal”. O solo é tão rápido que você provavelmente voltará a faixa algumas vezes para absorver o que acabou de acontecer. As mudanças de andamento continuam sendo um dos grandes trunfos da banda. Quando os riffs já são excelentes, essas viradas elevam ainda mais o nível, transformando faixas como “Submerged in Boiling Flesh”, já na reta final do álbum, em momentos difíceis de ignorar.

“Infinity Misery” encerra o petardo no único instante realmente arrastado do disco, com guitarras solo que remetem aos melhores momentos de James Murphy em Cause of Death.

Mas, se a ideia é se apaixonar por Kill, minha recomendação é começar pela abertura “The Time to Kill Is Now”, com toda a sua selvageria, e seguir direto para “Make Them Suffer”, onde um leve groove no refrão certamente vai fazer você testar a resistência do conjunto pescoço/garganta, além de saltar como um canguru na pista. De negativo em Kill, somente a falta de nossos famigerados zumbis na capa simples.


 

domingo, 22 de março de 2026

20 anos de Ode To Death do Witchhammer!!!


Quem conhece a fundo o Witchhammer de Belo Horizonte, MG, sabe que a banda nunca procurou se repetir. Mesmo trilhando as mesmas pedras, seus álbuns sempre trouxeram novidades em sua música. Não foi diferente em 2006, quando pariram seu quarto full, Ode To Death, novamente pela Cogumelo Records, gravadora que os catapultou para a elite do metal nacional.

O maior problema deste álbum talvez seja ter surgido 14 longos anos após o irrepreensível Blood On the Rocks. A banda ficou estagnada por alguns anos após 1995 e acabou registrando seu quarto petardo em um cenário bem diferente daquela era de ouro em que cresceu, ao lado de nomes como Sextrash e Attomica. Talvez por isso Ode To Death tenha passado despercebido por muitos fãs que, ainda hoje, sequer conhecem a obra.

O thrash metal apresentado aqui carrega mais groove do que qualquer outro momento da carreira, enquanto elementos de hardcore e death metal aparecem pontualmente para reforçar o peso — que, diga-se, é constante e impressionante. Esse peso se intensifica em faixas como “Dartherium”, nova versão da pancadaria presente no debut da banda, e em riffs que por vezes remetem ao death metal europeu, como em “The Machine of War”.

Outra regravação importante é a fenomenal “Weekend in Auschwitz”, faixa marcante da clássica coletânea Warfare Noise II, responsável por apresentar o Witchhammer a boa parte do público brasileiro. Há também um cover de “Perseguição”, do Sagrado Inferno, uma das bandas pioneiras do metal mineiro que, para muitos, acabou ganhando ainda mais visibilidade justamente com esta releitura.

A Cogumelo vem relançando diversos trabalhos importantes nos últimos anos — como fez recentemente com toda a discografia do Overdose — mas ainda está devendo duas obras da bruxa: Blood On the Rocks e este Ode To Death, que já deveriam estar novamente disponíveis há muito tempo.

O álbum prova que os mineiros ainda respiravam metal com criatividade, energia e carisma. Nos palcos, a banda sempre demonstrou enorme respeito pelo público, reverenciando aqueles que mantêm o underground vivo. Talvez por isso ouvir uma música como “Witchery” seja uma experiência ainda mais gratificante: elementos de heavy metal tradicional aliados a um solo de guitarra primoroso e fora da curva capturam com precisão a essência do melhor do movimento MG Area.

Que esta obra receba o relançamento que merece e possa finalmente ser adquirida pela nação underground brasileira — com urgência!

 

sábado, 21 de março de 2026

20 anos de The Great Cold Distance do Katatonia!!!


Se você leu as resenhas dos três álbuns anteriores do Katatonia nesta página, certamente já não espera uma análise muito positiva para The Great Cold Distance, o sétimo trabalho dos suecos, lançado pela Peaceville Records em 2006. Vou tentar não ser tão negativo, já que, a essa altura, também não esperava nada particularmente emocionante no som destes senhores. Respeito a banda, mas apreciar essa fase clean e um tanto insossa não é exatamente uma tarefa fácil de encarar.

É verdade que alguns aspectos ajudam a evitar que o álbum seja tão fraco quanto seus antecessores. Há uma variação um pouco maior nas estruturas das músicas — nada radical, mas ao menos nem todas seguem aquela linha reta e previsível. A faixa “Soil’s Song”, por exemplo, chega a ser até simpática dentro da proposta.

O problema é que as guitarras, ainda que um pouco mais sujas, não empolgam nem mesmo nas passagens que deveriam soar mais pesadas, como em “Consternation”, enquanto os vocais carecem de emoção. Jonas Renkse canta como se estivesse lutando contra o sono depois de um longo dia aguardando um voo atrasado em um aeroporto — e o voo nunca decola, porque as músicas simplesmente não levam a lugar algum.

Independentemente disso, a banda segue com uma legião fiel de admiradores. Algumas passagens de bateria chegam a ser lamentáveis, como o trecho mais calmo de “Increase”, que tenta soar progressivo sem que a melodia realmente importe ou desperte algo além de um leve desânimo.

Gostaria de encontrar algo mais animador para não desmerecer tanto o trabalho, mas a verdade é que ouvir o álbum inteiro acaba sendo um esforço ao qual não me sinto muito inclinado. E antes que alguém venha questionar ao me ver vestindo uma camisa da banda, vale lembrar: trata-se de uma lembrança dos bons tempos. Uma fase que, ao que tudo indica, dificilmente voltará.




 

sábado, 14 de março de 2026

20 anos de Don't Fear The Reaper do Witchery!!!


Não é surpresa para ninguém que o Witchery sempre foi muito mais um projeto do que propriamente uma banda de primeira linha. E parece que, em seu quarto registro full, um dos integrantes tenha assumido uma espécie de liderança dentro do projeto — talvez porque, em sua banda principal, seu papel sempre tenha sido um pouco ofuscado por outros membros.

Estou falando de Sharlee D'Angelo, dono das quatro cordas no Witchery e também no gigante Arch Enemy. A explicação para essa impressão é simples: enquanto no Arch Enemy os olhares estavam concentrados no guitarrista Michael Amott e na vocalista Angela Gossow, no Witchery Sharlee, como membro original, parecia exercer um papel mais emblemático. Isso fica evidente quando percebemos que a banda ganhou bastante groove em Don't Fear the Reaper, deixando totalmente de lado a veia speed que marcava seu início no final dos anos 90.

Por isso, a audição deste play pode soar um tanto desapontadora para quem estava acostumado com Dead, Hot and Ready e Restless & Dead. Mesmo que em alguns momentos — como em “Plague Rider”, uma das melhores faixas do trabalho, acelerada e com solo de guitarra à la Dave Mustaine — a banda mostre sua antiga vitalidade, a maior parte do álbum se apoia em andamentos médios.

E, para acentuar a mudança, também não se sente mais aquela veia irônica, debochada e despojada dos primórdios. O Witchery parece ter envelhecido ranzinza e sério, como se rejeitasse o jovem aventureiro e vadio que um dia foi.

Os vocais de Toxine aparecem um pouco mais demoníacos, perdendo parte daquela essência blackened thrash que caracterizava sua abordagem. Este, aliás, foi seu último trabalho à frente da banda. O curioso é que seu substituto seria um dos nomes mais icônicos da cena sueca: Legion, que havia deixado o Marduk em 2003. E, se você acompanha as duas bandas, provavelmente percebeu que, a partir deste álbum e nos seguintes do Witchery, as artes de capa passaram a combinar bastante com a estética visual do Marduk.

Para reforçar a mudança de clima, basta ouvir “Immortal Death”, cover do Satanic Slaughter. Com seus um minuto e trinta de pancadaria retirada do álbum de estreia de 1995 da banda, a faixa serve quase como um lembrete de que o Witchery estava deixando de lado esqueletos excitados em necrotérios para abraçar uma veia mais ocultista.

A intenção até parecia boa, mas talvez tenha saído um pouco pela culatra — afinal, este álbum costuma ser citado como um dos mais fracos da discografia do Witchery. Ou talvez esses caras simplesmente não quisessem progredir, preferindo permanecer numa época em que beber vinho em cemitérios e contar histórias de terror parecia solução suficiente para os problemas da vida.


 

domingo, 8 de março de 2026

20 anos de The Bloody Path of God do Mystic Circle!!!


O sétimo álbum de estúdio dos alemães do Mystic Circle traz uma mudança sutil em relação aos dois trabalhos anteriores. Aqui, a banda tenta resgatar um elemento que havia se perdido desde o início da carreira: o teclado. Após um começo no symphonic black que chamou a atenção de muita gente, o grupo se transformou em um trio e migrou para um blackened death metal mais direto, calcado em riffs e em um vocal constantemente rasgado.

Em The Bloody Path of God, a banda mantém a mesma toada de Damien e Open the Gates of Hell, mas agora os teclados aparecem mais distribuídos, acompanhando os riffs — algo que eles ainda não haviam feito dessa forma. No início da carreira, inclusive, os teclados muitas vezes ganhavam mais destaque que as próprias guitarras. Talvez, a essa altura da jornada, a banda já estivesse considerando um retorno parcial à sonoridade de outrora.

Outro indício disso é a adição de um segundo guitarrista: o alemão Tobias Drabold, aqui creditado como Vike Ragnar, e que acabaria participando apenas deste álbum. Ao lado do guitarrista original Ezpharess, ele ajuda a reforçar os riffs, embora a dupla também abuse de breakdowns — um recurso mais associado ao thrash metal — o que faz algumas faixas soarem parecidas entre si. Ainda assim, melodias como a que abre “The Grim Reaper” são bastante interessantes.

Após a intro “Psalm of the End”, o álbum se inicia de fato com a faixa-título e “Doomsday Prophecy”, e algo nelas passa a impressão de que o disco é mais arrastado do que realmente é. A partir de “Nine Plagues of Egypt” a coisa ganha mais velocidade, embora ainda perca numa corrida direta com o antecessor, que era consideravelmente mais agressivo.

A arte da capa lembra um pouco coisas do Deicide e, mesmo usando cores pouco chamativas, apresenta um desenho bem trabalhado.

A faixa que mais puxa a sardinha para o vocalista e baixista Beelzebub (Marc Zimmer) é “Hellborn”, onde seus vocais aparecem sobre instrumentais mais vazios e o baixo ainda ganha um pequeno momento solo. Já o baterista Necrodemon (Alex Koch), em seu terceiro e último álbum com o Mystic Circle, utiliza pedais duplos muito bem colocados e soa mais complexo quando a música exige, como em “Church of Sacrifice”.

O álbum se encerra com um cover de Circle of the Tyrants, clássico do Celtic Frost — e que ficou bem executado.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

20 anos de Out For Blood do Sadus!!!


O Sadus é aquela banda clássica da Califórnia que raramente entra nas primeiras citações quando o assunto é Bay Area — muito porque resolveu temperar seu thrash com doses generosas de death metal. Em 2006, após nove anos sem material inédito, lançava seu quinto trabalho mantendo a mesma formação de Elements of Anger (1997): Darren Travis na guitarra e vocal, o monstro do baixo que dispensa apresentações Steve DiGiorgio e Jon Allen (Testament / Dragonlord) na bateria.

A faixa de abertura, “In The Name Of…”, já chega agressiva, carregando elementos de metal da morte que remetem ao Master de Paul Speckmann. Os vocais estão furiosos, o baixo soa paranormal como sempre, e os riffs — ainda que não sejam memoráveis — entregam energia suficiente para justificar o impacto inicial.

Na sequência vem “No More”, uma boa música sabotada por sintetizadores de extremo mau gosto. Quem teve aquela ideia deveria responder em tribunal. “Smackdown” não traz surpresas desagradáveis, enquanto a faixa-título surge carregada de peso, especialmente no final, reforçada pelos guturais de Juan Urteaga.

“Lost It All” mostra uma faceta diferente: andamento mais arrastado, vocais sussurrados e uma letra que aponta para alguém à beira da insanidade. Aqui, curiosamente, os sintetizadores funcionam, criando uma atmosfera mais enigmática.

“Sick” acelera agradando fãs de Destruction, enquanto “Down” poderia muito bem estar em um álbum do Pantera — não fossem os vocais, claro. O play segue com “Freedom”, faixa forte que alterna uma parte mais cadenciada e death metal com breakdowns eficientes, tornando-se um dos grandes momentos do disco. “Freak” aposta numa pegada mais moderna e agressiva, e então chegamos à mais longa, “Cursed”, com mais de oito minutos e aquele show alienígena de baixo que só DiGiorgio sabe entregar.

O gran finale vem com “Crazy”, que conta com a participação de Chuck Billy despejando sua voz potente e inconfundível.

Vi muitas pedradas direcionadas a esse álbum, lançado há vinte anos pelo Sadus. Tirando os ruídos lamentáveis em “No More”, o trabalho se sustenta muito bem.

No fim das contas, vale a pena.


 

20 anos de The Cult Is Alive do Dark Throne!!!


Em 2006, o Darkthrone chegava ao seu décimo segundo álbum de estúdio, provocando questionamentos daqueles que não aceitam tudo como simples curso natural das coisas. Seria mais proveitoso se a dupla norueguesa, formada por Nocturno Culto e Fenriz, planejasse melhor seus lançamentos, com menos títulos no catálogo e uma qualidade mais consistente?

Podemos seguir a linha de raciocínio de que a banda nunca se preocupou com estética ou polimento musical e apenas faz, com simplicidade quase teimosa, aquilo a que sempre se propôs. Ainda assim, alguns trabalhos conseguem enfurecer até os fãs mais fiéis do black metal ríspido. The Cult Is Alive é apenas mais do mesmo ou traz algum elemento novo — para o bem ou para o mal?

A veia doom ensaiada dois álbuns antes não se consolida aqui. Embora algumas faixas apresentem andamentos mais arrastados, como “Too Old Too Cold”, isso soa quase como uma ironia consciente: se “somos velhos demais, apenas malucos do rock ’n’ roll”, então podemos muito bem seguir mais devagar. A gravação é até limpa para o estilo, com instrumentos bem destacados, e os vocais aparecem roucos, porém sem aquela fúria que um dia causou arrepios.

A arte da capa, meio bizarra, também não ajuda na recepção do petardo. Fica a sensação de que a banda queria apenas manter a máquina girando, aumentar a fatura sem grandes sobressaltos — mostrar que ainda estava viva, nada além disso.

O desafio de analisar um álbum dessa estirpe vinte anos depois é perceber que aquela imagem de metalheads revoltados, isolados em florestas sombrias e caçando a própria comida com flechas, já não encontra muito espaço nesta era tecnológica e caótica. Talvez a magia estética tenha se dissipado, e o que restou foi transferir ao som uma carga de utopia enegrecida que já não encontra o mesmo eco.

A verdade é que o metal praticado pelo Darkthrone em The Cult Is Alive não assusta mais as criancinhas, não sacia a fome de old school do seu séquito e tampouco arranca sorrisos de quem busca novidades que agreguem valor à discografia. É apenas mais um álbum — e, convenhamos, nunca teve hits tocando nas rádios.

Se te faz feliz, vai fundo. 

 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

20 anos de The Black Waltz do Kalmah!!!


E o Kalmah, da Finlândia, chegava em poucos anos ao seu quarto lançamento, agora com The Black Waltz. O álbum traz uma mudança fundamental na formação em relação a Swampsong (2003): a saída do tecladista Pasi Hiltula e a entrada de Marco Sneck (Poisonblack). Fundamental porque Pasi exercia um papel crucial no som do Kalmah; ele não apenas acompanhava os instrumentais, mas criava melodias que completavam as seções rítmicas de guitarra com profundidade e criatividade superiores.

Não que Sneck não tente fazer isso em The Black Waltz, mas aqui a abordagem soa muito mais orquestral. Ainda assim, nada que freie o crescimento da banda — afinal, este álbum é sensacional. Outro grande diferencial está nos vocais de Pekka Kokko, que se mostram bem mais guturais desta vez. Parece que o camarada estava numa fase mais brutal death metal. Isso não acontece em todas as músicas, mas, se quiser um exemplo claro, ouça a faixa-título e não se assuste.

No geral, trata-se de um trabalho com músicas bastante diversificadas. A produção é excelente: o som soa límpido e poderoso, com a agressividade bem resguardada e as melodias sempre em evidência. Aqui já não se percebe aquela sensação de uma banda seguindo os caminhos de seus conterrâneos do Children of Bodom, mas sim de um grupo que encontrou definitivamente sua própria estrada, com maestria e uma precisão que ainda me fazem questionar por que o Kalmah não é mais lembrado pelos meios de comunicação metálicos ou pela maioria dos fãs.

Talvez isso se deva, além da pouca divulgação — afinal, passaram a maior parte da carreira sob as asas da Spikefarm, que não chega a ser uma gigante — ao fato de não se encaixarem perfeitamente no rótulo de melodic death metal. Há uma boa quantidade de influências no som do Kalmah: death, melodic, power, thrash e até black metal. Talvez por não caberem exatamente em um nicho específico, acabem sendo menos lembrados. Mas tudo bem, isso está longe de ser exclusividade deles.

Voltando ao petardo, “The Terminal Intensity” carrega algo de Amon Amarth, ainda que soe muito melhor do que muita coisa dos suecos. A capa não está entre as mais bonitas, mas o logo da banda passou por mudanças, ficando mais compreensível e ainda ganhou um floreio extra.

Ouça sem moderação 

 

20 anos de AssassiNation do Krisiun!!!


Eu me lembro muito bem de quando AssassiNation foi lançado. Ainda vivíamos aquela fase de conferir material em loja física, onde amigos e músicos se encontravam para discutir lançamentos, ouvir novidades e até tomar uma cerveja — geralmente nas tardes de sexta ou nas manhãs de sábado. Tudo isso numa época anterior à frieza do e-commerce. Pois bem, a impressão geral, à época, era de que o Krisiun havia tirado o pé do acelerador. Algo estranho de se dizer ouvindo o álbum hoje, mas perfeitamente compreensível. E há um culpado claro para essa sensação: o groove.

Sim, o sexto trabalho dos brasileiros pode tranquilamente ser classificado como um death groove, com afinações de guitarra um pouco estranhas ao padrão do Krisiun, deixando o som ainda mais pesado. Justamente por isso, surgem momentos que passam a impressão de “buracos” na estrutura, quando as seis cordas baixam a guarda para dar maior ênfase à bateria. A faixa de abertura (Bloodcraft) é o maior exemplo disso, trazendo melodias de guitarra que se aproximam muito mais dos dois últimos álbuns do Sepultura da era Max do que dos trabalhos anteriores do próprio Krisiun.

Não coloco isso como crítica, mas como uma justificativa para a falsa imagem de menor agressividade que tivemos há 20 anos. O brutal death metal sempre foi — e continua sendo — a proposta da banda. Ainda nessa primeira faixa, temos um ótimo solo de guitarra, sem a necessidade de soar absurdamente rápido como em músicas como H.O.G. (House of God).

“Vicious Wrath”, que ganhou um videoclipe bem barato — basicamente a banda tocando sob luzes estroboscópicas, com um Alex Camargo exibindo o lado esquerdo do rosto mutilado — é uma música típica da banda. Para quem aprecia riffs mais elaborados, “Father’s Perversion” é um dos grandes destaques do álbum, com uma estrutura que beira Morbid Angel.

Os vocais guturais continuam sendo um espetáculo à parte. Não há entrega ou enfraquecimento em momento algum, e aquele efeito de eco característico nos transporta diretamente para cavernas primitivas. No final do álbum, temos um cover do Motörhead: “Sweet Revenge”, terceira faixa do clássico Bomber (1979), que, assim como “Orgasmatron” em Arise, se tornou um momento icônico do play, guardadas as devidas proporções.

A bateria de Max Kolesne passa por cima de todos os esqueletos, como de costume — ouça “Suicidal Savagery” e se delicie com o caos sonoro. Outro destaque é “United in Decepcion”, que traz um início groove thrash épico. A arte da capa, assim como já comentado em Works of Carnage, não é exatamente do tipo que enche os olhos, mas era uma estética bastante comum na época e não se compara ao impacto de um desenho feito à mão.

AssassiNation é um álbum um tanto diferenciado dentro da discografia do Krisiun, mas não deve ser visto como algo fora da curva ou digno de apedrejamento. Pelo contrário: trata-se de uma mudança bem-vinda, justamente para evitar a saturação.


 

sábado, 31 de janeiro de 2026

20 anos de The God That Never Was do Dismember!!!


O sétimo trabalho de uma das bandas old school mais importantes da Suécia, The God That Never Was, saiu em março de 2006 e agora completa 20 anos. Rickard Cabeza, que havia gravado o baixo do petardo anterior, deixou a banda, abrindo espaço para a entrada de Martin Persson, que já excursionava com o grupo havia dois anos. Aqui, Persson assume baixo e guitarra, o mesmo ocorrendo com David Blomqvist, guitarrista original do Dismember, marcando o aguardado retorno ao formato de duas guitarras. Completam a formação o batera Fred Estby e o vocalista Matti Kärki.

The God That Never Was é um prato pesado e viciante para qualquer fã de death metal. Se em Where Ironcrosses Grow a banda voltou do hiato com o pé na porta, aqui ela se consolida (novamente) como uma das maiores forças do metal da morte do planeta. Faixas mais curtas, como a música-título que abre o disco e a fenomenal “Never Forget, Never Forgive” — com menos de dois minutos — levantam até aqueles que já se deitaram eternamente em covas profundas.

Aquela veia à la Autopsy da Califórnia ainda está presente, embora menos saltada no pescoço do que em seu antecessor, mas surge de forma cristalina na faixa “Autopsy”. Coincidência? Homenagem? Fica a provocação. Há também a lembrança do Iron Maiden, agora em forma instrumental com “Phantoms (of the Oath)”, que além do título quase gêmeo de uma pérola dos britânicos, remete diretamente à clássica “Transylvania”.

A única faixa que foge um pouco do legado do Dismember é a que encerra o álbum, “Where No Ghost Is Holy”, cujo instrumental flerta com o melodic death sueco à la In Flames, destoando da proposta old school da banda. Ainda assim, nada que comprometa o conjunto: o restante pode ser consumido sem receio, quantas vezes for necessário.

Em meio a tanta porrada maravilhosa, destaco minha favorita: “Trail of the Dead”. A música traz um breve interlúdio com sons de guerra que dialogam com a arte da capa, entra com riff pesado e bateria em mid-tempo, acelera com a chegada dos vocais guturais e cavernosos e termina com uma passagem feita sob medida para mosh e headbanging, acompanhada de um solo curto, virtuoso e espiritualmente próximo dos antigos solos de Chuck Schuldiner.

E já que falamos em capa, parece que pegaram aquele soldado com máscara de gás que estampa várias artes dos alemães do Sodom e simplesmente enfiaram uma espada em suas mãos para deixá-lo ainda mais carniceiro.

Perdeu o rumo nesses 20 anos ouvindo bandas genéricas ou se limitando apenas aos maiores clássicos de cada nome? Então corra atrás de The God That Never Was agora.


 

sábado, 24 de janeiro de 2026

20 anos de Warrior Soul da Doro!!!




Criaturas, esse é o tipo de álbum perfeito pra dar um respiro no metal extremo do dia a dia. Sem choradeira, sem preconceito com voz feminina no metal — afinal, estamos falando da rainha dos headbangers. Em 2006, Doro chegava ao seu 10º álbum da carreira solo com o excelente Warrior Soul, um trabalho que deixa claro, sem rodeios, que ela realmente tem alma de guerreira.

Imaginar tudo o que Doro deve ter enfrentado em um mundo metal ainda profundamente machista — jovem, bela e à frente do Warlock desde os vinte e poucos anos — já seria motivo suficiente para medalhas, troféus e reconhecimento eterno. Mas o mérito aqui vai muito além da história: Doro é uma cantora de voz especial, personalidade forte e inteligência musical, sempre cercada de músicos que conseguem materializar exatamente o que ela tem em mente.

Neste álbum, ela conta novamente com Joe Taylor (guitarra), Oliver Palotai (guitarra e teclados), Nick Mitchell (baixo) e Johnny Dee (bateria), a mesma formação do ótimo Fight (2002). Vale lembrar que o disco anterior não é esse, já que em 2004 Doro lançou Classic Diamonds, um trabalho focado em covers e versões — principalmente da fase Warlock — e recheado de convidados.

Warrior Soul é daqueles álbuns que prendem a atenção faixa após faixa, mesmo que alguns momentos soem familiares entre si. Não é um disco para quem busca velocidade: os andamentos variam do lento ao médio, com espaço para baladas, atmosferas bem construídas e teclados ocupando papel central. Os solos de guitarra são, em sua maioria, curtos e funcionais, com destaque absoluto para o belíssimo solo de “Above The Ashes”.

Há espaço até para um momento punk, “Ungebrochen”, com pouco mais de um minuto e meio e Doro cantando com aquela voz rasgada deliciosa, remetendo ao álbum anterior. “In Liebe Und Freundschaft” é uma bela balada cantada em alemão, sua língua nativa. Outras baladas são  “Shine On”, que encerra o play com um final bombástico, enquanto a faixa-título “Warrior Soul” arrepia e deixa claro o quanto a voz de Doro consegue mexer com quem ouve — além de reaparecer de forma acústica e escondida no final do álbum.

“Creep Into My Brain” é a faixa ideal para medir a potência vocal da loira, enquanto músicas como “Haunted Heart”, “Strangers Yesterday”, “Thunderspell” e “You’re My Family” entregam aquele Heavy Rock honesto, prazeroso e sem culpa, pra curtir sem medo de ser feliz.

A arte da capa mais uma vez é de Geoffrey Gillespie, e novamente ficou um arraso, com Doro ilustrada empunhando uma espada frente a criaturas horrendas, mas girando o rosto para te olhar nos olhos com charme: feroz e cativante!

No fim das contas, Warrior Soul é mais uma prova da força, consistência e relevância de Doro — um ótimo trabalho de uma rainha que, mesmo 20 anos depois, continua firme no trono.


 

sábado, 17 de janeiro de 2026

20 anos de In The Arms of Devastation do Kataklysm!!!


Muitos exageros — e exageros negativos, diga-se — é o que se lê por aí a respeito de In the Arms of Devastation. Que o Kataklysm perdeu parte da brutalidade com o passar dos anos, isso é inegável. Mas chegar ao ponto de afirmar que a banda tentou se aproximar do mainstream com seu sétimo álbum de estúdio é, no mínimo, demonstrar pouco entendimento do que é heavy metal. Já não é mais aquele death metal old school cru e impiedoso; há boas camadas de groove aqui e ali, melodias que flertam com o melodic death, mas ainda não — definitivamente não — neste álbum.

Após um período afastado, o baterista Max Duhamel estava de volta, mas tudo indica que o restante da banda puxou o freio de mão, impedindo que ele atingisse as velocidades de outrora. E faz sentido: blast beats desenfreados destoariam do instrumental mais cadenciado preparado pelo guitarrista Jean-François Dagenais e pelo baixista Stéphane Barbe. Curiosamente, a música mais arrastada do disco é justamente a que o encerra. “The Road to Devastation”, além de ser a mais longa — ultrapassando os sete minutos —, traz uma passagem atmosférica após os quatro minutos e ainda carrega algo relativamente raro no álbum: um solo de guitarra. Ok, todos nós gostamos de solos, mas aqui você não sentirá falta deles nas demais faixas.

A abertura com “Like Angels Weeping (The Dark)” apresenta uma energia inicial poderosa, embora em determinado momento escorregue para o groove. O riff principal caminha naquela linha tênue do death metal dos anos 90, mas o peso incorporado no riff secundário acaba afastando a música dessa referência. Ainda assim, o final guarda uma das passagens mais pesadas de todo o álbum. A bateria acelera em diversos momentos, e é justamente desse prato que a banda bebe para não receber de vez o rótulo de groove metal.

Os vocais de Maurizio Iacono seguem excelentes, alternando guturais e rasgados com a mesma competência de sempre — agressivos, raivosos e, na maior parte do tempo, perfeitamente compreensíveis. “Let Them Burn” é uma das faixas mais agressivas do trabalho, mesmo sem recorrer às velocidades extremas do passado.

Minha faixa preferida vem logo na sequência, e pode muito bem ser a sua também, desde que você não se incomode com andamentos mais cadenciados. “Crippled and Broken” escancara o quão pesados esses caras ainda conseguem soar. Após um refrão espetacular, denso como uma montanha, entra um acorde de guitarra solo sustentado por alguns segundos — e é em momentos assim que se percebe como, em certas bandas, solos podem ser suprimidos em favor de atmosferas e melodias sem que a obra perca impacto.

“To Reign Again” é outra pedrada: acelerada, agressiva e com vocais que te fazem urrar junto. O destaque aqui fica para uma passagem de baixo solo, fazendo você sentir os batimentos cardíacos borrifando sangue pelas veias.

A grande surpresa do álbum é a participação de Morgan Lander, vocalista da banda compatriota Kittie. Independentemente do viés mais new metal de sua banda, ela entrega uma performance gutural intensa, gritando a plenos pulmões e sem contrastar demais com Maurizio — em certos momentos, poderia até passar despercebida como sendo ele. Rob Doherty, do Into Eternity, falecido em 2012, também aparece na derradeira faixa "The Road To Devastation" com um gutural animal no refrão.

A capa, em tons de cinza, assinada por Anthony Clarkson, retrata um ser alado, meio humano, em um cenário devastado, refletindo bem o clima do álbum. Outra surpresa positiva é a produção, agora a cargo de Tue Madsen, substituindo Dagenais, que vinha produzindo os últimos trabalhos da banda.

Altamente recomendável.