Você considera o Annihilator uma banda ou, na prática, um projeto pessoal do guitarrista Jeff Waters? A questão é válida, sobretudo quando olhamos para o Annihilator de 2005, já em seu 11º álbum de estúdio, que pouco ou nada lembrava aquela entidade surgida em 1989 com Alice in Hell, praticando um “speed thrash quase heavy” impulsionado pelos vocais quase agudos do saudoso Randy Rampage.
Com Schizo Deluxe, a banda adicionou doses generosas de groove ao seu thrash técnico e entregou um álbum que jamais se tornaria um clássico, mas que aprendi a apreciar profundamente — principalmente por soar autêntico e honesto, feito por gente com metal correndo nas veias, sem ambições maiores do que aquilo que realmente podia oferecer. Nada de poses, nada de fórmulas: apenas música direta, consciente de si mesma.
A arte da capa, assinada por Gyula Havancsák — o mesmo responsável pela de All for You — acerta novamente. O desenho é forte, o jogo de cores é inteligente e dialoga perfeitamente com o título do álbum, que evoca a esquizofrenia ao retratar demônios dilacerando um cérebro por dentro, enquanto mãos em desespero tentam se esconder do colapso iminente.
É difícil eleger destaques em um álbum que funciona melhor quando ouvido de forma integral. Ainda assim, algumas faixas merecem menção, sem que isso diminua as demais. A abertura de “Plasma Zombies” remete imediatamente ao Machine Head da era Burn My Eyes, embora essa semelhança se limite à melodia inicial. A música, na verdade, explode em várias direções e chega a trazer uma passagem que soaria perfeita se tivessem convidado o mestre King Diamond para uma participação especial. No restante, é pura agressividade.
Pequenos efeitos sonoros — barulhinhos que lembram videogames — surgem aqui e ali. O álbum inteiro flerta com esse tipo de sonoplastia, presente em introduções e encerramentos de várias faixas, mas sem jamais se tornar cansativo ou gratuito. Pelo contrário, ajuda a criar identidade. “Invite It” é outro momento notável: seu refrão soa estranho no primeiro contato, mas faz todo sentido quando você percebe que a letra trata de vozes ecoando dentro de uma mente fragmentada. É rápida, traz uma mudança vocal extremamente criativa e solos de guitarra simplesmente belíssimos.
Aliás, meu amigo, os solos espalhados por Schizo Deluxe são um capítulo à parte. Jeff Waters parece determinado a lembrar, faixa após faixa, por que é considerado um dos guitarristas mais subestimados do thrash metal. Muitas músicas trazem dois ou até três solos, um verdadeiro tapa na cara de certos defensores de St. Anger.
Outra faixa que gruda facilmente na memória é “Like Father, Like Gun”, com seu refrão poderoso e um baixo direto, na cara, cumprindo papel fundamental no impacto da música. David Padden, em seu segundo trabalho como vocalista da banda, apresenta uma evolução gigantesca. As tentativas frustradas de uma abordagem mais melódica ficaram para trás; aqui ouvimos um Padden seguro, consciente e explorando diferentes “gramaturas” em seu vocal agressivo. Ele inclusive assina a letra de “Pride”, algo geralmente reservado ao mentor Waters.
Não posso deixar de mencionar “Warbird”, talvez uma das minhas favoritas do álbum, embora eu insista: Schizo Deluxe é daqueles artefatos que pedem audição do início ao fim. Não há espaço para baladas. O mais próximo disso seria “Clare”, uma faixa com leve apelo comercial, mas que compensa com um refrão perfeito, uma letra angustiante — citando até Alice, sim — e uma passagem central de puro peso e fúria.
Se você ainda não conhece este álbum, é provável que estranhe nos primeiros contatos. Mas, com o tempo, a ficha cai: este foi, sem dúvida, um dos momentos mais sólidos e inspirados da trajetória do Annihilator.

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