Enquanto a banda sueca Draconian chegava ao seu terceiro trabalho, intitulado The Burning Halo, um de seus guitarristas, Johan Ericson, também lançava o álbum de estreia de seu projeto solo, o Doom:vs. Aproveitando a oportunidade, vale corrigir uma informação antiga: o "vs" não significa "versus". Na verdade, a letra v substitui o u, e a pronúncia correta do nome é "Doomus". O próprio Johan explicou que a palavra deriva do latim domus, que significa "casa". Acrescentando um "o", em referência ao doom metal, chegou a um nome que pode ser interpretado como "a casa da perdição".
E essa sensação é imediata ao folhear o encarte de Aeternum Vale. Forcas penduradas, cadeiras destroçadas e o interior decadente de uma casa criam uma atmosfera de desespero antes mesmo da primeira nota soar.
Nesta empreitada, Johan toca todos os instrumentos e assume todos os vocais, algo que impressiona, já que a maioria dos projetos solo costuma recorrer a músicos convidados, principalmente bateristas e vocalistas.
A capa do álbum remete imediatamente ao segundo trabalho do Draconian, em que uma árvore ocupa o centro da composição. Aqui, porém, não existe um anjo sofrendo sob seus galhos. Acho esse contraste bastante interessante, pois, se encararmos o vocal feminino do Draconian como uma representação angelical, em Aeternum Vale temos um instrumental que caminha pela mesma atmosfera, mas sem essa voz. É como se o anjo simplesmente tivesse desaparecido, tanto da música quanto da arte.
Para quem acompanha o estilo com devoção, Aeternum Vale é um prato servido com dor, lodo e tristeza — exatamente tudo aquilo que esperamos encontrar em um grande álbum de doom metal, daqueles que permanecem na memória e parecem pedir para serem ouvidos por toda a vida.
Na minha opinião, é o trabalho mais impactante dos três lançados pelo Doom:vs. Ele preserva a essência das grandes bandas de death/doom dos anos 90 e ainda incorpora uma atmosfera funeral que, naquela época, era pouco explorada.
As guitarras conduzem toda a obra com peso e uma distorção profundamente fúnebre, enquanto os teclados aparecem de maneira discreta e pontual, apenas para reforçar os momentos mais melancólicos. Os vocais são predominantemente guturais, mas também há espaço para passagens limpas e narradas. E ainda encontramos belíssimos solos de guitarra, que parecem transportar o ouvinte pelo espaço com uma delicadeza quase hipnótica, como acontece em "The Faded Earth".
Tenho a impressão de que, se Aeternum Vale tivesse sido lançado na primeira metade dos anos 90, o Doom:vs seria lembrado hoje como uma das grandes bandas do estilo, e não apenas como um projeto paralelo cuja continuidade sequer sabemos se ainda existe, especialmente porque o Draconian passou a consumir cada vez mais tempo de Johan Ericson com turnês e compromissos ao redor do mundo.
Aeternum Vale é um trabalho irrepreensível e merece ocupar um lugar na prateleira de qualquer amante da escuridão gelada que é o doom metal.
Blast Doommaker
