domingo, 28 de dezembro de 2025

20 anos de Vredens Tid do Manegarm!!!

Com um troll reduzindo a escombros um grande templo cristão enquanto a população foge em desespero pelo descampado da floresta, somos recebidos ao quarto trabalho dos suecos do Månegarm, o portentoso “Vredens Tid”. A beleza da capa não surpreende — esses caras têm o hábito de tentar se superar a cada lançamento —, mas não é exagero dizer que esta figura entre as mais impactantes. Ao ouvir a faixa “Preludium”, uma simples ambientação sonora, é fácil visualizar a cena ilustrada por Kris Verwimp (Enthroned, Absu e tantos outros), como se a música soprasse vida à pintura.

Musicalmente, o Månegarm continua firme no Viking Metal temperado com doses precisas de folk, tudo envolto por aquela neblina gélida e sombria de black metal. Há momentos de pura agressão, como na excelente “Sigrblot”, corais grandiosos em “Dödens Strand”, e atmosferas épicas em andamento mais arrastado na poderosa “Kolöga Trolltand”. Os vocais rasgados de Erik Grawsiö seguem muito eficientes; quando assumem tons de grito de guerra, mantêm a qualidade acima da média, assemelhando-se a outros grandes vocalistas como Väänänen do Thyrfing.

E ainda não para por aí: os vocais femininos de Ymer retornam pontualmente e elevam o conjunto, com destaque para a breve “Svunna Minnen” — pouco mais de um minuto de voz angelical acompanhada por cello, criando um pequeno feitiço no meio do álbum. Outro ponto a favor é o fato de todas as letras serem cantadas em sueco, sem jamais soar estranho ou nos fazer desejar o inglês. O idioma encaixa-se como parte da armadura, do escudo, da mitologia.

O violino — presença constante e essencial — ganha holofote na performance do multi-instrumentista Janne Liljeqvist; vê-lo no clipe de Sigrblot chega a despertar lembranças dos antigos registros ao vivo do My Dying Bride, mesmo que as bandas sigam caminhos sonoros totalmente distintos. “Frekastein” surpreende ao combinar vocais limpos masculinos aos de Ymer — mais um coelho tirado da cartola pelos suecos.

Em suma: um álbum belíssimo, que na época já despontava no subterrâneo com cheiro de clássico e, duas décadas depois, confirma o que parecia inevitável — o Månegarm se tornou um dos nomes mais respeitados e influentes do Viking Metal mundial. Comemore a chegada de um novo ano ouvindo a música Segervisa e tomando hidromel. Hail!


 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

20 anos de Mission nº X do U.D.O.!!!


O baixinho de voz inconfundível, responsável por gravar uma enxurrada de clássicos no colossal Accept, chegava ao seu décimo trabalho solo em 2005 com “Mission No. X” — o “X” marcando em algarismos romanos a façanha e anunciando mais um capítulo de heavy metal na veia, para alegria dos fiéis seguidores.

A jornada começa com “The Embarkation”, uma instrumental que funciona como porteira para quem topa embarcar nessa nova missão. Logo na sequência, a faixa-título entra atestando o DNA do disco: heavy tradicional, sem firulas, com aquela voz rouca que a gente conhece de longe. Simples? É. Mas aquece os motores.

O fogo realmente pega com “24/7”, rápida, com um riff daqueles que grudam na alma e um refrão pronto pra arena. Já “Mean Streets” é facilmente descartável — pesa menos que prometia e mal dá para chamar de metal. Mas a redenção vem logo depois com “Primecrime On Primetime”, quase flertando com o power metal, e entregando um riff daqueles que dão gosto.

E então surge a surpresa do álbum: “Eye of the Eagle”. É difícil imaginar a voz áspera de Udo encaixando em uma balada inspiradora… mas aqui acontece. Refrão cheio de camadas vocais, letra com brilho e um solo de guitarra belíssimo, daqueles que levantam o astral.

O meio do álbum segue bem variado:
“Shell Shock Fever” – acelerada, direta, sem perder o foco.
“Stone Hard” – mais lenta, com efeitos estranhos de guitarra e um solo com cara de improviso, mas que funciona.
“Breaking Down the Borders” – um heavy destruidor, refrão fácil de cantar junto, pura energia.
“Cry Soldier Cry” – segunda balada, com teclados conduzindo a atmosfera.

A missão encerra com “Way of Life” e a energética “Mad For Crazy”, que garantem a aterrissagem em alta.

Acompanhando Udo nessa empreitada temos Igor Gianola e Stefan Kaufmann nas guitarras, Fitty Wienhold no baixo e o estreante Francesco Jovino na bateria — um time competente para manter o trem pesado nos trilhos.

Se você curte heavy tradicional, sem experimentalismos mirabolantes e com cheiro de estrada, vale revisitar essa obra que já comemora 20 anos de existência. Um ótimo lembrete de que Udo segue sendo patrimônio vivo do metal. 

 

20 anos de Keeper of the Seveth Keys - The Legacy do Helloween!!!


Vamos colocar da seguinte forma: você conhece uma história — muito boa, por sinal. Ela foi escrita ou contada há muitos anos, tipo O Senhor dos Anéis. Você leu os livros, viu os filmes no cinema enquanto mastigava pipoca a preço de ouro, e saiu satisfeito, quase pleno. Depois ainda discute com a molecada que diz conhecer a história mas nunca sequer assistiu ao primeiro filme. Aí, um belo dia, anunciam uma continuação, com um adjetivo pomposo no título: O Legado! E, claro, alguns atores principais não estão no elenco. A pulga já sobe no trapézio atrás da orelha. Mas a ansiedade te domina e lá vai você atrás.

Criatura, eu te digo: expectativa é uma das palavras mais decepcionantes já inventadas. Não crie expectativa de nada. Vá lá e confira. Deixe a surpresa te socar primeiro. O famoso “não” você já tem, então…

Essa filosofia vale muito para quem idolatra os Keepers lançados no fim dos anos 80 e quase teve um treco quando o Helloween, lá da Alemanha, anunciou em 2005 que viria uma espécie de continuação, formando uma trilogia. Muita gente certamente chorou lágrimas de sangue. Eu? Gosto, mas não ajoelho no altar dos Keepers — e, para ser honesto, só fui ouvir esse álbum de 2005 agora, vinte anos depois. Talvez por isso tudo soe um pouco diferente para mim.

De cara, estranhei: álbum duplo, 77 minutos. Massivo. Mas o início com “The King for a Thousand Years” me ganhou. Um épico de mais de 13 minutos, power metal clássico, muito bom gosto, dinâmica, respeito. “Pleasure Drone” também carrega uma energia interessante, power bem encaixado, e a voz de Andi Deris está no ponto, com direito a solo rápido que brilha.

“Mrs. God” tenta soar engraçada como nos velhos tempos, mas talvez o tema não ajude tanto. Ainda assim, tem uma linha de baixo solitária ali no meio que funciona, e o refrão é meio grudento — daqueles que ficam dois minutos, não mais. “Silent Rain”, mesmo sem pompa ou grandes invenções, fecha bem o primeiro CD.

No segundo disco, a abertura com “Occasion Avenue” já dá um up: alguém brincando com um rádio, alternando faixas antigas da banda. Boa sacada. A voz de Deris, o baixo de Grosskopf, os corais — tudo preparando o terreno. Quando os riffs entram, ainda que um pouco eletrônicos demais para mim, são pesados, e o conjunto entrega um dos grandes momentos do álbum.

“Light the Universe” vem como balada, com Candice Night (Rainbow) e seus teclados extras. Ganhou até videoclipe, com Candice cantando com Deris e, claro, chaves mágicas por todo lado. “Do You Know What You Are Fighting For” não compromete — pegada mais rocker, refrão agradável, guitarras bem encaixadas.

Outro destaque: “The Shade in the Shadow”, mesclando riffs cavalgados e momentos intimistas. Uma das que mais mostra personalidade.

No fim das contas, sem expectativa, o álbum desce melhor. Dá para degustar com calma. E, ouvindo mais vezes, a tendência é gostar um pouco mais. Mas se você já tomou um nocaute da ansiedade e odeia o terceiro Keeper, só posso lamentar. Aí o estrago já está feito — e nem a chave mágica te salva. 

 

20 anos de Black Wings of Destiny do Dragonlord!!!


Dragonlord, o projeto de black metal de Eric Peterson (guitarrista do Testament), surgiu em 2001 com o ótimo Rapture e retornaria em 2005 com seu segundo petardo, Black Wings of Destiny. Enquanto a banda principal vivia um hiato, prestes a se reformular e a voltar como uma das maiores do mundo (ainda tropeçando em regravações fracas), Peterson resolveu investir novamente neste desvio sombrio.

A troca do baixista poderia soar catastrófica: sai o monstro Steve DiGiorgio e entra Derrick Ramirez — o mesmo que gravou o controverso (e quase death metal) Demonic (1997) do Testament. Mas, ao contrário do que se imaginava, foi uma troca à altura: o baixo aqui está preciso e direcionado ao que a banda buscava, isto é, uma aproximação mais franca com o black metal europeu.

Os vocais de Peterson aparecem mais contidos que no debut, e em alguns momentos lembram Shagrath (Dimmu Borgir), enquanto a sonoridade se aproxima daquilo que o Dimmu fez em seu auge, no excepcional Enthroned Darkness Triumphant (1997). As guitarras deixam de ser protagonistas — já não soam como “uma banda thrash invadindo o black metal”; agora, o Dragonlord é uma banda de black metal.

Os teclados ganham a linha de frente, assumindo papéis antes reservados às cordas. Na maior parte do tempo, funcionam muito bem, criando atmosferas grandiosas; mas em “Until the End” parecem ter fugido de um videogame 16-bit e quase destroem a faixa. Ainda assim, o clima de corais sombrios e texturas sinfônicas — aquele que o Dimmu imprimia em Enthroned Darkness — está presente aqui com força.

A bateria de Jon Allen (Sadus/Testament) merece destaque: o cara detona com precisão absurda, sustentando a base enquanto Peterson e Steve Smyth debulham riffs. O tecladista Lyle Livingston também abraça por completo essa nova estética mais europeia, catapultando o som do Dragonlord para um patamar superior.

Outra novidade são alguns vocais limpos, inexistentes no primeiro álbum e responsáveis por dar um verniz melódico inesperado, especialmente perceptível em “Revelations” — mais uma faceta de Eric, e que funciona.

Para quem ainda não se aventurou por esta fase, comece por “The Curse of Woe”. Se essa faixa não te agradar, pode seguir para outro álbum. Mas eu duvido seriamente que isso vá acontecer.

O fechamento se dá com duas versões bem legais. "Black Funeral" dos mestres do Mercyful Fate e uma faceta melódica inesperada para "Emerald" do Thin Lizzy.


 

20 anos de New Life do Golgotha!!!


Existem mais de vinte bandas atendendo pela alcunha Golgotha ao redor do mundo, mas aqui falamos da Golgotha espanhola, aquela velha conhecida do doom metal, que em 2005 chegava ao seu terceiro full-length, New Life, lançado pelo obscuro selo Electric Chair Music — que talvez você nunca tenha ouvido falar e, por consequência, nunca tenha cruzado com este trabalho.

Quem conheceu o debute Melancholy (1995) ou Elemental Changes (1998), ambos pela Repulse, certamente vai estranhar essa nova fase, principalmente pela ausência da voz característica de Amon López. Entre os dois primeiros discos, a única alteração havia sido a saída do tecladista José Nuñez, substituído por Oscar Roig. No entanto, ao longo dos sete anos seguintes, até chegar em New Life, ocorreu uma debandada completa.

O único remanescente foi o guitarrista Vicente Payá, que assumiu também baixo, guitarra e teclados; nos vocais, entra Dave Rotten (sim, o mesmo do Avulsed desde 1991), enquanto a bateria ficou por conta do convidado Carlos Dominguez.

Musicalmente, ainda temos um death/doom arrastado, mas sem chegar perto do funeral doom. O que mais salta aos ouvidos são os vocais: agora, um gutural profundo domina o território, contrastando com o timbre estranho e único de Amon, que ajudava a diferenciar o Golgotha da multidão. Os teclados também mudam de função: antes, melodias de piano enriqueciam atmosferas; agora, as teclas apenas reforçam o peso dos riffs, tempestivas, quase como uma camada adicional de sujeira.

Com isso, a banda perde parte daquela aura singular que a separava do restante da cena e, para piorar, não apresenta grandes variações entre as composições. Ainda assim, é um disco agradável aos seres rastejantes do death/doom, que encontram aqui o conforto do breu familiar.

A faixa “Trapped in Two Worlds” ganhou videoclipe e pode ser conferida no YouTube, ótima porta de entrada para quem quiser se aprofundar nesta fase do Golgotha. Recomendado para fãs dos portugueses do Heavenwood (na fase mais gutural), do Crematory alemão em seus primórdios, ou algo próximo do Graveworm italiano.

Eu até acho essa fase interessante — o gutural sempre tem seu lugar —, mas confesso que sinto falta da peculiaridade da voz de Amon López. Era ali que residia boa parte da originalidade.


 

20 anos de Antes do Fim Depois do Fim do Dorsal Atlântica!!!


Já dissemos e repetiremos: regravar um álbum clássico é um enorme perigo. 

Além de muitas vezes a banda ser acusada de estar apenas pensando no lucro, sem criatividade para compor, na pior das hipóteses ela acaba matando um trabalho seminal. 

Pode até existir algo em torno deste lançamento, "Antes do Fim Depois do Fim" que fosse apenas para manter o nome da banda carioca na mídia, já que o último álbum de estúdio completava 9 anos, o ótimo "Straight" de 1996, e o próximo "2012" só seria lançado em 2012, ou seja, 16 anos entre álbuns inéditos, é uma verdadeira eternidade para fãs de longa data de uma das bandas precursoras do metal nacional. 

Mas "Antes do Fim", o clássico de 1986 que abriu as portas para a banda Dorsal, nunca havia saído em CD, um pecado para aqueles que viviam a era do disquinho prateado, e na época, foi lançado pela extinta Lunário Perpétuo Discos, assim como "Live!" do Vulcano, mas este já foi relançado ao longo dos anos por outros selos, enquanto nosso querido Carlos Lopes não chegou num acordo para que "Antes do Fim" fosse relançado. Mas não vamos entrar nesta polêmica. A banda matou o clássico de 86 com sua regravação de 2005? Não! 

A qualidade de gravação é melhor, mas não a ponto de tirar a vibração old school que envolve o petardo. E a maioria das músicas são bem fiéis ao original. Claro, a voz de Carlos não é a mesma, mas não fica devendo, pois continua com aquela pegada de outrora com a diferença de que as palavras são melhor entendidas agora. 

Em relação às músicas nem é preciso muita falácia, são clássicos atemporais do metal extremo, mais claramente o thrash metal. Quando se fala de clássico, em que tudo é sensacional, cada um tem sua música preferida e a minha é "Álcool". porque ela é rápida, a letra é metal demais e tem uma parte feita para o mosh. Mas certamente outras poderiam estar em primeiro, seja "Caçador da Noite" como uma das mais agressivas que a banda já escreveu, "Joseph Menguele" com riffs inspiradores e um corpo musical de deixar orgulhosas bandas como o Slayer, ou "Inveja" e "Morte aos Falsos", clássicos absolutos do nosso metal. 

Valeu a pena regravar este clássico? Com certeza! Muitos puderam conhecer algo que só quem tinha o LP poderia ouvir. Mas se o original fosse relançado em CD e os dois estivessem na prateleira, eu certamente pegaria o original.

 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

20 anos de Malevolent Rapture do Legion of the Damned!


Eu nem sei por quê, mas durante muitos anos achei que Sons of the Jackal fosse o primeiro álbum do Legion of the Damned. Talvez por tê-lo conhecido antes dos outros, e os demais na sequência, mas a verdade é que nunca dei a devida atenção a este disco — mesmo o vendo, vez ou outra, pipocar em lojas on-line por aí.

O fato é que a banda já existia muito antes disso. Fundada na Holanda, passou 15 anos atendendo pelo nome Occult, período em que lançou cinco álbuns completos. Em 2005, mudou de nome — algo que o Pantera deveria ter feito quando lançou Cowboys from Hell — e despejou esse petardo no mercado, via o pequeno selo Nexus, iniciando enfim a caminhada rumo ao reconhecimento que sempre mereceu.

Logo na faixa de abertura, que carrega o novo nome da banda, o que se ouve é um thrash metal violento, com death metal escorrendo pelos vocais. A bateria te acerta como um boxeador que encurralou nas cordas o sujeito que mexeu com a mulher errada — e só para quando a caveira vira pó.

É justo admitir que, ao ouvir o álbum inteiro, por volta da quarta música tudo começa a soar parecido. Aí entra a escolha: você prefere 40 minutos da mesma coisa bem feita ou 20 minutos excelentes seguidos de outros 20 absolutamente descartáveis? Aqui, a resposta é óbvia. Momentos para banguear, como aquele trecho matador no meio da faixa-título, surgem aos montes — e desses a gente simplesmente não se cansa.

O instrumental poderia muito bem ter saído de um Hell Awaits tocado em velocidade máxima, enquanto os vocais de Maurice Swinkels, apesar de rasgados, são perfeitamente compreensíveis. Ele não rosna: canta com a voz do próprio diabo.

“Demonfist” é aquela faixa que começa menos acelerada só para te enganar, mas logo abandona qualquer falsa trégua e retorna ao massacre que domina o disco inteiro. Na prática, ouvindo as três primeiras músicas — “Legion of the Damned”, “Death’s Head March” (que refrão ótimo) e “Werewolf Corpse”, absolutamente arrasadora — você já sabe exatamente o que vai encontrar até o final.

Ainda assim, o conselho é simples: não pare por aí. 

 

20 anos de Farsotstider do Thyrfing!!!


O quinto trabalho da banda sueca Thyrfing, Farsotstider — que significa “tempos de desgraça” — foi lançado em 2005 e, até hoje, o enxergo como o álbum mais distinto de sua discografia. Aqui, a banda se afasta daquele viking metal fortemente ancorado no black metal, com nuances de melodic death, para entregar algo mais denso e introspectivo.

A arte da capa já antecipa essa mudança de atmosfera: uma árvore imensa em uma paisagem desolada, dois enforcados pendendo de cada lado, tudo em tons de cinza e preto. Não causaria qualquer espanto se estivesse estampando um álbum de funeral doom.

A abertura, “Far at Helvete”, é pesada e de andamento médio, com guitarras distorcidas pouco preocupadas em soar cristalinas e vocais rasgados que flertam abertamente com o death metal. Curiosamente, não houve mudanças de formação em relação ao álbum anterior, Vansinnesvisor (2002), que pudessem justificar tamanha guinada sonora. Ainda assim, Farsotstider soa muito mais sólido e envolvente — como se a banda finalmente tivesse encontrado o ponto exato daquele molho que transforma uma simples macarronada em algo divino.

A faixa-título apresenta vocais limpos que funcionam mais como um chamado à batalha do que qualquer coisa melodramática — é melhor esclarecer antes que a imaginação vá longe demais. Os teclados de Peter Löf abandonam de vez qualquer clima festivo e, em alguns momentos, evocam a imponência fria de catedrais, como se um canto gregoriano estivesse prestes a emergir… mas não: os vikings já deram cabo de todos os sacerdotes daquele mosteiro.

“Höst” traz uma das performances mais intensas de Thomas Väänänen, alternando gritos desesperados enquanto o instrumental oscila entre passagens de peso extremo e trechos quase acústicos, com camadas de violões sobre as bases de guitarra. É, sem dúvida, a minha faixa favorita do álbum.

O encerramento fica por conta de “Tiden Läker Intent”, uma composição mais épica, onde momentos de calmaria duelam com explosões de agressividade, chegando a flertar, em certos trechos, com o que hoje se convencionou chamar de post-black metal.

E para quem se perguntou por que o Thyrfing optou por não estampar seu logo na capa — aquele mesmo formato visto em álbuns como Urkraft — a resposta está ali o tempo todo: observe com atenção os galhos da árvore e você o encontrará.


 

domingo, 14 de dezembro de 2025

20 anos de Four More Years of Terror do Master!!!

A gente já sabe que o Master, dos Estados Unidos, nunca foi exatamente reconhecido por suas capas de álbuns, mas em Four More Years of Terror talvez a banda tenha se superado — uma colegial com a frase “mais 4 anos de terror” escrita no quadro negro. Nem o Twisted Sister provavelmente aprovaria essa escolha.

Com a mesma formação que gravou o competente The Spirit of the West no ano anterior — Zdenek Pradlovsky na bateria, Alex '93' Nejezchleba na guitarra e o líder Paul Speckmann no baixo e vocal —, o Master não perdeu tempo e lançou seu oitavo álbum. Embora não tenha superado o antecessor, o álbum mantém o legado da banda firme e forte.

Se você gosta de um som pesado, gordo e imundo, não vai se decepcionar com "Does One Feel Pain", onde o baixo se destaca e ganha a atenção merecida. Para os fãs de death metal tradicional, a abertura com "Race to Extinction" vai te pegar de jeito, com uma pegada rápida, guitarras sujas e vocais agressivos. Outra faixa que representa bem a escola do death metal old school é a curta e veloz "Betrayal", com bateria cavalgada e um solo simples, mas perfeitamente encaixado.

E como não poderia faltar, há solos por todos os lados — uma característica bem presente no som do Master. Mas se você busca algo mais elaborado, embora com a mesma pegada underground, dê ouvidos a "Lined Up and Punished", que apresenta, em certo momento, uma guitarra mais heavy metal, ainda que sem perder a crueza característica da banda.

“Blind Hatred” é outro destaque, com um riff pesado e batidas alternadas que mais parecem um rolo compressor, carregando o título do álbum no refrão. A letra da música é ambígua, deixando uma dúvida sobre ser uma crítica ou defesa do povo americano, especialmente considerando que 2005 — ano de lançamento deste álbum — marcava quatro anos dos ataques terroristas às Torres Gêmeas e ao Pentágono.

"Line to Kill" traz a mesma fórmula de solos e uma pegada mais clássica de thrash metal, provando que Speckmann e sua trupe poderiam mostrar dentes mais claros sempre que quisessem.

Mais uma obra de peso do Master, um dos maiores ícones do death metal americano, que segue firme na sua fórmula — sem grandes inovações, mas com a mesma força de sempre.

20 anos de Nocturnal Beast do Lord Belial!!!



O baterista Micke Backelin retorna à formação do Lord Belial, após um hiato durante as gravações de The Seal of Belial no ano anterior, quando a banda tomou um rumo mais arrastado dentro do metal negro. Agora a trinca de Backelin, Anders (baixo), Micke (bateria) e Thomas (guitarra e vocal), ao lado do guitarrista Hjalmar Nielsen — que se juntou em 2004 —, o Lord Belial entrega o seu sexto álbum, Nocturnal Beast.

O álbum segue a mesma linha de seu antecessor, mantendo o black metal arrastado, recheado de melodias mórbidas, tristes e belas, além de um vocal rasgado e soturno. As influências do death melódico são evidentes, mas de forma que não torna a música enfadonha. O baixo se destaca tanto quanto as guitarras, o que é uma característica rara no som extremo, mas que adiciona uma densidade única à sonoridade do álbum.

Músicas mais épicas, como “Monarchy of Death”, são pontuadas por solos de guitarra interessantes e alguns blast beats, enquanto a atmosfera traz ecos da banda Dissection, uma clara referência. Se você é fã de Jon Nödtveidt, sem dúvida encontrará algo que vai agradar neste trabalho. E não posso deixar de mencionar que "Nocturnal Beast" também vai agradar aos fãs de At the Heart of Winter, do Immortal.

Logo no início, em “Invocation of the 68th Demon”, sons bizarros tentam testar sua resistência. Porém, posso adiantar que são apenas detalhes passageiros. Mergulhe de cabeça nessa jornada sombria do Lord Belial e, se for da sua índole, cubra as entradas com sal grosso para evitar visitas indesejadas.

A arte da capa não é das mais chamativas, mas, para os fãs do underground, ela é completamente adequada. Embora não seja um álbum amplamente discutido nos círculos do metal negro, 20 anos depois de seu lançamento, é uma verdadeira joia escondida, digna de uma audição atenta. O Metal e Loucuras recomenda.


 

sábado, 13 de dezembro de 2025

20 anos de Schizo Deluxe do Annihilator!!!

Você considera o Annihilator uma banda ou, na prática, um projeto pessoal do guitarrista Jeff Waters? A questão é válida, sobretudo quando olhamos para o Annihilator de 2005, já em seu 11º álbum de estúdio, que pouco ou nada lembrava aquela entidade surgida em 1989 com Alice in Hell, praticando um “speed thrash quase heavy” impulsionado pelos vocais quase agudos do saudoso Randy Rampage.

Com Schizo Deluxe, a banda adicionou doses generosas de groove ao seu thrash técnico e entregou um álbum que jamais se tornaria um clássico, mas que aprendi a apreciar profundamente — principalmente por soar autêntico e honesto, feito por gente com metal correndo nas veias, sem ambições maiores do que aquilo que realmente podia oferecer. Nada de poses, nada de fórmulas: apenas música direta, consciente de si mesma.

A arte da capa, assinada por Gyula Havancsák — o mesmo responsável pela de All for You — acerta novamente. O desenho é forte, o jogo de cores é inteligente e dialoga perfeitamente com o título do álbum, que evoca a esquizofrenia ao retratar demônios dilacerando um cérebro por dentro, enquanto mãos em desespero tentam se esconder do colapso iminente.

É difícil eleger destaques em um álbum que funciona melhor quando ouvido de forma integral. Ainda assim, algumas faixas merecem menção, sem que isso diminua as demais. A abertura de “Plasma Zombies” remete imediatamente ao Machine Head da era Burn My Eyes, embora essa semelhança se limite à melodia inicial. A música, na verdade, explode em várias direções e chega a trazer uma passagem que soaria perfeita se tivessem convidado o mestre King Diamond para uma participação especial. No restante, é pura agressividade.

Pequenos efeitos sonoros — barulhinhos que lembram videogames — surgem aqui e ali. O álbum inteiro flerta com esse tipo de sonoplastia, presente em introduções e encerramentos de várias faixas, mas sem jamais se tornar cansativo ou gratuito. Pelo contrário, ajuda a criar identidade. “Invite It” é outro momento notável: seu refrão soa estranho no primeiro contato, mas faz todo sentido quando você percebe que a letra trata de vozes ecoando dentro de uma mente fragmentada. É rápida, traz uma mudança vocal extremamente criativa e solos de guitarra simplesmente belíssimos.

Aliás, meu amigo, os solos espalhados por Schizo Deluxe são um capítulo à parte. Jeff Waters parece determinado a lembrar, faixa após faixa, por que é considerado um dos guitarristas mais subestimados do thrash metal. Muitas músicas trazem dois ou até três solos, um verdadeiro tapa na cara de certos defensores de St. Anger.

Outra faixa que gruda facilmente na memória é “Like Father, Like Gun”, com seu refrão poderoso e um baixo direto, na cara, cumprindo papel fundamental no impacto da música. David Padden, em seu segundo trabalho como vocalista da banda, apresenta uma evolução gigantesca. As tentativas frustradas de uma abordagem mais melódica ficaram para trás; aqui ouvimos um Padden seguro, consciente e explorando diferentes “gramaturas” em seu vocal agressivo. Ele inclusive assina a letra de “Pride”, algo geralmente reservado ao mentor Waters.

Não posso deixar de mencionar “Warbird”, talvez uma das minhas favoritas do álbum, embora eu insista: Schizo Deluxe é daqueles artefatos que pedem audição do início ao fim. Não há espaço para baladas. O mais próximo disso seria “Clare”, uma faixa com leve apelo comercial, mas que compensa com um refrão perfeito, uma letra angustiante — citando até Alice, sim — e uma passagem central de puro peso e fúria.

Se você ainda não conhece este álbum, é provável que estranhe nos primeiros contatos. Mas, com o tempo, a ficha cai: este foi, sem dúvida, um dos momentos mais sólidos e inspirados da trajetória do Annihilator.


 

20 anos de Stormbläst MMV do Dimmu Borgir!!!


 Hail, criaturas noturnas. Posso afirmar sem culpa que amo o Dimmu Borgir da Noruega, mas não necessariamente seus dois primeiros álbuns, quando a banda ainda praticava um black metal simples, mais sinistro do que furioso. Portanto, uma releitura de seu segundo registro não causa em mim o mesmo efeito que provoca nos fãs que idolatram o original — efeito este que, para muitos, costuma pender tanto para o bem quanto, na maioria das vezes, para o mal.

Em minha visão, ele se encontra no mesmo patamar do original, não pela questão sonora, mas por gosto pessoal. Ambos pouco acrescentam à discografia da banda, e eu certamente não choraria por três dias caso deixassem de existir. Ainda assim, analisando friamente esta regravação de 2005 — quando apenas Shagrath e Silenoz levam os créditos principais, mesmo com Mustis figurando discretamente como responsável pelos teclados — temos um álbum decente de black metal moderno. Não fossem pérolas como Death Cult Armageddon e, especialmente, Puritanical Euphoric Misanthropia, talvez este trabalho conseguisse algum destaque maior.

O problema talvez resida justamente na simplicidade. Acostumamo-nos a um Dimmu Borgir extremamente técnico, repleto de arranjos complexos, mudanças constantes de andamento, orquestrações grandiosas e uma raiva ao mesmo tempo original e irônica — adjetivos raramente encontrados em Stormbläst. A gravação, por outro lado, é muito boa, o que joga a favor, sobretudo se comparada ao som abafado do original. Houve também uma releitura quase completa das partes de teclado. Momentos mais acústicos, como a bela passagem de “Når Sjelen Hentes Til Helvete”, ganharam um clima mais harmônico, agradando quem aprecia linhas melódicas bem delineadas.

Duas faixas são inéditas, e a que encerra o álbum, “Avmaktslave”, é uma grata surpresa. Seu início traz o som de crianças brincando e, quando os instrumentos surgem, há um coral quase inaudível que antecede uma estrutura marcada por um riff muito competente. O mérito está em terem criado uma música com a cara do álbum original; do contrário, soaria completamente fora da curva, considerando a evolução musical que a banda adquiriu ao longo dos anos.

Algumas polêmicas cercam o Stormbläst original. A principal envolve o tecladista Stian Aarstad, que em “Sorgens Kammer” utilizou melodias retiradas de um jogo de computador, mantendo o fato em segredo. Por isso, na versão de 2005, a faixa foi substituída por uma composição inédita, “Sorgens Kammer – del II”. Já a abertura de “Alt Lys Er Svunnet Hen”, plagiada de uma banda inglesa de hard rock chamada Magnum, foi simplesmente suprimida na regravação.

Stormbläst MMV não é um patinho feio dentro da discografia do Dimmu Borgir, mas acabou surgindo em um momento de plena grandeza da banda — e apareceu sem coroa, sem trono e sem o peso real que seus próximos carregariam.


 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

20 anos de La Muerte do Gorefest!!!


Após se aventurar pelo "Death 'n Roll" e uma pausa na carreira, finalmente a banda holandesa voltava a atacar com um álbum mais digno de sua história como um dos pilares do Death Metal Old School europeu. A arte da capa já captura aquela aura da fase "False", com retalhos de desenhos característicos do estilo, e o som soa renovado, mas com pés fincados no passado, e agradam não somente antigos fãs do Gorefest, como também de bandas como o Entombed da Suécia. 

Meclando partes mais lentas a outras mais rápidas, a música "When The Dead Walk The Earth" exemplifica bem o álbum. Como complemento traz um bom solo de guitarra e o típico vocal rouco de Jan-Chris De Koeijer. Já "You Could Make Me Kill" segue numa aura até mais séria, mas ainda mais arrastada, porém com ódio calculado. Destaque para os solos de guitarras, em momentos que todo o instrumental desaparece para deixar apenas as guitarras chorarem, um efeito que ficou bastante interessante. Ponto para os guitarristas Frank Harthoorn e Boudewijn Bonebakker. 

E assim segue o petardo emendando músicas de bom gosto como "Malicious Intent" com bastante peso, e outras mais estranhas, como a doom "Rogue State", que não funciona muito bem quando coloca vozes distorcidas no refrão, apesar de um belo duelo de guitarras no meio, enquanto o final vai do doom a agressividade forçada.

Porém o álbum tem mais acertos que erros, e soa como uma banda madura, que entendeu que não precisava mais provar nada para ninguém, apenas voltar a ser fiel ao próprio veneno.

O álbum não é perfeito — e nem precisa ser. Em certos momentos, a banda parece ainda tatear o próprio caminho depois da fase mais “rock’n’roll”, mas o saldo é amplamente positivo. Há identidade, há personalidade, e principalmente, há aquela sensação de sujeira honesta que fez o nome do Gorefest ecoar nos anos 90.

No fim das contas, este trabalho representa não só uma retomada, mas uma reconciliação com o próprio passado. Não é um “clone” da fase clássica, mas um aperto de mão respeitoso entre o que a banda foi e aquilo que decidiu voltar a ser. Uma volta digna, suja e pesada — exatamente como deveria ser.


 

20 anos de Attera Totus Sanctus do Dark Funeral!!!


Com um dos demônios mais grotescos já estampados em capas de álbuns, os suecos do Dark Funeral chegavam ao seu quarto full-length com “Attera Totus Sanctus” — “Destrua Tudo o Que é Sagrado”, em um latim tão profano quanto funcional. Logo de cara, “King Antichrist” beira a velocidade da luz, com Matte Modin (hoje em Defleshed e Firespawn) executando blasts de forma quase sobre-humana. É black metal ríspido, sem concessões, e com uma fúria que parece querer atravessar as caixas de som.

Em “666 Voices Inside”, a banda reduz levemente a marcha — algo mais “humano”, se é que essa palavra faz algum sentido quando falamos de Dark Funeral — e isso torna a faixa curiosamente mais assimilável, ainda que jamais amigável. Já na música-título, a banda encontra um dos pontos mais sólidos do álbum: uma construção que começa quase contida e rapidamente se transforma numa tempestade de riffs e bateria em estado terminal de violência.

O que difere este álbum de seu anterior, "Diabolis Interium" é a capacidade da banda em criar um diferencial para que as músicas não se confundam num mar de caos sinfônico único. Ouça "Godhate" com alguns breakdowns bem colocados, é assim que o Dark Funeral dá personalidade a passagens que te farão distinguir cada composição, mesmo que no fim, trate-se de um álbum bem homogêneo.

“Atrum Regina” surge como um dos momentos mais arrastados e, talvez, mais expressivos do disco. Já Emperor Magus Caligula mantém seu padrão vocal: gritos venenosos, sempre à beira do gutural absoluto, aprofundando ainda mais quando o andamento desacelera. Lord Ahriman e Chaq Mol descarregam riffs sobrenaturais do início ao fim, sem espaço para melodias “bonitas” ou qualquer concessão emocional — apenas música antissocial, profana e agressiva por natureza.

O raro momento de quase “beleza” aparece no trecho final de “Feed on the Mortals”, uma passagem menos inquisidora, menos histérica, que soa quase como uma trégua em meio ao massacre. Curta, mas suficiente para mostrar que, mesmo dentro de um caos cuidadosamente controlado, o Dark Funeral ainda sabia onde e quando apertar cada lâmina.


 

20 anos de Hellfire do 1349!!!


Demorou apenas 1 ano para 1349, o ano da peste negra, regressar do inferno com seu terceiro opus, intitulado "Hellfire". Com a mesma formação que gravou "Beyond The Apocalypse" em 2004 e sob custódia da mesma gravadora, a "Candlelight", os noruegueses ganhavam notoriedade no underground e chegavam àquele que é considerado sua obra máxima. Aqui você passará bem longe de qualquer melodia. Tudo é direto, seco e avassalador. Frost, o baterista forjado em outros nomes famosos, como Gorgoroth e Satyricon, desce o braço em BPMs fora do normal de um ser humano. Poucos momentos trazem aquele black metal mais frio como no início de "From the Deeps", pois mais de 90% deste álbum possui aquele veia quase punk de corrosão sonora, que não te deixa respirar. Ironicamente, minha faixa preferida se chama "Sculptor of Flesh", uma música com mudanças sensíveis de riffs, com uma forma ainda mais primitiva e ultrapassada de ser, que em seus primeiros momentos me remetem imediatamente à fase INRI do Sarcófago.  Os vocais rasgados de Ravn alternam em determinados momentos para algo mais gritado, um upgrade interessante em relação ao álbum anterior. O petardo fecha com sua música mais longa, a faixa "Hellfire" que batiza o petardo, com seus quase 14 minutos de caos e desolação, onde você tem a única oportunidade de ouvir um pouco de teclados, logo no início, quando o som de fogo queimando vai sumindo enquanto guitarras carregadas de distorção surgem numa avalanche de negritude e corrosão espiritual. Indicado apenas para as mentes doentias.

 

20 anos de Vermin do Old Man's Child!!!


O Old Man’s Child, cria infernal do guitarrista Galder, chegava ao seu sexto artefato em 2005, batizado de “Vermin”. A capa aposta mais nos tons do que na imagem em si, que me soa excessivamente computadorizada, mas já indica o clima mais soturno do registro. Mesmo sendo um álbum essencialmente de black metal, ele carrega nuances de dark metal que o afastam um pouco da agressividade pura — o que não significa, em hipótese alguma, que estejamos falando de algo “feliz”.

Os riffs de guitarra são bons, mas acabam sufocados pelos teclados. E não é exatamente uma questão de volume: é como um casal que aparenta harmonia em público, mas onde, nos bastidores, um lado lentamente silencia o outro. As guitarras estão lá, fazem seu papel, mas perdem protagonismo em momentos que poderiam ser mais cortantes.

Na bateria temos Reno Kiilerich, que já passou por palcos com nomes como Dimmu Borgir e Dew-Scented. Ele entrega um trabalho sólido, mesmo substituindo nomes mais pesados que já haviam passado pelo Old Man’s Child nos discos anteriores. Um dos grandes momentos do álbum é a participação de Eric Peterson, do Testament, no solo de “In Torment’s Orbit”. Dá pra sentir a diferença na pegada assim que o solo entra: há uma veia mais thrash nos riffs e uma agressividade mais direta que levanta a faixa de forma especial.

A atmosfera de “Vermin” orbita bastante em territórios que lembram o Dimmu Borgir e, se forçar um pouco a comparação, até os gregos do Septic Flesh vêm à mente, especialmente em “War of Fidelity”, quando Galder aprofunda sua voz em algo mais gutural. No geral, este não é um álbum regido pelo ódio direto. Ele soa mais clássico, mais melódico, por vezes até melancólico.

A selvageria dos primeiros tempos cede lugar a uma abordagem mais atmosférica, quase progressiva, mas sem cruzar de fato essa linha. Sabendo que Galder deixou o Dimmu Borgir e retomou o Old Man’s Child, não me surpreenderia se o próximo passo da banda mergulhasse ainda mais em dedilhados e, quem sabe, até vocais limpos. Seria ousado — e, se feito com as pessoas certas, poderia se transformar num retorno realmente triunfante. Agora, resta esperar.


 

20 anos de Shovel Headed Kill Machine do Exodus!!!


Quando o Exodus lançou seu primeiro álbum após longos 12 anos de hiato, o excelente Tempo of the Damned (2004), tudo parecia finalmente entrar nos eixos para a banda capitaneada pelo guitarrista Gary Holt. Turnês começaram a ser agendadas, os thrashers voltaram a salivar por riffs afiados… até que Steve “Zetro” Souza pisou feio na bola e simplesmente não embarcou com a banda para os shows no México. Até hoje os motivos nunca ficaram totalmente claros. Pior: ingressos já estavam sendo vendidos no Brasil na época, o que fez muita gente decretar ódio eterno ao vocalista.

Mas o Exodus fez o que sempre soube fazer: resolveu a crise na base da agressão. Entraram em cena o excelente Rob Dukes nos vocais, o guitarrista ucraniano Lee Altus e, na bateria, ninguém menos que Paul Bostaph – mais conhecido pelo Slayer, mas que na época estava no (também gigante) Testament. Com apenas Gary Holt e o baixista Jack Gibson remanescentes da formação anterior, a banda soltou em 2005 o insano Shovel Headed Kill Machine.

O resultado? Uma cacetada seca, direta e sem misericórdia.

Colocando esse álbum e Tempo of the Damned lado a lado, até hoje tenho dificuldade em dizer qual é o melhor. A capa já entrega a proposta: uma máquina híbrida de tanque com retroescavadeira esmagando um tapete de crânios. É exatamente essa imagem que você “vê” enquanto ouve o disco. Violência sonora pura.

Seja nos momentos mais acelerados, como a abertura brutal com “Raze” ou na minha favorita, a absurdamente poderosa “I Am Abomination”, seja nas faixas mais longas e cadenciadas como “Deathamphetamine” e “Altered Boy”, o álbum despeja peso, riffs inquietantes, solos técnicos e uma energia quase física, além de um vocalista que parece ter nascido para comandar a linha de frente do Exodus. Seu vocal é tão rasgado quanto o de Zetro ou do lendário Paul Baloff, mas com um timbre mais gutural, mais áspero, que exala raiva real. Não é só canto, é agressão sonora. Quem já viu o Exodus ao vivo com esse brutamontes no palco sabe: ele não canta, ele comanda batalhas — mosh pits e walls of death viram parte do ritual, tornando o espetáculo impiedoso e gratificante. E ele ainda surpreende nos detalhes. Feche os olhos durante o refrão de “.44 Magnum Opus” e fica impossível não enxergar Tom Araya com o microfone erguido.

Não são muitas as bandas capazes de lançar dois álbuns tão fortes em um intervalo de apenas um ano, ainda mais com formações quase completamente diferentes. Mas o Exodus conseguiu. E conseguiu com sobra.


 

sábado, 6 de dezembro de 2025

20 anos de Dark Ages do Solfly!!!

 


É curioso revisitar Dark Ages hoje, duas décadas depois, e perceber como o Soulfly de 2005 parecia perdido entre a ânsia de soar brutal e a vontade quase infantil de experimentar tudo ao mesmo tempo. Nunca foi uma das bandas que guardei com carinho na estante mental — e ainda acho que Max sempre funcionou melhor quando menos tentava provar algo — mas Dark Ages tem seu valor, mesmo tropeçando no próprio excesso.

O problema é que, para um álbum que vende a ideia de volta às raízes, existe aqui uma quantidade absurda de passagens alongadas, momentos contemplativos que mais parecem enfeites colados de última hora. Em vez de funcionarem como respiro, acabam quebrando o ritmo e tirando a força da proposta direta que o disco tenta sustentar. É como se, a cada vez que o álbum engrena, alguém puxasse o freio de mão para encaixar uma ambientação “viajante” que não conversa com o restante.

Ainda assim, quando Dark Ages acerta, acerta com força. Os riffs secos e desgrenhados, a percussão tribal que Max não consegue abandonar (e nem deveria), aquela sujeira meio controlada que lembra a fase mais nervosa do Sepultura pós-Chaos A.D. — tudo isso aparece em vários momentos e mostra que o Soulfly sabia onde queria chegar, mesmo que tenha se distraído no caminho.

A produção é áspera, quase propositalmente feia, como se quisessem reforçar um clima de mundo pós-apocalíptico. E funciona, em certa medida. As letras, por sua vez, continuam naquele ciclo de indignação e espiritualidade torta que Max tanto gosta, mas sem grandes lampejos. É honesto, mas pouco memorável.

O que fica, no fim, é a sensação de um álbum irregular, cheio de energia, mas também recheado de escolhas que estendem demais o que deveria ser curto e direto. Dark Ages não é um desastre — longe disso — mas também não é um disco que envelhece com a imponência que talvez Max imaginasse. Para mim, resta no território do “ok”: dá para ouvir, dá para reconhecer alguns méritos, mas não é aquele tipo de obra que faz falta quando acaba.

Talvez Dark Ages seja isso mesmo: um registro de transição, de inquietação e de tentativas que não se encaixam totalmente. E, olhando de 2025 para 2005, acho que faz mais sentido agora do que fazia na época — mesmo sem ter se tornado um álbum indispensável.


20 anos de De Volta ao Front do Holocausto!!!


Acho que eu realmente não estava preparado para um retorno do Holocausto. É essa a sensação que tenho hoje ao revisitar seu quinto álbum, “De Volta ao Front” (2005). Para ser honesto, o único trabalho da banda que conheço a fundo — e que sempre admirei — é o debut “Campo de Extermínio”, e toda a guinada de estilo posterior nunca desceu muito bem pra mim. Mas, ouvindo este petardo duas décadas depois, percebo nuances que na época simplesmente deixei escapar.

O disco tem ecos fortes de Ratos de Porão e Brujeria, algo muito distante daquele início death metal em que o Holocausto duelava em brutalidade com conterrâneos como o Sarcófago — que eu amava, amo e continuarei amando. Só que justamente essa aproximação maior com o hardcore e o crossover acabou tornando o álbum bem mais interessante aos meus ouvidos hoje do que foi no lançamento.

Um acerto absoluto aqui é o uso predominante das letras em português. Mesmo com algumas inserções em inglês, a língua nativa deu uma cara muito mais autêntica ao som: direta, agressiva e condizente com o clima de guerra urbana que o Holocausto sempre carregou.

Musicalmente, poucos momentos remetem ao passado mais death metal, mas eles existem — como em “Imagens da Violência”, cujos riffs parecem arrancados do velho “Campo de Extermínio”, especialmente da faixa “Scória”. O jeito descompromissado de cantar, com rosnados e rasgados divididos entre Valério Exterminator, Anderson Guerrilheiro e Rodrigo Führer, remete justamente à estética caótica do Brujeria: três vozes, três níveis de fúria.

A produção é tosca — como deveria ser — e a completa ausência de melodias reforça essa intenção de soar cru, sujo e com a farda rasgada. Uma das faixas mais curiosas é “Warfare Noise”, homenagem direta à coletânea que lançou o Holocausto no cenário. A música ainda conta com participações de Sílvio Bibica (Mutilator) e Vladimir Korg (Chakal), ambos também presentes no lendário volume original. Não duvido nada que tenham tentado convocar Wagner Lamounier para fechar o pacote.

Com o álbum completando 20 anos, talvez seja a hora da Cogumelo relançá-lo. Daria uma chance para gente como eu — que na época não soube apreciar este capítulo novo, torto e esfrangalhado da lenda chamada Holocausto.