domingo, 30 de novembro de 2025

20 anos de Are You Dead Yet? do Children of Bodom!!!


Se “Are You Dead Yet?” é o álbum mais ousado do Children of Bodom? Até aquele ponto da carreira, eu diria que sim, sem pestanejar. Convenhamos: a banda começou a soar repetitiva depois dos três primeiros discos — e isso parece ter ficado bem claro até para eles mesmos. Por mais que tenham alcançado sucesso com aquela fórmula, chega um momento em que não existem mais degraus se você insiste em repetir eternamente o mesmo modus operandi.

Por outro lado, eles também não queriam deixar de soar como Children of Bodom. O meio-termo encontrado foi reduzir a melodia, engrossar o peso e endurecer a identidade sonora. Essa transição já tinha sido muito bem articulada em “Hate Crew Deathroll” (2003), e em “Are You Dead Yet?” ela veio temperada com uma pitada extra de elementos industriais. Nada que transforme o álbum em industrial metal, longe disso — mas a junção do death melódico característico com nuances de metal americano (e o resultado colou direitinho nos EUA), somada aos teclados de Janne Warman sendo empurrados para segundo plano e perdendo aquele brilho neoclássico, mudou totalmente a equação. Ao retirar boa parte da melodia que definia o COB, eles sabiam exatamente o que estavam fazendo — e acertaram para alguns, mas empurraram outros fãs direto do penhasco.

E o fato é: “Are You Dead Yet?” é sim um álbum bom de se ouvir, desde que você não fique pensando demais no passado glorioso da banda… e principalmente se considerar o que estava por vir. O baixo de Henkka Blacksmith, geralmente tímido, aqui ganha mais presença, especialmente em “Next in Line”, onde Alexi Laiho usa um timbre vocal que praticamente desaparece no restante do álbum.

Os três petardos de abertura garantem adrenalina pura — mesmo que você sinta falta dos teclados clássicos e dos duelos épicos entre Janne e Alexi — e se tornaram presenças quase obrigatórias nos setlists. “Living Dead Beat”, “If You Want Peace…Prepare for War” e a faixa-título poderiam muito bem ter servido de molde para o álbum inteiro.

Logo depois vem a tradicional “balada pesada” (que heresia) da vez: “Punch Me I Bleed”. Todo álbum da banda tem a sua, mas aqui ela vem com menos brilho — apesar de eu até gostar dela.

A capa, sempre com o mascote assassino do lago Bodom, talvez seja a pior da carreira. Parece uma TV preto-e-branco prestes a pedir aposentadoria, com o assassino olhando para você de cima, como se você já tivesse levado o primeiro golpe. E ainda tivesse merecido.

Com pouco mais de 37 minutos, “Are You Dead Yet?” passa rápido pelo CD-player, o que evita que a mudança de rumo soe cansativa. Eles sabiam que não tinham tantos “clássicos instantâneos” em mãos e usaram a experiência para serem curtos e grossos.

Há 20 anos, o álbum deu uma desanimada nos fãs aqui no Brasil, que ainda queriam o velho COB. Mas hoje, com tudo o que aconteceu — e especialmente após a morte precoce de Laiho — o disco ganhou inevitavelmente um ar mais saudoso. É um registro de transição, de ousadia e, principalmente, de uma banda que nunca teve medo de cutucar sua própria zona de conforto.


 

20 anos de Vírus do Hypocrisy!!!

Se Catch 22 foi uma tentativa meio torta de mudança de rumo, e The Arrival representou um passo mais seguro nessa transição, o 10º álbum de estúdio dos suecos do Hypocrisy, Virus, surge como a pedra fundamental dessa nova fase: a metamorfose definitiva de um death metal cru para um melodic death metal de ponta. Da arte da capa — criada pelo talentoso Anthony Clarkson (Legion of the Damned, Blind Guardian, entre outros) — até as letras que abandonam o velho imaginário alienígena, Peter Tägtgren e sua trupe acertam em cheio. Virus não é apenas um bom disco: é, para muitos, o grande momento da carreira da banda.

Uma das qualidades mais marcantes do álbum, e um diferencial que pesa muito num estilo extremo como este, é a capacidade de fazer cada música soar única, sem que o conjunto perca coerência. Isso, minhas criaturas noturnas, é uma façanha rara. Em Virus, convivem harmonia e brutalidade, melancolia e fúria — um equilíbrio que poucas bandas conseguem alcançar sem diluir identidade.

A entrada do guitarrista Andreas Holma deu profundidade às composições, ampliando o alcance melódico e rítmico do disco. Não que o mérito seja apenas dele, mas seus 25% de crédito estão muito bem colocados. Outro reforço crucial foi o baterista Horg (Immortal), cuja técnica precisa e pegada esmagadora elevam o material a outro patamar. O baixista Mikael Hedlund, membro veterano, também entrega uma performance sólida e participa da composição de algumas faixas. Já Peter Tägtgren, além de guitarras e dos vocais rasgados e guturais que conhecemos, surpreende com passagens em voz limpa — especialmente na derradeira e belíssima “Living to Die”.

“War-Path” abre o trabalho com violência e atmosfera quase black sinfônica, graças ao ataque implacável dos pedais duplos e aos vocais mais profundos. Em “Scrutinized”, a presença especial de Gary Holt (Exodus, Slayer) adiciona um solo thrash matador, costurado por mudanças de andamento impecáveis. “Fearless” mergulha no death melódico que Catch 22 gostaria de ter alcançado, com teclados sustentando boa parte da ambiência enquanto as guitarras duelam entre peso e melodia.

“Craving for Another Killing” figura entre as mais brutais, com Horg destravando a metralhadora rítmica. Já “Let the Knife Do the Talking” desacelera sem perder originalidade. “A Thousand Lies” traz um lado mais melancólico, com dedilhados e um riff que flerta com a aura sombria da abertura.

E então chega o meu momento preferido: “Incised Before I’ve Ceased”. Um colosso que brilha pelo riff cavalgado, pelas variações vocais de Peter, o solo insano e as intervenções de teclado trabalhadas em fragmentos — uma música que resume o espírito do álbum. “Blooddrenched” disputa o título de faixa mais brutal, investindo pesado no death metal tradicional, enquanto “Compulsive Psychosis” brinca com variações de bateria thrash, refrão gritado e um certo espírito caótico-divertido… embora a diversão verdadeira recaia sobre nós, ouvintes, que podemos mergulhar em uma obra tão rica e envolvente.


 

sábado, 22 de novembro de 2025

20 anos de Remagine do After Forever!!!


Geralmente os músicos brasileiros insistem em estampar seus próprios rostos nas capas dos álbuns — e, no caso de After Forever, isso foi um grande erro. Nada me irrita mais do que comprar um disco sem uma boa arte na capa. Foto da banda? Imprescindível, mas deixe isso para o encarte ou para a contracapa. Na capa, queremos impacto, conceito, algo que nos puxe para dentro do universo do álbum. Em Remagine, quarto full dos holandeses, nem mesmo a beleza da Floor Jansen ganhou realce; colocaram ela (e a banda toda) ali com um visual meio futurista, meio rock star japonesa… e ficou tudo no meio do caminho.

Mas vamos ao que interessa: a música.
Aqui estamos falando de uma banda muito competente e de uma vocalista absurda, que conquistou o mundo inteiro e elevou o After Forever de um grupo de symphonic metal a quase um heavy metal completo. Isso, porque Floor sabe transitar entre os dois estilos com naturalidade. Ela abre o álbum com a direta “Come”, que chega logo após a intro “Enter”, e depois entrega aquela atmosfera mais clássica em “Boundaries Are Open”, onde simplesmente nos ganha — interpretação impecável.

E tem mais: os corais de “Living Shields” puxam diretamente para o passado glorioso de Prison of Desire, e ainda trazem a participação quase extinta de Sander Gommans. O gutural dele é muito bem-vindo e, mesmo eu sendo fã da Floor, admito que a ausência de uma voz masculina foi um dos motivos para o After Forever não ter permanecido no meu gosto pessoal pelos últimos 25 anos (ow!).

O trabalho do novo tecladista, Joost van den Broek, também merece destaque. Ele cria camadas sutis que enriquecem o instrumental e, em vários momentos, surge com uma dose orquestral que dá imponência ao som. “Attendance” segue uma veia mais moderna, mais sombria, enquanto “Free of Doubt” volta a exaltar o lirismo da Floor. Lá pela metade, as guitarras de Sander e Bas Maas ganham um peso com groove muito bem encaixado — e os teclados dão outro show.

Outro ponto alto é “No Control”, onde além do gutural de Sander, Bas Maas aparece com seus vocais limpos, criando um contraste bem interessante, apesar do riff bobo.

No fim das contas, Remagine é mais um ótimo trabalho do After Forever — e olha só, já completando 20 anos.


 

20 anos de Во славу великим! (Vo slavu velikim!) do Arkona!!!


O Arkona, que começou como um projeto solo da vocalista e multi-instrumentista Masha Scream, lançou dois álbuns em 2004 antes de finalmente se consolidar como banda em 2005. Foi então que Masha recrutou os músicos que dariam corpo definitivo à sua visão: Sergey Lazar (guitarra e vocais), Ruslan Kniaz (baixo) e Vlad Artist (bateria). Com essa formação, nasceu Vo Slavu Velikim!, um trabalho que se aproximou ainda mais da proposta inicial de um grupo com alma folk, já que os primeiros discos inclinavam-se mais ao metal direto.

A produção é claramente superior, e a participação do renomado multi-instrumentista de música tradicional russa Vladimir Cherepovsky elevou o álbum a um patamar inesperado — tanto que acabou conquistando o certificado de disco de ouro na Rússia, algo impensável para um grupo do gênero.

A variação musical deste álbum impressiona. A paleta sonora é amplificada pela presença de inúmeros instrumentos típicos: harpas, violinos, gaitas de foles, ocarinas, entre outros. A agressividade atribuída ao black metal aparece basicamente nos vocais ásperos, pois os riffs apontam muito mais para um death melódico do que para o black propriamente dito. Mas o grande trunfo aqui são as vocalizações.

Doçura feminina, rugidos demoníacos, coros solenes que beiram o litúrgico — tudo se encaixa de forma natural e envolvente, criando uma atmosfera tão densa que o idioma russo deixa de ser barreira e passa a ser parte do próprio enfeitiçamento.

É quase obrigatório ouvir o álbum de ponta a ponta, mas se quiser apenas um aperitivo que acenda a faísca da curiosidade, experimente “Vedy proshlogo”. É o tipo de música capaz de despertar um brilho inesperado nos olhos, especialmente de quem acha que o folk/pagan metal não tem nada a oferecer além de “música temática”.

O Arkona pode ser considerado relativamente novo dentro da cena, mas em poucos anos já havia sido descoberto e abraçado por fãs do mundo todo. E muito desse reconhecimento se deve exatamente a este terceiro trabalho — um marco na construção da identidade sonora e espiritual da banda.  


 

20 anos de Stratovarius do Stratovarius!!!


Teriam os dias de glória do Stratovarius chegado ao fim? Em 2005, a banda finlandesa lançava seu 12º álbum de estúdio enquanto enfrentava um período turbulento — especialmente pelos problemas de saúde mental de Timo Tolkki, que acabaram interferindo em diversos aspectos da música. Mas vamos nos ater ao álbum em si, que veio na esteira de uma dupla de trabalhos mais progressivos e emocionalmente introspectivos.

Com uma arte simples e um disco autointitulado — ou sem um título específico, como costumamos dizer — o primeiro impacto já passa a sensação de uma banda operando abaixo do esperado. E a abertura com “Maniac Dance” confirma a impressão. A faixa flerta com um hard rock artificial, lembrando o Helloween em seus dias menos inspirados, e ainda vem acompanhada de uma produção fraca se comparada à de Elements. Nem a voz de Kotipelto consegue evitar um generoso torcer de nariz — e isso vindo de alguém que esperava muito mais de uma banda desse porte, ainda que a música não seja exatamente horrível.

“Fight” não melhora em nada esse começo trôpego, então a salvação momentânea surge apenas em “Just Carry On”, quando o cenário finalmente dá uma guinada. A faixa tem mais energia, está longe do speed metal clássico da banda, mas traz uma pulsação própria — ainda que meio rígida — na qual os vocais de Kotipelto começam a resplandecer.

Em “Back to Madness” (e o título dispensa explicações), temos praticamente um documento emocional de Tolkki, uma confissão sonora de tudo que ele vinha enfrentando. A música é carregada de melancolia e tensão, e ouvir isso sabendo do contexto torna tudo ainda mais angustiante. Os dedilhados, as vozes distorcidas e as narrações adicionam uma aura épica à faixa, fazendo dela um dos raros momentos realmente marcantes do álbum.

Ao menos há uma balada para nos lembrar do que o Stratovarius tem de melhor: a voz de Kotipelto. Em “The Land of Ice and Snow”, ele chega bem próximo de seus grandes momentos em uma canção com toques quase folk, curta — pouco mais de três minutos — mas que desperta até a vontade de ouvir algo do Blind Guardian para completar o clima.

Já os teclados de Jens Johansson, tradicionalmente um dos pilares da banda, aqui soam mecânicos, pouco inspirados e nada harmônicos, contribuindo para que o disco permaneça consistentemente abaixo da média.

Não dá para dizer que o Stratovarius lançou seu “St. Anger” em 2005 — porque isso seria crueldade desnecessária, e este álbum não chega a ser um desastre. Mas também é verdade que ele não vai deixar saudades. Um trabalho perdido entre crises pessoais e criativas, que marca mais um período difícil do que um capítulo digno da grandeza que o Stratovarius costumava entregar.


 

20 anos de Darker Designs & Images do Siebenbürgen!!!


Os suecos do Siebenbürgen chegaram ao seu quinto trabalho em 2005, Darker Designs & Images, novamente lançado pela Napalm Records. Este álbum marcaria o encerramento da primeira fase da banda, já que no ano seguinte eles entrariam em hiato. Cada vez mais distante do black metal inicial — mas ainda mantendo a aspereza dos vocais rasgados e guturais — o grupo se aproximava de vez do gothic, moldando aquilo que nos acostumamos a chamar de dark metal. Nada mais natural para uma banda cujo nome significa, em alemão, Transilvânia, a terra do Conde Sangrento.

Para este trabalho, ocorreram duas mudanças importantes na formação. A primeira foi a entrada do baixista Niklas Sandin, que mais tarde assumiria definitivamente as quatro cordas do gigante Katatonia, onde permanece até hoje — uma bela carreira de quinze anos. A segunda, e bem mais sensível, foi a saída da icônica vocalista Kicki Höijertz, adorada pela base de fãs, substituída por Erika Roos. Embora a mudança tenha causado certa resistência entre os fãs mais radicais, suas vozes possuem timbres tão semelhantes que muitos sequer notaram a troca à primeira audição.

A arte da capa, em tons de azul, abandona as vampiras sanguinárias do passado e apresenta novamente a figura de um anjo. A ilustração, obra do pouco conhecido Stephan Stölting, é belíssima e casa com o clima melancólico e atmosférico do álbum.

Musicalmente, o Siebenbürgen revisita lampejos de fúria em “Of Blood and Magic”, uma faixa mais veloz que remete aos momentos agressivos da fase anterior. Porém, o disco como um todo é dominado por composições mid-tempo, densas e sombrias. Logo na abertura, “Rebellion” traz Marcus Ehlin cantando de forma mais gutural do que o habitual, como se anunciasse uma mudança de rumo — que, no entanto, não se concretiza. A partir de “As Legion Rise”, ele retorna aos rosnados característicos.

A presença feminina, elemento essencial da essência da banda, ressurge em “A Crimson Coronation”, aproximando o som do gothic e reforçando a identidade melódica que sempre funcionou tão bem. O mesmo acontece em “Remnants of Ruin”, que se destaca justamente por esse diálogo entre vozes — um dos maiores acertos do Siebenbürgen desde seus primeiros trabalhos.

O Siebenbürgen pertence àquele seleto grupo de bandas extremamente interessantes que nunca chegaram a explodir como mereciam, mas que cultivam um nicho fiel de fãs que apreciam essa agressividade romantizada, cheia de atmosfera e tragédia.

E, claro: não deixe de ouvir “Harvest for the Devil”. De preferência acompanhado de um bom vinho — porque certas trevas pedem um brinde. 🍷🦇


 

sábado, 1 de novembro de 2025

20 anos de Garbage Daze Re-Regurgitated do Exhumed!!!


Álbuns de covers costumam ser um terreno perigoso — e, sejamos sinceros, muitas vezes não passam de caça-níqueis. Já repeti isso mais de uma vez por aqui. Pode ser que a banda esteja há muito tempo sem lançar material inédito e queira apenas manter o nome em evidência; pode ser uma forma de homenagear suas influências ou ainda um exercício de estilo, tentando traduzir para seu próprio contexto aquilo que outros já fizeram de maneira completamente diferente. O fato é que esses discos existem — e, assim como os “ao vivo”, cabe ao fã decidir se vale ou não ga$tar com esse tipo de material, ainda mais hoje, quando a música está ao alcance de um clique.

No caso do Exhumed, norte-americano até o último fio de cabelo ensanguentado, o lançamento de Garbage Daze Re-Regurgitated em 2005 se enquadra nesse cenário — mas, merecendo ou não, merece figurar por aqui para celebrar seus 20 anos de existência.

Há aqui algumas escolhas realmente interessantes. A versão de “The Power Remains”, da banda inglesa Amebix, é uma delas — originalmente lançada em uma rara coletânea homônima de 1993, ganha aqui uma roupagem digna da sujeira que o Exhumed domina. Outro destaque é “Uniformed”, da também inglesa Unseen Terror, retirada do único full-length da banda, Human Error (1987). O resultado é brutal, fiel e totalmente a cara do Exhumed.

“No Quarter”, do Led Zeppelin, entrega logo de início que estamos fora do habitat natural da banda. Com guitarras quase psicodélicas e um baixo trovejante que parece ecoar eternamente no limbo, essa faixa surge como uma grata e curiosa surpresa na coletânea. No mesmo espírito de reinvenção está “Trapped Under Ice”, clássico meio cult do Metallica em Ride the Lightning (1984). Aqui, a faixa chega a se tornar irreconhecível em alguns trechos, mas o Exhumed consegue imprimir seu selo goregrind sem piedade.

Aliás, o próprio título do álbum — Garbage Daze Re-Regurgitated — é uma homenagem (ou uma paródia de mau gosto, dependendo do ponto de vista) ao EP Garage Days Re-Revisited, também de covers, lançado pelo Metallica em 1987.

Um dos melhores momentos fica por conta de “Pay to Die”, do Master, banda de Paul Speckmann. Um verdadeiro hino da podridão, praticamente impossível de ser estragado — e, felizmente, o Exhumed faz jus à sua essência.

Para quem prefere o grupo em uma pegada mais arrastada, vale conferir “The Ghoul”, do Pentagram, faixa do primeiro e auto-intitulado álbum da lendária banda de doom americana. É o tipo de escolha que, em tese, seria “mijar fora do pinico” — mas, curiosamente, o resultado acerta em cheio, com um solo de guitarra impecável coroando a homenagem.

Outro destaque fica com “In Fear We Kill”, do Epidemic norte-americano (há vários homônimos pelo mundo, inclusive três no Brasil). Os vocais de Matt Harvey brilham aqui, alternando entre rasgados e guturais com naturalidade impressionante. O mesmo vale para “Twisted Face”, do Sadus, que ainda traz de brinde um solo curto, mas perfeito.

No fim das contas, Garbage Daze Re-Regurgitated é um prato cheio para os fãs do Exhumed e, por extensão, para todos que apreciam o lado mais sujo, nojento e divertido do gore/grind. Não é um álbum essencial — mas é o tipo de banquete repulsivo que, uma vez servido, o fã do gênero não consegue recusar.


 

20 anos de Ghosts of Loss do Swallow The Sun!!!


Após presentear a cena com o debut The Morning Never Came — uma verdadeira obra-prima do death doom — os finlandeses do Swallow the Sun retornaram em 2005 com seu segundo trabalho, Ghosts of Loss. Desta vez, a banda reduziu um pouco o peso em relação ao álbum anterior, introduzindo mais melodia, mas ainda soando como o monstro raivoso que nasceu para ser — sem, contudo, se tornar ainda o grupo melódico que viria anos depois.

A abertura com “The Giant”, uma faixa de quase 12 minutos, já deixava claro que o Swallow the Sun não buscava nada de comercial. A proposta era atacar com unhas e dentes, entregando uma fúria genuína e envolvente. Os vocais de Mikko Kotamäki variam com maestria entre tons limpos, guturais profundos e rasgados surpreendentes, revelando uma versatilidade que se tornaria marca registrada da banda.

As guitarras de Juha Raivio e Markus Jämsen transitam entre o death metal técnico e o gótico, alternando riffs pesados com melodias arrastadas e dedilhados melancólicos. A música “Descending Winter” ilustra bem esse amálgama, evidenciando a principal diferença entre o debut e este segundo disco: uma diminuição da raiva onipresente e um aumento da aflição e do desespero, enquanto a letra anuncia a chegada de um inverno gélido e mortal.

“Psychopath’s Lair” é um dos momentos mais impactantes do álbum, evocando as bases secas e densas da escola My Dying Bride, com pequenos breakdowns que impulsionam nossas cabeças no movimento instintivo de todo headbanger. Essa faixa se aproxima bastante do primeiro álbum, com uma crueza e rispidez que remetem às origens da banda.

Depois dessas duas músicas mais diretas e menos arrastadas, o álbum mergulha em composições de tom mais melódico, com riffs longos e atmosferas quase beirando o funeral doom. O melhor exemplo é a bela “Forgive Her…”, uma canção que certamente agradará aos ouvidos mais exigentes.

“Fragile” começa com vocais limpos e belíssimos, mas, ao longo da execução, surgem riffs dissonantes que a fazem destoar do restante do trabalho — um contraste proposital que mostra o lado mais inquieto da banda. Já “Ghost of Laura Palmer”, arrastada e dominada pelos guturais, pode muito bem ter inspirado a capa sombria criada por Tuomo Lehtonen. O título, aliás, remete à icônica série Twin Peaks e à clássica pergunta: “Quem matou Laura Palmer?”

O álbum encerra-se com “Gloom, Beauty and Despair” — título que sintetiza perfeitamente a essência do Swallow the Sun — e “The Ship”, concluindo uma jornada densa e melancólica.

Com Ghosts of Loss, o Swallow the Sun consolidava-se definitivamente como um nome poderoso na cena mais sombria e moribunda do metal extremo.


 

20 anos de Transgression do Fear Factory!!!


O sétimo álbum de estúdio da banda americana Fear Factory começa com a faixa “540.000º Fahrenheit”, um título curioso que faz referência à temperatura no centro de uma explosão termonuclear — algo em torno de 300.000º C. A metáfora não poderia ser mais apropriada, já que acompanhar a formação do Fear Factory ao longo dos anos é, por si só, uma experiência explosiva. Para muitos fãs, a formação de Demanufacture continua sendo a definitiva.

Ainda assim, a banda havia se saído muito bem no ano anterior com Archetype, lançado sem o fundador Dino Cazares. Já em Transgression, o resultado não é tão sólido. Não que o álbum seja um fracasso — longe disso —, mas a aura agressiva característica do Fear Factory aparece apenas em alguns momentos, como se a banda estivesse à base de Rivotril.

A faixa de abertura já dá sinais disso: embora apresente uma base interessante, o excesso de vocais limpos faz o álbum perder parte de sua força. A sequência com a faixa-título, porém, funciona como um antídoto — é o Fear Factory retomando o vigor, com Burton C. Bell entregando aquilo que amamos: violência sonora e intensidade.

Bell, aliás, continua demonstrando sua habilidade em equilibrar agressividade e melodia, mas aqui o vocal limpo acaba predominando demais para uma banda de industrial thrash metal.

A trinca seguinte — “Spinal Compression”, “Contagion” e “Empty Vision” — mantém o álbum em um nível interessante. “Empty Vision”, em especial, traz uma veia melancólica bastante marcante na interpretação de Bell.

Entretanto, as quatro faixas seguintes soam como puro preenchimento. Ou talvez como uma tentativa de explorar influências mais progressivas. Difícil saber a intenção da banda — se buscar novos caminhos ou simplesmente se distanciar do rótulo “industrial”. O problema é que o resultado lembra aquele “feijão sem tempero”. Sempre foi comum o Fear Factory inserir uma faixa mais experimental em seus discos, mas quatro de uma vez? E sim, o cover do U2, “I Will Follow”, entra nessa conta.

Se o grupo tivesse mantido apenas “Echo of My Scream” como a balada emocional do álbum, e deixado de lado “Supernova”, “New Promise” e o próprio cover do U2, o disco soaria mais coeso. Ainda bem que o álbum se redime no final com “Millennium” (cover do Killing Joke) e a pesada e matadora “Moment of Impact”, que fecham Transgression com o peso e a fúria que esperamos do Fear Factory.

No balanço geral, Transgression tem mais acertos do que falhas e mantém a banda entre os grandes nomes do metal moderno — mesmo sem a mesma intensidade guitarrística de seus melhores momentos.