Vamos colocar da seguinte forma: você conhece uma história — muito boa, por sinal. Ela foi escrita ou contada há muitos anos, tipo O Senhor dos Anéis. Você leu os livros, viu os filmes no cinema enquanto mastigava pipoca a preço de ouro, e saiu satisfeito, quase pleno. Depois ainda discute com a molecada que diz conhecer a história mas nunca sequer assistiu ao primeiro filme. Aí, um belo dia, anunciam uma continuação, com um adjetivo pomposo no título: O Legado! E, claro, alguns atores principais não estão no elenco. A pulga já sobe no trapézio atrás da orelha. Mas a ansiedade te domina e lá vai você atrás.
Criatura, eu te digo: expectativa é uma das palavras mais decepcionantes já inventadas. Não crie expectativa de nada. Vá lá e confira. Deixe a surpresa te socar primeiro. O famoso “não” você já tem, então…
Essa filosofia vale muito para quem idolatra os Keepers lançados no fim dos anos 80 e quase teve um treco quando o Helloween, lá da Alemanha, anunciou em 2005 que viria uma espécie de continuação, formando uma trilogia. Muita gente certamente chorou lágrimas de sangue. Eu? Gosto, mas não ajoelho no altar dos Keepers — e, para ser honesto, só fui ouvir esse álbum de 2005 agora, vinte anos depois. Talvez por isso tudo soe um pouco diferente para mim.
De cara, estranhei: álbum duplo, 77 minutos. Massivo. Mas o início com “The King for a Thousand Years” me ganhou. Um épico de mais de 13 minutos, power metal clássico, muito bom gosto, dinâmica, respeito. “Pleasure Drone” também carrega uma energia interessante, power bem encaixado, e a voz de Andi Deris está no ponto, com direito a solo rápido que brilha.
“Mrs. God” tenta soar engraçada como nos velhos tempos, mas talvez o tema não ajude tanto. Ainda assim, tem uma linha de baixo solitária ali no meio que funciona, e o refrão é meio grudento — daqueles que ficam dois minutos, não mais. “Silent Rain”, mesmo sem pompa ou grandes invenções, fecha bem o primeiro CD.
No segundo disco, a abertura com “Occasion Avenue” já dá um up: alguém brincando com um rádio, alternando faixas antigas da banda. Boa sacada. A voz de Deris, o baixo de Grosskopf, os corais — tudo preparando o terreno. Quando os riffs entram, ainda que um pouco eletrônicos demais para mim, são pesados, e o conjunto entrega um dos grandes momentos do álbum.
“Light the Universe” vem como balada, com Candice Night (Rainbow) e seus teclados extras. Ganhou até videoclipe, com Candice cantando com Deris e, claro, chaves mágicas por todo lado. “Do You Know What You Are Fighting For” não compromete — pegada mais rocker, refrão agradável, guitarras bem encaixadas.
Outro destaque: “The Shade in the Shadow”, mesclando riffs cavalgados e momentos intimistas. Uma das que mais mostra personalidade.

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