Metal e Loucuras

Metal e Loucuras

domingo, 21 de julho de 2013

ENTREVISTA COM CASITO - WITCHHAMMER

Todos nós sabemos que para fazer heavy metal no Brasil existem alguns fatores primordiais para atingir o reconhecimento: talento, amor pelo estilo e ser guerreiro. Em um país que ainda engatinha quando o assunto é o apoio aos artistas, é somente com muita garra que uma banda de metal consegue sobreviver desde meados dos anos 80 até os dias atuais sem qualquer exposição na grande mídia. Apenas pela força de vontade de seus integrantes em união com seus fãs que os apoiam sempre. O Witchhammer de Belo Horizonte é um exemplo de humildade e perseverança na cena nacional, uma das bandas que ajudou a difundir este estilo que amamos tanto. E é com muita honra que o Metal e Loucuras apresenta uma entrevista exclusiva com Casito, baixista e vocalista e um dos fundadores do Witchhammer.

M&L - Fale-nos um pouco de você hoje. (Trabalho, projetos...)
Casito: Tenho 43 anos hoje e sou músico e professor de inglês na Achieve-Oxford University Press. Dou aulas de inglês para business internacional e inglês geral para adolescentes. Nascido e criado em Santa Tereza, hoje, moro onde nasci, com minha companheiríssima amada Tânia e nossa filha Melissa. Estamos em gravação do novo CD "Metallanguage". A idéia é ainda uma 'pré'  para o negócio final, e está acontecendo nos estúdios do nosso guitarra, Rogério Sena, o Trip & Trip Prod., onde vou a pé. Ótimo, né não? 

M&L - E o Witchhammer, como estão os planos para lançamento deste novo álbum?

Casito: Como estava falando, hoje temos dificuldade em nos encontrarmos tão frequentemente como a paixão exigiria, mas procuramos nos ver e gravarmos em horários alternados. Quase sempre, quando estamos todos juntos, ficamos bêbados e vamos recriando o grupo, compondo todo tipo de coisa. Ótimo também! É a base do que vai ser tudo depois, a linha-mestra dos discos e dos shows, que são mais frequentes na época do lançamento dos CDs. Metallanguage será todo costurado em si mesmo. Como sendo Meta-alguma-coisa, ele fala de si mesmo, o Metal usado pra contar estórias do Metal. Usaremos as letras das músicas para falarmos exatamente da arte de escrever letras para músicas, exaltando letristas famosos como Freddie Mercury, Bob Dylan, Bowie, Hendrix, Neil Peart, King Diamond, Bob Marley, etc. Citaremos também grandiosos escritores como Edgar Alan Poe, Humberto Eco, Márquez, Shakespeare, Stephen King, estes gênios que nos inspiraram tanto com suas estórias, vocês sabem quais, não? Metalinguagem Metametálica, é isso somente. O escrito falando do 'escrever' e o Metal falando da arte de se 'metalear'. Pretendemos lançá-lo em outubro, juntamente com o documentário "Witchhammer: somos feitos de pessoas", que está sendo feito pelo brother Richardson Pontone.

M&L - O Witchhammer é um dos grandes representantes da maior cena underground que o país já teve. Qual a visão que a banda tinha de si naquele contexto?

Casito: A gente achava que era mais underground mesmo, como você falou. Em 1985, as roupas eram rasgadas mesmo, era colete brutal, coturno, cabelo do jeito que crescesse era aquilo mesmo, tipo Sabbath e Deep Purple  no início, sabe? Era cruz de cabeça prá baixo a torto e a direito, todo mundo usava, todo mundo. Patches muitos... Hoje vejo que a nossa primeira demo é tosquêra braba, a Warfare Noise 2 é uma loucura de atentados ao metrônomo e tem execução das músicas rudimentar. Aamonhammer também, toscão.O Mayhem e o Megatrash se mantinham bem no compasso. Já as bandas anteriores a nós estavam bem certinhas nos andamentos, Distorção Neurótica, Destillery, Kamikaze, Overdose, Sepultura, Chakal, Mutilator, tinham uma pegada já bem certinha. A gente era bem underground mesmo, os shows iam acontecendo e se revelando a cada segundo, rolava muita improvisação também. Difícil imaginar isso num show de metal mas juro que rolava. A gente curtia demais aquela vida e queria conhecer todo mundo, todos os mestres, tão jovens quanto nós, ou pouco mais velhos, que faziam aquele som inédito, aqui, em outros estados e países. Éramos pouco mais jovens que nossos ídolos e isso era muito legal, diferente do geral. Cronos era 7 anos mais velho por exemplo. Era uma avalanche, estávamos dentro do acontecimento e nos sentíamos todos brothers. Tudo interligado, era um movimento mesmo. Quanto à visão que tínhamos era que tocávamos bem mais ou menos mas a gente agradava demais, até mais, às vezes. Aí no Mirror, a gente já tinha aprendido um pouco, um pouco. Fomos crescendo bem, rápido, viajando muito. Tivemos muita atenção, até mais do que merecíamos por nossos dotes musicais ainda limitados, mas sempre fomos sinceros e esforçados.



M&L - Vocês tinham o sonho de fazer sucesso no exterior ou nunca foi uma preocupação?
Casito: Em 1990, ficamos em primeiro lugar em duas rádios da Europa com a música Mad Inspiration. Aí, duas gravadoras se interessaram em nos contratar, mas somente caso gravássemos o disco todo naquele estilo de música da Mad Inspiration. Aí não, né? (risadas)... Todos do movimento tínhamos esse sonho, não era exclusividade de uma banda ou outra, se é que é isso que você quer saber. Desafio alguma banda falar que, em algum momento, não sonhou em tocar no Brasil todo, no mundo todo. Ganhar milhões de dólares. Sonhava e sonho até hoje, meu caro. Sucesso não mais, só uma tour bem simples com a banda. E os milhões, claro. Sucesso era só sonho de adolescente. Ficamos no lado B da história, o que é um lucro. Não podemos reclamar de nada. Quantas bandas não foram (ou ainda são) o lado C, D, E... Z da história? Bandas boas que nunca tiveram uma chance sequer? Tenho certeza que pra várias delas, tocar em BH é um sonho. Com o banger local apoiando as bandas, teríamos grandes shows lotados frequentemente. O que levaria às ótimas bandas autorais de BH mostrarem e terem suas músicas cada vez mais amadas, e cantadas pelo povo metaleiro. Cantadas, imagina só. Isso é o que chamaria de cena. Uma 'cena' é o que reimpulsionaria a força, é o que geraria notícia, digamos. Aí, teríamos milhares de bandas do Brasil todo querendo tocar aqui. Seria fácil realizar o sonho delas. Já temos bastante sucesso pensando bem.

M&L - Qual foi o momento mais marcante de sua carreira?

Casito: Quando eu peguei o álbum The First and the Last nas mãos e olhei bem pra ele. Depois coloquei ele junto com os meus outros discos de vinil: Slayer, Destruction, Kreator, Venom, Queen, Stones. Coloquei ele bem lá no meio. Sentiu?

M&L - É, com certeza foi uma emoção indescritível. O Witch sempre foi ousado ao gravar músicas que fugiam às regras do thrash metal, como "Mad Inspiration, The Lost Song, Hair e Call:X". De onde surgiam estas idéias?
Casito: Alguma coisa do Nuclear Assault, outras pitadas do Suicidal, Red Hot, blues demais, a gente ouvia todo dia blues, rock clássico demais também, Led Zeppelin, toda hora, Sabbath, todo dia, Raul Seixas direto, esses malucos aí. A outra metade das ideias vinha da gente mesmo, do álcool. (risadas)  

M&L - Bandas como Sarcófago e Headhunter D.C. (Ba) sempre deixaram clara sua postura agnóstica nas letras. Já o Witchhammer deixa meio indefinido este aspecto, principalmente analisando letras de músicas como “From A Suicide Man To God” e “God’s Growing Older”. Considerando que você é o principal letrista da banda, em que você acredita?

Casito: Sou agnóstico. Os temas das letras nunca representaram somente o que acreditamos. Elas são textos literários antes de tudo. Tratamos de temas diversos e a religião católica sempre foi um foco de nossas músicas. A crítica é exatamente essa - Deus é então visto como velho e sem o poder que classicamente se dá a tal ser. As letras refletem a falta de esperança e fé, os valores já caquéticos e reacionários da igreja católica. Às vezes, as pessoas já veem a palavra 'God' e se assustam.  



M&L - Você disse recentemente que tem o sonho de lançar “The First And The Last” e “Blood On The Rocks” remasterizados em um único trabalho, assim como já aconteceu com o Chakal em “The Man Is His Own Jackal” e “Death Is A Lonely Business”. Existe essa possibilidade? Há algo adiantado entre vocês e a Cogumelo?
Casito: Vamos regravar o 'The First and the Last', tocando tudo de novo, novos arranjos, solos e vocais. Queremos manter a coisa toda bem fiel ao original, mas vamos dar uma ajeitada nos tempos. É um disco honesto, cru, metal mesmo da gema. As ideias são ótimas, a execução nem tanto. Queremos remasterizar o 'Blood on the Rocks' também. A ideia é relançar esses dois em um pack legal, com fotos e um pouco da história da banda também. Não há nada entre nós e a Cogumelo por enquanto.

M&L - Em que o Casito músico é melhor, como vocalista ou como baixista?
Casito: Jogo bem nas duas.

M&L -  Assim como recentemente houve um renascimento do thrash a nível mundial, com várias bandas clássicas lançando bons álbuns e o surgimento de outras bandas, você acredita em um novo boom da cena heavy de Minas Gerais?
Casito: Acredito sim. Tudo tem seus ciclos e renasce. Mas as pessoas do Metal têm que se ajuntar mais, pra sair do frio. E compor com violão também. Ligar uma sonzêra do capeta, abaixar uns tons, e esguelar o ampli, tudo fica legal, né não? Pensando na sua pergunta novamente, vi que você relacionou o fato do renascimento do thrash com a possibilidade de uma repercussão da cena em BH, né? Agora eu te volto a pergunta: você acha que o tal 'novo boom' só aconteceria caso o 'Thrash' renascesse e explodisse o  movimento de novo?

M&L - Olha, não acho que esse novo boom depende do renascimento thrash, mas com certeza estes ciclos são essenciais para nos dar esperança de que a cena pode melhorar. Assim como existe um renascimento do hard na Suécia e o novo gás das bandas da bay area, também pode retornar com força total o movimento black metal norueguês, a explosão do metal melódico ou a cena mineira. Depende de tudo que você disse, das bandas antigas continuarem o legado e das mais novas como Drowned por exemplo, de manterem o foco.

M&L - Por favor, comente em poucas palavras cada um dos 4 álbuns do Witchhammer.

The First and the Last - cru, tosco, mal executado, ótimas letras que contêm o sumo do que éramos e pensávamos, hormônio puro, irmandade era pesada nessa época, a ideia era fazer Metal pra arregaçar na podrêra, agredir sonoramente e politicamente. O disco traz uma lenda, Mr. Walker, um neurótico de guerra e estuprador, que acorda no hospital onde nós trabalhamos, digamos (risadas). Aí tocamos um blues (Medicine Blues) para ninar o 'neném' (risadas, em família). Mas ele foge e faz sua primeira vítima, na segunda faixa do disco(The first...). Aí vai. O disco é todo uma grande estória só, passando por temas que envolvem medicina, estupro, obesidade (diz aí, galera Oldschool!), até que termina com o Mr. Walker, estuprando sua última vítima, Pamela, num mix de estória real e fantasia. Essa Pamela se suicidou mesmo nos States e deixou uma carta numa cabine telefônica que é a oração do salmo 23, da Bíblia, mas de outra forma conhecida como "King Heroin" ou "King Heroin is my Shepherd", algo assim. Então na música ela é salva por Walker, que faz com que ela desista depois que ele dá nela uma 'carcada'!(muitas risadas, hahahahahahahhaaaaa...)




Mirror, my Mirror - feito por várias mãos amigas, inovador, poético, lírico, carismático, eclético na essência, político. A gente tinha envolvimento com o PC do B, o Paulinho mais. A gente bebia pra cacete também nessa época. O 'Mirror' foi feito em grande parte na madrugada. A gente ensaiava no DCE da UFMG, perto da Praça da Liberdade, perto da Savassi. E rolavam altos agitos por lá. Já viu, né? A gente morava no DCE. Tinha um palco do lado do quarto de ensaios! Palco que abrigou todas as bandas daqui em shows históricos! Sylvia Klein e Andréia Dário foram killers demais! A estória do espelho também é real, tenho a cicatriz ainda no punho. Dartherium renasce. Tem Hard Core, blues, gaita, thrash, pancadaria, muito mosh. Disquinho bom mesmo.


Blood on the Rocks - é um ataque a tudo, às políticas de guerra  dos EUA, às religiões, à política brasileira e mundial. Estávamos raivosos essa época, fortes. Zangados mesmo. A gente vivia nas ruas, nos bares. O 'Thrash' era mais forte que nunca em nós. Queríamos as palhetadas mais matadoras e os solos mais 'do mal' do planeta. Meu favorito.








Ode to Death - monstruoso, um thriller, mais técnico, mais pesado, letras mais elaboradas, tem como linha central o tema da morte. Falamos de todo tipo de morte, física, espiritual, psicológica, a morte de conceitos, ideias, atitudes, amizades, a morte da arte, da esperança, do convívio, da paz. Tem vários convidados que cantam, como  Ricardo Sarcinelli, da banda Poison God (Colatina, ES), Tchesco (Pathologic Noise), Celso Grassi, Aender, Mr. Korg (Chakal). Solos maravilhosos de Rogério Sena, que entrou pra banda como se sempre tivesse sido. Foi ótimo o reencontro dos velhinhos de cabelos brancos, meus irmãos.




Agradecemos pela entrevista. É uma honra ter em nossa página alguém que ajudou de forma tão expressiva a construir a cena de metal no Brasil.

Um comentário:

  1. Uma banda injustiçada na cena, mas que continua erguendo bravamente a bandeira do Metal Nacional! Vida longa a Velha Bruxa!

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