sábado, 17 de janeiro de 2026

20 anos de In The Arms of Devastation do Kataklysm!!!


Muitos exageros — e exageros negativos, diga-se — é o que se lê por aí a respeito de In the Arms of Devastation. Que o Kataklysm perdeu parte da brutalidade com o passar dos anos, isso é inegável. Mas chegar ao ponto de afirmar que a banda tentou se aproximar do mainstream com seu sétimo álbum de estúdio é, no mínimo, demonstrar pouco entendimento do que é heavy metal. Já não é mais aquele death metal old school cru e impiedoso; há boas camadas de groove aqui e ali, melodias que flertam com o melodic death, mas ainda não — definitivamente não — neste álbum.

Após um período afastado, o baterista Max Duhamel estava de volta, mas tudo indica que o restante da banda puxou o freio de mão, impedindo que ele atingisse as velocidades de outrora. E faz sentido: blast beats desenfreados destoariam do instrumental mais cadenciado preparado pelo guitarrista Jean-François Dagenais e pelo baixista Stéphane Barbe. Curiosamente, a música mais arrastada do disco é justamente a que o encerra. “The Road to Devastation”, além de ser a mais longa — ultrapassando os sete minutos —, traz uma passagem atmosférica após os quatro minutos e ainda carrega algo relativamente raro no álbum: um solo de guitarra. Ok, todos nós gostamos de solos, mas aqui você não sentirá falta deles nas demais faixas.

A abertura com “Like Angels Weeping (The Dark)” apresenta uma energia inicial poderosa, embora em determinado momento escorregue para o groove. O riff principal caminha naquela linha tênue do death metal dos anos 90, mas o peso incorporado no riff secundário acaba afastando a música dessa referência. Ainda assim, o final guarda uma das passagens mais pesadas de todo o álbum. A bateria acelera em diversos momentos, e é justamente desse prato que a banda bebe para não receber de vez o rótulo de groove metal.

Os vocais de Maurizio Iacono seguem excelentes, alternando guturais e rasgados com a mesma competência de sempre — agressivos, raivosos e, na maior parte do tempo, perfeitamente compreensíveis. “Let Them Burn” é uma das faixas mais agressivas do trabalho, mesmo sem recorrer às velocidades extremas do passado.

Minha faixa preferida vem logo na sequência, e pode muito bem ser a sua também, desde que você não se incomode com andamentos mais cadenciados. “Crippled and Broken” escancara o quão pesados esses caras ainda conseguem soar. Após um refrão espetacular, denso como uma montanha, entra um acorde de guitarra solo sustentado por alguns segundos — e é em momentos assim que se percebe como, em certas bandas, solos podem ser suprimidos em favor de atmosferas e melodias sem que a obra perca impacto.

“To Reign Again” é outra pedrada: acelerada, agressiva e com vocais que te fazem urrar junto. O destaque aqui fica para uma passagem de baixo solo, fazendo você sentir os batimentos cardíacos borrifando sangue pelas veias.

A grande surpresa do álbum é a participação de Morgan Lander, vocalista da banda compatriota Kittie. Independentemente do viés mais new metal de sua banda, ela entrega uma performance gutural intensa, gritando a plenos pulmões e sem contrastar demais com Maurizio — em certos momentos, poderia até passar despercebida como sendo ele. Rob Doherty, do Into Eternity, falecido em 2012, também aparece na derradeira faixa "The Road To Devastation" com um gutural animal no refrão.

A capa, em tons de cinza, assinada por Anthony Clarkson, retrata um ser alado, meio humano, em um cenário devastado, refletindo bem o clima do álbum. Outra surpresa positiva é a produção, agora a cargo de Tue Madsen, substituindo Dagenais, que vinha produzindo os últimos trabalhos da banda.

Altamente recomendável.


 

sábado, 10 de janeiro de 2026

20 anos de Eclipse do Amorphis!!!


Às vezes a vida dá uma guinada repentina, daquelas que podem ser vistas a grande distância. E essa guinada tanto pode apontar para frente quanto para trás. No caso dos finlandeses do Amorphis, em “Eclipse” (2006), seu sétimo álbum de estúdio, ela foi claramente para frente — e com força. Aqui, a banda descarta por completo uma era inteira, como se tivesse entrado em um casulo e emergido com novas cores, novas asas e, sobretudo, um novo espírito.

Após um início arrebatador que conquistou boa parte do público do metal extremo e, mais adiante, uma fase quase descartável — daquelas que não deixam saudade alguma, como já ficou claro nos dois discos anteriores —, o Amorphis se reformula e apresenta ao mundo um dos grandes trabalhos de sua fase moderna: o espetacular “Eclipse”.

A mudança mais visível está no vocal. Sai Pasi Koskinen, entra Tomi Joutsen, e tudo indica que essa troca funcionou como um verdadeiro choque de energia para a banda inteira. O que nunca saberemos ao certo é se o grupo já planejava um disco mais pesado e coeso — o que teria motivado a saída de Pasi — ou se as composições já nasceram pensando na nova voz. Seja como for, Tomi acabou sendo a peça que faltava, a cereja no topo do bolo.

Se em álbuns como “Far From the Sun” é difícil apontar duas músicas realmente memoráveis, em “Eclipse” o desafio é justamente o oposto: encontrar uma faixa fraca beira o impossível. Logo na abertura, “Two Moons” surge com um órgão diferenciado e apresenta Joutsen como aquele jogador versátil que o técnico pode escalar em qualquer posição sem medo. Vocais limpos e agressivos se alternam com naturalidade, a levada é levemente acelerada e o final, após um belo solo, muda de direção, deixando clara a versatilidade que permeia todo o álbum.

“House of Sleep” revela um lado mais gótico, com instrumental menos pesado, passagens acústicas bem dosadas, teclados em destaque e um refrão que gruda facilmente. Já “Leaves Scar” começa de forma bela e serena, mas quando as guitarras entram com peso é impossível não lembrar dos acordes de “Alma Mater”, do Moonspell. Aqui, Joutsen solta pela primeira vez um gutural poderoso — e essa é uma das faixas mais marcantes do disco, com o único defeito de acabar rápido demais.

“Born From Fire” mantém o nível elevado, com melodias inspiradas das guitarras de Esa Holopainen e Tomi Koivusaari, enquanto os teclados de Santeri Kallio assumem papel fundamental na construção das músicas — nada de mero acompanhamento descartável. As faixas, em sua maioria com três ou quatro minutos, contribuem para a dinâmica do álbum: uma boa melodia termina e outra ainda melhor começa logo em seguida.

“Under a Soil and Black Stone” traz um momento mais contemplativo, com guitarras estelares e clima envolvente. “Perkele (The God of Fire)” despeja peso, melodias orientais e um refrão absurdamente grudento, tornando-se outro grande destaque. O disco segue sólido com “The Smoke”, a sensacional “Same Flesh”, “Brother Moon” e “Empty Opening”, encerrando sem perder força.

Para coroar o conjunto, a capa é belíssima, com tons de amarelo, marrom e laranja que se complementam e traduzem visualmente o renascimento artístico vivido pela banda. “Eclipse” não é apenas um retorno à boa forma: é a prova de que o Amorphis encontrou, enfim, um novo caminho — e acertou em cheio. 

 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

20 anos de Come Clarity do In Flames!!!

Se o personagem que segura um coração na capa de Come Clarity, do In Flames, não for o mesmo que executa um trabalho manual no planeta Terra em Roorback, do Sepultura (2003), eu não me chamo Raimundo. Tudo bem, porque não me chamo mesmo — mas o fato é que o responsável por ambas as artes é o americano Derek Hess, e é impossível olhar para uma sem imediatamente lembrar da outra, sobretudo pelos tons semelhantes e pela estética melancólica que as conecta.

Musicalmente, em relação ao antecessor Soundtrack to Your Escape (2004), o In Flames conseguiu incorporar aqui algo que faltava naquele álbum: alma. Sim, talvez você não curta essa fase mais metalcore ou com grooves evidentes da banda, mas a verdade é que, em Come Clarity, eles ao menos tiraram do coração (sem trocadilho… ou talvez com) aquilo que se propuseram a fazer.

Há faixas mais melódicas, como a própria música-título, bem distante da fase melodic death metal que consagrou o grupo. Por outro lado, surgem momentos mais agressivos, como a rápida “Scream”, que dialoga melhor com o passado, ainda que filtrado pela estética atual da banda em 2006. “Vacuum” já funciona como um meio-termo interessante, mesclando agressividade com vocais mais chorados.

O instrumental, vale destacar, não se rende completamente ao metalcore: não há aquela obsessão por riffs secos e minimalistas. As guitarras ainda trabalham com camadas e ambiências que remetem a um death metal mais progressivo, algo que sempre foi um diferencial do In Flames. Uma surpresa bastante agradável aparece em “Dead End”, com a participação de Lisa Miskovsky — cantora e compositora sueca — cuja entrada com vocais femininos adiciona sensibilidade e peso emocional à faixa.

Talvez o maior problema do álbum esteja na insistência em empurrar refrões goela abaixo. Não que refrões sejam um problema em si — o thrash metal, por exemplo, sempre viveu muito bem com eles —, mas aqui o In Flames força uma aproximação excessiva com o som americano (e não exatamente o melhor recorte dele), sem real necessidade. Se não fosse por isso, somado ao uso frequente de vocais limpos por Anders Fridén, talvez — e isso é apenas uma suposição — a banda pudesse ter reconquistado uma parcela maior dos fãs antigos com Come Clarity.

Se você aprecia essa fase da banda, este álbum certamente tem muito a oferecer. Se sua relação com o In Flames terminou em Clayman, talvez seja melhor permanecer por lá — ou, no máximo, ouvir “Our Infinite Struggle” antes de decidir se vale a pena se aprofundar neste capítulo da discografia.


 

domingo, 4 de janeiro de 2026

20 anos de Era One do Samael!!!


Não sei ao certo se os suíços do Samael ainda deviam algum álbum à Century Media, já que o trabalho anterior havia saído pela Regain Records. O fato é que, em 2006, eles retornaram à antiga casa para lançar seu sétimo registro de estúdio — e de forma absolutamente inusitada. Um álbum duplo, no qual mais de 60% do conteúdo se concentra em faixas instrumentais.

Se Reign of Light já havia apresentado uma discreta melhora em relação ao que se esperava do Samael naquela fase, aqui eles simplesmente derrubam a taça com um belo safanão, espalhando pelo chão qualquer resquício de nostalgia ligada ao metal extremo que ajudaram a forjar. Confesso: se eu tivesse ouvido Era One vinte anos atrás, dificilmente teria passado da segunda faixa.

Hoje, porém, com a mente um pouco mais aberta — e atenção, não falo de “gosto expandido”, mas da capacidade de aceitar o que uma banda decide fazer, independentemente das expectativas alheias ou pessoais —, a percepção muda. Claro, ainda sou crítico, e talvez sempre serei. Mas há uma diferença enorme entre reconhecer um trabalho feito com cuidado e coerência, mesmo que orbitando a anos-luz do nosso universo metálico, e um disco de metal supostamente “puro”, porém vazio, sem criatividade e sem sangue nos olhos. Este último, invariavelmente, vai ouvir o que não gostaria.

A faixa-título “Era One” já causa impacto por ser totalmente instrumental e centrada em teclados que emulam um piano. A melodia é doce, etérea e inesperada — especialmente para quem, como eu, imaginava algo mais industrial logo de cara. O primeiro CD, único a conter músicas com vocais, traz em “Universal Soul” e “Sound of Galaxies” uma performance vocal de Vorph bastante distante do ideal, ainda que parcialmente compensada por letras interessantes. Felizmente, ele se solta mais nas faixas seguintes: “Night Ride”, “Diamond Drops” e, principalmente, “Voyage”, onde o resultado beira algo como um synth–gothic–pop — se é que essa expressão existe.

Instrumentalmente, o álbum abdica por completo de guitarras, baixo e bateria. Tudo é programado por Xy, e o metal é conscientemente deixado de lado em favor de uma música introspectiva, viajante e, em muitos momentos, melancólica. Ao ouvir “Above As Below”, a sensação é a de estar levemente entorpecido por alguma droga sintética, flutuando pelo espaço a milhões de quilômetros de qualquer outro ser humano.

O segundo disco, Lessons in Magic #1, é totalmente instrumental e cumpre um papel quase funcional: trilha sonora para pintar um quadro, ler um livro ou realizar qualquer atividade que não exija atenção plena na música. Ele atua como um relaxante, enquanto o heavy metal, na maioria das vezes, provoca o efeito oposto — uma descarga elétrica que impulsiona o movimento. Sinceramente, não fará muita diferença se um dia resolverem lançar um Lessons #2.

Ademais, aos que nos leem, um ótimo 2026!