domingo, 1 de novembro de 2026

20 anos de Threshold do Hammerfall!!!

Quando o HammerFall lançou seu sexto álbum, Threshold, em 2006, a popularidade da banda já havia sofrido uma certa queda, mas a qualidade não. O trabalho anterior, Chapter V: Unbent, Unbowed, Unbroken, já não conseguira alcançar o patamar de Crimson Thunder ou de seus antecessores, mas, ainda assim, acredito que Threshold seja um álbum um pouco melhor que o anterior. Ele não é um álbum bombástico, nem tem muito daquela veia de heavy metal tradicional de outrora, apesar de uma música como "Shadow Empire" carregar, em seus refrãos com corais, algo que remete à boa fase do heavy alemão. Uma música mais animada e tradicional é justamente a instrumental "Reign of the Hammer", com belo trabalho de bateria de Anders Johansson e belas guitarras de Oscar Dronjak e Stefan Elmgren. Aliás, é bom lembrar que este foi o último trabalho de Elmgren nas guitarras do HammerFall, além de marcar a despedida do baixista Magnus Rosén.

O trabalho é bem coeso. Dificilmente uma mente esclarecida irá encontrar músicas ruins entre as ótimas, muito menos ótimas entre as ruins (dependendo do quanto você possa curtir Threshold), uma vez que é aquele típico álbum coeso em que, se você gosta da faixa-título que abre o trabalho, também vai gostar do que vem até o final, com "Titan". Aliás, esta é a música mais pesada do trabalho, com riffs de guitarra bem power metal e um refrão fortíssimo, além daquele momento do "ôôô" que todos os fãs do HammerFall adoram durante as apresentações. E já que falamos de guitarra, aquele início de "Genocide" é simplesmente fenomenal, destoando um pouco do restante do trabalho.

Mas preciso destacar a faixa "Dark Wings, Dark Words". Ela é uma semibalada com aquela típica e exemplar interpretação vocal de Joacim Cans, mas também traz um instrumental melódico muito bem executado e, para mim, é o ponto mais alto de Threshold. Ela também traz uma referência literária a A Song of Ice and Fire, de George R. R. Martin, assim como no álbum anterior. O álbum estreou na 1ª posição da parada sueca e permaneceu na lista por oito semanas. Então, não é qualquer álbum que consegue feitos como esse.


 

sábado, 31 de outubro de 2026

20 anos de Burden of Truth do Circle II Circle!

Eu praticamente engoli o livro O Código Da Vinci quando foi publicado. Cada capítulo, com seu repertório frenético, cheio de reviravoltas e suspense, me jogava imediatamente ao capítulo seguinte. E acredito que Zak Stevens, vocalista do Circle II Circle, tenha sentido o mesmo, pois resolveu lançar um álbum conceitual sobre a obra de Dan Brown, unindo-a à leitura de O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Para nossa sorte, as letras não retratam exatamente aquilo que encontramos no livro, pois isso poderia afastar alguns fãs que acharam a obra comercial demais. Portanto, você nem precisa conhecer o livro, nem ter visto a adaptação para o cinema, que é muito ruim, por sinal, para gostar de cada segundo de Burden of Truth. Um trabalho genuíno de power metal, com pitadas de progressivo, que compete bem em qualidade com o debut de 2003.

Este é o terceiro trabalho da banda e o primeiro a não contar com os membros do Savatage Jon Oliva e Chris Caffery, além de ser o que menos se assemelha à antiga banda de Zak. E o que poderia se tornar um problema serviu, ao contrário, para provar que a banda tinha talento suficiente para trilhar um caminho próprio. Zak está cantando de forma sensacional, com um sentimento pungente, e ainda é o grande destaque. Mas a dupla de guitarristas Paul Michael Stewart e Evan Christopher manda muito bem, com riffs bem feitos e solos muito bons, como o de "The Black", que é perfeito. Não sei dizer qual elemento, mas, em vários momentos deste trabalho, a fase do Iced Earth com Stu Block me vem à mente, como na ótima faixa "Messiah", por exemplo.

A capa é bonita e faz referência aos Cavaleiros Templários, algo bem alinhado à temática do livro. Em julho de 2006, antes mesmo do lançamento oficial, a banda anunciou que havia escondido um mistério em algum lugar da arte gráfica e nas letras das músicas. Os fãs seriam convidados a descobrir esse segredo em um concurso que começaria numa sexta-feira 13, em outubro daquele ano. A data era uma referência ao dia em que um dos grão-mestres dos Cavaleiros Templários, Jacques de Molay, foi preso. Se alguém descobriu ou se a banda divulgou algo posteriormente, não sabemos. O negócio é pegar a bolacha, sentar no sofá com um copo de cerveja e curtir o bom trabalho que o Circle II Circle criou.

Destaques para a faixa de abertura, "Who Am I to Be?", "A Matter of Time", "Revelations", "Black", a faixa-título e o excelente fechamento com "Live As One".


 

20 anos de A Line of Deathless Kings do My Dying Bride!!!

O que esperar do lançamento de uma banda que, dois anos antes, havia lançado um dos melhores trabalhos de sua carreira, o perfeito Songs of Darkness, Words of Light? É até natural você se decepcionar um pouco quando a expectativa é muito grande, e foi o que aconteceu no meu caso quando o 9º trabalho dos ingleses do My Dying Bride aportou por aqui, no Brasil, via Black Metal Attack Records, em 2006, sob licença da Peaceville. O que mais me incomodou na época foi a redução da maldade e da sujeira que o death doom trouxera, dando lugar a uma jornada mais melódica. Tudo bem que álbuns mais melódicos já haviam sido lançados antes, como The Angel and the Dark River, que é sensacional, por sinal, mas o maior problema aqui era que o vocalista Aaron Stainthorpe estava cantando. E antes que você me chame de louco, afinal, os vocalistas cantam, mas não Aaron. Ou ele rosnava, ou rugia como um trovão nos primórdios, ou chorava e falava. Mas cantar? Caracas, man, não esperava por isso.

Claro que se passaram 20 anos e minha percepção deste álbum mudou completamente. E, como vinho, A Line of Deathless Kings envelheceu soberbamente. Temos um álbum mais limpo, em que as guitarras são sentidas com perfeição. Na primeira faixa, "To Remain Tombless", temos algo pouco típico no som da banda: as guitarras não se apresentam choradas, com aquelas melodias arrastadas. Ao contrário, soam como rápidos arpejos, como os últimos e carregados suspiros de um anjo. Mas em "L'amour Détruit" o trem retorna aos trilhos com a famigerada e esperada melodia carregada de mortandade, fazendo desta um dos melhores momentos do opus. "Thy Raven Wings" é uma das faixas para se perceber o quão bem Aaron está cantando, numa interpretação de arrasar corações enegrecidos. Você quase não ouve rosnados neste play. Eles aparecem em momentos bem escassos, como em "Love's Intolerable Pain".

Algo que sempre faz falta no som do My Dying são os violinos, afinal, a banda era conhecida em seus primórdios pelo uso do clássico instrumento, que introduzia uma dose de sofrimento ao som aterrorizante de metal da morte arrastado. Aqui temos os teclados de Sarah Stanton dando um clima de profundidade e mistério, sem muitos holofotes, porém os violinos fazem falta. A arte da capa traz sete figuras que podem representar os deuses imortais que o título sugere. Algumas vezes, ela foi interpretada como uma associação à ficção científica, algo totalmente fora do contexto pretendido tanto pela banda quanto pelo artista Matthew Vickerstaff, que era um conceito voltado aos faraós do antigo Egito.

E, para finalizar, a banda soube deixar para o final aquela que é uma das melhores músicas que o My Dying Bride já compôs: a ótima "The Blood, The Wine, The Roses", com seus riffs cavalgados e uma bela interpretação de Aaron, com a peculiaridade de apresentar, nos últimos segundos, uma passagem de death metal explícito. Só ouvindo para sentir toda a essência. 

 

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

20 anos de Bio-Violence do Drowned!!!

O Drowned, de Belo Horizonte, chegava a seu quarto full-length, intitulado Bio-Violence, em 2006. Após alguns trabalhos imprescindíveis, cada qual com sua identidade, era hora de mostrar se ainda havia formas de demonstrar força em meio a um período de revigoramento do metal nacional, com lançamentos cada vez mais carregados de qualidade, buscando um equilíbrio com o metal mundial.

Gravado no DR Studio, em Nova Lima, e produzido pelo guitarrista Marcos Amorim e pela própria banda, Bio-Violence foi criado com a intenção de soar mais original e não seguir a mesma fórmula. Acredito que a banda tenha soado mais séria neste álbum, e a palavra seria “profissional” se isso não acabasse por deturpar o passado para quem não conseguisse entender. Isso pode ter tirado um pouco da fúria tradicional da banda, em uma audição menos atenta. Porque, na real, o Drowned acabou não mudando a fórmula nem reinventando a roda, mas permaneceu fiel ao seu legado.

Se pegarmos minha faixa favorita neste álbum, justamente a faixa-título, eu a colocaria para abrir o disco no lugar de “New Romes Arise”. Primeiro, porque ela tem uma introdução ultrapesada e cadenciada que acho perfeita para uma abertura. Segundo, porque sua estrutura lembra demais algumas músicas de By the Grace of Evil, o álbum anterior e o melhor da banda. Ok, várias músicas seguem essa tendência, como “The Fossil Target”, com alguns detalhes à parte, já que os vocais limpos de Marcos Amorim foram reduzidos, assim como o impacto dos refrãos.

Mas temos um som de guitarras bem produzido, com bases pesadas e pouco abafadas, amparadas pelo baixo, além de guitarras mais melódicas, bem limpas e choradas. Por falar em baixo, quem gravou o instrumento foi Wesley Ribeiro, que estava no The Mist e anunciou sua saída estes dias, no lugar de Rodrigo Nunes, que, na época, foi para o Eminence.

A capa foi novamente criada pelo vocalista Fernando Lima e também mostra uma arte mais madura, apesar de eu gostar mais das anteriores. Acredito que, assim como Butchery Age, Bio-Violence tenha se tornado mais bem compreendido e aceito com o passar do tempo, mesmo tendo reduzido um pouco a brutalidade, sem deixar de ser death/thrash, no entanto.


 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

20 anos de The Burning Halo do Draconian!!!

O quão surpreendente pode ser uma banda? Ultimamente, isso é tão difícil de acontecer que parece que aquelas bandas capazes de colocar uma legião de fãs em êxtase pela terceira vez consecutiva ficaram todas confinadas nos anos 80. O Draconian, da Suécia, é um exemplo de banda que brilhou no debut, provou que a perfeição existe no segundo trabalho e manteve a qualidade no mesmo nível nesta sequência denominada The Burning Halo, de 2006.

Apresentando um novo guitarrista, Daniel Arvidsson, que hoje é o baixista da banda, e Fredrik Johansson no baixo, no lugar de Jesper Stolpe, o grupo manteve os demais integrantes e também a atmosfera pesada, com uma carga emocional melancólica no sentido mais puro da palavra.

“She Dies” é uma música que acaba com você, literalmente. Ela abre o álbum e é como se ouvíssemos uma sequência natural de Arcane Rain Fell. A tensão que a música traz endurece nossos músculos, como se estivéssemos sendo envenenados e inebriados pelo cheiro de álcool mentolado escorrendo pelos lábios de um anjo que morde nosso pescoço enquanto ceifa nossa vida com delicadeza e resignação.

As guitarras passeiam com tristeza sobre nossos corpos, e a voz gutural de Anders Jacobsson grita para nos manter acordados, para manter o último elo de vida entre o mundo espiritual e o mundo físico. Ao mesmo tempo, a voz de Lisa Johansson, delicada como uma teia de aranha, sufoca nossa respiração, enquanto suas mãos geladas nos puxam em direção à escuridão.

Tudo bem que “She Dies” é uma das melhores músicas da carreira do Draconian, mas, ainda assim, o álbum nos traz um conjunto de pérolas preciosas dentro de conchas pegajosas, prontas para serem abertas e nos presentear com sua delicadeza e beleza resplandecente. Não importa se é a sutileza de “Serenade of Sorrow”, quando Anders e Lisa cantam juntos, mas em tons tão opostos, ou o princípio de fúria e revolta enclausuradas em “The Morningstar”: qualquer momento de The Burning Halo é um bálsamo de serenidade e languidez latentes.

E, para aqueles que criticam a decisão da banda de acrescentar dois covers ao álbum, “On Sunday They Will Kill The World”, da banda Ekseption, e “Forever My Queen”, do Pentagram, vale lembrar que a ideia inicial de The Burning Halo era a de uma coletânea, já que “She Dies”, “Through Infectious Waters (A Sickness Elegy)” e “The Dying” são as únicas músicas inéditas do álbum. Além dos covers, as outras três faixas são regravações de fitas demo.

Mas ninguém no mundo, em sã consciência, vai considerar um álbum tão maravilhoso uma coletânea, não é mesmo?

Blast Doommaker


 

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Curiosidades sobre Taking Over do Overkill!!!

Nosso ponto de partida para as publicações do Metal e Loucuras sempre foi este blog, inaugurado em novembro de 2009. Porém, temos deixado este espaço restrito às resenhas de 20 anos, pois elas têm a cara de um blog, com textos mais longos e, geralmente, apenas uma ilustração.

Mas entendemos que alguns conteúdos que criamos para o Instagram nos últimos tempos não deveriam permanecer apenas por lá, rolando no feed. Queríamos que eles também ficassem eternizados por aqui. O que não sabemos é se o formato de vários slides causaria algum impacto neste espaço.

Como somos teimosos com algumas ideias, resolvemos tentar. O quadro CURIOSIDADES, que traz slides sobre algum álbum clássico em especial, foi lançado há pouco tempo e já conta com três apresentações, dedicadas a álbuns do Overkill, Messiah e Head Hunter D.C.

Vamos iniciar esta experiência agora com Taking Over, do Overkill, que foi o primeiro álbum que ouvi da banda e sempre foi o meu preferido.











Blast Doommaker!

20 anos de With Oden on Our Side do Amon Amarth!!!


O fã de heavy metal é o mais fiel, crítico e chato do universo. E não estou me excluindo desta fatia, apesar de que, na qualidade de quem escreve para outros fãs, nem sempre é possível falar tudo o que se pensa, para não desmerecer demais o trabalho de uma banda. Mas fique calmo, não é nesta seara de trabalho ruim que estou entrando ao falar do sexto álbum do Amon Amarth, With Oden on Our Side, lançado em 2006 pela Metal Blade e que completa 20 anos.

O que estou querendo dizer com esta introdução é que, quando uma banda muda drasticamente seu som, nós xingamos até a quinta geração, porque o som agora não é o que esperávamos, etc., etc. Mas, quando uma banda faz álbum após álbum soando como se fosse apenas um disco com lado A, B, C, D... nós reclamamos que ela não evolui e faz sempre a mesma coisa. Pobre Lemmy, que deve ter ouvido isso a vida inteira.

Temos aqui um caso bem parecido. Ou então eu não tenho ouvido o Amon Amarth com a devida atenção para perceber mudanças tão drásticas em seus seis primeiros trabalhos, mas ainda fico com a primeira visão. Estou reclamando? Não! O som dos caras é muito bom, seja numa faixa mais tranquila como “Gods of War Arise”, seja numa pedrada como “Valhall Awaits Me”, que, inclusive, tem um dos melhores solos de guitarra que já ouvi a banda gravar.

Mas o fato de estar sempre com a mesma distorção, os mesmos ritmos e as mesmas letras acaba fazendo com que o som não me impressione tanto. Mas, como eu disse, o álbum é bom, e arrisco dizer que é um dos melhores já lançados por eles. Se pegares uma música como “Asator” e não conseguires te empolgar, é porque tua praia não é aquela cheia de drakkars se aproximando.

“Cry of the Black Birds” já é uma faixa com uma melodia bem interessante, talvez trazendo aquele ponto de surpresa tão desejado por este que vos escreve. A capa do álbum é a menos chamativa até então, mas as cores também se repetem, como nos anteriores. Creio que talvez ainda houvesse um receio de explorar novas terras. Mas nós sabemos que seus povos antigos, os vikings, não tinham esse receio.

 

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

20 anos de Homo Morbus Est do Paradise In Flames!!!

Não me lembro de ter ido à caça de minhas revistas velhas antes de escrever uma resenha de 20 anos, mas desta vez aconteceu. Isso porque eu me lembrava de ter lido uma resenha de lançamento de Homo Morbus Est, da banda mineira Paradise In Flames, e de ter procurado por esse álbum na época, justamente por causa da resenha. Bom, fiz isso muitas vezes enquanto ainda colecionava revistas, mas o que me marcou foi não ter conseguido o álbum, vindo a ouvi-lo por inteiro apenas muitos anos depois, com a proliferação de postagens no YouTube.

Mas cá estou eu, com a edição 94, de novembro de 2006, da revista Roadie Crew em mãos, com uma resenha que atribuiu nota 9 ao álbum, assinada por Alexandre Oliveira. E, para minha surpresa, algo que nem imaginava mais, a mesma edição trazia uma entrevista com a banda, que acabava de fazer uma turnê de mais de 30 shows em nove estados brasileiros, antes mesmo do lançamento do debut. Valeu a pena revirar as gavetas!

A banda, que nasceu em Santa Luzia, região metropolitana de Belo Horizonte, e depois se mudou para a capital, veio com seu black metal sinfônico carregado de melodias e teclados, além de muita maldade sonora. Com uma capa bem legal, que mostra uma menina caminhando em meio a um mundo em chamas (alguém lembrou de Carrie aí?), tons avermelhados e um logo totalmente decifrável — algo impensável para uma banda de black metal no início da jornada —, Ricardo Andrade, na guitarra e no baixo, Thiago Andrade, na bateria, e o idealizador da banda, André Damien, nos vocais, guitarra e teclados, criaram um baita trabalho.

Os vocais ficam no meio-termo entre aquele rasgado mais agudo e o gutural, e as guitarras geralmente comandam o som, apesar de os teclados estarem sempre presentes, fazendo fundo para músicas extremas que não tentam trazer melodias bonitas ou tristes, mas, ainda assim, apresentam muitas melodias em meio a riffs às vezes quase death, como os de “Empty Feelings”.

Vale destacar também a faixa “Mortal Ossetia”, com um belo título e um início muito bem feito. Mas não se prenda aos destaques. Se não conhece esse trabalho e curte black metal com melodia, sem tentar soar bonito, pode conferir sem medo. 

 

terça-feira, 13 de outubro de 2026

20 anos de Smear Campaign do Napalm Death!!!

Sabe quando você trabalha a semana inteira com o mesmo macacão, sujo de óleo e graxa, e acha que ele não tem mais onde colocar sujeira, mas, ao fim da tarde de sexta, uma tempestade te pega no caminho de volta para sua caverna e te joga numa poça de lama? Pois é, o som do Napalm Death, que achávamos que não poderia ficar mais sujo, ficou.

Em 2006, seu décimo segundo trabalho, Smear Campaign, saiu de trás de montanhas de lixo para trazer ainda mais sujeira e violência às ruas inglesas. E que sujeira bem-vinda, apenas um ano após nos brindar com The Code Is Red... Long Live The Code!

A banda, formada por Mark Greenway nos vocais, Mitch Harris na guitarra e backing vocals, Shane Embury no baixo e backing vocals e Danny Herrera na bateria, desta feita contou com uma participação meio fora da curva: a holandesa Anneke Van Giersbergen (ex-The Gathering), em “Weltschmerz”, uma intro muito legal, mas que não entrega o que está por vir, pois tem uma aura clássica bem diferente do grind/death. Ela também aparece em “In Deference”, uma pancadaria esquizofrênica na qual narra duas estrofes.

A faixa seguinte à intro, “Sink Fast, Let Go”, começa com aqueles backing vocals rasgados, e você fica sem saber o que vai acontecer, já que esperava os guturais de homens das cavernas que Barney vocifera. Mas logo ele dá o ar da graça com sua guturalidade.

Na sequência, temos aquelas que, para mim, são as duas melhores faixas do petardo: “Fatalist” e “Puritanical Punishment Beating” (caraca, como não lembrar de Dimmu Borgir com este título?). Esta última casa a velocidade massacrante a uma levada mosh perfeita.

Com uma arte de capa bélica e a cara do Napalm, em tons de preto e cinza, Smear Campaign traz o Napalm de volta à era grind inicial e carrega poucas influências death, mesmo que elas ainda estejam incrustadas na pele morta das canções.

Pode mergulhar sem pestanejar neste copo musical de fel, porque você vai se divertir como nos tempos antigos de redenção para o metal extremo, ou seja, no início dos anos 90.


 

domingo, 11 de outubro de 2026

20 anos de Where Demons Dwell do Imperious Malevolence!!!

O Imperious Malevolence, de Curitiba, Paraná, agora reduzido a um trio coO Imperious Malevolence, de Curitiba, Paraná, agora reduzido a um trio composto por Rafahell no baixo e vocal, Mano na guitarra e Antonio Death na bateria, chegava a seu terceiro trabalho, Where Demons Dwell, de 2006, lançado pela Evil Horde Records. O som continua o mesmo: brutal death metal rápido, pesado e agressivo, com vocais guturais vomitando blasfêmias. Mas percebe-se uma redução sistemática na duração das músicas, que giram em torno de dois minutos, raramente passando dos três. Para se ter uma ideia, o trabalho tem 12 músicas e não chega a 30 minutos.

Uma curiosidade é que o Imperious foi até São Paulo para gravar seu terceiro trabalho no estúdio DaTribo, em parceria com Ciero, o que representou um avanço na qualidade sonora da banda. Já a arte da capa ficou a cargo de Anderson L.A., artista ligado ao projeto Natureza Morta, e mostra, em tons de cinza, é claro, vários demônios.

O álbum foi bem aceito pelos fãs e considerado o melhor da banda até aquele momento. Destaque para faixas como “Icon of Filth”, a porrada “Excruciate”, que abre a porradaria e até assusta quando termina, “Advento Caligo”, a mais longa, com seus três minutos e quinze segundos, e “We Evoke Thee”.

Gosta de death metal brutal? Ouça esse petardo! 

 

20 anos de Maniacal Renderings do Jon Oliva's Pain!!!

A história é conhecida de grande parte dos fãs de metal pelo mundo. O Savatage foi uma banda de Power Metal em sua primeira fase e, depois, incorporou o prog metal ao seu som. Duas bases fundamentais eram o tecladista e vocalista Jon Oliva e seu irmão, Criss Oliva, na guitarra, que faleceu em 1993. A banda continuou até 2002, quando encerrou suas atividades, mas depois teve outras aparições.

Jon, porém, que parece nunca ter superado totalmente a morte do irmão, montou sua própria banda, o Jon Oliva's Pain, em 2003, lançou seu debut, 'Tage Mahal, em 2004, e chegava ao segundo petardo, Maniacal Renderings, em 2006, que acaba de completar 20 anos. Ao lado de Jon, temos John Zahner também nos teclados, os guitarristas Matt Laporte e o novato Shane French, Kevin Rothney no baixo e Christopher Kinder na bateria. No primeiro álbum, Oliva havia gravado a segunda guitarra, mas Shane assumiu esse trabalho na sequência.

Particularmente, no Savatage, prefiro a fase com o vocalista Zak Stevens, mas confesso que é um prazer imenso ouvir Jon Oliva cantar neste projeto, que remete demais ao Savatage. Se, por um lado, temos a banda Circle II Circle fazendo esse papel com Zak, do outro temos aqui a fiel sequência musical de Poets and Madmen. Já foi dito que Jon trouxe alguns fraseados de guitarra de velhas ideias de seu irmão.

Abrindo com Through the Eyes of the King, que em raros momentos lembra a clássica Hall of the Mountain King, especialmente naquela pausa antes do refrão. A seguir, temos a minha preferida, a faixa-título, com toda aquela estrutura progressiva típica do Savatage e uma interpretação vocal magnífica. The Evil Beside You começa fingindo ser uma balada, mas logo segue o curso normal do metal. Time to Die pode não ter os solos de guitarra mais inspirados, mas é uma das mais pesadas, com um riff de certo groove que lembra algo de War of Words, do Fight, banda de Rob Halford.

The Answer já pode ser considerada uma balada, e chama a atenção por sua letra quase religiosa e muito introspectiva. Push It to the Limit é a mais veloz, mas não acho que a banda tenha se saído tão bem nessa abordagem. Na sequência, temos Who's Playing God, com um teclado que lembra um Hammond, a bela e sentimental Timeless Flight, com Jon dando uma aula de canto, além de Holes, End Times e Still I Pray for You Now.

Se ouviu muito Savatage e ainda não conhece Maniacal Renderings, está perdendo um precioso tempo.


 

sábado, 3 de outubro de 2026

20 anos de Kiss of Death do Motörhead!!!

Lemmy Kilmister, Phil Campbell e Mikkey Dee se reuniram em 2006 para gravar o décimo nono álbum de estúdio do Motörhead. E, nesta fase da vida, você acha que o trio iria se arriscar ou bater o martelo exatamente na mesma cabeça de prego sobre a mesa? Elementar, meu caro Watson.

Segundo informações da época, “Kiss of Death” foi uma ideia de Phil Campbell, e não de Lemmy. Phil explicou o título a partir da ideia de que, quando uma banda como o Motörhead começa a escrever pensando em agradar outras pessoas ou mudar sua essência para atender expectativas externas, isso pode ser literalmente um “beijo da morte”, porque a pureza da banda desapareceria.

Em Kiss of Death, você ouvirá tudo aquilo que está acostumado quando o assunto é a banda britânica. Músicas rápidas, sujas, bem gravadas, baixo pulsante, vocais roucos, pitadas de blues, rock 'n' roll e aquela vontade de abrir uma cerveja chacoalhando a cabeça. As faixas são rápidas, na casa dos 3 e 4 minutos. O início é explosivo, com Sucker, One Night Stand mantém o nível e Devil I Know remete à era em que a banda se tornou um quarteto, com um som menos visceral, porém bem agradável de se ouvir.

Trigger é aquele rock sujo e pesado e, lá pelos seus dois minutos, surge a guitarra mais próxima de um breakdown que você ouvirá em um trabalho da banda. Under The Gun tem um solo pra lá de especial de Campbell e uma participação especial no baixo de Mike Inez, do Alice in Chains.

Um dos melhores momentos de Kiss of Death é a faixa God Was Never on Your Side, que ganhou um videoclipe cheio de imagens religiosas e de pessoas importantes da história. É uma música triste, com uma letra sem fé e esperança. Uma crítica aos cristãos, na verdade. Ela conta com um solo de guitarra de C.C. DeVille, guitarrista do Poison, além de vocais adicionais de Zoli Téglás, na época em uma banda chamada Ignite.

O trabalho segue com grandes músicas, como Living in the Past, Christine (que não é o carro de Stephen King), Sword of Glory, Be My Baby (que também ganhou um videoclipe), Kingdom of the Worm e Going Down, que o filho de Phil ajudou a escrever.

Este é o último trabalho do Motörhead a contar com uma arte de capa de Joe Petagno, criador do mascote Snaggletooth.

Se você acha que Lemmy, que completou 60 anos no mesmo ano de lançamento de Kiss of Death, abaixaria a guarda, você foi reprovado na prova, meu caro.


 

sábado, 26 de setembro de 2026

20 anos de A Matter of Life and Death do Iron Maiden!!!


E o Iron Maiden chegava a seu décimo quarto trabalho de estúdio em 2006, durante a segunda era com os vocais de Bruce Dickinson, que dura até hoje. Aliás, é estranho quando pensamos que a fase de ouro da Donzela trouxe Bruce como vocalista durante 12 anos e, desde que ele retornou naquela fase conturbada, lá se vão outros 27 anos e 6 álbuns de estúdio, alguns notáveis e outros nem tanto. A Matter of Life and Death foi o terceiro trabalho após seu retorno e, acredito, o primeiro mais contestado desta fase, ao menos até o próximo The Final Frontier, do qual falaremos em 4 anos, se ainda estivermos caminhando por esta terra.

Mas a causa destas contestações, que ao menos no meu caso sumiram com o tempo, está claramente relacionada a uma veia mais progressiva que os ingleses incorporaram em seu álbum. Alguns começaram a reclamar, inclusive, da duração mais extensa das faixas, os mesmos que sempre elogiaram faixas longas da era de ouro, como Rime of the Ancient Mariner ou Seventh Son of a Seventh Son. Talvez sejam saudosistas que acompanharam a medonha evolução da humanidade no sentido de não terem mais tempo para ouvir uma música inteira com mais de 3 minutos.

Mas, em minha opinião, hoje este álbum supera seu antecessor, Dance of Death, começando pela arte da capa. Claro, afirmar isso talvez seja o mesmo que dizer que o vinho é melhor que a cachaça, pois é muito óbvio que qualquer arte do Maiden seja melhor que a de Dance of Death. Mas a arte da banda em forma de caveiras ao redor de um tanque de guerra, em um cenário de destruição e tons mortos, ficou sensacional.

Different World e These Colours Don't Run, esta com um solo que lembra a fase No Prayer for the Dying, são boas músicas, mas o primeiro grande momento vem em seguida com a sensacional Brighter Than a Thousand Suns, com um riff pesado que fica martelando sua cabeça. Bruce, já sem aquele poderio vocálico de outrora, canta de forma mais grave, alternando momentos mais suaves, e novamente se sobressai.

The Pilgrim também é uma faixa que fica na memória. Mesmo que não tão pesada, traz até um refrão bem palatável.

Algo sobre as letras do álbum: ao meu ver, elas se encontram com o tema de Seventh Son, pois encontramos muitas menções ao diabo, a Deus, ao céu e ao inferno, em meio a guerras e coisas afins.

The Longest Day carrega uma passagem um tanto progressiva em sua metade, antes e após o solo, além de algumas melodias que lembram música folk de algum país europeu.

E temos The Reincarnation of Benjamin Breeg, uma das músicas mais icônicas do álbum. Primeiro que é uma grande canção, com guitarras pesadas, cavalgadas em determinado momento, aquele baixo de Steve Harris sempre evidente e a curiosidade despertada nos fãs sobre quem era aquele tal de Benjamin. Ok, isso é uma das grandes brincadeiras de mistério do Iron Maiden. A banda criou uma biografia fictícia para um personagem que, curiosamente, sequer é citado na letra da música, alimentando durante algum tempo a dúvida sobre quem seria Benjamin Breeg. O Maiden criou um site dedicado a Benjamin Breeg, apresentado como se fosse mantido por um suposto primo que tentava descobrir o paradeiro dele. A intenção era justamente fazer os fãs investigarem e tentarem descobrir quem era aquele sujeito. Coisas que sempre fizeram com que gostássemos ainda mais do Iron Maiden.

Destaque ainda para For The Greater Good of God e The Legacy.


 

20 anos de Quarrel in Hell do Nervochaos!!!


Pela terceira vez, o baterista Edu Lane se cercou de músicos para gravar Quarrel in Hell. Agora ao lado de Wellington Simões (hoje no Genocídio) e Vinícius de Souza (hoje no Neophitus) nas guitarras, o baixista Thiago Anduscias (hoje no Amazarak) e Daniel Blasphemoon (hoje no Shaytan) como frontman, a banda mostrou uma evolução nesta terceira jornada e gravou um de seus álbuns mais conceituados. Na balança, o prato Thrash ficou mais leve, enquanto o prato Death quase encostou na base da mesa, mostrando que os novos músicos trouxeram uma veia ainda mais extrema ao já poderoso som do Nervochaos, enquanto seu nome já ecoava pelos empoeirados porões do underground.

Os vocais são guturais em sua maioria, mas temos também aquele rasgado para trazer um contraponto. Edu faz os backing vocals aqui. Algumas letras, no melhor estilo Cannibal Corpse, como em Putrid Pleasure, que começa com o som de uma pá cavando (lembraram de The Worst, do Sarcófago, de 1996?), trazem o tema da necrofilia, enquanto Evocations também tem uma sonoplastia medonha e digna do black metal.

A bateria é incessante, como em Nailed to the Bed of Worms, uma das mais death metal do trabalho, com guturais dominantes, incluindo berros em coro no refrão, um grande momento do petardo.

A inovação deste trabalho é que a banda criou as músicas pensando em convidados especiais para participar das faixas. Daí vieram várias participações especiais de peso no trabalho. Alex Camargo, do Krisiun, em “Horde of Demons”; John McEntee, do Incantation, em “Cursed Soul”; Emperor Magus Caligula, do Dark Funeral, em “Televangelism”; Sanguine e Wrath, do Averse Sefira, em “Evocations”; e Barney Greenway, do Napalm Death, em “Nailed to the Bed of Worms”.

Outra curiosidade é que o álbum foi gravado duas vezes, pois houve mudança na formação antes de seu lançamento. E uma coisa que vira e mexe acontecia naqueles anos também aparece aqui em Quarrel in Hell: uma faixa escondida, um tempo depois da última música, e, após alguns sons demoníacos, temos uma versão da clássica “Iron Fist”, do Motörhead. Em versão death metal, claro.

Já faz 20 anos, mas é sempre bom ouvir de novo!


 

domingo, 13 de setembro de 2026

20 anos de Sacrament do Lamb of God!!!


Sejamos sinceros, o estilo do Lamb of God não é aquele que eu amo do fundo do coração. O groove não é nada mal, afinal temos exemplos maravilhosos em álbuns de Sepultura, Pantera e Machine Head, e os músicos do Lamb of God são muito bons, por sinal, mas é um som para ouvir e curtir, e raramente querer ouvir de novo. Mas fiquei me perguntando o porquê! Penso que faltam hits. E não estou falando de hits de sucesso que vão tornar a música mais comercial, mas aquela música que cria uma memória afetiva e é reconhecível em qualquer lugar, músicas como Walk ou Davidian, por exemplo.

Mas tudo bem, vamos nos concentrar em Sacrament que, de tudo que já ouvi do Lamb of God, é o que mais gostei até aqui. Ele começa com uma música chamada Walk with Me in Hell, que ganhou videoclipe. A letra é negativa e o clipe mostra imagens aleatórias tentando soar engraçado, e uma coisa já contradiz a outra. Falando da música em si, não é a melhor do álbum, mas você automaticamente percebe que Chris Adler é um monstro na bateria. Não à toa, o cara chegou a gravar com o Megadeth.

Já a segunda faixa, Again We Rise, tem uma espécie de coral no refrão que ficou muito interessante. A outra faixa a ganhar um videoclipe foi Redneck. Essa sim é uma música muito boa, mais acelerada, com o vocalista Randy Blythe soando menos gutural, o que automaticamente nos remete a Phil Anselmo. O vídeo é aquela típica história para a MTV, quando uma banda é convidada para tocar (e destruir) em um aniversário infantil e chega em um ônibus cheio de gostosas (ops).

Uma música que chama a atenção pela letra é Forgotten (Lost Angels), por dois motivos. Na época, a banda anunciou que estava se afastando de letras mais politizadas para algo mais introspectivo e pessoal. Porém, a letra de Forgotten pode ser classificada tanto como politizada quanto pessoal, já que retrata a visão da cidade de Los Angeles através dos olhos do vocalista, como o lugar onde ele cresceu, mas que não tinha nada do glamour de Hollywood que vemos de fora.

Forgotten (Lost Angels) é Randy Blythe olhando para Los Angeles e enxergando não os “anjos” de Hollywood, mas os seres humanos esquecidos sob as luzes da cidade. A referência aos tumultos de 1992 transforma essa repulsa em uma espécie de retrato apocalíptico de uma cidade que, para ele, já havia queimado por dentro — e que só precisava terminar de pegar fogo por fora.

Resumindo, talvez Sacrament seja o melhor trabalho da carreira do Lamb of God, mas ainda falta aquela música que te remete imediatamente a ele. 

 

20 anos de Above the Weeping World do Insomnium!!!

O terceiro álbum dos finlandeses do Insomnium, Above the Weeping World, de 2006, é uma continuação natural de seu legado. Aquele death metal melódico com algumas características doom, tanto no visual quanto nas letras e na melancolia explícita de suas músicas.

Começando por mais uma bela arte de capa, onde novamente a natureza se mostra suficiente para os melhores cenários de fundo para o som proposto pela banda. A lua, as árvores desfolhadas e um céu quase em chamas já prendem sua atenção, compondo um título desesperançoso que significa "acima do mundo que chora".

As letras continuam sendo um diferencial positivo, já que não soam piegas em um cenário em que muitas bandas se perdem. Inclusive, temos referências, como na faixa Drawn to Black, em que o refrão foi retirado de um poema de Francis Bourdillon, A Noite Tem Mil Olhos.

O vocalista e baixista Niilo Sevänen baixou um pouco o tom rosnado e, desta vez, sua voz veio menos parecida com a do vocalista do Amon Amarth. Além disso, aqueles fraseados limpos que encontramos no trabalho anterior foram limados, portanto temos aqui um álbum um pouco mais pesado do Insomnium.

Os riffs de Ville Friman e Ville Vänni soam básicos, porém totalmente ligados ao que a banda sabe fazer, além de apresentar aquelas melodias que enriquecem sua música e fazem dela tão desoladora, como na metade de The Killjoy.

A música Last Statement é uma de minhas favoritas, intercalando passagens mais leves, com solo de guitarra quase folk, a momentos de puro melodic death, onde os vocais, em algumas estrofes, se arrastam agonizantes.

Encerrando o petardo, uma faixa épica chamada In The Groves of Death, que já começa com dedilhado e teclados. Em sua parte pesada, uma melodia à la Paradise Lost, junto ao solo, enriquece a canção, antecedendo uma passagem limpa e belíssima.

A letra é um diálogo entre um filho que se sente frágil diante de um mundo assustador e misterioso, e o conselho do pai é que ele se afaste dos medos e aproveite a vida, que é breve, e a morte, mais austera.

E digo: se não é o que devemos fazer em nossos dias? Viver o hoje sem o desejo de que o próximo dia chegue rápido, já que talvez ele não chegue?


 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

20 anos de Christ Illusion do Slayer!!!

Sempre achei o Slayer uma banda inconstante depois do sensacional Seasons in the Abyss, de 1990. Defender a banda como representante suprema do Thrash Metal, frente às incursões das outras três bandas do Big 4 em outros estilos, foi — ou continua sendo — uma falácia de advogado forjado em EAD, já que, de 1994 em diante, eles flertaram com Punk e New Metal.

Mas acredito que justamente Christ Illusion tenha sido a primeira tentativa, em anos, de voltar ao Thrash Metal, mesmo que sem a mesma capacidade de trazer à tona novos e imortais clássicos. Algumas músicas, como Flesh Storm, que abre o trabalho, ou Jihad, têm uma veia mais interessante, apesar de os fraseados inseridos em Jihad terem sido usados dezenas de vezes por Dave Mustaine.

O retorno de Dave Lombardo ao kit de bateria também pode não ter tido o resultado desejado por milhares de fãs, uma vez que Paul Bostaph vinha desempenhando um bom trabalho, e aqui não vemos nada tão esmagador quanto o que ele entregava nos anos 80. Catatonic é uma música interessante, com ritmo cadenciado, e deixa ainda mais claro um aspecto cru da produção. Como se a banda tivesse voltado à era analógica sem botar muito a mão na massa na hora de produzir o trabalho.

Isso não soa exatamente como um álbum mais Thrash, porém elimina qualquer groove ou tendência mais modernosa presentes nos dois últimos full lengths. As letras também não evoluíram. Motivados por guerras santas (se você considera o petróleo algo santo) ao redor do mundo e críticas ao próprio governo americano, lembram mais adolescentes tentando soar inteligentes para colegas e garotas numa mesa cheia de garrafas vazias de cerveja e fumaça de cigarro no bar da faculdade, em final de período.

Mas, repito em outras palavras: antes uma tentativa vaga de retornar ao som que os consagrou do que continuar tentando a redenção num estilo em que entraram de intrometidos.  

 

20 anos de Second Skin of Harlequin do Illnath!!!

Após um início bem interessante, com Cast Into Fields of Evil Pleasure, de 2003, a banda de Symphonic/Melodic Black Metal Illnath, da Dinamarca, retornava em 2006 com sua segunda obra, Second Skin of Harlequin. Na formação, apenas a saída do baterista Benjamin Johannesen, com créditos para um músico contratado creditado como Snick (se bem que, com este nome e mais nada com que se possa pesquisar a respeito, pode nem ser um humano).

A música do Illnath continua muito boa aqui, apenas perdeu um pouco daquela magia do debut, quando os músicos ficam anos aprimorando as ideias para colocá-las em prática no estúdio. A arte da capa me agrada, principalmente pelo jogo de cores verdes, pretas e brancas, apesar de indicar erroneamente um trabalho gótico. Não que a influência do estilo não exista, mas ela realmente não define o som.

Geralmente, as faixas têm vida própria, com os teclados comandando tudo, porém algumas são menos expressivas que outras. She The Plague, por exemplo, é mediana se comparada à Pieta, com sua melodia inspirada. Este trabalho já lembra menos o Cradle of Filth do que o debut, e estes momentos ficam mais por conta dos gritos estridentes de Narrenschiff, mas, no decorrer das músicas, pouco se depara com o som dos ingleses agora.

A praia te joga mais para o lado de um Agathodaimon, da Alemanha, por exemplo, com a adição de teclados mais felizes. As mostras de Melodic Death já eram flagrantes, mesmo que fossem na linha Children of Bodom, onde os teclados ganham mais força do que em bandas como Soilwork.

Second Skin of Harlequin não é um trabalho essencial que mudará sua vida, mas não é para ficar esquecido em uma prateleira. Se você, que não o conhece ainda, gosta de melodias bonitas, vocais extremos, guturais e rasgados, teclados comandando músicas relativamente curtas, entre 4 e 5 minutos, pode conferir.   

 

sábado, 5 de setembro de 2026

20 anos de A Twist In The Myth do Blind Guardian!!!

O Blind Guardian, da Alemanha, foi moldando seu som através dos anos. De um início mais tradicional, com Battalions Of Fear e Follow The Blind, a um Power Metal ora com influências folk, ora progressivas, para, a partir de Nightfall In Middle-Earth, apresentar um som menos agressivo. O que ouço em seu oitavo trabalho, A Twist In The Myth, é uma banda que sofreu com algumas críticas mais pesadas ao registro anterior, A Night At The Opera, e tentou voltar à era de ouro, mas sem energia suficiente para emplacar clássicos como Imaginations From The Other Side, por exemplo.

Não que Twist seja um álbum ruim, ele só não tem nenhuma raiva embutida e soa politizado, no sentido de tentar agradar uma parcela de fãs que, por ventura, tenham se distanciado nos últimos anos. E é a partir da terceira faixa, Turn The Page, exatamente uma das canções que me remetem ao álbum anterior, que este trabalho começa a fazer sentido. Ela não parece fazer parte da síndrome do "olha, eu ainda sou o Blind Guardian".

Fly também é uma faixa interessante, mas não espere nada acelerado, nenhum grito excepcional de Hansi Kürsch ou uma distorção mais poderosa nas guitarras de Andre Olbrich e Marcus Siepen. Another Strange Me foi presenteada com videoclipe. O solo é legal, apesar de curto, e as cenas do vídeo lembram mais uma banda como o Nevermore do que uma banda que sempre falou de fantasia como o Blind. Mas a música fica um pouco acima da média em relação às demais.

Talvez seja uma unanimidade que as melhores faixas deste trabalho sejam Straight Through The Mirror e Skalds And Shadows, aquelas que mais se aproximam daquilo que o Blind já fez anteriormente. Ainda assim, é importante frisar: o som parece ter recebido uma camada extra de plasticidade, que tornou as músicas muito digitalizadas, como se elas fossem criadas por inteligência artificial, coisa ainda impossível em 2006.

E se você quiser começar a ouvir o Blind Guardian, não comece por A Twist In The Myth. A chance de não querer ouvir algum outro é grande. 

 

20 anos de Stench of Redemption do Deicide!!!


O que esperar do oitavo álbum de estúdio do Deicide, o primeiro após a saída dos guitarristas Eric e Brian Hoffman, dois dos fundadores da banda em 1989?

Bem assessorados — ou inteligentes —, o baixista e vocalista Glen Benton, ao lado do baterista Steve Asheim, trouxeram dois nomes de peso para abafar qualquer polêmica. O primeiro foi Jack Owen, que acabava de se desligar do Cannibal Corpse, outro gigante do death metal americano. Owen também havia sido um dos fundadores do Cannibal, 15 anos antes, e o que saiu na mídia foi que ele havia perdido o interesse pelo death metal. Pois é... meses depois, entrou no Deicide. Então...

O outro convocado, pelo contrário, entrava de cabeça nesse estilo a partir dali. Ralph Santolla, que acabara de tocar por aproximadamente um ano com Sebastian Bach (ex-Skid Row) e que havia feito seu nome na banda de melodic heavy metal Millenium, chegava para abrir um novo leque de possibilidades na guitarra da banda.

Com uma bela e medonha arte de capa, o trabalho, que também saiu pela Earache, é uma bela obra estúpida e acelerada. Percebe-se guitarras mais técnicas e solos mais elaborados — ouça o de "Not of This Earth". Já Asheim ganhou um novo fôlego com essa formação, pois sua bateria está impecável, absurdamente veloz, com pedais duplos arrasadores.

Uma de minhas preferidas é "Desecration". Com um nome simples, porém, sempre que seu riff inicial surge, já me vem aquela lembrança de uma boa e conhecida pancadaria começando.

Os vocais de Benton continuam destruidores. Em momentos como "Never to Be Seen Again", eles são aquele gutural ultracavernoso de álbuns como Once Upon the Cross. Em outros, como "Crucified for the Innocence", Benton já mescla bem os rasgados com o gutural mais aberto.

"The Lord's Sedition", a mais longa do petardo, é aquela que tem um início totalmente distinto de tudo aquilo que o Deicide já havia feito. Parece até que você está começando uma faixa de heavy metal. Claro que essa foi uma inspiração de Santolla — e claro que Benton não permitiu que ela fosse assim o tempo todo. Chega o momento certo, o caos impera e o holocausto se inicia.

A faixa mais conhecida do trabalho certamente é "Homage for Satan", que ganhou um videoclipe, com um riff que remete até ao Slayer em sua fase God Hates Us All e um solo fenomenal de Santolla.

A nova era do Deicide começou com o pé direito.