domingo, 19 de julho de 2026

20 anos de Nefasto Caminho da Profanação do In Nomine Belialis!!!


Quem aí se lembra ou conhece os primeiros álbuns do Malkuth, banda de black metal pernambucana com origem nos anos 90? Em especial das melodias quase ingênuas, gravadas na raça, que surgiam em meio à enxurrada maléfica? E o vocal rasgado, profundo, lembrando um demônio acorrentado nas masmorras da geena de Sucoth Benoth, do Amen Corner, ainda antes do primeiro full? E da banda americana Absu, do baterista e vocalista Proscriptor, que tocava tão rápido quanto um raio enquanto berrava ao microfone? Pois bem, jogue todas essas influências em um liquidificador e terá Nefasto Caminho da Profanação, primeiro full da banda belo-horizontina de black metal In Nomine Belialis, lançado em 2006.

Com o guitarrista Ameth, que também gravou o primeiro álbum do Defacer, a banda desfere riffs afiados, quase tão gelados quanto os das formações nórdicas, mas carregando uma identidade fortemente ligada ao underground mineiro, que domina o trabalho do início ao fim. O baixo de Black Priest sofre um pouco com a produção modesta e acaba ficando mais discreto do que merece, embora uma audição mais atenta — de preferência com fones de ouvido — revele linhas que enriquecem consideravelmente as composições. Nos vocais e na bateria, Nephastus Porphir entrega uma performance malignamente soberba, despejando fúria com braços e pés enquanto vocifera blasfêmias que parecem ecoar diretamente de catacumbas úmidas e esquecidas pelo tempo.

As composições transitam entre investidas velozes e passagens mais cadenciadas, sempre sustentadas por melodias soturnas que remetem ao black metal brasileiro da segunda metade dos anos 90. Não há espaço para exibicionismos; cada riff, cada virada de bateria e cada mudança de andamento parecem existir exclusivamente para fortalecer a atmosfera profana que envolve o disco. A produção crua, longe de representar uma deficiência, reforça a sensação de estar diante de um registro genuinamente underground.

A faixa-título, Nefasto Caminho da Profanação, sintetiza perfeitamente a proposta da banda. Rápida, agressiva e com mudanças de andamento muito bem encaixadas, carrega um espírito old school que se manifesta tanto na construção musical quanto na temática lírica. Profanação e Vitória chama atenção logo nos primeiros segundos ao colocar o baixo em evidência antes da avalanche de guitarras tomar conta da composição. Nesse momento, a banda deixa transparecer uma sutil influência do black metal escandinavo, especialmente da escola finlandesa, sem jamais abandonar sua personalidade. Já Meu Espírito Prolifera o Mal reserva uma das passagens mais inspiradas do álbum, quando o baixo novamente assume protagonismo e conduz uma sequência melódica obscura, enriquecendo a atmosfera e demonstrando que a agressividade do In Nomine Belialis também sabe dialogar com momentos mais contemplativos.

Outro grande destaque é Glórias a Belial, composição que aposta em uma abordagem mais ritualística, marcada por vocais ainda mais cavernosos e uma atmosfera quase litúrgica em sua blasfêmia. É um daqueles momentos em que a banda consegue transportar o ouvinte para um cenário de templos em ruínas, fumaça e profanação, encerrando um dos pontos mais altos do álbum.

Todas as letras são em português, reforçando ainda mais a identidade da obra. Nefasto Caminho da Profanação permanece como uma joia escondida do underground mineiro e um retrato fiel de uma época em que paixão, convicção e autenticidade falavam mais alto do que grandes produções ou orçamentos elevados. Felizmente, o álbum ainda pode ser encontrado por aí, desde que se tenha sorte. Uma verdadeira relíquia que merece ser redescoberta por qualquer apreciador de black metal que valorize personalidade, atmosfera e a essência mais pura da música extrema nacional.


 

sábado, 11 de julho de 2026

20 anos de Suffocation do Suffocation!!!


O Suffocation nasceu em 1989, em Nova York, numa época em que o death metal americano já havia cravado seu nome na história como um dos mais insanos e influentes do planeta. Nem por isso a banda resolveu ser apenas mais uma cópia dos gigantes que já dominavam o estilo. Muito pelo contrário. O Suffocation carrega o estigma — e também o mérito — de ser um dos criadores do technical brutal death metal, subgênero que une a brutalidade de um som ignorante e doentio à complexidade de quebras de ritmo, baterias repletas de viradas intrincadas, guitarras dissonantes e um alto grau de virtuosismo.

Neste álbum autointitulado, o quinto da carreira, encontramos exatamente essa combinação explosiva. O que o diferencia de muitos outros trabalhos do estilo é seu andamento mais arrastado, como se o caminhão do sorveteiro do inferno estivesse subindo uma ladeira enquanto o sujeito lá dentro congela membros amputados e embalados a vácuo. A violência continua presente, mas é conduzida por um peso quase sufocante.

Há espaço até para melodias inesperadas, como na introdução de "Redemption", que logo desemboca em um longo solo de guitarra. Já "Translucent Patterns of Delirium" talvez seja o maior exemplo da proposta técnica do álbum, apresentando riffs que desafiam qualquer lógica estabelecida dentro do death metal.

E é curioso falar em padrões dentro do heavy metal, um estilo que nasceu justamente para defender a liberdade de expressão e de escolhas, mas que, no fim das contas, acaba se tornando refém de uma característica tipicamente humana: a necessidade de criar rótulos e regras.

Já que o assunto são guitarras, faça um favor a si mesmo e ouça o solo de "Creed of the Infidel". Está entre os melhores que o Suffocation já compôs.

Outro aspecto que merece destaque são os vocais de Frank Mullen. Não é por acaso que ele é apontado como uma das maiores influências para vocalistas do death metal moderno. Seu gutural gravíssimo, surpreendentemente inteligível em boa parte do álbum, ajudou a consolidar o death growl como referência dentro do estilo. Além disso, surgem alguns fraseados que lembram os pig squeals, aquele vocal que mais parece um porco enfurecido sendo esfaqueado.

A arte da capa, assinada por Jon Zig — conhecido por trabalhos com bandas como Exhumed e Averse Sefira —, retrata um cenário sombrio e desolado, povoado por esqueletos soterrados e demônios errantes. O logotipo da banda e seu símbolo ocupam posição de destaque na parte superior da composição, resultando em uma ilustração simples, mas extremamente eficiente.

E como presente temos uma regravação da música "Prelude To Repulsion", faixa do eterno clássico trabalho Breeding the Spawn de 1993, que novamente ficou arrasadora.

Completam a formação Terrance Hobbs e Guy Marchais nas guitarras, Derek Boyer no baixo e Mike Smith na bateria.

Material absolutamente não recomendável para ouvidos sensíveis.


 

sábado, 4 de julho de 2026

20 anos de Transcendental do Imago Mortis!!!


O terceiro trabalho dos cariocas do Imago Mortis é Transcendental. Liderada pelo vocalista Alex Voorhees, a banda contava com Dennis Pombo e Rafael Bianzeno nas guitarras — este último também responsável pelas passagens de violino. A formação se completava com Bruno Coe no baixo e André Delacroix na bateria. Já o tecladista Pedro Santos aparece como músico convidado, embora participe de metade das doze faixas do álbum.

A banda continua trilhando o caminho do doom metal, ainda que incorpore, em diversos momentos, influências de power metal e até de thrash metal, como acontece na agressiva "Kali Yuga". Curiosamente, a música traz um órgão Hammond em destaque, instrumento que vez ou outra aparece em algum trabalho de metal, mas com o qual confesso nunca consegui me acostumar.

Há espaço também para um quase death/thrash em "Sangue e Dor", a faixa mais agressiva do disco e a única cantada em português. Em contrapartida, a abertura formada por "Hall of Souls" e "Across the Desert" mergulha de cabeça no épico doom metal, agradando facilmente aos fãs de Candlemass e Solitude Aeternus.

A participação especial de Melissa Matos, creditada como Mel Bôa Morte e conhecida por sua passagem pela banda de gothic metal Trinnity, enriquece "Searching for a Touch of Divinity" com seus vocais femininos.

O trabalho das guitarras merece elogios à parte. Em alguns momentos, como na belíssima "Love Path", as melodias remetem ao My Dying Bride, especialmente à fase de Like Gods of the Sun.

Meu momento preferido, no entanto, é a épica "Undrying Tears". Talvez porque ela faça parte de uma de minhas coletâneas pessoais de muitos anos atrás, mas também porque reúne com enorme competência diferentes atmosferas e elementos musicais, conduzindo o ouvinte de um sentimento a outro com naturalidade, classe e desenvoltura. É impossível não reservar um lugar especial para uma composição como essa.

Como bônus, o álbum ainda traz "Bring Out Your Dead", clássico absoluto e provavelmente a música mais conhecida da banda, originalmente lançada no álbum de estreia, em 1998.

Transcendental é mais uma prova da enorme qualidade do vasto e poderoso cenário nacional, e chega aos vinte anos como um trabalho que merece ser redescoberto.