domingo, 17 de maio de 2026

20 anos de Veronika Decides To Die do Saturnus!!!


Já li várias obras do escritor brasileiro Paulo Coelho. O Diário de um Mago, O Demônio e a Srta. Prym, Onze Minutos, Brida, O Zahir e o melhor deles, O Alquimista. Ainda assim, nunca tive a oportunidade de ler Veronika Decide Morrer, justamente a obra que dá nome ao terceiro álbum da banda dinamarquesa Saturnus. Mesmo com o título retirado do livro, a banda afirma que as letras não refletem diretamente aquilo que encontramos em suas páginas.

A verdade é que o lirismo apresentado aqui nasce de um desespero legítimo, onde amor, dor, desolação e escuridão se misturam ao sabor salgado das lágrimas. Ouvir Veronika Decides to Die é mergulhar em uma jornada fria, doce e sensível, onde sentimentos que jamais ousamos revelar sob a luz brotam da alma em nossos momentos mais amargurados.

A produção é cristalina sem esconder o peso. Pelo contrário: reforça as melodias inquietantes, onde todos os instrumentos se unem para idealizar a tragédia da imperfeição humana. Os solos de guitarra, longos e belíssimos, conduzem o ouvinte a um estado de espírito quase inebriante. As passagens de bateria também não servem apenas como detalhe; foram cuidadosamente pensadas para enriquecer as linhas e reafirmar sua importância dentro do melodic death/doom, sem sequer fingir acelerações desnecessárias apenas para quebrar nuances. Este trabalho não precisa destruir nada além de nossas almas.

Tais Pedersen e Peter Poulsen eram os responsáveis pelas belas melodias nas seis cordas, com Lennart Jacobsen no baixo e Nikolaj Borg na bateria. Nos teclados, Anders Nielsen — presente na banda desde 1994 e realizando aqui seu último trabalho com o grupo — enquanto Thomas Jensen assumia os vocais, sendo hoje o único integrante daquela formação ainda presente na banda. Sua voz transita pelo gutural tradicional, pelo narrado e por um gutural mais aberto, como podemos ouvir em “Pretend”.

São oito hinos espalhados por praticamente uma hora de música, onde momentos mais introspectivos, compostos apenas por dedilhados, teclados e vozes limpas, fazem você mergulhar em um lago gelado, como acontece em “All Alone”. Os solos viajantes estão por toda parte, mas destacar “Descending” é indispensável.

Ainda assim, você não precisa se prender a uma faixa específica. Veronika Decides to Die foi feito para ser sofrido em sua totalidade.

Se você ainda não foi completamente corrompido pela modernidade — essa era em que música se tornou descartável e gravadoras pedem até mesmo a bandas gigantes que eliminem minutos acústicos de seus lançamentos — tire um momento da sua noite para ouvir este artefato com calma. Abra o coração e sinta o sangue correndo pelas veias, porque você está vivo. 

 

domingo, 10 de maio de 2026

20 anos de Kvass do Kampfar!!!


Se você está em busca de um álbum de black metal norueguês empolgante, recheado de riffs velozes e bateria destruindo tudo pela frente... melhor procurar outro disco para ouvir. O terceiro trabalho dos noruegueses do Kampfar não entrega exatamente esse tipo de brutalidade, ainda que alguns momentos justifiquem essa expectativa, como em “Ravenheart”. Terceira faixa de um álbum com apenas seis músicas, ela é a primeira a realmente flertar com a velocidade. Curiosamente, também é a única cantada em inglês, e a voz de Dolk soa muito bem na língua universal.

Foi um erro gigantesco não abrir o álbum com essa música, já que a escolhida para essa tarefa milenarmente importante foi “Lyktemenn”, uma daquelas faixas feitas sob medida para qualquer ouvinte menos resiliente desistir da audição. Em seus mais de oito minutos, ela é extremamente monótona. O riff apático praticamente não muda, assim como as batidas da bateria. O vocal, para piorar, soa quase como uma narração, entoado da mesma maneira do início ao fim.

É verdade que o Pagan Black Metal não precisa necessariamente apresentar elementos musicais óbvios que indiquem imediatamente sua ligação com o paganismo — como passagens folk ou viking, por exemplo — deixando muitas vezes essa responsabilidade para as letras. Mas o som do Kampfar, ao menos em Kvass — e sem dar spoiler, também em seu sucessor — carece de alguma característica mais marcante que demonstre uma identidade realmente firme em seus ideais, não ficando apenas nesse black metal insípido flertando com a natureza e seus poderes.

Por outro lado, se sua procura for por algo mais “viagem”, um som extremo para relaxar, mas sem cair totalmente no atmosférico, e que ainda possa trazer longas e até cansativas passagens de teclado, Kvass pode acabar sendo uma boa opção. “Hat Og Avind”, inclusive, traz uma ótima pegada black metal, com guitarras em trêmulo que remetem diretamente às bandas clássicas dos anos 90.

Já “Gaman Av Drommer” incorpora muito mais o espírito pagan folk, proporcionando um excelente encerramento para o álbum, com Ask entregando seu melhor trabalho na bateria e vocais muito mais empolgantes e agressivos.

No fim das contas, Kvass erra apenas em sua faixa de abertura. Passando por ela sem dormir, o restante do álbum oferece músicas bastante interessantes para quem realmente procura um som “viagem”, mas sem mergulhar completamente no black metal atmosférico.



 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

20 anos de Reinkaos do Dissection!!!

O derradeiro álbum do Dissection, Reinkaos, completou 20 anos ontem, 30 de abril de 2026. Considerada por muitos fãs uma das bandas mais importantes surgidas na Suécia, o Dissection — liderado por Jon Nödtveidt — entregou dois clássicos absolutos do black metal nos anos 90: The Somberlain e Storm of the Light’s Bane, antes de seu líder ser preso, em 1997, por participação em um assassinato.

Após sete anos atrás das grades, Jon concebeu o último trabalho da banda ao lado do guitarrista italiano Set Teitan e do baterista Tomas Asklund (ex-Dark Funeral). O baixo ficou a cargo de Brice Leclercq, do Nightrage, embora não tenha sido creditado como membro oficial.

Musicalmente, o álbum desagradou uma grande parcela dos fãs pela mudança de proposta: aqui, o som se aproxima muito mais de um death metal melódico, com a malignidade black aparecendo de forma mais sutil. Por outro lado, há quem idolatre o disco — seja pela devoção à figura de Jon como um verdadeiro black metalhead, seja por não se identificar tanto com a fase mais crua da banda, ou simplesmente porque Reinkaos funciona muito bem dentro do que se propõe.

Pessoalmente, reconheço que deveria ter tido mais contato com a fase inicial. Se tivesse conhecido os dois primeiros álbuns ainda no fim dos anos 90, provavelmente o Dissection estaria entre minhas bandas favoritas. Mas foi só anos depois, na casa de um amigo, que tive meu primeiro contato com Reinkaos — e foi amor à primeira audição. Eu realmente não esperava algo tão envolvente.

Reinkaos não é uma obra-prima revolucionária nem um marco de inovação. Pelo contrário: é um trabalho relativamente simples, com produção cristalina e direta. Os riffs de guitarra flertam com o power metal, e os momentos mais acelerados são poucos. Não há explosões de bateria, nem blast beats. O grande destaque fica para os solos: melodias acima da média, carregadas de emoção — especialmente na faixa-título instrumental, que entrega um dos momentos mais marcantes do disco.

“Xeper-i-Set” é a faixa mais energética, ainda que seu riff soe quase alto astral demais para o histórico da banda. “Internal Fire” também traz mais agressividade, com bumbos mais acelerados, mas no geral o álbum caminha em andamentos médios. Os vocais rasgados e inconfundíveis de Jon são um dos pilares do trabalho — e, sem eles, talvez o disco não tivesse o mesmo impacto.

Minha favorita é “Dark Mother Divine”. Desde a primeira audição, ela se destacou com sua introdução mais contida e um desfecho explosivo. Ainda assim, outros fãs costumam apontar diferentes preferidas, como a faixa de encerramento “Maha Kali” — talvez a que mais se aproxima da proposta black, contando com a participação da vocalista Nyx 218, cuja identidade permanece desconhecida. “Beyond the Horizon” e “Starless Aeon” também aparecem com frequência entre as mais lembradas.

Reinkaos pode ser definido como um disco pop lançado no inferno — onde tudo, por natureza, soa mais pesado e carregado. Seu conteúdo ocultista, profundamente ligado à visão de mundo de Jon, dialoga diretamente com quem compartilha desse tipo de filosofia. Mas, acima de tudo, o que realmente importa é que, mesmo diante de uma mudança tão significativa de estilo, trata-se de uma obra atemporal.

Satisfeito com o resultado, Jon tirou a própria vida pouco mais de três meses após o lançamento — o que inevitavelmente torna a experiência de ouvir Reinkaos ainda mais densa, enigmática e carregada de significado do que qualquer outra obra da banda.