quarta-feira, 8 de abril de 2026

20 anos de Dante XXI do Sepultura!!!


Dante XXI, obra do Sepultura baseada nos poemas de Dante Alighieri em A Divina Comédia, marca de forma bastante simbólica algumas fases importantes da trajetória da banda de Belo Horizonte. É o décimo álbum da carreira, já com dez anos de estrada sem o vocalista e guitarrista Max Cavalera, e também o último trabalho a contar com seu irmão Iggor Cavalera na bateria. Quer mais? Talvez não seja consenso geral, mas Dante XXI pode ser considerado o primeiro álbum da era Derrick Green que realmente merece uma atenção mais cuidadosa.

Nesta fase da banda, o disco funciona como uma espécie de virada de chave, momento em que parte dos fãs passou a olhar o Sepultura com menos desconfiança. Em minha opinião, “False” é a primeira música a realmente chamar atenção na sequência do play, com riffs pesados e carregados de groove — mas não aquele groove arrastado e previsível, e sim algo mais próximo da pegada thrash metal. O vocal de Derrick aparece mais gutural (oh glória). Antes dela, “Convicted in Life” já dava sinais dessa mudança positiva, enquanto “Fighting On” mantém peso e agressividade, com a guitarra de Andreas Kisser remetendo à fase de Chaos A.D. (oh glória II — e nada a ver com o nome da esposa de ninguém, é louvor mesmo!).

Interessante notar que as três intros do álbum marcam o início das músicas de acordo com as três partes do livro: “Lost” abre o caminho para o Inferno, “Limbo” introduz o Purgatório e “Eunoé” conduz ao Paraíso. A primeira faixa completa do “purgatório”, “Ostia”, quase funciona como uma purificação sonora, trazendo um belo solo de violino que acrescenta uma atmosfera diferenciada ao trabalho. Derrick também entrega uma interpretação bastante expressiva nessa música.

Outros destaques interessantes são “Nuclear Seven”, “Crown and Miter”, “City of Dis” e a enigmática “Still Flame”, que incorpora cellos e uma atmosfera quase oriental.

Para quem ama thrash metal, talvez não seja um álbum para ouvir do início ao fim esperando apenas velocidade e riffs cortantes, pois ainda há uma presença forte de elementos hardcore, perceptível já na abertura com “Dark Wood of Error”. Ainda assim, trata-se de uma obra que carrega uma mensagem bastante clássica: há, sim, uma luz no fim do túnel.


 

20 anos de Pro Patria Finlandia do Impaled Nazarene!!!


O nono álbum de estúdio do Impaled Nazarene traz um título que sugere um trabalho fortemente voltado ao patriotismo em relação ao seu país de origem. No entanto, ao analisar as letras de Pro Patria Finlandia, não se percebe exatamente um disco centrado nessa temática, já que o conteúdo lírico muitas vezes segue por caminhos mais anticristãos e provocativos do que propriamente reverentes à bandeira nacional.

Bandeira que, aliás, aparece muito bem representada na arte da capa: uma paisagem de árvores altas ao fundo, a tradicional combinação azul e branca manchada de sangue sobre pedras e o imponente logo da banda destacando-se na parte mais clara do céu. O nacionalismo finlandês, de modo geral, não costuma seguir uma linha explicitamente política ou separatista, estando mais ligado à história de um país que esteve sob domínio estrangeiro, especialmente do Império Russo, até conquistar sua autonomia em 1917.

Falando de música, o Impaled Nazarene mantém aqui sua sequência sólida de álbuns de black metal fortemente influenciado pelo thrash europeu. A faixa de abertura, “Weapons to Tame a Land”, é um exemplo claro da identidade da banda: veloz, com espaço perceptível para o baixo, vocal rasgado e um solo de guitarra — recurso que nem sempre foi tão explorado em trabalhos anteriores. A letra desta música, curiosamente, é uma das poucas que você pode mostrar a alguém sem maiores constrangimentos, e o refrão com múltiplas vozes bradando “devastate, annihilate, exterminate” ajuda a torná-la um dos destaques do disco.

Falando em solos, em “Something Sinister” a distorção é tão áspera que pode até gerar dúvida se o destaque é guitarra ou baixo, enquanto em “Psychosis” encontramos um solo limpo e muito bem executado, que merece atenção. O vocal de Mika Luttinen ocasionalmente assume um tom mais gutural, como em “I Wage War”, uma das faixas mais brutais do trabalho — abordagem que poderia ser explorada com mais frequência, pois acrescenta uma dinâmica interessante ao conjunto.

Mesmo sendo um álbum bastante veloz, com muitos blast beats de Reima Kellokoski, as músicas quase sempre apresentam pequenas mudanças de andamento, geralmente migrando para trechos mais cavalgados antes de retornar à brutalidade predominante. Isso fica evidente na faixa de encerramento, “Hate–Despise–Arrogance”, que possui pouco mais de três minutos, mas que facilmente poderia se estender por mais tempo sem perder o impacto.

Para você, criatura noturna, que ainda não teve a oportunidade de ouvir este trabalho e se interessou pela proposta, a recomendação inicial fica por conta da já citada faixa de abertura ou da poderosa “One Dead Nation Under Dead God”, outra em que a letra não causa constrangimentos e que, em certos momentos, lembra a finada carioca Unearthly na fase do álbum Black Metal Commando — uma excelente pedida para ouvir logo após Pro Patria Finlandia.

No baixo, a banda já contava com Mika Arnkil, enquanto as guitarras ficaram a cargo de Tuomo Louhio, que permaneceu cerca de quatro anos no grupo, e Jarno Anttila, dupla que contribuiu de forma decisiva para o peso e a identidade desta obra.



 

sábado, 28 de março de 2026

20 anos de Kill do Cannibal Corpse!!!


Esta semana mesmo li um post na internet sobre o antigo vocalista do Cannibal Corpse, Chris Barnes, afirmando que a banda ainda se sentiria ameaçada por ele, o que tornaria inviável qualquer aproximação entre o Cannibal e o Six Feet Under, grupo criado após sua saída. Sabemos que alguns fãs mais radicais permanecem presos à eterna ladainha de que apenas os quatro primeiros álbuns dos caras de Buffalo seriam realmente representativos, mas a verdade é que, após a entrada do vocalista George Fisher, o death metal nojento da banda ganhou uma projeção que poucos imaginariam para um grupo que insiste em grunhir sobre temas tão macabros e putrefatos envolvendo morte e a fragilidade humana.

Uma prova contundente dessa reputação nada amigável é Kill, lançado em março de 2006 e que acaba de completar 20 anos. O disco já era o décimo da carreira dos americanos e o sexto com o Pescoçudo à frente do microfone, girando a cabeleira como se estivesse presa a uma turbina de avião.

Lançado pela Metal Blade Records e produzido por Erik Rutan, que aparentemente buscou um equilíbrio entre a sujeira da era analógica e a nitidez digital — e, se essa era a intenção, acertou em cheio — temos aqui mais um petardo absurdamente pesado. As guitarras de Pat O'Brien e Rob Barrett (de volta à banda após dez anos e quatro álbuns, substituindo Jack Owen) surgem como verdadeiras paredes de chumbo, enquanto o baixo de Alex Webster preenche qualquer lacuna possível. Já a bateria de Paul Mazurkiewicz vem socada com raiva, como manda o manual do bom death metal. Basta ouvir “Purification by Fire” para sentir o peso dessa pancadaria.

Se a pergunta for sobre os solos de guitarra, a resposta é simples: ouça “Maniacal”. O solo é tão rápido que você provavelmente voltará a faixa algumas vezes para absorver o que acabou de acontecer. As mudanças de andamento continuam sendo um dos grandes trunfos da banda. Quando os riffs já são excelentes, essas viradas elevam ainda mais o nível, transformando faixas como “Submerged in Boiling Flesh”, já na reta final do álbum, em momentos difíceis de ignorar.

“Infinity Misery” encerra o petardo no único instante realmente arrastado do disco, com guitarras solo que remetem aos melhores momentos de James Murphy em Cause of Death.

Mas, se a ideia é se apaixonar por Kill, minha recomendação é começar pela abertura “The Time to Kill Is Now”, com toda a sua selvageria, e seguir direto para “Make Them Suffer”, onde um leve groove no refrão certamente vai fazer você testar a resistência do conjunto pescoço/garganta, além de saltar como um canguru na pista. De negativo em Kill, somente a falta de nossos famigerados zumbis na capa simples.


 

domingo, 22 de março de 2026

20 anos de Ode To Death do Witchhammer!!!


Quem conhece a fundo o Witchhammer de Belo Horizonte, MG, sabe que a banda nunca procurou se repetir. Mesmo trilhando as mesmas pedras, seus álbuns sempre trouxeram novidades em sua música. Não foi diferente em 2006, quando pariram seu quarto full, Ode To Death, novamente pela Cogumelo Records, gravadora que os catapultou para a elite do metal nacional.

O maior problema deste álbum talvez seja ter surgido 14 longos anos após o irrepreensível Blood On the Rocks. A banda ficou estagnada por alguns anos após 1995 e acabou registrando seu quarto petardo em um cenário bem diferente daquela era de ouro em que cresceu, ao lado de nomes como Sextrash e Attomica. Talvez por isso Ode To Death tenha passado despercebido por muitos fãs que, ainda hoje, sequer conhecem a obra.

O thrash metal apresentado aqui carrega mais groove do que qualquer outro momento da carreira, enquanto elementos de hardcore e death metal aparecem pontualmente para reforçar o peso — que, diga-se, é constante e impressionante. Esse peso se intensifica em faixas como “Dartherium”, nova versão da pancadaria presente no debut da banda, e em riffs que por vezes remetem ao death metal europeu, como em “The Machine of War”.

Outra regravação importante é a fenomenal “Weekend in Auschwitz”, faixa marcante da clássica coletânea Warfare Noise II, responsável por apresentar o Witchhammer a boa parte do público brasileiro. Há também um cover de “Perseguição”, do Sagrado Inferno, uma das bandas pioneiras do metal mineiro que, para muitos, acabou ganhando ainda mais visibilidade justamente com esta releitura.

A Cogumelo vem relançando diversos trabalhos importantes nos últimos anos — como fez recentemente com toda a discografia do Overdose — mas ainda está devendo duas obras da bruxa: Blood On the Rocks e este Ode To Death, que já deveriam estar novamente disponíveis há muito tempo.

O álbum prova que os mineiros ainda respiravam metal com criatividade, energia e carisma. Nos palcos, a banda sempre demonstrou enorme respeito pelo público, reverenciando aqueles que mantêm o underground vivo. Talvez por isso ouvir uma música como “Witchery” seja uma experiência ainda mais gratificante: elementos de heavy metal tradicional aliados a um solo de guitarra primoroso e fora da curva capturam com precisão a essência do melhor do movimento MG Area.

Que esta obra receba o relançamento que merece e possa finalmente ser adquirida pela nação underground brasileira — com urgência!

 

sábado, 21 de março de 2026

20 anos de The Great Cold Distance do Katatonia!!!


Se você leu as resenhas dos três álbuns anteriores do Katatonia nesta página, certamente já não espera uma análise muito positiva para The Great Cold Distance, o sétimo trabalho dos suecos, lançado pela Peaceville Records em 2006. Vou tentar não ser tão negativo, já que, a essa altura, também não esperava nada particularmente emocionante no som destes senhores. Respeito a banda, mas apreciar essa fase clean e um tanto insossa não é exatamente uma tarefa fácil de encarar.

É verdade que alguns aspectos ajudam a evitar que o álbum seja tão fraco quanto seus antecessores. Há uma variação um pouco maior nas estruturas das músicas — nada radical, mas ao menos nem todas seguem aquela linha reta e previsível. A faixa “Soil’s Song”, por exemplo, chega a ser até simpática dentro da proposta.

O problema é que as guitarras, ainda que um pouco mais sujas, não empolgam nem mesmo nas passagens que deveriam soar mais pesadas, como em “Consternation”, enquanto os vocais carecem de emoção. Jonas Renkse canta como se estivesse lutando contra o sono depois de um longo dia aguardando um voo atrasado em um aeroporto — e o voo nunca decola, porque as músicas simplesmente não levam a lugar algum.

Independentemente disso, a banda segue com uma legião fiel de admiradores. Algumas passagens de bateria chegam a ser lamentáveis, como o trecho mais calmo de “Increase”, que tenta soar progressivo sem que a melodia realmente importe ou desperte algo além de um leve desânimo.

Gostaria de encontrar algo mais animador para não desmerecer tanto o trabalho, mas a verdade é que ouvir o álbum inteiro acaba sendo um esforço ao qual não me sinto muito inclinado. E antes que alguém venha questionar ao me ver vestindo uma camisa da banda, vale lembrar: trata-se de uma lembrança dos bons tempos. Uma fase que, ao que tudo indica, dificilmente voltará.




 

sábado, 14 de março de 2026

20 anos de Don't Fear The Reaper do Witchery!!!


Não é surpresa para ninguém que o Witchery sempre foi muito mais um projeto do que propriamente uma banda de primeira linha. E parece que, em seu quarto registro full, um dos integrantes tenha assumido uma espécie de liderança dentro do projeto — talvez porque, em sua banda principal, seu papel sempre tenha sido um pouco ofuscado por outros membros.

Estou falando de Sharlee D'Angelo, dono das quatro cordas no Witchery e também no gigante Arch Enemy. A explicação para essa impressão é simples: enquanto no Arch Enemy os olhares estavam concentrados no guitarrista Michael Amott e na vocalista Angela Gossow, no Witchery Sharlee, como membro original, parecia exercer um papel mais emblemático. Isso fica evidente quando percebemos que a banda ganhou bastante groove em Don't Fear the Reaper, deixando totalmente de lado a veia speed que marcava seu início no final dos anos 90.

Por isso, a audição deste play pode soar um tanto desapontadora para quem estava acostumado com Dead, Hot and Ready e Restless & Dead. Mesmo que em alguns momentos — como em “Plague Rider”, uma das melhores faixas do trabalho, acelerada e com solo de guitarra à la Dave Mustaine — a banda mostre sua antiga vitalidade, a maior parte do álbum se apoia em andamentos médios.

E, para acentuar a mudança, também não se sente mais aquela veia irônica, debochada e despojada dos primórdios. O Witchery parece ter envelhecido ranzinza e sério, como se rejeitasse o jovem aventureiro e vadio que um dia foi.

Os vocais de Toxine aparecem um pouco mais demoníacos, perdendo parte daquela essência blackened thrash que caracterizava sua abordagem. Este, aliás, foi seu último trabalho à frente da banda. O curioso é que seu substituto seria um dos nomes mais icônicos da cena sueca: Legion, que havia deixado o Marduk em 2003. E, se você acompanha as duas bandas, provavelmente percebeu que, a partir deste álbum e nos seguintes do Witchery, as artes de capa passaram a combinar bastante com a estética visual do Marduk.

Para reforçar a mudança de clima, basta ouvir “Immortal Death”, cover do Satanic Slaughter. Com seus um minuto e trinta de pancadaria retirada do álbum de estreia de 1995 da banda, a faixa serve quase como um lembrete de que o Witchery estava deixando de lado esqueletos excitados em necrotérios para abraçar uma veia mais ocultista.

A intenção até parecia boa, mas talvez tenha saído um pouco pela culatra — afinal, este álbum costuma ser citado como um dos mais fracos da discografia do Witchery. Ou talvez esses caras simplesmente não quisessem progredir, preferindo permanecer numa época em que beber vinho em cemitérios e contar histórias de terror parecia solução suficiente para os problemas da vida.


 

domingo, 8 de março de 2026

20 anos de The Bloody Path of God do Mystic Circle!!!


O sétimo álbum de estúdio dos alemães do Mystic Circle traz uma mudança sutil em relação aos dois trabalhos anteriores. Aqui, a banda tenta resgatar um elemento que havia se perdido desde o início da carreira: o teclado. Após um começo no symphonic black que chamou a atenção de muita gente, o grupo se transformou em um trio e migrou para um blackened death metal mais direto, calcado em riffs e em um vocal constantemente rasgado.

Em The Bloody Path of God, a banda mantém a mesma toada de Damien e Open the Gates of Hell, mas agora os teclados aparecem mais distribuídos, acompanhando os riffs — algo que eles ainda não haviam feito dessa forma. No início da carreira, inclusive, os teclados muitas vezes ganhavam mais destaque que as próprias guitarras. Talvez, a essa altura da jornada, a banda já estivesse considerando um retorno parcial à sonoridade de outrora.

Outro indício disso é a adição de um segundo guitarrista: o alemão Tobias Drabold, aqui creditado como Vike Ragnar, e que acabaria participando apenas deste álbum. Ao lado do guitarrista original Ezpharess, ele ajuda a reforçar os riffs, embora a dupla também abuse de breakdowns — um recurso mais associado ao thrash metal — o que faz algumas faixas soarem parecidas entre si. Ainda assim, melodias como a que abre “The Grim Reaper” são bastante interessantes.

Após a intro “Psalm of the End”, o álbum se inicia de fato com a faixa-título e “Doomsday Prophecy”, e algo nelas passa a impressão de que o disco é mais arrastado do que realmente é. A partir de “Nine Plagues of Egypt” a coisa ganha mais velocidade, embora ainda perca numa corrida direta com o antecessor, que era consideravelmente mais agressivo.

A arte da capa lembra um pouco coisas do Deicide e, mesmo usando cores pouco chamativas, apresenta um desenho bem trabalhado.

A faixa que mais puxa a sardinha para o vocalista e baixista Beelzebub (Marc Zimmer) é “Hellborn”, onde seus vocais aparecem sobre instrumentais mais vazios e o baixo ainda ganha um pequeno momento solo. Já o baterista Necrodemon (Alex Koch), em seu terceiro e último álbum com o Mystic Circle, utiliza pedais duplos muito bem colocados e soa mais complexo quando a música exige, como em “Church of Sacrifice”.

O álbum se encerra com um cover de Circle of the Tyrants, clássico do Celtic Frost — e que ficou bem executado.