Muitos exageros — e exageros negativos, diga-se — é o que se lê por aí a respeito de In the Arms of Devastation. Que o Kataklysm perdeu parte da brutalidade com o passar dos anos, isso é inegável. Mas chegar ao ponto de afirmar que a banda tentou se aproximar do mainstream com seu sétimo álbum de estúdio é, no mínimo, demonstrar pouco entendimento do que é heavy metal. Já não é mais aquele death metal old school cru e impiedoso; há boas camadas de groove aqui e ali, melodias que flertam com o melodic death, mas ainda não — definitivamente não — neste álbum.
Após um período afastado, o baterista Max Duhamel estava de volta, mas tudo indica que o restante da banda puxou o freio de mão, impedindo que ele atingisse as velocidades de outrora. E faz sentido: blast beats desenfreados destoariam do instrumental mais cadenciado preparado pelo guitarrista Jean-François Dagenais e pelo baixista Stéphane Barbe. Curiosamente, a música mais arrastada do disco é justamente a que o encerra. “The Road to Devastation”, além de ser a mais longa — ultrapassando os sete minutos —, traz uma passagem atmosférica após os quatro minutos e ainda carrega algo relativamente raro no álbum: um solo de guitarra. Ok, todos nós gostamos de solos, mas aqui você não sentirá falta deles nas demais faixas.
A abertura com “Like Angels Weeping (The Dark)” apresenta uma energia inicial poderosa, embora em determinado momento escorregue para o groove. O riff principal caminha naquela linha tênue do death metal dos anos 90, mas o peso incorporado no riff secundário acaba afastando a música dessa referência. Ainda assim, o final guarda uma das passagens mais pesadas de todo o álbum. A bateria acelera em diversos momentos, e é justamente desse prato que a banda bebe para não receber de vez o rótulo de groove metal.
Os vocais de Maurizio Iacono seguem excelentes, alternando guturais e rasgados com a mesma competência de sempre — agressivos, raivosos e, na maior parte do tempo, perfeitamente compreensíveis. “Let Them Burn” é uma das faixas mais agressivas do trabalho, mesmo sem recorrer às velocidades extremas do passado.
Minha faixa preferida vem logo na sequência, e pode muito bem ser a sua também, desde que você não se incomode com andamentos mais cadenciados. “Crippled and Broken” escancara o quão pesados esses caras ainda conseguem soar. Após um refrão espetacular, denso como uma montanha, entra um acorde de guitarra solo sustentado por alguns segundos — e é em momentos assim que se percebe como, em certas bandas, solos podem ser suprimidos em favor de atmosferas e melodias sem que a obra perca impacto.
“To Reign Again” é outra pedrada: acelerada, agressiva e com vocais que te fazem urrar junto. O destaque aqui fica para uma passagem de baixo solo, fazendo você sentir os batimentos cardíacos borrifando sangue pelas veias.
A grande surpresa do álbum é a participação de Morgan Lander, vocalista da banda compatriota Kittie. Independentemente do viés mais new metal de sua banda, ela entrega uma performance gutural intensa, gritando a plenos pulmões e sem contrastar demais com Maurizio — em certos momentos, poderia até passar despercebida como sendo ele. Rob Doherty, do Into Eternity, falecido em 2012, também aparece na derradeira faixa "The Road To Devastation" com um gutural animal no refrão.
A capa, em tons de cinza, assinada por Anthony Clarkson, retrata um ser alado, meio humano, em um cenário devastado, refletindo bem o clima do álbum. Outra surpresa positiva é a produção, agora a cargo de Tue Madsen, substituindo Dagenais, que vinha produzindo os últimos trabalhos da banda.
Altamente recomendável.

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