Não sei ao certo se os suíços do Samael ainda deviam algum álbum à Century Media, já que o trabalho anterior havia saído pela Regain Records. O fato é que, em 2006, eles retornaram à antiga casa para lançar seu sétimo registro de estúdio — e de forma absolutamente inusitada. Um álbum duplo, no qual mais de 60% do conteúdo se concentra em faixas instrumentais.
Se Reign of Light já havia apresentado uma discreta melhora em relação ao que se esperava do Samael naquela fase, aqui eles simplesmente derrubam a taça com um belo safanão, espalhando pelo chão qualquer resquício de nostalgia ligada ao metal extremo que ajudaram a forjar. Confesso: se eu tivesse ouvido Era One vinte anos atrás, dificilmente teria passado da segunda faixa.
Hoje, porém, com a mente um pouco mais aberta — e atenção, não falo de “gosto expandido”, mas da capacidade de aceitar o que uma banda decide fazer, independentemente das expectativas alheias ou pessoais —, a percepção muda. Claro, ainda sou crítico, e talvez sempre serei. Mas há uma diferença enorme entre reconhecer um trabalho feito com cuidado e coerência, mesmo que orbitando a anos-luz do nosso universo metálico, e um disco de metal supostamente “puro”, porém vazio, sem criatividade e sem sangue nos olhos. Este último, invariavelmente, vai ouvir o que não gostaria.
A faixa-título “Era One” já causa impacto por ser totalmente instrumental e centrada em teclados que emulam um piano. A melodia é doce, etérea e inesperada — especialmente para quem, como eu, imaginava algo mais industrial logo de cara. O primeiro CD, único a conter músicas com vocais, traz em “Universal Soul” e “Sound of Galaxies” uma performance vocal de Vorph bastante distante do ideal, ainda que parcialmente compensada por letras interessantes. Felizmente, ele se solta mais nas faixas seguintes: “Night Ride”, “Diamond Drops” e, principalmente, “Voyage”, onde o resultado beira algo como um synth–gothic–pop — se é que essa expressão existe.
Instrumentalmente, o álbum abdica por completo de guitarras, baixo e bateria. Tudo é programado por Xy, e o metal é conscientemente deixado de lado em favor de uma música introspectiva, viajante e, em muitos momentos, melancólica. Ao ouvir “Above As Below”, a sensação é a de estar levemente entorpecido por alguma droga sintética, flutuando pelo espaço a milhões de quilômetros de qualquer outro ser humano.
O segundo disco, Lessons in Magic #1, é totalmente instrumental e cumpre um papel quase funcional: trilha sonora para pintar um quadro, ler um livro ou realizar qualquer atividade que não exija atenção plena na música. Ele atua como um relaxante, enquanto o heavy metal, na maioria das vezes, provoca o efeito oposto — uma descarga elétrica que impulsiona o movimento. Sinceramente, não fará muita diferença se um dia resolverem lançar um Lessons #2.
Ademais, aos que nos leem, um ótimo 2026!

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